No dia 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente: 47,03% dos votos válidos, mais de 56,1 milhões de votos, contra 45,16% de Lula. A diferença é de cerca de 2,2 milhões de votos. Nada está decidido. Eleições apertadas existem, e é justamente nelas que cada voto pesa.
Esta é a última parte da série. Durante dezessete textos, descrevi o terceiro governo Lula com documentos do próprio governo, do TCU, do IBGE, do Banco Central e de outros órgãos públicos. Não pedi que ninguém confiasse em mim: pus a fonte ao lado de cada número. Agora digo, sem rodeios, o que concluo de tudo isso. No dia 25, voto em Flávio Bolsonaro, e quero convencê-lo a fazer o mesmo.
O que quatro anos de Lula deixaram
A conta chegou para você. A dívida bruta saltou de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 82,9% em agosto de 2026, enquanto a arrecadação federal crescia mais de 7% acima da inflação e a carga tributária do governo geral, que soma União, estados e municípios, batia recorde de 32,4% do PIB em 2025. Mesmo assim, o TCU calculou que o resultado federal de 2025 ficou cerca de 2,4 pontos do PIB aquém do necessário só para estabilizar a dívida (Parte I). O nível de preços subiu cerca de 18% desde janeiro de 2023, e em 2025 o país descumpriu formalmente a meta de inflação (Parte V). O governo gosta de exibir o desemprego baixo. A Serasa mostra o outro lado: em 2026, 49,9% dos adultos brasileiros estavam inadimplentes, contra 39,2% em 2016.
Os Correios afundaram. A estatal saiu de um prejuízo de R$ 597 milhões em 2023 para um prejuízo de R$ 8,5 bilhões em 2025 e precisou contratar R$ 12 bilhões em empréstimos com garantia da União. O próprio TCU apontou “atuação tardia do controlador” (Parte III).
Os aposentados foram lesados. Mais de 6,2 milhões de pedidos declararam não reconhecer descontos feitos sobre aposentadorias: descontos não autorizados, num esquema investigado como fraude. O TCU havia apontado falhas graves nos controles do INSS em junho de 2024, quase um ano antes de a Operação Sem Desconto vir a público (Parte II). Não acuso Lula de ter participado do esquema. Acuso seu governo de não ter controlado aquilo pelo qual era responsável, mesmo depois de alertado.
A censura ganhou estrutura. O governo criou uma procuradoria que pode pedir às plataformas ou à Justiça a remoção de conteúdos que ele próprio classifica como desinformação lesiva às suas políticas. Depois, sem lei aprovada pelo Congresso, editou um decreto que impôs às plataformas o dever de avaliar notificações e, em determinadas hipóteses, indisponibilizar conteúdos sem prévia ordem judicial (Parte VIII).
A vida foi a primeira vítima. Dezessete dias depois da posse, o Brasil deixou o Consenso de Genebra, cuja plataforma afirma não existir direito internacional ao aborto. Na mesma quinzena, o Ministério da Saúde revogou a portaria que mandava comunicar à polícia os casos de aborto decorrente de estupro, e o governo apresentou essas medidas à ONU como remoção de “barreiras” (Parte VI).
A família e a disciplina perderam lugar na escola. Lula revogou a política de alfabetização que reconhecia a família como agente do processo e encerrou o programa federal de escolas cívico-militares. Os dados disponíveis não sustentavam essa decisão. Em Goiás, um estudo publicado pela Enap comparou escolas antes e depois de adotarem o modelo, contra escolas semelhantes que não o adotaram. Encontrou ganhos de 15,25 pontos em matemática e de 11,61 em português, e o efeito praticamente dobrava após sete anos. Nas escolas do próprio programa federal, uma pesquisa da UFMG registrou queda da distorção idade-série, da reprovação e do abandono no ensino fundamental. Enquanto isso, só 28% dos nossos adolescentes atingem o nível básico em matemática (Parte VII). O governo acabou com um modelo que mostrava resultados num país que não sabe fazer conta.
Cultura e políticas identitárias. Projetos incentivados pela Rouanet captaram R$ 8,81 bilhões em três anos. O governo anterior havia reduzido o cachê máximo de artista solo de R$ 45 mil para R$ 3 mil; Lula o elevou para R$ 25 mil por apresentação. Nos cargos de confiança, para que alguém seja contado como pessoa negra na meta mínima de 30%, um decreto passou a exigir, além da autodeclaração, traços fenotípicos (Parte XVI).
