sábado, 5 de setembro de 2009

Esperanza

Conheci a cantora, compositora e contrabaixista Esperanza Spalding quando vi o Milton Nascimento elogiando-a na TV por ocasião do TIM Festival do ano passado, mas só nesta semana fui ouvir o último álbum dela, lançado em maio do ano passado. Não sei como pude passar tanto tempo sem ouvir a preciosidade que é essa musicista.

Das últimas artistas do jazz que surgiram nos últimos anos, ela é, sem sombra de dúvida, a mais talentosa na minha humilde opinião. Entrei em contato com o jazz tardiamente quando comparado com outros estilos musicais. O meu professor de bateria[1], na época, introduziu-me ao Fusion[2] e, por conseqüência, ao jazz. Com a coleção que comprei da Folha de São Paulo [3]— que tem o costume de lançar excelentes coleções —, conheci um pouco mais sobre o gênero, mas admito que não conheço tão bem quanto outros gêneros.

Acredito, contudo, que a desenvoltura com que a Esperanza consegue tocar e cantar deve confirmar minha afirmação de que ela é a mais talentosa da nova geração do jazz. Até porque ela compõe muito bem também, o que é um diferencial. O referido álbum, de 12 músicas, possui 9 de sua autoria. O cosmopolitismo do álbum é outro fato que me atraiu bastante, dado o fato dela cantar na sua língua materna — Inglês —, em Espanhol e em Português. A pronúncia dela é muito boa. Ela canta duas músicas em Português no álbum. Colocarei "Samba em prelúdio" de Vinicius e Baden porque é a que a pronúncia dela fica mais evidente.

Não vou falar sobre a biografia prodigiosa dela: uma consulta a um Google da vida fornecerá todas as façanhas dela, como, por exemplo, ser a professora mais jovem da prestigiosa escola de música Berklee[4]. É evidente, no álbum, a influência que a Música Brasileira tem sobre ela. Na minha, mais uma vez humilde, opinião, a nossa música é a melhor em do mundo em todos os sentidos e não faço isso porque sou brasileiro, até porque nunca fui muito chegado a nacionalismo. Não comentarei o álbum inteiro, mas para quem gosta de jazz ou mesmo para quem não tem muita afinidade com o ritmo, é uma boa pedida. Colocarei aqui, também, a música "Cuerpo y Alma" que não é de autoria da Esperanza, mas que é uma das melhores do álbum. Impressionante como ela consegue apropriar-se da Língua Espanhola de tal maneira que parece que o jazz surgiu no seio desta língua.

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[1] http://www.verafigueiredo.com.br/danieloliveira_index.htm

Dêem uma olhada neste vídeo em que ele explica a relação entre o Jazz e a bateria:
http://www.youtube.com/watch?v=b_x2eM6lbdg

Outro vídeo sobre Jazz e bateria, com destaque para o Swing:
http://www.youtube.com/watch?v=HLFxBVw43_8&feature=related

Sobre o Bebop e Cool Jazz:
http://www.youtube.com/watch?v=EsQa7YP6Ekk&feature=related

[2] http://en.wikipedia.org/wiki/Fusion_%28music%29

O meu referido professor fala um pouco sobre Fusion:



[3] http://jazz.folha.com.br/musicos/


[4] O vídeo fala um pouco sobre ela. Sou eternamente agradecido ao Pat Metheny por tê-la convencido a seguir a carreira da música



Uma palhinha de um cover que ela fez de uma música do genial Stevie Wonder:

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Vi dois filmes espetaculares nesta semana. Um é um terror, sendo classificado por alguns como "terrir" e outro é um drama. Não conhecia o gênero "terrir" até então. Uma amiga da Dani falou que o filme fazia parte do gênero e fui pesquisar. São filmes de terror marcado por cenas absurdas e exageradas que têm a proposta de fazer rir[1]. O interessante é que o termo foi cunhado por um diretor brasileiro — Ivan Cardoso. Dentro do gênero Horror, existe um subgênero, que começa com a letra g se não me engano, que poderia caracterizar as cenas grotescas de "Arraste-me para o inferno"; no entanto, infelizmente, não consigo lembrar-me de jeito nenhum.

O site Omelete[2] deu 4 ovos para os dois filmes. Não li as resenhas antes de ver os filmes, mas fui vê-los sabendo da enorme chance dos filmes serem bons, já que minhas opiniões costumam coincidir com as do site — diferentemente do que ocorreu com o julgamento da revista SET[3] que comprei nesta semana. Gostei da revista, mas quase nenhuma opinião minha coincidia com a a da revista. De qualquer forma, é bom ver pensamentos discordantes dos seus. Voltando ao filme, gosto muito de qualquer forma de arte que envolva a dicotomia céu e inferno, Deus e o Diabo etc. . São muitas as obras literárias que já li por causa dessa minha afinidade com o tema. Li Cervantes, John Milton, Goethe, Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins com essa motivação agregada a outros interesses.

Acredito que foi o melhor filme de terror que já vi. Excelente trilha sonora, atuações muito boas e um roteiro surpreendente. Adoro reviravoltas nos filmes. O final, que não contarei aqui, foi avassalador! O diretor responsável é o mesmo que dirigiu a franquia Homem Aranha. Não sou muito chegado ao gênero porque nunca senti medo ou coisa do tipo ao assistir esses filmes; no máximo, tomo uns sustos por causa do som mais alto em certas horas. Acho que isso se deve ao fato d'eu ter tido uma infância permeada de filmes ilícitos que via escondido na Manchete, Band e afins. Quando o filme era pra maior de 18 anos — quando era criança, era muito comum classificarem os filmes assim —, fazia questão de ver.

O outro filme atraiu-me pelo título em Francês — Le chant des mariées. Sempre que posso, tento ver filmes franceses para treinar o meu entendimento da língua; contudo, o filme, embora tenha alguns trechos em Alemão e Francês, é falado, basicamente, em Árabe. Não sei se a Língua Árabe tem alguma coisa a ver com a Língua Francesa ou se a mistura era proposital no filme, mas entendia várias coisas em Francês misturadas ao Árabe. O filme é polêmico: traz como pano de fundo religião, guerra, sexo, nudez. Há uma cena em que se mostra a depilação nas regiões íntimas de uma menina por conta de seu casamento.

A melhor parte do filme para mim foi aquela em que houve confrontamento entre interpretações do Alcorão. Duas amigas são protagonistas no filme. Uma é judia e outra é muçulmana. Esta casar-se-á com o primo que ama e a outra, com um médico que será solução para as dívidas de sua mãe. Uma inveja a vida da outra. A muçulmana aprende a ler árabe com o namorado e começa a ler o Alcorão por recomendação deste. Ela lê, então, o seguinte trecho:

"(39) Eis o que da sabedoria te inspirou teu Senhor: Não tomes, junto com Deus,
outra divindade, porque será arrojado no inferno, censurado, rejeitado."

