Em 10 de março de 2025, Alexandre Padilha tomou posse como ministro da Saúde no lugar de Nísia Trindade, demitida por Lula duas semanas antes. Chegou anunciando que tinha “uma obsessão”: reduzir o tempo de espera por atendimento especializado no SUS. Dois meses depois, o governo lançou o programa que deveria materializar essa obsessão, o Agora Tem Especialistas.
Em junho de 2026, o Tribunal de Contas da União mediu o resultado. No componente de consultas e exames especializados, o programa havia executado 6,9% do que Estados e municípios planejaram para 2025.
Este texto trata da distância entre o que o governo anuncia na saúde e o que efetivamente chega ao paciente. Não é uma distância qualquer: na maior parte das áreas de um governo, um atraso pode ser recuperado; contudo, na saúde, o atraso mede-se em tumores que crescem, lesões que se tornam irreversíveis e pessoas que morrem esperando.
O programa-vitrine entregou menos de 7%
O SUS é administrado conjuntamente por União, Estados e municípios. Nem toda falha do sistema pode ser posta na conta do presidente, mas o Agora Tem Especialistas é um programa federal, criado, financiado e coordenado pelo Ministério da Saúde. Foi a aposta pessoal do ministro escolhido por Lula para a pasta. Aqui não há a quem transferir a responsabilidade.
O TCU examinou mais de 768 milhões de registros de saúde, visitou Estados e municípios e ouviu secretarias de todo o país. Em 2025, os componentes cirúrgico e ambulatorial do programa receberam cerca de R$ 3,3 bilhões. O resultado no componente ambulatorial foi de 6,9% da produção planejada. Essa produção, além disso, concentrava-se em poucos Estados, como São Paulo e Minas Gerais, enquanto outros não haviam registrado atividade alguma.
No componente cirúrgico, o Tribunal reconheceu que o número de cirurgias cresceu depois da pandemia, mas observou que boa parte desse crescimento era a simples recuperação da produção represada, e não efeito do programa. Em 2025, o ritmo de crescimento das cirurgias desacelerou drasticamente. A conclusão do TCU foi que o programa havia atingido um limite e não conseguia manter o desempenho dos anos anteriores.
O TCU constatou ainda que não havia processo estruturado de gerenciamento de riscos no programa. Também era difícil rastrear como o dinheiro estava sendo gasto, a ponto de o Ministério só ter criado um plano orçamentário específico depois da intervenção do Tribunal.
Três nomes em três anos para a mesma fila
O Agora Tem Especialistas não foi a primeira tentativa. Em 2023, o governo lançou o Programa Nacional de Redução das Filas. Em 2024, veio o Mais Acesso a Especialistas. Em 2025, o Agora Tem Especialistas incorporou o anterior.
Três programas em três anos podem ser apresentados como “aprimoramento contínuo”, mas o que a auditoria mostra é outra coisa: a cada ano mudava o nome e o lançamento no Palácio do Planalto, e o resultado medido pelo órgão de controle continuava muito abaixo do prometido. Trocar a embalagem de uma política que não entrega é uma prática de marketing, não de gestão.
O governo não sabia sequer quem estava na fila
Reduzir uma fila exige, antes de tudo, conhecer a fila: quem espera, desde quando, por qual procedimento, com que urgência e em que unidade há vaga disponível.
O TCU verificou que a Rede Nacional de Dados em Saúde registrou apenas 6,8% das cirurgias realizadas em 2024. Isso não significa que só 6,8% das cirurgias foram feitas. Significa que o sistema nacional criado para acompanhá-las enxergava menos de uma em cada catorze. Muitos municípios não conseguiam integrar seus dados ao sistema federal.
Um dos objetivos formais do próprio Agora Tem Especialistas é dar transparência às listas de espera e informar o paciente sobre sua posição e o tempo estimado de atendimento. Com uma base de dados que registra 6,8% das cirurgias, essa promessa não pode ser cumprida. O paciente continua esperando um telefonema que não sabe quando virá, e o gestor continua decidindo com um painel quase vazio.
O próprio TCU classificou as filas como alto risco
A gravidade da situação levou o Tribunal a incluir a fiscalização do programa na Lista de Alto Risco da Administração Pública Federal de 2026. A justificativa foi explícita: a espera excessiva por tratamentos e cirurgias pode levar o paciente a óbito.
Uma fila de cartório é um incômodo. Uma fila de saúde é diferente, porque o paciente muda enquanto espera. A catarata avança e tira a independência do idoso. A doença cardíaca não diagnosticada produz um infarto. O nódulo que poderia ser retirado vira metástase.
