domingo, 21 de dezembro de 2014

Lógica para estúpidos: o caso Jair Bolsonaro "versus" Maria do Rosário


   Há tempos que não escrevo neste blogue, mas o recente incidente entre o deputado Jair Bolsonaro, do PP, e a deputada Maria do Rosário, do PT, e a loucura onipresente na mídia, com raríssimas exceções, fizeram-me querer escrever por senso de justiça e por necessidade. Apesar de eu estar completamente voltado à escrita da minha dissertação de mestrado, arrumei um tempo na madrugada para escrever. 

   Antes de qualquer comentário, é importante ressaltar uma pequena diferença entre os referidos deputados. Bolsonaro foi eleito em primeiro lugar no Rio de Janeiro para deputado federal nas últimas eleições, com 464.572 votos ( http://www.eleicoes2014.com.br/jair-bolsonaro/ ), enquanto do Rosário foi eleita em décimo primeiro lugar no Rio Grande do Sul para o mesmo cargo com 127.919 ( http://www.eleicoes2014.com.br/maria-do-rosario/ ). A quantidade de votos do Bolsonaro é, aproximadamente, 3,6 vezes maior que aquela obtida por do Rosário. Trago os dados acima porque algo que não falta a Bolsonaro é representatividade; portanto, aos arautos da democracia, aceitem de uma vez que ele não está lá de graça, mas porque foi eleito, com muitos votos por sinal.

   Para quem não sabe do episódio, Bolsonaro, no último dia 9 ( https://www.youtube.com/watch?v=oFUsd1e-6zE ), relembrou no Congresso uma diatribe que teve com Maria do Rosário no Salão Verde ( https://www.youtube.com/watch?v=atKHN_irOsQ ). Ao ser chamado de estuprador, ele revidou, dizendo que jamais estupraria a deputada porque ela não merece. Com a ameaça de que levaria uma bofetada, ele respondeu que daria outra e chamou-a de "vagabunda". Como é próprio da mentalidade esquerdista, a referida deputada fez um chilique vitimando-se e indagando-se: "O que que isso? O que que isso?", como se chamar alguém de estuprador fosse nada.

   Após o ocorrido, começou o barulho dos enlouquecidos. Protestos pelas redes sociais, fotos com cartazes de protesto dizendo "eu não mereço ser estuprado" e, para a minha completa surpresa, até o Reinaldo Azevedo, que costuma ser bastante lúcido nas suas análises, escreveu textos exigindo desculpas do Bolsonauro em contraposição a um silêncio estarrecedor quanto ao crime de imputação de crime cometido por Maria do Rosário ( http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/conselho-de-etica-abre-processo-contra-bolsonaro-e-o-certo-se-ele-nao-se-desculpar-com-as-mulheres-que-seja-punido-ou-sera-mesmo-que-eu-quero-a-simpatia-das-esquerdas/

   Nesta semana, repercutiu nas redes sociais a intervenção do Renato Oliveira no Programa do Jô naquele quadro das "meninas do Jô" — Cristina Serra, Lilian Witte Fibe, Ana Maria Tahan e Lucia Hippolito (O programa completo pode ser visto aqui: http://tanoar.cf/programa-do-jo-16-12-2014-completo e parte dele aqui: https://www.youtube.com/watch?v=aZvyZUFfx1Y ). Ao gritar "viva Bolsonaro", Jô Soares perguntou: "quem é que gritou esse absurdo?". Corajosamente, o rapaz levantou a mão e disse que havia entendido o que Bolsonaro havia dito. Estupidamente, para usar um termo que o próprio Reinaldo Azevedo atribuiu à fala do deputado, as "meninas do Jô" afirmaram que havia um caso claro de apologia ao crime. 


   O Brasil é o país do politicamente correto. A famosa coleção for dummies foi traduzida, de maneira muito atenuadora, como "para leigos". O Longman Dictionary of Contemporary English não é tão pudendo e registra claramente que alguém dummy é, simplesmente, uma pessoa estúpida (stupid person). Pode pensar o leitor que se trata de uma exceção, mas vejam outra coleção famosa como a The Complete Idiot's Guide. Sabem como ela foi traduzida para a Língua Portuguesa? Acreditem se quiserem, mas a tradução foi "O guia completo para quem não é C.D.F."! 