No filme, a tradução apresentada é melhor, mas a que encontrei para transcrever aqui foi esta. Após ler tal trecho, ela se afasta da amiga. Num dia, enquanto estava escondida lendo o Alcorão no quarto de seu pai enquanto ele dormia, este acorda e pergunta a ela o que ela estava lendo. Ao ver o que sua filha lia, ele vira algumas páginas e manda ela ler o seguinte trecho:

"(62) Os fiéis, os judeus, os cristãos, e os sabeus, enfim todos os que crêem
em Deus, no Dia do Juízo Final, e praticam o bem, receberão a sua recompensa
do seu Senhor e não serão presas do temor, nem se atribuirão."

Ela, então, aliviada, agradece ao seu pai. O namorado dela estava trabalhando com soldados nazistas e estava impregnado de preconceito e ódio pelos judeus. A lição que tirei disso foi que as pessoas enxergam o que querem nas coisas. Elas não são objetivas. Quem quiser encontrar motivações para o ódio num texto, há de encontrar e quem quiser encontrar motivações para ser amável e tolerante, da mesma forma, há de encontrar. O interessante é que o Islamismo que é tido por intolerante e fundamentalista é muito mais tolerante do que o Cristianismo em certo ponto, já que o Cristianismo diz que o judeu e o muçulmano vão para o inferno e o Islamismo não diz isso, como se pode ver no trecho transcrito acima.

Eu me interesso muito por religião. Li a coleção da revista História Viva intitulada Grandes Religiões[4] e aprendi um pouco mais sobre várias religiões. Há alguns anos, tive a iniciativa de ler o Alcorão, a Bhagavad-Gita, texto do hinduísmo, e até a Bíblia satânica eu comecei a ler, mas não a li toda. Li, também, alguns volumes da Doutrina Secreta escrita pela Blavatsky porque alguns colegas da UnB comentaram sobre a Teosofia e eu não conhecia. Acho que só podemos criar a tolerância quando deixarmos de ser ignorantes quanto àquilo que não conhecemos. Fico indignado quando as pessoas falam da Umbanda ou do Candomblé, dizendo que eles fazem macumba etc. . A macumba é um instrumento musical e os cultos das religiões afro-brasileiras eram caracterizados pelo toque desse instrumento de percussão. As macumbas, portanto, não são práticas para fazer mal aos outros simplesmente. É claro que existem correntes adeptas de rituais para causar mal aos outros, mas não entendo por que as pessoas falam de Apolo, Afrodite de uma maneira e tratam Iemanjá, Oxum e outros de outra forma. Para mim, isso ocorre por causa do preconceito incutido na sociedade brasileira com relação à cultura negra. A mesma coisa acontece com algumas palavras que se originaram de palavras africanas como, por exemplo, a palavra "sacanagem" que vem do dialeto Quicongo e que, tida por palavra torpe por alguns, significa, simplesmente, diversão, brincadeira.

São várias as traduções de nomes de filmes que não entendo. Acho que a tradução literal em vez de "Uma canção de amor" ficaria muito melhor. Enfim, o filme termina de uma maneira muito significativa. As amigas abraçam-se num abrigo contra ataques aéreos. Uma intercede a Deus por meio de frases próprias do Islamismo e a outra por meio do Judaísmo. A mensagem da tolerância tem de ser repassada nos dias de hoje com engajamento. Discutindo com meu tio, que tem doutorado em Teologia, ele me disse certa vez que toda forma de fundamentalismo foi prejudicial na História. Concordo plenamente com ele.