Ordem e propriedade. O próprio Ministério da Justiça identificou pelo menos 88 facções no sistema prisional, e o TCU constatou que só 54% dos planos do principal programa de fronteiras foram executados (Parte X). Segundo levantamento da CNA com dados do Ministério da Justiça, divulgado pelo O Globo, o MST registrou nos primeiros oito meses de 2023 mais ocupações do que nos quatro anos do governo anterior. Uma área de pesquisa da Embrapa foi invadida três vezes pelo mesmo movimento (Parte XI).
Saúde e obras no papel. O programa-vitrine da saúde entregou 6,9% do planejado no componente ambulatorial (Parte XII). Das 255 obras de abastecimento de água selecionadas pelo Novo PAC, duas ficaram prontas, e uma em cada cinco obras iniciadas sob este governo parou em menos de um ano (Parte XIII).
Lá fora, os amigos de sempre. Na política externa, democracia e direitos humanos pesaram de forma diferente conforme o interlocutor (Parte XIV). Lula chamou de “pura ignorância” as críticas aos financiamentos do BNDES no exterior quando o fundo garantidor já havia indenizado centenas de milhões de dólares por inadimplências da Venezuela, de Cuba e de Moçambique (Parte XV) e, enquanto defendia, diante do mundo, a transição para longe dos combustíveis fósseis, o governo autorizou a perfuração exploratória da Petrobras no bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas (Parte XVII).
Os detalhes e as fontes estão em cada parte e no índice da série.
O PT de sempre
Lula pede um quarto mandato. O PT governou o país por mais de dezessete dos últimos vinte e quatro anos. Não estamos diante de uma promessa, mas de um histórico.
No Mensalão, o Supremo condenou por corrupção ativa o ministro-chefe da Casa Civil de Lula, o presidente e o tesoureiro do PT. Na Petrobras, a própria estatal baixou R$ 6,194 bilhões em ativos inflados por pagamentos indevidos entre 2004 e 2012 e pagou US$ 2,95 bilhões a investidores nos Estados Unidos. Dilma Rousseff, escolhida e eleita por Lula, entregou uma das piores recessões da nossa história: o PIB caiu 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016, com inflação de 10,67% no primeiro desses anos.
As condenações de Lula na Lava Jato foram anuladas porque o Supremo declarou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba e, no caso do triplex, a suspeição de Sergio Moro. Hoje não subsiste condenação penal válida contra ele nesses processos, mas nenhuma dessas decisões foi uma absolvição de mérito. As investigações das chamadas “rachadinhas” no antigo gabinete de Flávio, por sua vez, foram invalidadas pelo STJ e pelo Supremo, que anularam decisões e provas por problemas de competência, de fundamentação e de obtenção dos relatórios financeiros. Flávio nunca foi condenado. Muitos que tratam a anulação dos processos de Lula como prova de inocência tratam a de Flávio como tramóia. Quando a decisão favorece Lula, a Justiça vale; quando favorece Flávio, a Justiça falhou. Quem decide quando uma decisão judicial serve?
Nas últimas semanas, reportagens levantaram suspeitas sobre a relação de Flávio com o advogado Willer Tomaz, alvo da Operação Sem Desconto, e Flávio nega-as. Aplico a ele o mesmo critério que aplico a todos: as apurações relacionadas ao caso do INSS devem chegar até onde as provas levarem, inclusive quando envolvam pessoas próximas de Flávio ou relações mantidas por ele. Investigação não é condenação, e suspeita não é prova. Se surgirem provas de crime contra qualquer pessoa, que ela responda por isso.
O duplo critério também aparece em outro lugar. Querem pôr na conta de Flávio tudo o que o pai fez, enquanto Lula não teria culpa de nada do que aconteceu em quase duas décadas de governos do seu partido. Flávio não é Jair Bolsonaro. É outro homem, com outra trajetória, e responde pelo que ele mesmo fizer. Lula, por sua vez, não é um parente distante dos governos do PT: é o autor deles. Governou oito anos, escolheu Dilma, comandou o partido durante o Mensalão e o Petrolão e governa outra vez. Responsabilizar Flávio pelo pai é culpa por associação. Responsabilizar Lula pelos governos do PT é cobrar de alguém aquilo que ele mesmo fez e escolheu.