   A tradução correta desta coleção introdutória levou-me ao título desta postagem: "Lógica para estúpidos". Por meio do uso de lógica rudimentar, baby logic, como diria um professor meu — o dicionário Longman também registra a acepção de for dummies como sendo for babies — procurarei mostrar como o Bolsonaro não disse nada de mais a partir de quatro linhas argumentativas.

1. O argumento da contrafactualidade

   Em seu último artigo publicado no Diário do Comércio, intitulado "Três notinhas da semana" ( http://www.dcomercio.com.br/categoria/opiniao/tres_notinhas_da_semana ), o professor Olavo de Carvalho mostrou por que é um dos poucos intelectuais vivos neste país. Ele explica, precisamente, o ponto que explicarei aqui com outras palavras.

   A fala do Bolsonaro parte de um CONTRAfactor, a saber, a suposição de SE ele FOSSE um estuprador. O que o deputado afirmou foi o seguinte: "SE eu FOSSE um estuprador, eu jamais a estupraria porque você não merece"; em outras palavras, ele disse que, na hipótese de ele ser um estuprador, a Maria do Rosário não seria um alvo dele por ela não oferecer atrativos. Simples assim. Uma pessoa não pode estuprar outra tendo completo repúdio por ela. Algum atrativo ela tem de ter. É neste sentido figurado que o Bolsonaro apelou à questão do "mérito". Diante da acusação criminosa que ele recebeu, a sua resposta foi educada até demais. 

   Afirmar que o Bolsonaro fez apologia ao crime, como bem explica Olavo de Carvalho, é partir da premissa contrafactual e não do fato de que ele, de fato, NÃO é um estuprador. A inversão, aqui, é completa.


2. O argumento da subalternação



   Se é para entender o "mérito" da fala do deputado de modo literal, vamos avaliá-la, então, do ponto de vista lógico. Qualquer estudante iniciante de lógica conhece o quadrado das oposições de Aristóteles. Nele, temos quatro relações de oposição. Na contraditoriedade, as proposições não podem ter, simultaneamente, o mesmo valor de verdade, ou seja, se uma for verdadeira, a outra tem de ser falsa e vice-versa; na contrariedade, elas podem ser falsas ao mesmo tempo, mas não podem ser simultaneamente verdadeiras; na subcontrariedade, temos o caso inverso do anterior, podendo ser as proposições simultaneamente verdadeiras, mas não falsas e, por último, temos a relação de subalternação, por meio da qual, dada a veracidade de uma proposição, a outra será verdadeira, no caso, a verdade de "A" implica a verdade de "I", mas não o inverso, e o mesmo caso ocorre com "E" e com "O". O quadrado acima é apenas uma possível decoração do quadrado das oposições. A proposição "Todo S é P", no canto "A", poderia ser qualquer outra coisa.

   Dito isto, vamos à fala do Bolsonaro. Ele afirmou que a Maria do Rosário NÃO merece ser estuprada. Vários daqueles que bradam contra ele alegam que nenhuma mulher merece ser estuprada. Para facilitar, vamos tratar a propriedade de não merecer ser estuprado como sendo a propriedade P. O sujeito S será "mulher". O que os detratores do Bolsonaro dizem, portanto, é que "Toda mulher possui a propriedade de não merecer ser estuprada", precisamente, "Todo S é P", em contrapartida à afirmação do deputado de que "Maria do Rosário tem a propriedade de não merecer ser estuprada" ("Algum S é P"). 

   Ora, qual a relação entre a fala do deputado e a vociferação dos seus detratores? A relação é de subalternação! Se é verdadeiro que Todas as mulheres não merecem ser estupradas, é verdadeiro, em particular, que a Maria do Rosário não merece ser estuprada. O simples fato de que alguém faça um cartaz de uma proposição do tipo "Todo S é P" frente a uma afirmação do tipo "Algum S é P", já mostra o quadro de completa estupidez. Qualquer pessoa que tenha estudado o mínimo de Teoria da Argumentação e de Lógica sabe que é completamente irrelevante argumentativamente afirmar isto. 

   A afirmação do Bolsonaro, portanto, não passa de um corolário daquilo que todos aqueles que o atacam afirmam.