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Terrir

[2] http://www.omelete.com.br/

[3] http://www.set.edicaoeletronica.com.br/


[4] https://ssl430.locaweb.com.br/clubeduetto/loja/categoria.asp?fml=3&ctgr=47

sábado, 29 de agosto de 2009

Suicídio

Suicídio, de Édouard Manet

Faz algum tempo que me interesso pelo assunto que intitula a postagem de hoje. Tentei recordar-me desde quando comecei a sentir-me atraído pelo suicídio. Fiz uma recapitulação de minhas memórias e acredito que cheguei a um ponto inicial. Tinha 14 anos de idade e estava na oitava série, quando li a Carta-testamento do Getúlio Vargas[1]. Achei muito poética a carta, e a primeira coisa em que pensei involuntariamente foi: "Se um dia eu me matar, vou escrever uma carta como esta" — acho estranho colocar aspas em algo que eu mesmo disse. O engraçado é que, quando pensei isso, não tinha nenhuma intenção de morrer ou coisa do tipo. Desde criança, fui educado com a idéia de que quem se mata vai pro inferno. Nunca entendi bem o porquê disso.
Estou cursando a matéria História da Filosofia Antiga na UnB, e a professora, comentando sobre os estóicos, citou um livro intitulado "Os filósofos e o suicídio"[2]. Não terminei a leitura, mas, por enquanto, está sendo uma leitura maravilhosa. O livro tem muitas referências. Fiquei feliz em ver que a maioria delas são em Língua Francesa, já que tenho conhecimento dela. Fiquei triste, contudo, com o fato de que mais um assunto que eu achava poder ser um campo para eu estudar e dar alguma contribuição original já foi discutido. Sempre gostei muito de cinema e sempre, no meu íntimo, tinha a impressão de que a Filosofia estava intrinsecamente ligada à linguagem do cinema. Aí eu achei o livro do Julio Cabrera[3] — professor da UnB — e vi que alguém já tinha discorrido sobre o tema. Quanto ao suicídio, já tinha lido o excelente livro do Albert Camus — "O mito de Sísifo"[4]. Colocarei aqui um trecho da primeira página do livro:
"Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. Trata-se de jogos; é preciso primeiro responder. E se é verdade, como quer Nietzsche, que um filósofo, para ser estimado, deve pregar com o seu exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, porque ela vai anteceder o gesto definitivo. São evidências sensíveis ao coração, mas é preciso ir mais fundo até torná-las claras para o espírito".
Quando comecei a ler o trecho transcrito, fiquei boquiaberto: Camus tinha dito em palavras o que estava em meu espírito e que eu mesmo não me dava conta. Concordo com ele quanto à importância do tema. Na época da minha leitura de Camus, comprei o livro "O Suicídio" do Durkheim[5], mas não consegui lê-lo todo: achei a leitura muito chata. Voltando ao livro sugerido pela minha professora, ele tem uma discussão sobre o tema no âmbito religioso, especificamente no contexto do Cristianismo. A Bíblia não é muito clara quando o assunto é suicídio. Em primeiro lugar, é importante estudar a etimologia da palavra "suicídio". Antes de seu surgimento, outros termos eram utilizados, sendo que o termo "suicídio" faz, claramente, referência ao termo "homicídio", que, por sua vez, traz consigo grande carga negativa conotativamente. O termo "suicidium" apenas aparece, pela primeira vez, no século XVII.
Personagens bíblicos como Saul[6], Abimeleque[7], Sansão[8], entre outros, cometem o suicídio; no entanto, seus atos foram vistos como heróicos. O interessante é que os textos de 1º e 2º Macabeus, que não estão na Bíblia dos protestantes, trazem a descrição do suicídio de Eleazar e de Razias. Esse fato talvez tenha tido alguma importância na constituição do cânon bíblico protestante. A questão é que nenhum texto do Novo Testamento traz uma reprovação explícita ao ato e, antes de Santo Agostinho, havia apenas posições ambíguas sobre o tema. A própria trajetória de Jesus traz ambigüidades que não se limitam às nossas interpretações atuais. No texto de João 8.21-22. — utilizando a tradução da NVI —, diz-se o seguinte:
"Mais uma vez, Jesus lhes disse: 'Eu vou embora, e vocês procurarão por mim, e morrerão em seus pecados. Para onde vou, vocês não podem ir'. Isso levou os judeus a perguntarem: 'Será que ele irá matar-se? Será por isso que ele diz: 'Para onde vou, vocês não podem ir'?' ".
(Não gosto de usar parênteses, nem é aconselhável, mas farei uso dele aqui. Precisaria utilizar aspas triplas no trecho acima! Para quem não sabe, as aspas simples [ ' ] são utilizadas para citações dentro de citações.)
O próprio sacrifício de Cristo, tendo-se por base falas dele como "ninguém tira a minha vida; eu a dou livremente" — João 10.18 — geram a pergunta de se o próprio Jesus cometeu um suicídio. Quando se entra nessa questão, alguns estudiosos diferem o sacrifício do suicídio. Sócrates, por exemplo, cometeu também um suicídio? Algumas pessoas tendem a tratar o ato do suicídio com um reducionismo extremamente simplista. Antes de ler algumas coisas sobre Psicologia, achava que quem procurava psicólogo era fraco e que não tinha inteligência suficiente pra lidar com os próprios problemas. Depois das minhas leituras, contudo, fiquei curioso em saber como era ter uma consulta com um psicólogo e insisti com minha mãe que queria ver uma. Foi uma experiência muito interessante. Focar-me-ei, no entanto, apenas num determinado aspecto dela.
A psicóloga perguntou-me qual era o meu problema, e citei o fato de que tinha alguns problemas existenciais e que não via muito sentido na vida. Eu racionava em termos práticos. Se você tem substâncias e quer um produto, qual o sentido de retardar o que você quer por finalidade? Em outros termos, se a morte é inevitável, por que a retardar? Hoje, eu não penso dessa maneira; inclusive, dentro da Química, pensei no caso do banho-maria, em que é interessante não obter o produto imediatamente. A psicóloga fez algumas perguntas pra mim, partindo de estereótipos, mas eu não me enquadrava em nenhum deles. Ela me perguntou se eu tinha depressão, e eu disse que não. Ela tinha perguntado antes o que eu fazia, e, na época, cursava Física. Ela disse que deveria ter mais facilidade com contas etc., e eu disse que tinha escolhido Física justamente porque ela me desafiava intelectualmente, e que o resto era muito fácil. Enfim, ela não acertava nada.
Citei essa experiência em particular pra dizer que mesmo os especialistas na área não estão livres de reducionismos. Voltando à questão do Cristianismo, Santo Agostinho utilizou o mandamento de que não se deve matar para dizer que o suicídio é pecado, já que matar a si mesmo está incluso em matar simplesmente. Gosto muito de Agostinho. O que mais gosto nele é o uso que ele faz da Lógica. Outro pensador do Cristianismo a tratar o suicídio como pecado foi Tomás de Aquino. Na sua Suma Teológica, ele faz um resumo dos principais argumentos utilizados contra o suicídio, dizendo que ele vai de encontro a três aspectos: individual, coletivo, no que se refere à sociedade, e teológico. Hume — um filósofo que, recentemente, entrou na minha lista de favoritos — opõe-se aos argumentos contra o suicídio de forma perspicaz.
Na Literatura, o assunto foi abordado por vários escritores, entre eles, Dostoiévski, Simone de Beauvoir, Victor Hugo, Goethe etc. . Este tem um livro chamado "Os Sofrimentos do Jovem Werther" [9] que recomendo muito. Na época de sua publicação, o efeito foi tamanho que houve uma onda de suicídios na Europa. Ele me faz lembrar de Egésia, conhecido como "peisithánatos", o que persuade a morrer. Ele foi proibido de ensinar pelo rei Ptolomeu, por volta do século IV a.C., pois vários de seus ouvintes matavam-se quando conheciam sua doutrina.
Já escrevi um conto chamado "O suicida"[10] e nesta semana compus uma música chamada "Morte de si", um dos termos utilizados no lugar de "suicídio". Vendo uma entrevista da cantora Aline Calixto, no Soares, fiquei com a idéia de gravar minhas idéias quando elas vierem para não perdê-las — na entrevista, a cantora contou uma cômica história sobre gravar uma melodia que tinha criado dentro de uma igreja. Eu estava dirigindo e veio-me uma melodia com as palavras "Covarde? Eu?". Peguei meu celular, quando parei num sinal, e gravei-a. Quando cheguei em casa, peguei o violão e comecei a trabalhar em cima dela. As músicas, geralmente, nunca ficam do jeito que as penso originalmente, principalmente porque fico com pressa de vê-las prontas. A letra desta, em particular, foi a maior que já escrevi. Colocá-la-ei aqui e comentarei alguns trechos da letra, embora não goste de fazer isso, já que inibo as possíveis interpretações.

Morte de si
(Composição: Fábio Salgado)

Covarde? Eu? Por não querer jogar
O tolo jogo de vocês?
Por não me prender ou me esconder
Numa cela que encerra e me enterra?

Covarde? Eu? Por não prescrever pra mim
Um futuro que não seja obscuro?
Por não entender que todo mundo
Tem uma bela que o espera?

Covarde? Eu? Por não compreender
Que mesmo a vida sendo tão escassa é tão rara?
Covarde? Eu? Por esquecer que talvez a vida
Valha a pena e que talvez um dia entre em cena...

No palco que é a vida não sei se eu quero
Ser protagonista nem mesmo sei
Se quero só vê-la passando por mim
Não escolhi vir à vida, mas posso escolher morrer

Covardes sois por temerdes fazer, simplesmente,
O que escolhestes;
Por intrometerdes naquilo que está
Selado, encerrado e enterrado

Covardes dois por verdes tanto sentido
Onde tudo está perdido;
Por beberdes da fonte da água
Da mentira e da hipocrisia

Covardes sois por não compreenderdes
Que mesmo a vida sendo escassa não é rara.
Covardes sois por esquecerdes que uma vida
Que não é questionada nunca entrará de fato em cena...