Lula contra Bolsonaro
Flávio não é o pai, mas é inevitável comparar os dois últimos governos, até porque o próprio Lula vive fazendo isso.
Mesmo depois de enfrentar uma pandemia, o governo Bolsonaro entregou a dívida bruta em 71,7% do PIB, e o governo central fechou 2022 com superávit primário, o primeiro desde 2013. Lula chega a agosto de 2026 com essa dívida 11,2 pontos mais alta (Parte I). A Petrobras teve em 2022 lucro líquido recorde de R$ 188,3 bilhões. O governo anterior aprovou a Reforma da Previdência, a Lei da Liberdade Econômica, o Marco do Saneamento e a autonomia do Banco Central, e foi durante ele que o Banco Central lançou o PIX. Assinou o Consenso de Genebra em defesa da vida, enquanto Lula o abandonou em dezessete dias (Parte VI). O MST registrou, reitero, em oito meses de Lula, mais ocupações do que em quatro anos de Bolsonaro.
Para mim, Jair Bolsonaro foi o melhor Presidente desde a redemocratização, mas não é ele quem disputa a Presidência nesta eleição: é Flávio.
O que o PT diz de si mesmo
Ninguém precisa adivinhar as intenções do PT. Basta ler o que ele escreve.
O programa partidário aprovado em abril de 2026 afirma: “O PT se afirma como partido de esquerda, democrático, socialista”. No III Congresso Nacional do PT, em 2007, foi aprovada “a defesa da descriminalização do aborto e da regulamentação do atendimento de todos os casos no serviço público”, como registra a própria Fundação Perseu Abramo, ligada ao partido. O programa de governo de Lula não usa a palavra “aborto”, mas promete “garantir os direitos sexuais e reprodutivos”. É a mesma linguagem que o governo empregou no contexto de medidas entre as quais estiveram a saída do Consenso de Genebra e a revogação da portaria de 2020 (Parte VI). O programa promete também “avançar ainda mais na regulação democrática das redes sociais e das plataformas digitais”. À luz da procuradoria e do decreto da Parte VIII, é precisamente o “ainda mais” que me preocupa. O programa é franco sobre o objetivo: “Nossa tarefa é derrotar o projeto liberal-conservador”.
O PT está federado com o PCdoB, o Partido Comunista do Brasil, e coligado com o PSOL, o Partido Socialismo e Liberdade, e com o PSB, o Partido Socialista Brasileiro, que é o partido do vice de Lula. Em 1959, o Santo Ofício, com a confirmação de São João XXIII, respondeu que não é permitido aos católicos dar o voto a partidos ou candidatos que, mesmo sem proclamar princípios contrários à doutrina católica, se associam de fato aos comunistas e os favorecem por sua ação. Sei que essa antiga disciplina foi superada pelo Código de Direito Canônico de 1983, cujo cân. 6, § 1, 3.º, ab-rogou as leis penais anteriores da Sé Apostólica não conservadas no novo Código. A mudança, porém, não tornou cristãos os princípios do comunismo e do socialismo marxista. Reduzir o homem às suas condições materiais e explicar a consciência, a moral, a religião e a cultura pela luta de classes continua incompatível com a doutrina católica (Catecismo, nn. 2423–2425; Libertatis nuntius, VII, 9; VIII, 8). Pio XI já o dissera sem rodeios em 1931, e precisamente a respeito do socialismo que se moderara e renunciara à violência: “Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista” (Quadragesimo anno, n. 120).
Combater injustiças é um dever cristão. Submeter toda a realidade humana a uma ideologia materialista e revolucionária é outra coisa. É isso que está em jogo quando um partido se declara, no próprio programa, “socialista” e se une a partidos que trazem comunismo e socialismo no próprio nome. A pena canônica mudou; a incompatibilidade, não. Entendo, por isso, que o juízo moral contido na resposta de 1959 continua válido para uma candidatura assim.
Aliás, o vice de Lula sabe muito bem quem ele é. Em 2017, Geraldo Alckmin disse que Lula queria “voltar à cena do crime”. Alckmin não se converteu. Mudou de lado.