3. O argumento do princípio hermenêutico da caridade

   Alguém poderia, talvez, alegar que, embora se possa, de fato, depreender que "Algum S é P" de "Todo S é P", o inverso não é válido. Isto é verdadeiro. Se eu afirmo, por exemplo, que um homem, em particular, tem dois olhos, não se pode inferir disto que todos os homens têm dois olhos. Da fala do deputado de que a Maria do Rosário não merece ser estuprada, nada poderíamos dizer, portanto, sobre o que ele pensa sobre todas as outras mulheres. Na Lógica, entretanto, existe algo chamado "entimema". Entimemas são premissas implícitas em uma argumentação. Sabendo-se do histórico do deputado, que ele tem lutado pela aprovação de projetos de lei contra estupradores, é óbvio supor que, no seu corpo de crenças, havia a suposição da premissa de que ninguém merece ser estuprado, ou seja, no nosso caso específico, de que todas as mulheres possuem a propriedade de não merecerem ser estupradas. 

   Alguém poderia, ainda, objetar perguntando por que razão dever-se-ia aceitar esta suposição de um entimema na sua fala. A razão é simples. Existe um princípio hermenêutico chamado princípio de caridade. Grosso modo, o princípio afirma que, havendo mais de uma inferência possível, aquela interpretação que melhor favoreça o seu interlocutor deve ser escolhida.

   São Josemaria Escrivá dizia que "Quando não há retidão naquele que lê, torna-se difícil que descubra a retidão daquele que escreve". De fato, quando não há retidão naqueles que interpretam, fica, realmente, impossível enxergar retidão em qualquer proferimento. 
   
4. O argumento da coerência


   Se é para processar o deputado Bolsonaro e apedrejá-lo, que tal começar por todos aqueles que dizem que eles mesmos não merecem ser estuprados, com cartazes ou frases de efeito pela internet? Explico-me. A forma do que o deputado disse à Maria do Rosário é "Algum S é P", ou seja, "A Maria do Rosário tem a propriedade de não merecer ser estuprada". Ora, quem tira uma foto com um cartaz escrito "Eu não mereço ser estuprado" está dizendo exatamente a mesma coisa que o Bolsonaro, mas mudando a referência. Se, na fala do Bolsonaro, o "S" era a Maria do Rosário, no caso daqueles que tiram fotos com a referida frase, o "S" é quem está na foto segurando o cartaz ou quem compartilhou uma hashtag com esses dizeres.

   Se, da fala do Bolsonaro, pode-se inferir que ele está dizendo que algumas pessoas merecem ser estupradas, mas outras não, atribua, por coerência, esta inferência a todos aqueles que dizem que eles, particularmente, não merecem ser estuprados. Por conseguinte, a condenação do Bolsonaro leva consigo a condenação de todos aqueles que disseram a mesma frase mudando o referente. 

   Por último, por falar em coerência, ativistas, no Rio de Janeiro, fizeram um boneco do Jair Bolsonaro e, com uma tesoura, simularam uma castração ( http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/12/dupla-de-topless-usa-boneco-de-bolsonaro-para-protestar-no-rio.html ). Alguém, por acaso, ouviu protestos de todos esses movimentos que alegam defender os "direitos humanos"? O que se vê neste episódio lamentável de perseguição ao deputado Jair Bolsonaro é que a Esquerda tem o direito de fazer o que bem entender, promover todo tido de ofensa sem nunca ser responsabilizada pelos seus atos. Se um conservador, entretanto, der um espirro em falso, logo surge uma horda fazendo protestos. 

   O fato de que as mesmas pessoas que se mostram tão ofendidas com a fala do Bolsonaro não tenham proferido nenhuma palavra de indignação contra a fala criminosa da Maria do Rosário — como explica Olavo de Carvalho, imputação de crime é crime! — apenas mostra que a norma geral dessa gente tem sido a de sempre fazer uso de "dois pesos e duas medidas".