Intitulei a música como "morte de si" porque achei muito poética essa forma alternativa de chamar um ato de suicídio. No segundo verso, quis dar a idéia de alguém que não vê o futuro de outra forma que não seja um futuro tenebroso, nem mesmo ao considerar a possibilidade do amor ao qual se prende a fim de poder dar um pouco de sentido à vida. Na preparação ao refrão, fiz um jogo com escassez e raridade. A palavra "rara" designa algo que é escasso, mas também valioso. No refrão, quando digo "não escolhi vir à vida, mas posso escolher morrer", faço menção à liberdade que o ato de matar-se representa. Sempre achei interessante identificar o suicídio com um ato supremo do exercício da liberdade. No livro que estou lendo, essa identificação é discutida em algumas partes.

Na segunda parte, com os conjuntos de versos depois do refrão, eu mudei o jogo. Em vez da defesa na primeira parte, a acusação; em vez da afirmação daquilo que se deixou de fazer, a afirmação daquilo que se faz para ser, de fato, covarde. Usei a idéia de covardia, justamente, para simbolizar o reducionismo de que já falei aqui. Na nova preparação ao refrão, faço menção a Platão: "Uma vida não questionada não merece ser vivida". Não destrincharei por completo a música porque gosto da idéia de que alguém consiga descobrir as mensagens que deixo nelas. É importante ressaltar que na arte existe algo chamado "eu-lírico". É claro que muita coisa que escrevo é resultado da minha vida pessoal, mas sou muito feliz e não penso em suicídio; aliás, apenas penso nele como um objeto de estudo filosófico.




[1] Para quem nunca a leu, ela está disponível na Wikipédia:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carta-testamento_de_Get%C3%BAlio_Vargas

[2] http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2611599&sid=97218815711829426242497653&k5=116DA155&uid=


[3] http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=7013785&sid=97218815711829426242497653&k5=191EEAD7&uid=

[4] http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=160646&sid=97218815711829426242497653&k5=1D371F77&uid=

[5] http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=327269&sid=97218815711829426242497653&k5=29E75E46&uid=

[7] 1 Samuel 31.4

[8] Juízes 9.54

[9] http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=1861283&sid=97218815711829426242497653&k5=2D6160C7&uid=

[10] http://fabiosal.flogbrasil.terra.com.br/foto14339730.html

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Sei que a postagem de hoje está longa, mas, como o espaço aqui é meu, utilizo-o como quiser. Já me bastam as linhas que não posso ultrapassar em textos oficiais. Acho que será a primeira vez que posto aqui falando de um assunto só. Não posso deixar de comentar sobre uma música do Legião Urbana que tem tudo a ver com suicídio. Há um debate sobre se o personagem da música cometeu ou não o suicídio. Acredito que sim, já que a música termina como se ele tivesse adentrado, de fato, no mar. A música é uma das minhas favoritas. Gosto de ouvi-la, especialmente nos momentos tristes. A versão que consegui para colocar aqui é a que mais gosto, que está no álbum "Como é que se diz eu te amo"; no entanto, a gravação não está muito boa infelizmente. Não consegui hospedar a música no site e procurei alguém que já o tivesse feito. Colocarei a letra aqui para vocês acompanharem enquanto a ouvem.

Legião Urbana - Vento no litoral
(Composição: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)

De tarde quero descansar
Chegar até a praia e ver
Se o vento ainda esta forte
E vai ser bom subir nas pedras
Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora...
Agora está tão longe
ver a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos
Na mesma direção
Aonde está você agora
Alem de aqui dentro de mim...
Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você esta comigo
O tempo todo
E quando vejo o mar
Existe algo que diz
Que a vida continua
E se entregar é uma bobagem...
Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos,
Lembra que o plano
Era ficarmos bem...
Eieieieiei!
Olha só o que eu achei
Humrun
Cavalos-marinhos...
Sei que faço isso
Pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora...


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A postagem era para ter terminado com a música do Legião Urbana, mas vi um excelente filme que, coincidentemente, abordou o tema do suicídio de forma belíssima. Existe, inclusive, uma cena que remete à referida música do Legião, em que o protagonista encontra-se aos prantos em frente ao mar, pensando na possibilidade de matar-se.

James Gray, o mesmo diretor e roteirista do também excelente "Os Donos da noite", é o responsável pela direção de "Amantes" e divide os créditos do roteiro com Ric Menello. O filme conta com as ótimas atuações de Joaquin Phoenix — ele bem que poderia esquecer a idéia de abandonar o cinema pelo rap —, Gwyneth Paltrow, entre outros. Gostei muito da trilha sonora. Ainda estou tentando baixá-la.

Leonard, personagem interpretado pelo Joaquin, não foi muito criativo ao tentar suicidar-se. Eu o recomendaria um livro que encontrei neste ano chamado "The peaceful pill handbook", que dá dicas de como fazê-lo. Existe também um livro japonês chamado "The complete manual of suicide" com o mesmo intuito. Só tive acesso àquele, mas tentarei baixar este para matar a curiosidade.

Enfim, para não delongar mais, recomendo muito o filme. São muitas as lições e reflexões que podem ser tiradas dele; por exemplo, sobre como a vida oferece-nos opções de refúgio e estabilidade contrastadas com opções de pleno exercício de nossa liberdade, mas que oferecem riscos com os quais devemos estar dispostos a arcar.

sábado, 22 de agosto de 2009

Felicidade dentro de si

Cada vez mais, vejo que não sou físico, nem matemático e, contrariamente ao que muitos devem pensar, nem filósofo. Almejo a erudição. Sou polímata, indivíduo que estuda muitas ciências — palavra que aprendi na Língua Inglesa e com a qual fiquei muito feliz ao ver que havia uma correspondente em nossa língua. Foi com Descartes, autor da frase que uso como título deste blog, que comecei a empreender a tarefa de conhecer sem subdividir o conhecimento, até porque a natureza de modo unificado. Com o passar do tempo, aprendi acontecimentos históricos que justificariam minhas convicções, como, por exemplo, o advento do Toyotismo em detrimento do modelo fordista. Além do mais, a grande maioria dos grandes homens da História que admiro eram polímatas — vide Gauss, William Rowan Hamilton, Roger Penrose, Poincaré, entre outros.

Acredito que se as pessoas tivessem uma visão universal do conhecimento, muitas coisas seriam resolvidas. Não haveria alunos dizendo que gostam de uma matéria e odeiam outra e não haveria pessoas que desconhecem as regras gramaticais de sua Língua. Se tem uma coisa que me indigna é quando vejo pessoas defendendo a língua coloquial e rebaixando a norma culta. Tudo bem que várias regras são completamente aleatórias, levando-se em consideração apenas aspectos lógicos, mas a norma culta evita várias ambigüidades, facilitando a transmissão do que se quer dizer. Podem me chamar de alienado etc. , mas as pessoas querem criar no Brasil uma situação que, simplesmente, não existe aqui. Não digo que o preconceito não existe, mas ele existe de forma muito mais atenuada do que em outros países. Digo isso pensando nas pessoas que defendem as cotas. Vou ser breve no que se refere a isso, até porque acho essa discussão muito óbvia. Se houvesse um programa eficaz a longo prazo de investimento nos ensinos Fundamental e Médio, até que poderia existir um programa de cotas paliativo; no entanto, não acredito que a "cor" seria um bom diferenciador para inclusão num sistema de cotas.