Por que Flávio
O programa de Flávio, registrado no TSE, declara como valores inegociáveis “o respeito à liberdade, à família, à vida desde a concepção, à propriedade privada, à democracia, à liberdade de expressão e à liberdade religiosa”. Dos dois programas que disputam o segundo turno, foi o único a defender a vida desde a concepção. É o primeiro critério, e Flávio cumpre-o. Lula eu julgo por resultados; Flávio, pela direção do que propõe, pela trajetória e pela equipe. É essa direção que me convence.
Família e escola. O programa afirma que “quem decide sobre os valores que o filho recebe são os pais”. Promete priorizar o método fônico, “que é o de melhor resultado comprovado pela ciência”, e ampliar as Escolas Cívico-Militares. Promete também vouchers educacionais quando faltar vaga na rede pública, para que a família escolha a escola dos filhos. Promete ainda expandir o ensino técnico e criar parcerias com o setor produtivo para o primeiro emprego. É o oposto da política que tirou a família da alfabetização.
Liberdade e Supremo. Flávio propõe o “Tesouraço na Censura”, o fim do uso político das instituições para perseguir cidadãos e idéias e limites ao monitoramento do Estado no ambiente digital. Propõe também uma reforma do Judiciário com “o STF como Corte Constitucional”. Sob a rubrica “fim das decisões monocráticas”, o programa propõe limitar as decisões individuais dos ministros e fortalecer as decisões colegiadas.
Há quem lembre que a campanha de Flávio foi ao TSE contra uma rede de perfis que lhe atribuía posições que ele nega: privatizar o SUS, acabar com o Bolsa Família e o 13º, dar um golpe. A ação pede a cassação da chapa Lula-Alckmin, a suspensão de 32 perfis, a remoção de 221 publicações, a quebra de sigilo de perfis anônimos e multas às plataformas (Poder360). Para mim, a campanha de Lula fez terrorismo eleitoral, e Flávio reagiu como a lei permite. Isso nada tem a ver com o que o PT deseja. Nossa legislação já tem meios de coibir a mentira:
- o Código Eleitoral pune quem divulga fatos que sabe serem inverídicos (art. 323);
- o mesmo Código tipifica a calúnia, a difamação e a injúria eleitorais (arts. 324 a 326);
- a Lei das Eleições garante o direito de resposta (art. 58).
Flávio usou esses meios diante de um juiz, num processo com contraditório e direito de defesa. O PT construiu uma estrutura do próprio Executivo para pressionar plataformas a remover o que o governo classifica como desinformação sobre suas políticas, em certos casos sem ordem judicial. No primeiro caso, uma das partes recorre à Justiça. No segundo, o governo se faz fiscal do que se pode dizer sobre ele mesmo.
Fim da reeleição. Lula pede um quarto mandato. Flávio propõe acabar com a reeleição para os cargos do Executivo, para reduzir o uso da máquina pública em benefício próprio. A diferença entre os dois cabe nessa proposta.
Segurança. O programa trata as facções criminosas como organizações narcoterroristas, cria um Sistema Nacional de Fronteira e propõe reduzir a maioridade penal para 16 anos nos crimes graves, como homicídio, latrocínio, tráfico e participação em facções. Anuncia que “o Brasil terá 5 novos presídios de segurança máxima no modelo adotado por El Salvador”. Somados aos cinco presídios federais atuais, eles formariam um complexo para isolar chefes de facção, “sem celular, sem visita íntima e com visitas monitoradas”. Em parceria com os estados, o programa promete ainda “meio milhão de novas vagas no sistema prisional em 4 anos”.
Quem se escandaliza com isso deveria ler o que o próprio governo Lula publicou. Ao final de 2025, havia 727.301 pessoas em celas físicas, num sistema superlotado, e o Ministério da Justiça identificou pelo menos 88 organizações criminosas atuando dentro dele (Parte X). Não é coincidência que o PCC e o Comando Vermelho tenham nascido nas prisões. Onde o Estado não controla a cela, a facção controla. Ali ela recruta o preso que ainda não tinha vínculo com o crime, transmite ordens para fora dos muros e organiza extorsões, roubos e ataques. Isolar os chefes, cortar a comunicação e criar vagas tira das facções o lugar onde elas mais crescem.