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Sobre a incapacidade de empatia desinteressada



   "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!"
Mateus 5:6-7

"Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: 'E quem é o meu próximo?'"
Lucas 10.29

   Minha postagem anterior, a última de 2013, foi sobre a inescrutabilidade das comunicações humanas. Pretendo, hoje, continuar o tema com outro enfoque. Quando citei Josemaria Escrivá, dizendo que "Quando não há retidão naquele que lê, torna-se difícil que descubra a retidão daquele que escreve", poder-se-ia ver implícito o pressuposto de que tem de haver uma certa empatia entre quem lê e quem escreve, entendendo aqui leitor e escritor de modo bem amplo, o que abarcaria, também, o âmbito da mera oralidade. No que concerne à empatia, descobri, recentemente, que a filósofa Edith Stein trata da questão a partir da escola fenomenológica, mas ainda não consegui ler o seu livro On the problem of empathy

   O meu orientador no mestrado, o professor Julio Cabrera, disse-me, certa feita, o seguinte: "quando descrevo o inferno eu nunca me isento dele". Faço minhas as suas palavras. Nunca teço julgamentos sem antes procurar enquadrar-me neles a fim de ver se eu mesmo não estaria no escopo deles. Esse critério de autorreferência foi algo que aprendi muito bem com a escola analítica na Filosofia. Para exemplificar isso, reproduzirei um diálogo que tive em 2004 com uma colega minha do terceiro ano do Ensino Médio. Antes de reproduzi-lo, permitam-me contextualizá-lo. Naquele ano, a UnB comunicou-nos que os seus vestibulares iriam ter um revezamento entre os cursos diurno e noturno no que diz respeito ao curso de Direito; em outras palavras, no semestre em que houvesse vagas disponíveis para o curso de Direito diurno, não haveria vagas para o curso noturno e vice-versa. Vários colegas, indignados, resolveram, então, organizar um protesto no Congresso Nacional. Percebendo um desinteresse da minha parte, uma colega iniciou o seguinte diálogo:

— Você não vai ao protesto, Fábio?
— Não.
— Por quê?
— Prestarei vestibular para Física e não para Direito.
— Que absurdo! Poderia ser o seu curso.
— Sim. Poderia, mas não é. No dia em que resolverem fazer isso com Física, eu protesto. Eu vou perder o meu dia gritando nesse sol quente? 
— Que egoísta!
— Quem mandou todo mundo resolver cursar Direito? Há inúmeros outros cursos. Se as pessoas resolvessem fazer aquilo que realmente gostam em vez de seguir a modinha, pensar só em dinheiro ou seguir as expectativas dos seus pais, a UnB não precisaria fazer isso porque as demandas não seriam impossíveis de serem satisfeitas. 

   Na verdade, o diálogo acima sugere uma série de questões sobre as quais penso em escrever no futuro, como, por exemplo, a questão do funcionalismo público — quem mora em Brasília entenderá imediatamente quais seriam as discussões sobre o assunto. Antes de falar sobre o que quero trazer à tona com a lembrança do diálogo acima, é importante ressaltar alguns pontos. O primeiro deles é que desde muito cedo eu era cético quanto às manifestações, até porque eu via muitos colegas movidos por um entusiasmo momentâneo completamente irracional em uma época em que eu defendia um racionalismo bastante radical. O segundo ponto é que ainda hoje eu tenho certo desprezo pela área do Direito — em 2007, cito o que chamo de "binômio Direito-Medicina": http://www.fotolog.com.br/fabiosal/20562039/ . Não é que eu tenha desinteresse pela área: afinal, é realmente difícil encontrar qualquer assunto pelo qual eu não me interesse. A realidade é apenas uma. Quando a dividimos em áreas, é apenas para facilitar as nossas vidas, algo que Descartes deixava muito claro nas suas Regras para a direção do espírito, deixando, contudo, muito claro que a perspectiva holística de um conhecimento unificado sempre deveria nortear as sucessivas compartimentalizações do conhecimento que fossem feitas por razões meramente pragmáticas. Recentemente, inclusive, pedi aos meus colegas do Direito que me indicassem livros sobre a área para que eu pudesse empreender estudos mais sérios e aprofundados sobre o tema. O busílis da questão, entretanto, está em um fato que tenho verificado com o decorrer dos anos. Praticamente todas as pessoas que conheci que se enveredaram pela área do Direito fizeram-no por uma das duas razões: interesse meramente financeiro, influências familiares. Nunca conheci ninguém — antecipo-me a futuras possíveis contestações aqui ou acusações de generalizações dizendo que não estou, obviamente, fazendo deduções, mas falando sobre posturas que tenho visto como sendo predominantes — que tivesse se apaixonado pela área sem ter nenhum familiar na área, ou incentivos, que optaria por fazer Direito mesmo que fosse uma área sem retornos financeiros. A quase totalidade dos casos que conheci foi de pessoas que, artificialmente, após ingressarem no curso por razões completamente pragmáticas, acabaram desenvolvendo gosto pela área de modo totalmente ad hoc. Este parágrafo foi apenas uma digressão de um idealista apaixonado pelo que escolheu fazer, mas prossigamos com o que realmente nos interessa nesta postagem.