Sempre que as pessoas tratam os menos privilegiados socialmente e economicamente como coitadinhos, cito o exemplo do meu pai. Ele nasceu no interior da Bahia, só estudado até a quarta série com 17 anos de idade. Ele veio pra Brasília, estudou, graduou-se em Direito e hoje está muito bem de vida. Quem tem força de vontade, faz qualquer coisa. Transcreverei aqui uma citação retirada do filme "Prova de fogo" que achei muito interessante:

"Nosso maior medo não é o de sermos inadequados. Nosso maior medo é o de sermos fortes demais. Perguntamos a nós mesmos: 'Quem sou eu para ser brilhante, belo, talentoso e fabuloso?'. Na verdade, quem é você para não ser? Nascemos para manifestar a glória de Deus que está dentro de nós. E, deixando nossa própria luz brilhar, inconscientemente, damos a outras pessoas permissão para fazerem o mesmo.".

Assisti a uma palestra do Steven Dubner¹ tratando sobre os deficientes físicos e a ADD — associação desportiva para deficientes². Aquela historieta de que um homem reclamava de que não tinha calçados até encontrar alguém que não tinha pés é uma balela: sempre haverá alguém pior do que você. O cara sem pés poderá, então, contentar-se por ver alguém cego e sem pés; este, por sua vez, contentar-se-á ao ver alguém sem pés, cego e maneta e assim por diante. Encontrar alguém pior do que você não é justificativa para nada; no entanto, a palestra fez-me ver as coisas por outra perspectiva. Ele mostrou exemplos de pessoas sem braços e pernas que viviam sozinhas, viravam-se como podiam e eram extremamente felizes. Nas paraolimpíadas, houve casos de nadadores sem braços e pernas que ganharam de pessoas com braços. Não gosto desse papo de autoajuda e menosprezo esse tipo de literatura; contudo, pensar de forma que não seja óbvia, sem jargões, mas filosófica é sempre útil. Se pessoas menos capacitadas, no sentido de que elas têm menos ferramentas físicas, conseguem ser felizes, o que nos impede? Perdemos muito tempo usando outras pessoas como padrões e guiando-nos pelos outros.

Li um comentário do Manuel Bandeira sobre o Villa-Lobos que dizia o seguinte: "A formação dos outros como que vem de fora para dentro; a dele, de dentro para fora. Formação vulcânica, não sedimentária.". O comentário foi escrito sobre o fato do Villa-Lobos ter viajado a Paris e, contrariamente a vários outros artistas que viajavam para lá, ter voltado impregnado de si mesmo. Temos, exatamente, de impregnar-nos de nós mesmos, deixar de acreditar que seremos felizes quando formos determinada coisa, tivermos alguma coisa e sermos felizes com o que temos, assim como vários deficientes físicos são felizes com o que têm.


¹ http://www.stevendubner.com.br/
² http://www.add.org.br/

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Conheci a Pitty por meio do Acústico MTV lançado pelo Ira!. Ela fez uma participação na música "Eu quero sempre mais". Resolvi ouvir o álbum dela "Admirável Chip Novo" e já gostei antes de ouvi-lo por causa da referência à obra do Aldous Huxley. Na época, lia muitos livros de ficção científica. Achei as letras interessantes e gostei do som. O timbre dela agradou-me muito também. Gosto de timbres diferenciados. Sabe aquele cantor que canta uma nota e você já reconhece? Aprecio muito isso num artista.

Depois, veio o álbum "Anacrônico", do qual gostei mais que o primeiro. Algumas músicas deste fazem parte do meu cancioneiro particular de canções; além do mais, adoro tocar "Na sua estante" no violão. O novo álbum da Pitty, intitula-se "Chiaroscuro". Aqueles que estudaram Artes Visuais no Ensino Médio lembrar-se-ão da técnica utilizada no Renascentismo. Não tive muito tempo para absorver tudo. Ouvi o álbum inteiro ontem dirigindo e hoje o ouvi de novo para escrever alguma coisa sobre ele aqui. A minha primeira impressão foi boa, mas prefiro o álbum anterior. A Pitty percorreu alguns caminhos novo e é bom notar que ela não se acomodou. O interessante é que nunca ouvi tantas referências. Fiz associações em praticamente todas as músicas.

Ontem, vi uma entrevista da Zélia Duncan no Programa do Jô. Gosto muito do trabalho dela. Ela disse que que é muito difícil, na Música, fazer algo novo e que praticamente tudo já foi feito. Concordo com ela. Acho que se houvesse um computador projetado para tanto, poderíamos pegar as músicas novas compostas e comparar com tudo o que já foi feito até então; com certeza, haveria muitos pontos em comum com outras músicas. Chamaria o novo álbum da Pitty de álbum mnemônico, a partir do momento em que ele me trouxe à memória inúmeras sensações musicais já experimentadas. Listarei as músicas aqui e, como já disse, farei breves comentários. Escolherei, no fim, alguma música do álbum para colocar aqui.

1 - 8 ou 80
A levada da Bateria fez-me lembrar de Blur em "Song 2", que é a música que tocava no jogo de futebol Fifa. Em determinados momentos, eu me lembrei de Metallica no odiado — não compartilho do mesmo sentimento — St. Anger. O refrão quis me trazer mais coisas à memória, mas não consegui fazer a associação. A letra é uma das mais interessantes do álbum. Ela me fez refletir sobre quem se faz de santo e quem confessa sua culpa, especificamente, lembrei-me do nosso Senado e da acusação feita ao Arthur Virgílio pelo Renan Calheiros.

2 - Me adora
Música mais acessível do álbum. Bem pop. Gostei muito dela. A melodia é boa e a estrutura é bem clássica, com refrão ponte etc. . Achei muito forçoso rimar "adora" com "foda". Acho que a Pitty deveria ter umas aulas com o coloquialismo do Caetano elogiado por mim aqui. A música faz referência à própria Pitty e poderia estar no álbum anterior. A letra fez-me refletir sobre o que falei nesta postagem. Quando a Pitty fala pra "não deixar ir embora pra perceber", pensei que não devemos deixar a vida passar pra percebermos que não somos felizes e que não o fomos porque não pudemos, mas porque não quisemos.

3 - Medo
O riff da guitarra é muito AC/DC. Algo meio Back in Black. Legais as partes em que a guitarra acompanha a melodia cantada. Meio brega a parte do "se corre, o bicho pega; se correr, o bicho come". Não combinou a parte Thrash/Death com esse mote popular. Interessante a idéia de comparar o medo ao sangue, usando figuras de linguagem.

