Quando Lula voltou ao Planalto, em janeiro de 2023, prometeu devolver ao Brasil o prestígio internacional. O slogan era conhecido: uma política externa "ativa e altiva", defensora da democracia, dos direitos humanos, do multilateralismo e da paz.
Não há nada de errado em o Brasil manter relações com governos de todos os tipos. Países comerciam e negociam com regimes muito diferentes dos seus, e não é isso que se discute aqui. A pergunta é outra: quando os princípios proclamados pelo governo entram em conflito com suas afinidades políticas, qual dos dois prevalece? Os episódios a seguir permitem ao leitor responder por si mesmo.
Venezuela: da "narrativa" ao veto
Em maio de 2023, Lula recebeu Nicolás Maduro em Brasília com honras de Chefe de Estado. Diante da Imprensa, disse que havia sido construída contra a Venezuela uma "narrativa de antidemocracia" e que Maduro deveria construir a sua própria narrativa. Os presidentes do Chile, Gabriel Boric, que é de Esquerda, e do Uruguai, Luis Lacalle Pou, reagiram publicamente. Um mês depois, em 29 de junho, questionado de novo sobre a Venezuela, Lula foi mais longe: "o conceito de democracia é relativo para você e para mim".
Se a democracia é relativa, eleições competitivas, liberdade de oposição, Imprensa livre e alternância de poder deixam de ser critérios.
Em 28 de julho de 2024, o Conselho Nacional Eleitoral venezuelano proclamou Maduro vencedor sem divulgar as atas por mesa que permitiriam verificar o resultado. A oposição publicou as atas que conseguiu reunir, segundo as quais Edmundo González venceu com ampla margem. O Centro Carter, convidado oficialmente a observar o processo, declarou que a eleição não atingiu os padrões internacionais de integridade eleitoral e não pode ser considerada democrática, e que não conseguia verificar o resultado anunciado.
A partir daí, a posição do governo brasileiro mudou. Lula passou a exigir as atas e a dizer que o regime tinha "viés autoritário", ainda que recusando a palavra "ditadura". Em outubro de 2024, na cúpula de Kazan, o Brasil vetou a entrada da Venezuela como parceira do BRICS, apesar do apoio explícito da Rússia ao ingresso venezuelano.
A seqüência fala por si. Em 2023, quem denunciava a erosão democrática venezuelana estava, segundo o Presidente, preso a uma "narrativa". A mudança só veio depois que o regime se recusou a mostrar as atas e as evidências da oposição vieram a público. Um ano depois de falar em narrativa, o governo brasileiro exigia exatamente o que os críticos vinham exigindo. As atas nunca apareceram e, sem reconhecer a eleição, o governo mandou sua embaixadora à posse de Maduro, em janeiro de 2025.
Nicarágua: o telefonema não atendido
A pedido do Papa Francisco, Lula tentou interceder junto a Daniel Ortega em favor do Bispo Rolando Álvarez, crítico do regime e então preso. Segundo o próprio Lula, Ortega sequer atendeu o telefonema.
Em agosto de 2024, a Nicarágua expulsou o embaixador brasileiro, e o Brasil respondeu expulsando a embaixadora nicaragüense. A antiga proximidade entre o PT e o sandinismo não bastou para que Ortega atendesse o Presidente brasileiro num pedido feito em nome do Papa, nem impediu a expulsão do embaixador do Brasil.
Ucrânia: a Casa Branca, a Criméia e o agradecimento de Lavrov
O Brasil votou na ONU pela condenação da invasão russa, e Lula afirmou que a Rússia não tinha o direito de invadir a Ucrânia. O que marcou a posição do Presidente, porém, foi o resto.
No início de abril de 2023, Lula sugeriu que a Ucrânia poderia abrir mão da Criméia para encerrar a guerra. Dias depois, em Pequim, ao lado de Xi Jinping, disse que os Estados Unidos precisavam parar de incentivar a guerra e que a Europa precisava começar a falar de paz. Afirmou também que a decisão de ir à guerra havia sido tomada pelos dois países. A Casa Branca reagiu com dureza rara: o porta-voz John Kirby disse que o Brasil estava repetindo propaganda russa e chinesa sem olhar os fatos.