   Eu poderia ter todas as razões do mundo para não gostar da idéia de fazer protestos. Eu poderia, de fato, acreditar que era absurdo que tantas pessoas insistissem em cursar Direito, havendo tantos outros cursos disponíveis, mas eu nunca poderia ter deixado de ser solidário e de ter procurado agir se eu acreditasse que aqueles colegas que optaram pelo curso de Direito estavam sendo prejudicados de algum modo — se aquilo realmente se tratava de uma injustiça ou não é outra discussão que não vem ao caso neste momento.

   A questão da empatia surgiu-me observando diversas situações recentes. Fico muito impressionado como a grande maioria das pessoas apenas consegue solidarizar-se quando tem alguma questão pessoal envolvida ou quando algo naquilo que elas resolvem defender diz-lhes respeito de alguma forma direta ou indireta em termos de interesses. Publiquei uma notícia sobre a Cláudia Jimenez no meu Facebook comentando o fato de ela ter decidido ter relações heterossexuais em detrimento de relações homossexuais dias atrás e uma colega que não falava comigo há anos veio fazer protestos inbox. Outros colegas protestantes divulgaram um texto sobre um protesto entre os batistas, por conta de eventos recentes no contexto brasileiro, que trazia menções desrespeitosas ao Catolicismo, mas nenhum deles sentiu-se no dever de fazer qualquer correção. A coisa tem se repetido com assuntos diversos. Quando falo sobre o funcionalismo público, funcionários públicos fazem os seus protestos; quando digo algo de cunho conservador sobre o Socialismo, esquerdistas aparecem com seus faniquitos e assim por diante.

   Muitos meses atrás, li um texto em um jornal batista sobre o homossexualismo. Embora eu concordasse com a conclusão do texto, detectei várias informações falsas nele. Contactei o pastor que tinha escrito o texto mencionando isso e o autor disse-me que publicaria as correções no próximo exemplar do jornal. Esperei meses, li vários textos do mesmo pastor após o ocorrido sendo publicados no mesmo jornal sem que nada fosse comentado. Isso demonstra, a meu ver, um completo desinteresse pela verdade e um estado de inanição quando o assunto é ter fome de justiça.

   A regra, mesmo entre os cristãos que deveriam, naturalmente, apresentar uma fome insaciável pela justiça, tem sido a de ignorar tudo aquilo que não lhe diz respeito diretamente. Digo as coisas desta forma porque absolutamente tudo aquilo que fosse injusto deveria dizer-nos respeito de modo direto.

   Outra exemplificação do que digo são os recentes protestos contra a Rachel Sheherazade por conta de uma fala sua sobre um adolescente encontrado preso a um poste. Tão logo ela fez o seu proferimento, houve toda uma mobilização contra ela, dizendo-se que ela fez apologia ao crime. Pergunto-me onde estavam essas mesmas pessoas quado diversos outros jornalistas ou políticos do partido amigo fizeram apologia explícita ao crime. Onde estavam esses arautos da justiça quando, em 2011, policiais militares foram presos a um tronco de árvore e foram torturados até a morte? A resposta, para mim, parece ser mais do que óbvia. Em tempos de relativismo, injustiça é apenas aquilo que prejudicará você de alguma forma ou causará prejuízo ao seu partido, à sua família ou aos seus asseclas proselitistas.

   Em ética, costuma-se falar sobre atos "supra-rogatórios". Tais atos seriam aqueles que não seriam obrigatórios eticamente, mas seriam atos de heroísmo ou de genuína santidade. Não creio nestes atos: para mim, a vida ética de um cristão é uma vida de excelência e não de mediocridade. Estamos muito acostumados a levar uma vida baseando-nos no mínimo que temos de fazer para conquistar as coisas. Prestamos provas pensando no mínimo que temos de tirar para passar e não em gabaritá-las. Passamos a vida fazendo tudo de maneira desleixada. Eu mesmo despendi esforços em grande parte da minha vida, e continuo fazendo isso muitas vezes, pensando sempre no mínimo que tenho de fazer e não em dar o meu melhor em tudo o que eu tenho ou — melhor — em tudo o que devo fazer.