Há também uma razão humanitária. Amontoar pessoas em celas superlotadas, sob o domínio de facções, ofende a dignidade de quem está preso, e o Estado deve garanti-la a todos, inclusive aos condenados. O jovem que entrou por um crime menor é a primeira vítima de um sistema em que a facção manda. O Plano Pena Justa, do governo Lula, responde à superlotação priorizando a redução do encarceramento. Flávio responde construindo presídios e tirando o comando das facções.
Economia e impostos. O governo Lula criou ou aumentou tributos 36 vezes em 39 meses, segundo levantamento da Gazeta do Povo: um a cada 33 dias. Flávio orientou sua equipe a desfazer isso. Sua coordenadora econômica, Daniella Marques, anunciou que a campanha trabalha “na revogação e em voltar atrás em todos os impostos criados ou elevados pelo Haddad”. O programa promete ainda:
- rever a reforma tributária, que caminha para um dos maiores IVAs do mundo, projetado em cerca de 30%;
- reduzir os impostos sobre energia elétrica, combustíveis, gás, alimentos e construção civil.
O pai de Flávio fez isso quando governou: cortou o IPI em até 35%, zerou tributos federais sobre combustíveis e sancionou a lei que limitou o ICMS sobre energia, combustíveis e telecomunicações. Lula fez o contrário.
Flávio promete também ampliar a Lei da Liberdade Econômica, dar segurança jurídica ao produtor rural e aprovar automaticamente o licenciamento quando o Estado estourar o prazo de analisá-lo. Promete mobilizar R$ 900 bilhões em quatro anos para rodovias, hidrovias, portos, aeroportos e ferrovias, num modelo apoiado em investimento privado, PPPs, concessões e financiamento do BNDES. Promete construir 2,5 milhões de moradias pelo Casa Verde e Amarela e estabelece como meta um crescimento sustentado de 4% ao ano ao longo da próxima década. Estou convencido de que impostos menores, crescimento, moeda estável, emprego e aumento do poder de compra oferecem aos pobres uma saída muito mais duradoura do que a dependência permanente de transferências estatais. Por isso o programa propõe proibir o uso dos recursos dos programas sociais em apostas: o benefício deve ir para a comida, a moradia e as necessidades da família, não para as bets.
INSS e serviços públicos. O governo Lula deixou os descontos não autorizados correrem por quase um ano depois do alerta do TCU. Flávio propõe usar inteligência artificial e cruzamento de dados para prevenir fraudes e acabar com as filas do INSS, com tecnologia, mais servidores e mutirões de atendimento.
Saúde. Durante mais da metade do mandato, Lula entregou o Ministério da Saúde a Nísia Trindade, socióloga sem formação em Medicina. Logo na primeira quinzena de governo, sua gestão revogou a portaria que mandava comunicar à polícia os casos de aborto decorrente de estupro. Depois, duas secretarias do ministério editaram uma nota técnica que tentava eliminar o limite gestacional para o aborto legal (Parte VI). Essas decisões saíram do mesmo ministério cujo programa-vitrine entregou 6,9% do planejado no componente ambulatorial (Parte XII). Flávio anunciou que seu ministro da Saúde será Claudio Lottenberg: médico, presidente do Hospital Israelita Albert Einstein durante quinze anos, hoje presidente de seu Conselho Deliberativo, ex-dirigente da UnitedHealth no Brasil e ex-secretário de Saúde em São Paulo.
Mulheres. O programa traz o Brasil por Elas. Promete punição mais severa aos agressores, delegacias especializadas fortalecidas e denúncia e medidas protetivas pelo celular. Promete também vagas em creche e o voucher-creche quando faltar oferta pública, além de garantir que a categoria feminina no esporte seja reservada a mulheres.
Dizem que Flávio “nunca trabalhou”. Foi eleito deputado estadual quatro vezes e é senador desde 2019. Representar milhões de eleitores é trabalho. Dizem também que é “gravíssimo” ele querer mudar a Constituição. Propor uma emenda não é antidemocrático nem inconstitucional: a própria Constituição o prevê no art. 60, com aprovação por três quintos de cada Casa, em dois turnos, respeitadas as cláusulas pétreas, e já recebeu mais de 130 emendas desde 1988. O que se julga é o conteúdo de cada proposta, não o fato de propô-la.