4 - Água Contida
Pra quem conhece a excelente banda Kamelot, não tem como não se lembrar de "Lost & Damned", que também tem uma mistura de Tango. O incrível é que no solo da guitarra eu consegui identificar parte da melodia da música do Kamelot. Outra música com imagens interessantes. Gosto muito de frases de impacto, como "Mágoa velada é água parada e uma hora transborda". Outra boa música deste álbum!

5 - Só agora
A tessitura dos instrumentos e o clima lembram muito The Magic Numbers. Não sei se os outros compartilham da minha opinião, mas acho muito brega dizer "baby" no Brasil. É um americanismo desnecessário. Soa muito feio. Conversei sobre isso um dia desses com a Dani. Não sei por que tive a impressão de ter ouvido alguma coisa parecida melodicamente com Beatles. Não consegui lembrar-me de nenhuma música específica pra citar.

6 - Fracasso
Letra ácida. Achei essa música muito Moptop. Tentei achar alguma música específica pra citar, mas não consegui achar os meus cds pra ajudar.

7 - Desconstruindo Amélia
Baixo a la Muse! Muito interessante a idéia da letra da música. Com o título dela, vocês podem ter uma noção.

8 - Trapézio
Eu me lembrei de Strokes. A melodia é interessante, junto com as linhas harmônicas que a acompanham. As linhas de baixo são muito Legião Urbana.

9 - Rato na roda
Essa lembra a própria Pitty em trabalhos anteriores. A parte do "ouo" lembra muito tribalistas em "Já sei Namorar". Foi engraçado quando fiz essa associação, já que as propostas são completamente diferentes.

10 - A sombra
Essa música é uma versão brasileira de Radiohead!

11 - Todos estão mudos
A primeira coisa que me veio à mente foi "Todos estão surdos" do Roberto Carlos, embora as músicas tenham nada a ver, nem liricamente e nem musicalmente. A música lembra "Knights of Cydonia" do Muse. Até procurei alguma coisa na net pra ver se teve algo intencional, mas achei nada.


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Sem fugir muito do conceito explorado nos comentários ao novo álbum da Pitty, no último álbum do Nando Reis, tem uma música muito parecida com uma do Green Day. O riff de guitarra é muito igual. Colocarei as duas músicas aqui pra vocês compararem. Ouçam a música do Nando a partir de 1min07. Eu toquei essa música do Green Day — na bateria — numa banda quando tinha lá pelos meus 13/14 anos. A pior coisa do mundo é tocar uma música que você nunca ouviu antes. Cheguei a fazer a mesma coisa com os Ramones quando tinha 15 anos. Nunca tinha escutado nada deles, mas toquei numa banda cover e ainda fazia os backing. Na época, a gente tinha de caçar alguém que tivesse o cd pra gravar em fita.

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Nesta semana, uma música do Legião Urbana caiu como uma luva. Nunca entendi muito bem a letra de "O Teatro dos Vampiros", mas algumas circunstâncias na minha vida coincidiram com algumas coisas da letra e acabei entendendo o sentido. Coisa parecida já aconteceu com a música "Há tempos". Não entendia o que significava "lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa". Acabei identificando essa frase com o dito de que "a grama do vizinho é mais verde". Nunca nos contentamos com o que temos e queremos mais. Colocarei a letra aqui e um vídeo da música.

O Teatro dos Vampiros
(Dado Villa-Lobos/ Renato Russo/ Marcelo Bonfá)

Sempre precisei
De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto

E nesses dias tão estranhos
Fica a poeira
Se escondendo pelos cantos


Esse é o nosso mundo
O que é demais
Nunca é o bastante
E a primeira vez
É sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres
Nós não estamos

Vamos sair,
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão procurando emprego

Voltamos a viver
Como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas

Vamos lá, tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal pra ir

Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas
Possam se encontrar

Quando me vi
Tendo de viver
Comigo apenas
E com o mundo
Você me veio
Como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito

Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo
Eu, homem feito,
Tive medo
E não consegui dormir

Vamos sair,
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão procurando emprego

Voltamos a viver
Como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas

Vamos lá, tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal pra ir

Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim
Não tenho pena de ninguém




terça-feira, 11 de agosto de 2009

Celulares

Há tempos que penso em escrever sobre o tema aqui. Algo que tem me incomodado profundamente é o modo como as pessoas utilizam os celulares. Não são situações esporádicas, mas corriqueiras. É comum eu dirigir e deparar-me com alguém dirigindo devagar na faixa da esquerda ou ocupando metade da pista, de modo que fica impossível executar a ultrapassagem. Outras barberagens ocasionadas pelo uso indevido do aparelho são bastante comuns. Eu, então, pergunto-me: por que as pessoas não param no acostamento ou, simplesmente, desligam o celular? Já vi várias vezes pessoas que entram no carro falando ao celular, ligam o carro e continuar a dirigir. Por que elas não esperam terminar a ligação para depois enfrentar o trânsito?

Numa ocasião, estava prestigiando a Orquestra Sinfônica no Teatro Nacional e tinha alguém atrás de mim mandando mensagens durante toda a apresentação. A pessoa não tinha a capacidade de colocar o celular no silencioso e fazia um barulho audível até para a orquestra. Um pouco mais longe de mim, teve uma pessoa que atendeu o telefone no meio da apresentação, chamando para si a atenção dos instrumentistas inclusive. O uso indevido propaga-se nos diversos âmbitos. Não me lembro do número de vezes em que fui a médicos distintos — legal essa ambigüidade no uso da palavra "distintos" aqui — e eles atenderam o celular no meio da consulta. Estive, recentemente, numa reunião para decidirmos certos aspectos de uma programação e várias pessoas atenderam o celular, deixando o recinto ou, pior, atendendo na frente de todos, interrompendo todo o cadenciamento da discussão.

Poderia citar inúmeras outras situações. A questão é que o desenvolvimento tecnológico não tem sido acompanhado pelo desenvolvimento da educação das pessoas. Eu até tentei pensar de modo crítico no que se refere ao meu pensamento. A Dani, minha namorada, disse que os professores atendem o celular na aula, pedem desculpa, mas que nenhum aluno liga para essa atitude. Fiquei pensando se sou eu que estou tendo uma idéia conservadora e ultrapassada sobre tudo isso e se tudo não se trata apenas de uma questão cultural; contudo, parei pra pensar melhor e imaginei a seguinte situação: se você estiver conversando com alguém e a pessoa pegar um jornal e começar a ler você não se sentirá ofendido? A situação é a mesma de você conversar com alguém ou ser atendido e a pessoa atender o celular.