   O senso de dever é algo praticamente inexistente nos dias de hoje. O conforto, o comodismo, a segurança são metas incontornáveis de modo que o esforço de colocar-se no lugar no outro torna-se algo completamente inconcebível e até impraticável por vezes. Quando falo sobre "empatia desinteressada", na verdade, a expressão tem de ser tomada com caridade: afinal, toda empatia, todo se colocar no lugar do outro pressupõe um interesse porque isso nunca ocorre de maneira completamente natural sem que se resolva tomar a decisão de colocar-se no lugar do outro como o outro é e não como sou. É precisamente por pensar sobre como seria possível que nos déssemos ao trabalho de empreender tal esforço que creio no papel da Graça e é precisamente por isso que acredito, sinceramente, que não pode haver vida genuinamente ética à parte de Deus. A conhecida "Regra de Ouro" da ética — não fazer aos outros aquilo que você não gostaria que fizessem a você, como vemos em Mateus 7.12: "Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a lei e os profetas." — tem sempre de envolver a empatia: do contrário, um masoquista, fazendo uso dessa regra, causaria sofrimento físico a quem não compartilhasse do seu masoquismo; por isso, eu disse, anteriormente, "como o outro é e não como sou".

   É importante destacar algo que creio que vários detratores da Rachel Sheherazade não entenderam: compreender é muito diferente de justificar. Embora a ética seja um pressuposto para a compreensão, esta não implica justificação moral. Em outros termos, colocar-se no lugar do outro e compreendê-lo nunca significa eximi-lo moralmente das suas obrigações. Quem criticou a Rachel acreditou que compreender a ação de quem prendeu aquele adolescente implicava justificar toda a situação concreta, embora a Rachel tenha apenas se servido de um caso concreto para falar de questões como a legítima defesa, assim como confunde que compreender a situação de alguém em condições econômicas e sociais precárias seja justificar qualquer ação que seja promovida com base nessas circunstâncias. Essa confusão mostra-se corrente quando alguém quer eximir-se das suas responsabilidades por meio da expressão "ponha-se no meu lugar!".

   A minha oração é a de que eu consiga ter fome e sede de justiça porque a injustiça está sendo praticada e não apenas porque estou sendo prejudicado de alguma maneira. Espero colocar-me do lado da justiça mesmo quando agir assim seja completamente desfavorável a mim mesmo. Quando houver a tentação de conferir empatia com interesses escusos, monopolizando-a apenas a quem eu acredite que mereça ser alvo da minha empatia, caridade e compaixão, que eu lembre a Parábola do Bom Samaritano em Lucas 10.25-37 na qual, ao ser perguntado sobre quem era o nosso próximo, Cristo mostra que é o nosso próximo todo aquele que possa ser alvo da nossa misericórdia.

domingo, 1 de setembro de 2013

A arte de ser mal entendido e a inescrutabilidade das comunicações humanas

   Desde a mais tenra idade, padeço do mal, que julgo ser universal, de ser mal interpretado. Quando estava no Jardim II, com cinco anos de idade, brincava com uma colega minha. No recreio, ela comia uma peta quando resolveu mexer comigo colocando uma que comia nos meus olhos, como se fossem óculos. Querendo revidar, peguei uma peta e corri atrás dela para fazer a mesma coisa. Minha colega subiu em uma cadeira. Quando fui subir também, desastrosamente, dei uma joelhada no estômago dela. Ela desmaiou. Em questão de segundos, apareceram pessoas desesperadas. Retiraram-na dali e eu fui parar da diretoria. Ninguém permitiu que eu desse a minha explicação do que ocorrera. Anos mais tarde, já adolescente, meus pais estavam comentando a minha atitude infantil absurda de agredir uma menina gratuitamente quando meu pai perguntou-me o que tinha acontecido para eu ter feito aquilo. Dei a explicação que dei aqui e completamente surpreso o meu pai questionou-me sobre por que não tinha dito aquilo para todo mundo antes. A minha resposta foi a de que nunca me tinham deixado dar explicações.