A comparação não é simétrica
Muita gente acha que, para comparar dois candidatos com honestidade, é preciso encontrar neles defeitos equivalentes. Não é. O que se compara é a natureza, a gravidade e as conseqüências do que cada um fez e promete fazer.
Há uma assimetria real entre eles. Lula tem quatro anos recentes à frente do Executivo federal, além de dois mandatos anteriores, e esta série avaliou-os. Flávio nunca governou o país, e seu eventual governo precisa ser julgado pela trajetória, pelo programa e pela equipe. Muitos tratam o pior cenário imaginado para Flávio como certeza e a realidade comprovada de Lula como detalhe. Assim acabam tolerando um mal conhecido para evitar um mal suposto.
Há, além disso, uma hierarquia entre os bens em jogo. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja ensina, no n. 553: “A promoção da dignidade humana implica, antes de tudo, a afirmação do direito inviolável à vida, desde a concepção até à morte natural, primeiro entre todos e condição para todos os outros direitos da pessoa”. Três dias antes do segundo turno de 2010, Bento XVI disse aos Bispos do Brasil que seria “totalmente falsa e ilusória” qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até a morte natural.
O argumento, portanto, é este. O aborto é matéria moral intrinsecamente grave. As duas candidaturas apresentam diferenças objetivas sobre a proteção jurídica da vida. A Presidência tem meios reais de afetar essa proteção, sobretudo pelas indicações ao Supremo. Logo, quem vota na candidatura mais permissiva precisa de uma razão moralmente proporcional. É a distinção que o então cardeal Joseph Ratzinger expôs num memorando de 2004: votar num candidato por causa de sua posição favorável ao aborto é cooperação formal com o mal; votar nele apesar dela, por outras razões, só é admissível na presença de razões proporcionais.
Que razão seria essa? Bispos que enfrentaram a pergunta responderam que é difícil sequer imaginá-la. “O que é uma razão proporcional para justificar o favorecimento da eliminação de uma vida humana inocente e indefesa?”, perguntou o Arcebispo Raymond Burke em 2004, acrescentando que é difícil imaginar qual seria. No mesmo ano, em artigo publicado no Wall Street Journal, o Arcebispo John Myers enumerou exatamente os argumentos que hoje se ouvem em favor de Lula: políticas de assistência social, segurança nacional, previdência ou impostos, “tomadas isoladamente ou em qualquer combinação, não fornecem uma razão proporcional para votar em um candidato pró-aborto”. Em 2008, os Bispos Kevin Farrell e Kevin Vann foram ainda mais longe: não existem razões “verdadeiramente graves do ponto de vista moral” ou “proporcionais”, “isoladas ou combinadas”, capazes de superar os milhões de vidas humanas inocentes eliminadas pelo aborto legal a cada ano. Para eles, só se pode votar em boa consciência num candidato que apóia um mal intrínseco quando não há outro que não o apóie. Neste segundo turno, há. O Arcebispo Charles Chaput deu o critério mais claro: uma razão proporcional, no caso do aborto, “é aquela que seríamos capazes de explicar, de coração limpo, às vítimas do aborto quando as encontrarmos face a face na próxima vida”. Ao católico que pensa em votar em Lula, pergunto: qual seria a sua?
O Supremo: o que não termina com o mandato
Um Presidente governa quatro anos. Um ministro do Supremo pode permanecer no tribunal até os 75 anos. Cristiano Zanin, indicado por Lula em 2023, pode ficar até 2050. Flávio Dino, até 2043.
A cadeira de Luís Roberto Barroso está vazia desde outubro de 2025. Lula indicou Jorge Messias, seu advogado-geral da União, e o Senado rejeitou-o em abril por 42 a 34, a primeira rejeição de um indicado ao Supremo em 132 anos. Pela aposentadoria compulsória, Luiz Fux deixará o tribunal em 2028, Cármen Lúcia em 2029 e Gilmar Mendes em dezembro de 2030.
Há, portanto, dois cenários. Se a cadeira de Barroso continuar vaga até a posse, o próximo Presidente poderá indicar até quatro ministros. Ao fim de 2030, oito dos onze ministros terão sido indicados por Lula ou Dilma se Lula vencer, contra quatro se Flávio vencer. Se Lula preencher a vaga ainda em 2026, restarão três indicações, e os indicados por Lula ou Dilma serão oito se Lula vencer e cinco se Flávio vencer. Em qualquer dos cenários, a diferença é enorme.