Alguém poderia dizer que anda sempre com o celular porque algum imprevisto pode acontecer, mas eu pergunto: quantas vezes você já passou, realmente, por uma situação em que você pôde fazer alguma coisa sabendo de um acontecimento dado? Não custa nada desligar o celular nas salas de cinema ou em locais em que o barulho atrapalhará. Vivi 18 anos sem celular e nunca tive nenhum problema. Quando precisava usar o telefone, usava o orelhão. O pior é que o celular não desperta apenas a falta de educação das pessoas, mas o consumismo. As pessoas trocam de aparelho como quem troca de roupa de baixo e ainda gastam dinheiro comprando aparelhos com diversas funções que nem ao menos são usadas! Sempre achei chato estudar Ecologia e ouvir esse papo de Desenvolvimento Sustentável, mas, ultimamente, venho engajando-me bastante na área. Enquanto as pessoas não mudarem o seu padrão de consumo, vamos continuar destruindo o nosso planeta. É muito fácil criticar os E.U.A. por não assinarem o Protocolo de Kyoto, mas incentivar a máquina industrial diariamente, assim como é fácil falar mal do Congresso Nacional e não ser ético no dia a dia nas pequenas coisas.

Sempre achei esse negócio de etiqueta uma frescura. Eu, por exemplo, sou sempre alertado por uma amiga que cortar a carne toda antes de comer é falta de educação segundo a etiqueta e eu, indignado, dizia que não tinha lógica nenhuma. Vendo, contudo, uma entrevista de um ex-participante d'A Fazenda, acredito que comecei a esboçar um entendimento na minha cabeça. Ele disse que a Etiqueta é uma forma das pessoas conviverem melhor segundo um padrão estabelecido. Na hora em que ouvi isso, lembrei-me, imediatamente, da norma culta de nossa língua. Já houve tempo em que achava frescura falar e escrever corretamente, mas, depois, entendi o propósito da coisa. Traçando esse paralelo entre a norma culta e a etiqueta, acho que até que faz sentido. O regionalismo observado na língua falada seria semelhante aos traços culturais observados na postura à mesa etc. . Ainda preciso refletir mais sobre o assunto, mas acho que essa idéia é nova, pelo menos nunca vi ninguém fazer essa analogia.
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Acho que descobri como colocar música aqui pra quem quiser ouvir, sem aquele negócio chato da música ir tocando assim que você abre a página. Não tem coisa que me irrita mais! Vocês devem estar percebendo que estou bastante irascível, ? Bem, voltando ao assunto da música, estou viciado nas duas músicas que estou colocando aqui. Uma é do último álbum da Fernanda Takai, composta por ela e o John Ulhoa, seu esposo e guitarrista do Pato Fu. A outra é do último álbum da Ana Cañas. Gostei bastante dele inclusive; talvez, faça uma resenha dele aqui. O primeiro álbum dela eu achei muito fraco. Ouvi tantos elogios que resolvi ouvi-lo, mas não achei lá essas coisas. O último, contudo, superou de longe o primeiro álbum.


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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Racionalização dos fracassos

Participei de um concurso literário promovido pela excelente revista piauí — com letra minúscula para diferenciá-la do Estado — no qual o desafio era escrever um conto baseado na ilustração de Al Parker acima. Conheci a revista piauí em sua segunda edição — hoje, ela está na sua trigésima quarta edição — no programa do . Um dos redatores, João Moreira Salles, falou sobre a revista e achei-a interessante. Não me decepcionei e sou assinante hoje em dia. Gosto muito do projeto da revista, inclusive o estético. O prêmio seria a publicação do conto na edição especial da revista que seria distribuída gratuitamente entre os dias 1 a 5 de julho na Flip — Festa Literária Internacional de Paraty —, evento badalado com direito a participação de nomes famosos da literatura brasileira e internacional, como, por exemplo, Chico Buarque, Cristovão Tezza — quero muito ler o elogiadíssimo e premiado "O Filho Eterno" —, Catherine Millet, Gay Talese, Richard Dawkins, Zuenir Ventura etc. . O vencedor seria avisado por e-mail. Como não recebi nada, supus que não tinha ganhado o concurso, mas ainda tinha esperanças, já que acreditava que meu conto tinha nível suficiente para ganhar; no entanto, hoje, li o texto do vencedor, que colocarei aqui, no site da revista*. Admito que sou arrogante, até por ideologia por causa das minhas leituras de Nietzsche, mas sei reconhecer quando um texto ou qualquer coisa é melhor do que algo que eu produzo. O conto do João Gabriel da Silva Ascenso é muito bom, mas acredito que o meu seja melhor. Os responsáveis pela escolha do texto admitem que não sabem o porquê de sua escolha e a introdução escrita para anunciar o vencedor foi escrita antes da escolha deste, por questões de prazo. Não quero duvidar da capacidade de julgamento da revista, mas, talvez não tenham tido tempo de ler os textos candidatos com atenção.

Eu tenho mania de tentar justificar racionalmente os meus fracassos. É bem provável que o texto escolhido seja melhor do que o meu e pronto. O único conto do qual me lembro de ter escrito é do ano de 2005. Sou muito hábil em escrever textos dissertativos, mas sou iniciante nas outras modalidades. Mesmo na poesia, escrevi muito pouco. Estou tentando voltar a treinar minha escrita literária neste ano. Já tenho muita coisa em mente. Fui pesquisar sobre o tal João Gabriel e descobri seu blog, seu currículo Lattes, entre outras coisas. Ele é estudante de História e já fez iniciação científica em Literatura e História na UFRJ. Fiquei pensando... Bem, ele cursa Humanas, e eu, Exatas. Ele já trabalhou com pesquisa em Literatura, eu fiz pesquisa em Números Hipercomplexos e Teoria da Computação. O problema é que sei que esses títulos acadêmicos representam nada. Alguém pode ter mais talento literário que outra pessoa, independentemente da área em que atue.

Vou, agora, utilizar-me de uma digressão, mas logo voltarei ao tema. No meu Ensino Médio, gastei muito tempo tentando descobrir alguma coisa; contudo, sempre me dava conta de que o que achava ser uma descoberta já o tinha sido há muito tempo. Aprende-se na escola que (a + b)² é o quadrado do primeiro mais duas vezes o primeiro vezes o segundo mais o quadrado do segundo. Aprende-se o famoso Triângulo de Pascal, em que os números das colunas são os coeficientes dos produtos nas potências da soma de dois termos; por exemplo,

(a + b)³ = 1.(a³) + 3.(a.b²) + 3.(a².b) + 1.(b³)

,onde os coeficientes 1, 3, 3, 1 são os números da linha 3 do triângulo**. Percebam que a soma dos expoentes das parcelas nunca excede o expoente ao qual a soma (a + b) foi elevada. Existe uma lógica na expansão. Eu ficava questionando-me se não existiria uma lógica para expandir uma soma de n termos a um expoente qualquer. Eu comecei a pensar nisto e acabei chegando numa fórmula. Eu fui conversar com um professor meu do Sigma, mas ele falou que Leibniz descobriu isso no século XVII e que essas séries chamavam-se multinomiais***. Eu fiquei muito decepcionado. Depois disso, tudo que eu achava que tinha descoberto, falavam-me que alguém já tinha feito algo. Eu resolvi que deixaria de lado as descobertas e estudaria primeiro o que os outros descobriram. Foi nessa época que eu li um livro chamado "Os problemas do milênio — Os sete maiores enigmas da matemática contemporânea" — do Keith Devlin. O instituto Clay daria um milhão de dólares a quem resolvesse um dos problemas; inclusive, o russo Grigori Perelman resolveu um dos problemas intitulado "Conjectura de Poincaré", mas recusou o prêmio. Quando li o livro, eu trabalhava para encontrar um padrão ou uma fórmula para os números primos. Cheguei a listar os dez mil primeiros. Encontrei algumas coisas, mas não sei se alguém já tinha descoberto. Usava apenas aritmética simples e lógica. Se fosse trabalhar com esse problema hoje em dia, usaria muitas ferramentas, utilizando mais Cálculo do que Aritmética. Fiquei desiludido com o problema quanto mais li sobre ele.