   Na mesma época, estava brincando com uma outra colega na classe de crianças da minha igreja. Brincávamos de empurrar-nos um ao outro. Em um dado momento, um colega nosso que não estava acompanhando a brincadeira virou-se e viu-me empurrando a menina. Em tom solene, ele disse-me: "não se bate em uma mulher nem com uma rosa". A nossa professora da época acompanhou a cena de modo semelhante ao nosso colega e guardou aquele momento. Anos mais tarde, a professora de outrora, hoje uma senhora de idade avançada, fazia questão de comentar com todas as pessoas que o seu aluno mal educado que agredia as colegas recebeu uma advertência de seu colega. Já desisti de tentar explicar à senhora que ela não sabe o que realmente aconteceu.

   Quando estava na primeira série do Ensino Fundamental, ganhei um dicionário. Adorava descobrir novas palavras nele e o meu hábito predileto na época era encontrar xingamentos polidos que ninguém conhecia. Em qualquer discussão, logo chamava os meus colegas de "pávidos", "energúmenos", "mentecaptos" e afins. Como eles não entendiam absolutamente nada do que eu falava, davam de ombros como se nada tivesse acontecido. Quando eu estava na terceira série, minha irmã mais nova ingressou no primeiro ano e ganhou, também, o seu dicionário. No ano seguinte, quando estava na quarta série, com 10 anos de idade, minha irmã veio pedir o meu dicionário emprestado. Diante da minha recusa, ela foi reclamar com os meus pais. Eles chegaram furiosos chamando-me de egoísta e não sei mais o quê. Diante de tantos impropérios, disse a eles que a minha irmã tinha ganhado o mesmo dicionário que o meu, com a diferença de que eu já usava o meu há muito mais tempo. Encontrei o dicionário destruído da minha irmã e mostrei o meu, novo em folha obviamente, e disse que seria injusto que eu fosse obrigado a emprestar o meu dicionário e que ele teria o mesmo destino tenebroso do exemplar da minha irmã. Constrangidos e ruborizados, meus pais pediram-me desculpas e disseram que eu tinha razão. Recentemente, meu pai perguntou se eu lembrava-me desse episódio e ele relatou-me que aprendeu com ele a sempre buscar ouvir todos os lados antes de tecer juízos. 

   Em 2008, em uma conversa com algumas pessoas, falávamos sobre inteligência. Na época, ainda acompanhava as edições da excelente revista "Mente & Cérebro". De posse dos dados que tinha lido há pouco tempo, disse aos colegas presentes que havia estudos estatísticos que mostravam que as pessoas que cursavam Exatas tinham, em média, um Q.I. maior que aquele das pessoas que cursavam Humanas. Para o meu azar, eu era a única pessoa do grupo que cursava Exatas — cursava Física naquele tempo. Imediatamente, ouvi protestos e disseram-me que se recusavam a acreditar que alguém, simplesmente porque tinha escolhido um curso na faculdade em detrimento de outro, era menos inteligente que outra pessoa que tomou outra decisão. Comecei a perceber naquela época o que o professor Olavo de Carvalho costuma dizer sobre os debates. No Brasil, freqüentemente, restam duas alternativas: ou você tem de infundir inteligência na cabeça do sujeito, o que é impossível, ou tem de ensinar todos os rudimentos básicos acerca de tudo para a pessoa; assim, o debate torna-se um esforço pedagógico e não uma discussão. Digo isso porque um dado estatístico apresenta uma plausibilidade e não uma relação de nexo causal necessário; em outras palavras, se estudos mostram que, em média, pessoas que cursam Exatas têm mais inteligência que pessoas de Humanas, isso mostra que, naquele círculo de pessoas no qual eu era o único representante das Exatas, seria mais provável que eu tivesse um Q.I. maior, mas seria absolutamente possível que eu tivesse o menor Q.I. do grupo. Não obstante as explicações que eu tentei dar para eliminar os desentendimentos e insinuações de que eu queria dizer que todo mundo ali era burro, as pessoas interpretaram o que ouviram como quiseram. Anos mais tarde, em 2012, uma pessoa que estava naquele grupo chamou-me de orgulhoso e arrogante em uma discussão. Quando eu perguntei a razão daquelas adjetivações, uma vez que a pessoa não tinha nenhum tipo de convívio freqüente comigo, ela disse-me que em 2008 ela teve a prova do que dizia. Poderia comentar a absurdidade disso a partir de diversas frentes. Em primeiro lugar, como uma pessoa pode julgar outra a partir de uma frase proferida quatro anos antes? As pessoas não conseguem conceber que se possa mudar de idéia ou que se possa dizer proferimentos dos quais você possa arrepender-se depois? Por vezes, creio que o critério de julgamento das pessoas é o seu próprio modo de agir: como elas são incapazes de serem autocríticas, de reverem suas ações e corrigirem-se, elas não esperam isso das outras pessoas. Como dizia Josemaria Escrivá, "Quando não há retidão naquele que lê, torna-se difícil que descubra a retidão daquele que escreve". Perdi a conta de quantas vezes eu disse "você está certo e eu estou errado" e recebi olhos arregalados de surpresa em troca. As pessoas, definitivamente, não estão acostumadas à honestidade e à sinceridade. Vejam bem: em 2008, nem converso ao Cristianismo eu era! Como já mencionei, era estudante de Física ainda. Depois disso, mudei-me para o curso de Matemática e acabei formando-me em Filosofia! Como alguém pode julgar o caráter e a personalidade de outra pessoa por conta de um proferimento de quatro anos? O pior é que, ainda por cima, o tal proferimento foi entendido de maneira completamente equivocada: não chamei ninguém ali de burro, embora o desconhecimento deles de noções extremamente básicas de Estatística fosse evidente.