Há quem se tranqüilize porque o Senado mostrou que sabe dizer não. É ingenuidade. O Senado pode rejeitar um nome, mas não escolhe quem será indicado. Quem escolhe é o Presidente, e Lula teria quatro anos para encontrar quem passe. Os três nomes que ele escolheu neste mandato foram seu advogado pessoal, seu ministro da Justiça e seu advogado-geral da União. Quem imaginava, quando Alexandre de Moraes foi indicado, que ele se tornaria o ministro que é hoje?
O que esses ministros decidirão? Na ADPF 442, o PSOL, aliado eleitoral de Lula em 2026, pediu ao Supremo a descriminalização do aborto voluntário até a décima segunda semana, algo que o Congresso nunca aprovou. A ação já tem dois votos favoráveis, de Rosa Weber e de Barroso, e o julgamento, interrompido por destaque de Gilmar Mendes, deverá prosseguir no Plenário. Na ADPF 1141, também proposta pelo PSOL, o ministro Alexandre de Moraes suspendeu por liminar a resolução do Conselho Federal de Medicina que proibia a assistolia fetal, procedimento que provoca a morte do bebê no útero, nos abortos de gestações acima de 22 semanas decorrentes de estupro. O tribunal também já descriminalizou o porte de maconha para uso pessoal. Temas de enorme alcance que o Congresso não modificou por lei têm sido decididos no Supremo.
Muitos erros de política econômica podem ser corrigidos no mandato seguinte. Uma cadeira no Supremo ocupada em 2027 poderá continuar decidindo sobre a vida, a família, a expressão e a propriedade dos brasileiros quando as crianças de hoje forem adultas. Mesmo que você avalie bem a economia de Lula, pergunte-se: quem você quer que indique até quatro ministros do Supremo?
A quem pensa em anular
O voto é um ato político e, por isso, visa ao bem comum. Neste segundo turno, depois das diferenças que expus, não vejo no voto nulo uma neutralidade moral. Quem anula para não “sujar as mãos” com um candidato imperfeito põe a própria limpeza acima do bem do país. O voto nulo e o voto em branco não entram na conta dos votos válidos. Quem adota essa postura não fica fora das conseqüências da escolha: apenas deixa que os outros façam o trabalho sujo por ele.
Desenvolvi esse argumento em três textos de setembro: sobre a omissão e o mal menor, sobre a diferença entre votar no melhor e impedir o pior e sobre a moralidade da postergação eleitoral. Também expliquei como votarei.
Conclusão
Ao longo de dezoito partes, mostrei um governo:
- que levou a dívida de 71,7% para 82,9% do PIB enquanto a arrecadação crescia;
- que viu o prejuízo dos Correios saltar de R$ 597 milhões para R$ 8,5 bilhões;
- que deixou milhões de aposentados sofrerem descontos não autorizados depois de alertado pelo TCU;
- que montou uma procuradoria para pedir a remoção do que classifica como desinformação e um decreto que permite indisponibilizar conteúdos sem ordem judicial;
- que tirou o Brasil do Consenso de Genebra em dezessete dias;
- que revogou a política de alfabetização que reconhecia a família;
- que passou a exigir traços fenotípicos para contar alguém na meta racial dos cargos de confiança;
- que executou pouco mais da metade dos planos de fronteira;
- e que entregou 2 de 255 obras de água.
Não é um acidente de percurso: é o PT sendo o PT.
Do outro lado, há um candidato que defende por escrito a vida desde a concepção, a autoridade dos pais, a liberdade de expressão, a propriedade, a ordem e uma economia livre, e que anunciou para a Saúde um gestor de primeira linha. Acima de tudo, o próximo Presidente poderá fazer até quatro indicações ao Supremo.
Não há comparação possível. No dia 25, voto 22. Voto em Flávio Bolsonaro.
Este blogue chama-se In Pulverem Reverteris, “ao pó voltarás”. Tudo o que é humano passa: governos, mandatos, campanhas, esta série. Que o lulopetismo volte ao pó no dia 25. Algumas coisas, porém, duram muito mais que um mandato, e é sobre elas que se decide neste segundo turno. Agradeço a quem me acompanhou até aqui e peço uma última coisa: vote pensando nelas.