Na mesma semana, em 17 de abril, o chanceler russo Serguei Lavrov esteve em Brasília. Após a reunião no Itamaraty, agradeceu ao Brasil pela "compreensão da origem da situação na Ucrânia".
Defender negociações não é, em si, uma posição pró-russa. Toda guerra termina em algum momento, e a pergunta decisiva é qual paz se propõe. Uma paz que entrega ao invasor o território tomado pela força ensina que a conquista armada compensa. Quando o Presidente de um país sugere que o invadido ceda parte de seu território, atribui a decisão de guerrear aos dois lados e é agradecido pela diplomacia do invasor por compreender "a origem da situação", é difícil sustentar que sua posição seja neutra.
Putin, Navalny e o Tribunal Penal Internacional
Em 17 de março de 2023, o Tribunal Penal Internacional (TPI) expediu mandado de prisão contra Vladimir Putin por crimes de guerra ligados à deportação ilegal de crianças ucranianas de territórios ocupados. O Brasil é parte do Estatuto de Roma, o tratado que criou o tribunal, e tem o dever de cooperar com ele.
Em 9 de setembro de 2023, durante a cúpula do G20 em Nova Délhi, Lula afirmou que, se Putin viesse ao Brasil para a reunião do G20 de 2024, "não tem como ele ser preso". Dois dias depois, recuou e disse que a decisão caberia à Justiça. Em seguida, o governo passou a defender a tese de que Chefes de Estado de países que não aderiram ao Estatuto de Roma teriam imunidade perante o tribunal. Era uma tese cuja aplicação prática beneficiaria exatamente o único chefe de Estado sob mandado do TPI cuja vinda ao Brasil estava em discussão. O próprio tribunal pensava de outro modo: em outubro de 2024, decidiu que a Mongólia, também parte do Estatuto, descumprira suas obrigações ao não prender Putin durante uma visita oficial.
Em 16 de fevereiro de 2024, Alexei Navalny, principal opositor de Putin, morreu numa prisão no Ártico, depois de já ter sobrevivido a um envenenamento. Líderes ocidentais responsabilizaram o Kremlin. No mesmo dia, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, classificou como "histérica" a reação ocidental. O governo brasileiro ficou em silêncio. Quando falou, em 18 de fevereiro, na Etiópia, Lula disse que era uma questão de bom senso esperar a investigação, perguntou para que essa pressa de acusar alguém, sugeriu que Navalny poderia estar doente e advertiu contra "banalizar" acusações.
Compare-se essa cautela com a linguagem que o mesmo presidente empregou, naquela mesma viagem, sobre Israel.
Israel: a comparação com o Holocausto
O Brasil defendeu cessar-fogo em Gaza, proteção dos civis palestinos e libertação dos reféns, posições que a maioria da Assembleia Geral da ONU também votou. O problema não foi a posição, mas foram as palavras do presidente.
Em fevereiro de 2024, durante a viagem à África, Lula comparou a ação militar israelense em Gaza ao que aconteceu "quando Hitler decidiu matar os judeus". Israel declarou Lula persona non grata, e o Brasil chamou de volta seu embaixador.
Criticar o governo de Benjamin Netanyahu, as mortes de civis e a proporcionalidade das operações militares é legítimo. A comparação com o Holocausto foi além da crítica à conduta militar israelense e deslocou o debate da situação humanitária em Gaza para a própria declaração presidencial. A conseqüência diplomática foi concreta: a frase comprometeu fortemente a capacidade do Brasil de ser aceito pelo governo israelense como interlocutor imparcial, justamente quando o governo dizia querer contribuir para a paz.