Câncer: mais da metade dos diagnósticos chega tarde
Em março de 2025, o TCU publicou novo monitoramento da política nacional de combate ao câncer. A constatação foi que mais da metade dos diagnósticos continuava ocorrendo em estágio avançado, quando as chances de cura já são menores.
O problema não nasceu neste governo. O Tribunal havia feito determinações em 2019, mas o atual governo teve mais de dois anos para mudar o quadro antes desse monitoramento, e o TCU considerou que os avanços ainda não eram expressivos. Entre as falhas apontadas nas fiscalizações estavam centrais de regulação que não preenchiam todas as vagas disponíveis, falta de critérios de prioridade para pacientes com suspeita de câncer e ausência de controle do tempo de espera em alguns estados.
Em outras palavras: pode haver paciente com suspeita de câncer esperando enquanto existe vaga sem uso. Isso não se explica por falta de dinheiro. Explica-se por falta de coordenação.
A lei já fixa prazos. A Lei nº 13.896/2019 garante exames diagnósticos em até 30 dias quando há suspeita de câncer. A Lei nº 12.732/2012 garante o início do tratamento em até 60 dias após o diagnóstico. Se mais da metade dos casos chega já avançada, o relógio legal está começando a contar tarde demais.
Imagine uma mulher que encontra um nódulo. Ela espera a consulta, depois o exame de imagem, depois a biópsia, depois o laudo, depois a vaga no centro oncológico. Cada etapa pode estar formalmente “funcionando”. Se cada uma acrescentar algumas semanas, o resultado é um diagnóstico tardio produzido por um sistema que, no papel, não falhou em nada.
Dengue: a maior epidemia da história do país
Em 2024, o Brasil registrou mais de 6,6 milhões de casos prováveis de dengue e mais de 6 mil mortes. Em relação a 2023, os casos cresceram cerca de 300% e os óbitos, mais de 400%. O próprio Ministério da Saúde classificou o episódio como a maior epidemia de dengue da história nacional.
Seria desonesto culpar o governo pelo El Niño ou pelas temperaturas recordes, que ajudam a explicar a dimensão do surto. Também seria desonesto ignorar o que o próprio Ministério afirma em sua página oficial: a quase totalidade dos óbitos por dengue é evitável e depende sobretudo da qualidade da assistência e da organização da rede.
A pergunta que importa, portanto, não é se o governo poderia controlar o clima, mas se a rede estava preparada para reconhecer a tempo os sinais de gravidade em milhões de pacientes. Seis mil mortes por uma doença que o próprio Ministério considera quase sempre evitável são a resposta.
O Ministério sabia que os casos iam aumentar e incorporou a vacina Qdenga ao SUS em 2024. A produção mundial era limitada, e não havia doses para todos. Mesmo assim, parte das poucas doses disponíveis corria risco de vencer nos estoques municipais. O Ministério precisou editar notas técnicas, em março e em junho de 2024, para redistribuir doses perto do vencimento e ampliar temporariamente o público elegível. Esses documentos não provam que houve desperdício mas provam que, num país com falta de vacina, a vacina comprada também não estava chegando ao braço das pessoas.
Hospitais federais do Rio: reestruturação sem estudo
O Ministério da Saúde administrava seis hospitais federais no Rio de Janeiro: Bonsucesso, Andaraí, Cardoso Fontes, Lagoa, Ipanema e Servidores do Estado. Juntos, eles respondem por cerca de 10% dos leitos hospitalares do município e gastam aproximadamente R$ 2 bilhões por ano.
O governo decidiu descentralizar a gestão dessas unidades, transferindo-as ao Grupo Hospitalar Conceição, ao Município do Rio, à Fiocruz e à Ebserh. Em agosto de 2026, o TCU apontou insuficiência dos estudos técnicos de viabilidade e impacto que fundamentaram a decisão, além de fragilidades no planejamento orçamentário e financeiro e deficiências no controle de freqüência dos servidores.
O Tribunal foi além: deu ciência ao Ministério da Saúde de que descentralizar unidades de saúde sem estudos técnicos suficientemente fundamentados contraria a legislação. Advertiu também que definir os valores transferidos sem demonstrar critérios e estimativas compromete a motivação do planejamento.