Voltando... Fiz toda essa digressão pra dizer que talvez eu pense em abandonar a minha produção literária para, antes, ler e estudar mais. Admito que li poucos contos, crônicas e poemas na vida. Vi, de novo no programa do , uma entrevista do Ferreira Gullar na qual ele disse que passou uns dois anos estudando a gramática para escrever. Acho que preciso de coisa semelhante. Já pensei em fazer coisa parecida com minhas composições musicais, mas a vontade de compor é maior. Enfim, eis os poemas — o meu e o do referido ganhador do concurso respectivamente.

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Cinco Cigarros
(Fábio Salgado)
Primeiro cigarro — Abertura/Fastio

Estou cansada desta festa: falsos sorrisos, falsos vestidos, falsas jóias, bijuterias baratas. Falsos estímulos que demandam respostas fingidas e dissimuladas. Ainda não consigo arcar com o peso de relacionar-me com pessoas da alta sociedade, fardo que me inclina ainda mais à nicotina: minha salvadora, minha confidente; esta, sim, comprometida com a verdade. Mesmo a caixa contendo o maço não faz uso de meandros pra dizer-me que terei câncer provavelmente. O prazer compensa. O cansaço abate-me.

Segundo cigarro — Solilóquio

Um trago, uma bebida, meu quarto, minha ânsia por espaço, minha ansiedade pelo que passou e minha nostalgia, meu saudosismo ressentido, pelo o que ainda não aconteceu. A fumaça espalhando-se pelo quarto, exaurindo-se pela janela e as vozes e gargalhadas são as únicas que me acompanham, mas que são incapazes de ouvir-me, além da minha própria voz narradora de uma narrativa sem nexo e sem causa.

Terceiro cigarro — Desdobramentos em preto e branco

O teto confunde-se com o ventilador. O ventilador confunde-se com o seu movimento. O movimento confunde-se com as vozes. As vozes confundem-se com o emaranhado dos meus cabelos, que se confundem com meus olhos. Meus olhos confundem-se com meus pensamentos. Meus pensamentos confundem-se com meu vestido, que se confunde com o chão.

Quarto cigarro — Subjuntivos subjetivos

Se tivesse vindo com outro vestido;
Se esta festa não tivesse acontecido;
Se eu não tivesse bebido;
Se o passado não tivesse sido remoído;

Se eu pudesse perder a compostura,
Se ficasse nua,
Testemunha minha seria a Lua
Da minha vã loucura

Exigiriam-me que me confessasse,
Dos meus pecados me desvencilhasse,
Não deixariam que eu ultrapassasse
Os limites do pudor e que, então, me retratasse.

Falta apenas um cigarro!
Se pudesse livrar-me deste maldito pigarro!
Os sintomas são inevitáveis: neles sempre me esbarro!
O vício é maior: dele nunca me desgarro.

Quinto cigarro — Derradeiro ato em cinco sentidos

Não sei por quê, mas não me canso de ver o ventilador que se confunde com seu movimento emaranhado. Cheiro de bebida destilada, de pessoas engomadas, perfumes franceses, Chanéis vencidos. Sinto o gosto de intrigas, de murmurinhos, do meu batom. Sinto minha pele fria, meus ombros desnudos e descobertos. Ouço vozes, ouço passos...
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CLARICE NÃO QUERIA
(João Gabriel da Silva Ascenso)
Clarice não queria ser famosa. Clarice não queria carros, brilhantes ou vestidos de alta-costura. Clarice não queria cachorros de raça tomando conta do jardim com fonte e esculturas de estilo neoclássico e, sobretudo, Clarice não queria Ricardo.
Ricardo era uma espécie de homem à moda antiga, gentil e discreto. Trabalhava geralmente de tarde, jantava por volta das 20 horas, não fumava mais de meio maço por dia e não dormia sem um cálice de licor. Ricardo não bebia nada alcoólico além de licor. Ricardo não gostava de charutos. Ricardo não ria, a não ser em raras ocasiões, e não falava além do necessário. Ricardo não amava Clarice.
Clarice vivia de sua imagem. Vivia dos vestidos e brilhantes que ostentava sem orgulho. Vivia das colunas sociais e dos sorrisos marcados pelo batom carmim. Vivia do delicado lápis preto em torno do olho. Vivia por viver. Clarice não vivia.
Ricardo oferecia jantares em que Clarice sempre estava: carmim, lápis, vestido e brilhantes. Nos jantares, Clarice ria elegantemente - nem alto demais, o que seria indelicado, nem baixo demais, o que demonstraria timidez -; comia pouco, bebia não mais que alguns goles. Nos jantares, Clarice não fumava.
Clarice não queria viajar com Ricardo. Clarice não queria andar de avião, fazer malas, comprar roupas. Clarice não queria ter que voltar e jantar e sorrir, e viajar de novo, fazer malas, pegar táxis. Ricardo corria as cidades em busca das melhores oportunidades e quase não olhava os lugares por onde passava. Clarice nem lembrava que passava por aqueles lugares.
Clarice sabia que Ricardo sabia. Ricardo nunca disse que sabia. Clarice sentou-se no chão do quarto, apagou o cigarro. Deitou-se, enfim. Queria chorar, mas não chorou. Ricardo entrou. Clarice olhou Ricardo. Ricardo queria passar, Clarice deu passagem. No dia seguinte haveria festa, mais licor e mais brilhantes. Seria o dia mais importante do ano, o dia mais aguardado por todos. Ricardo queria que tudo fosse perfeito. Clarice levantou-se do chão, tirou o lápis preto, o vestido, o batom.
Clarice não queria.


* http://www.revistapiaui.com.br/

** Para os desmemoriados ou que não tiveram um bom Ensino Médio, dêem uma olhada no Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tri%C3%A2ngulo_de_pascal

De preferência, para quem sabe Inglês, vejam:
http://en.wikipedia.org/wiki/Pascal%27s_triangle


*** http://pt.wikipedia.org/wiki/Teorema_multinomial
http://en.wikipedia.org/wiki/Multinomial_series (De novo, para quem sabe Inglês)