Sobre o Hamas, o governo reiterou a distinção jurídica segundo a qual o Brasil segue apenas a lista de organizações terroristas do Conselho de Segurança da ONU, na qual o grupo não consta. Essa posição coexistiu com a condenação brasileira dos ataques de 7 de outubro e da tomada de reféns. Um presidente que encontrou palavras para comparar Israel ao nazismo poderia ter encontrado palavras igualmente claras para chamar de terrorismo o assassinato deliberado de civis e o seqüestro de crianças.
BRICS: a diversidade como credencial de mediador
O terceiro governo Lula apostou no BRICS como instrumento de reforma da ordem internacional. O bloco cresceu e passou a incluir, além de Rússia e China, países como Irã, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia.
Trata-se de um grupo profundamente heterogêneo, que reúne democracias como Índia, Brasil, África do Sul e Indonésia ao lado de regimes autoritários. O governo transformou essa heterogeneidade em credencial. Em 6 de julho de 2025, na cúpula do Rio de Janeiro, Lula afirmou que a "representatividade e diversidade" do bloco o tornariam capaz de promover a paz e de prevenir e mediar conflitos.
A tese pode ser testada pelos próprios membros do bloco. A Rússia é parte direta na guerra contra a Ucrânia. O Irã fornece apoio financeiro, material e militar ao Hamas. Um agrupamento que reúne o invasor da Ucrânia e um dos sustentadores do Hamas dificilmente pode apresentar-se como mediador imparcial dessas mesmas guerras.
O tarifaço: três momentos
A crise tarifária com os Estados Unidos teve efeitos econômicos mensuráveis e pode ser dividida em três momentos.
2025: a escalada. Desde o início do ano, Donald Trump ameaçava os países do BRICS com tarifas caso o bloco avançasse em alternativas ao dólar. Em fevereiro de 2025, o governo brasileiro descartou propor uma moeda comum do bloco. Em 4 de julho, porém, às vésperas da cúpula do Rio, Lula voltou a defender uma moeda de comércio e mecanismos que reduzissem a dependência do dólar, e declarou que ninguém havia determinado que o dólar fosse a moeda padrão. Trump respondeu ameaçando com tarifas adicionais os países que apoiassem as políticas "antiamericanas" do grupo, e o PT lançou nas redes a campanha "Desdolarizai-vos!".
Em 9 de julho, Trump anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. A ordem executiva de 30 de julho justificou a medida, formalmente, com o processo contra Jair Bolsonaro e decisões do STF contra plataformas digitais americanas. No mesmo dia, o ministro Alexandre de Moraes foi sancionado com base na Lei Magnitsky. A desdolarização não foi a justificativa oficial, mas fazia parte do ambiente de tensão das semanas anteriores. A ordem trazia quase 700 exceções, como aeronaves civis, energia e suco de laranja. Segundo o MDIC, no pico da crise, 35,9% do valor exportado aos Estados Unidos ficou sujeito a sobretaxas de 40% ou 50%.
O café foi um dos setores mais atingidos. Segundo o Cecafé, entre agosto e novembro de 2025 as exportações brasileiras de café para os Estados Unidos caíram 54,9% em volume, de 2,917 milhões para 1,315 milhão de sacas. A entidade observa que a menor disponibilidade de café e os gargalos portuários também pesaram sobre as exportações do setor, mas atribui a queda específica das vendas aos Estados Unidos majoritariamente às tarifas.
Fim de 2025: a reaproximação parcial. O primeiro telefonema entre Lula e Trump para iniciar negociações só ocorreu em 6 de outubro, mais de dois meses depois da ordem executiva. O primeiro encontro pessoal foi em 26 de outubro, na Malásia. Em novembro, os Estados Unidos retiraram a sobretaxa de carne, café e outros produtos agrícolas. A Casa Branca citou progresso inicial nas negociações e a alta desses alimentos no mercado americano também pesou na decisão. A rodada de novembro concentrou o alívio em produtos agrícolas. Vários produtos industriais, como máquinas, motores e calçados, continuaram sujeitos à sobretaxa, embora outros, como aeronaves civis e determinados componentes, já estivessem entre as exceções de julho.