É preciso separar responsabilidades. O uso indevido de verba de custeio do SUS para construir emergências nos hospitais do Andaraí e Cardoso Fontes foi cobrado do Município do Rio, mas a decisão de reestruturar seis hospitais sem o estudo que a lei exige é do governo federal. Quando se mexe na gestão de um décimo dos leitos de uma das maiores cidades do país, a falta de estudo técnico não é um detalhe formal. Quem chega à emergência no dia seguinte sente o efeito.
R$ 240 bilhões e um terço das ações abaixo do previsto
Em 2025, a função Saúde representou mais de R$ 240 bilhões do orçamento da União. Ao auditar esses recursos, o TCU constatou que 32,2% das ações analisadas tiveram execução física abaixo do referencial de 95% adotado pelo Tribunal. Entre elas estavam a aquisição e a distribuição de vacinas e de insumos para o controle de doenças.
Não se trata de dinheiro que deixou de ser gasto. Trata-se de bens e serviços que não foram entregues no ritmo previsto. O cidadão não usa empenho nem transferência: usa a vacina, o exame, a cirurgia.
Na mesma auditoria, o TCU registrou que o Programa 5120 – Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde sofreu redução de cerca de 63% em sua dotação inicial. Para um governo que fala constantemente em soberania sanitária e em reindustrialização da saúde, cortar quase dois terços da dotação inicial da pesquisa em saúde é uma contradição difícil de explicar.
O Tribunal apontou ainda que, em 2025, 43% das despesas discricionárias da saúde foram financiadas por emendas parlamentares. O relator, ministro Benjamin Zymler, alertou que recursos temporários estão custeando despesas permanentes e que municípios correm o risco de ficar dependentes de parlamentares. Aqui é preciso ser justo: o peso das emendas é em grande parte obra do Congresso e do orçamento impositivo. A minha interpretação, e é uma interpretação, é que o governo aceitou esse arranjo e o usou como moeda de troca para garantir apoio político, em vez de lutar para devolver previsibilidade ao financiamento da saúde.
Conitec: quem decide o que entra no SUS
Em março de 2026, o TCU auditou a Conitec, comissão que avalia quais medicamentos, exames e tratamentos o SUS vai oferecer. O Tribunal encontrou membros nomeados sem comprovação de experiência ou formação em avaliação de tecnologias, integrantes em situação de potencial conflito de interesses, relatórios técnicos deficientes e falhas nas avaliações econômicas.
Algumas tecnologias foram recomendadas para incorporação com evidências clínicas de qualidade inferior ou sem relação adequada de custo-benefício. O TCU determinou ao Ministério que monitorasse se os preços pagos nas compras correspondem aos ofertados durante a avaliação e que definisse quem é responsável por garantir que as tecnologias incorporadas cheguem de fato ao paciente.
Esse ponto merece atenção do cidadão. Quando o governo anuncia que um medicamento foi “incorporado ao SUS”, isso não significa que ele estará na farmácia na semana seguinte. Para quem tem uma doença que avança rápido, um tratamento aprovado no papel e indisponível na prática vale exatamente zero.
O que a defesa do governo dirá
O leitor que simpatiza com o governo dirá que a cobertura vacinal se recuperou depois de 2022, que o Mais Médicos foi retomado, que o Farmácia Popular foi ampliado e que a própria auditoria reconhece o aumento das cirurgias.
Pode-se admitir tudo isso, e nada disso responde ao que está documentado aqui. O governo escolheu as filas como sua prioridade declarada e nomeou um ministro com essa missão. Lançou três programas com esse objetivo, e o órgão de controle concluiu que o programa principal entregou menos de 7% do planejado no componente ambulatorial, não tinha gestão de riscos e operava com dados que cobriam 6,8% das cirurgias. A promessa central deste governo na saúde não foi cumprida.
O tempo biológico não volta
Uma estrada atrasada pode ser conclusa no ano seguinte. Um sistema de informática pode ser corrigido. Dinheiro desperdiçado pode, às vezes, ser recuperado.
O tempo de uma doença, não. O câncer que avançou não volta ao estágio inicial porque a fila finalmente andou. A visão perdida durante a espera não retorna. A pessoa que morreu de dengue não se beneficia da melhora do hospital seis meses depois.
Por isso, um governo não pode ser avaliado na saúde pelo número de programas lançados, pelo tamanho do orçamento ou pela quantidade de anúncios no Palácio do Planalto. A pergunta é se ele conseguiu transformar dinheiro em diagnóstico rápido e tratamento a tempo. As auditorias do TCU respondem que, no terceiro governo Lula, não conseguiu e, na saúde, cada mês de distância entre a promessa e a entrega é pago pelo paciente.