2026: a nova rodada. Em julho de 2026, os Estados Unidos aplicaram novas sobretaxas por outro fundamento legal: 25% resultante de uma investigação específica sobre o Brasil e 12,5% ligados a uma investigação sobre trabalho forçado nas cadeias globais de suprimento. Esta última atingiu 41 países, não apenas o Brasil. Segundo o MDIC, 16,5% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, como máquinas e equipamentos, madeira, calçados, móveis e confecções, passaram a pagar as duas sobretaxas somadas: 37,5%. Outros 52,7%, entre eles café, carnes, aeronaves e suco de laranja, ficaram livres de sobretaxas extraordinárias.
As exportações brasileiras aos Estados Unidos caíram de US$ 40,4 bilhões em 2024 para US$ 37,7 bilhões em 2025 e recuaram mais 13% no primeiro semestre de 2026. Parte dessa queda se deve ao petróleo e ao aço, e não apenas às tarifas. Depois de um telefonema entre Lula e Trump em 21 de agosto de 2026, os ministros Mauro Vieira e Márcio Elias Rosa reuniram-se com o representante comercial americano, Jamieson Greer, em 31 de agosto e, presencialmente, em 30 de setembro, quando foi criado um grupo de trabalho para discutir um possível acordo.
A menos de três meses do fim do mandato, não há acordo concluso, e parte relevante da pauta industrial brasileira continua sobretaxada. Durante a crise, o governo apresentou o conflito como questão de soberania. Os custos, porém, recaíram sobre os exportadores e os trabalhadores dos setores atingidos.
O que a defesa do governo dirá
O leitor que simpatiza com o governo dirá que o Brasil presidiu o G20 em 2024 e o BRICS em 2025, sediou a COP30 em Belém, vetou a Venezuela no BRICS, não reconheceu a eleição de Maduro e negociou com Washington a retirada de parte das tarifas.
Pode-se admitir tudo isso, e nada disso responde ao essencial. Sediar cúpulas é atividade diplomática, não resultado diplomático. O veto à Venezuela veio depois de um ano tratando a erosão democrática como "narrativa" e a democracia como conceito "relativo". A negociação com Washington, mais de um ano depois do início da crise, ainda não produziu acordo, enquanto parte da indústria continua pagando sobretaxas.
Princípios universais, aplicados seletivamente
Os episódios deste texto são diferentes e não se reduzem a uma única causa. Postos lado a lado, porém, mostram um contraste que qualquer leitor pode verificar.
Diante da Venezuela, o Presidente chamou de "narrativa" as críticas à erosão democrática e disse que o conceito de democracia é relativo. Diante do mandado do TPI contra Putin, afirmou que "não tem como ele ser preso", e o governo defendeu uma tese que o livraria da prisão. Diante da morte de Navalny, pediu calma e perícia. Diante de Israel, na mesma viagem, recorreu à comparação com Hitler. Diante da invasão da Ucrânia, sugeriu que o país invadido cedesse a Criméia, atribuiu a decisão de guerrear aos dois lados e foi agradecido pela Rússia por compreender "a origem da situação".
Conclusão
Os resultados. O terceiro governo Lula prometeu uma política externa ativa e altiva. Foi ativa: cúpulas, viagens, discursos, fotografias. Os resultados documentados são outros. As atas da eleição venezuelana nunca foram publicadas. A intercessão de Lula pelo Bispo Rolando Álvarez não foi atendida. Nenhuma mediação brasileira contribuiu para encerrar a guerra na Ucrânia. As relações com Israel deterioraram-se severamente. A disputa comercial com os Estados Unidos segue sem acordo final.
O padrão. O conjunto desses episódios revela uma aplicação seletiva dos princípios que o próprio governo diz defender: democracia, direitos humanos e direito internacional receberam pesos diferentes conforme o interlocutor. Esse padrão está entre os elementos mais negativos do balanço do terceiro governo Lula.