   Na época, não conhecia Xavier Zubiri. Hoje, acredito que a inteligência é a capacidade de apreender a realidade e que todos nascemos com essa habilidade. O que se diz sobre "inteligências múltiplas" é uma bobagem para mim, embora eu mesmo tivesse falado sobre o assunto naquela discussão de 2008. Meu holismo reflete-se nessa capacidade de apreender a realidade: esta não é meramente econômica, biológica, física, política ou matemática. Uma ciência qualquer empreende recortes da realidade a fim de empreender a sua investigação. O mundo, entretanto, apresenta-se em sua totalidade. Quando vemos um objeto caindo, percebemos aquele fenômeno em todas as suas dimensões e não apenas de uma perspectiva gravitacional por exemplo; portanto, apenas o desenvolvimento conjunto dos vários tipos de maneiras de raciocinar-se acerca do mundo pode ser tido como realmente inteligente — o trocadilho aqui a partir da concepção de Zubiri é proposital. É muito comum você encontrar pessoas que têm um raciocínio surpreendente em Matemática, mas que são completas bestas quadradas em todo o resto. Mesmo antes de conhecer a epistemologia e a metafísica de Zubiri, já cria, por influência de Descartes, nessa necessidade de desenvolver todas as habilidades possíveis; por isso, enquanto buscava resolver o problema da Hipótese de Riemann na adolescência, também, compunha canções, escrevia contos e lia livros de Literatura e Filosofia. 

   O mesmo Zubiri fala do processo de "substantividade", por meio do qual buscamos fixar essências que se movem e são dinâmicas. A fenomenologia existencialista de Heidegger e de Sartre já tratava dessa necessidade que temos de criar categorias a fim de coisificar pessoas a partir delas: afinal, o Dasein heideggeriano é aquele tem o projeto de ser sem nunca poder sê-lo e aprisioná-lo a um projeto específico é ignorar essa incapacidade e ambigüidade. Terminologia existencialista à parte, há alguns anos, descobri o que é conhecido por "Princípio da Caridade", que, embora não tenha sido criado por eles, foi desenvolvido por autores como Willard Quine e Donald Davidson. O princípio, grosso modo, afirma que diante de várias interpretações possíveis de um falante você deve optar aquele que melhor o favoreça. Desde a minha infância, a experiência que tenho tido é a de que as pessoas parecem usar a versão inversa desse princípio, que chamarei de "Princípio de Descaridade". Falei sobre como me tornei católico na minha última postagem. Praticamente toda — tinha escrito apenas "Toda" aqui, mas me lembrei de que as pessoas não sabem mais o que é uma hipérbole — a literatura protestante crítica ao Catolicismo que encontrei parece fazer uso deste último princípio. O livro do Carlos Collette, por exemplo, chamado "Inovações do Romanismo", começa falando sobre o problema do sacramento da Ordem, dizendo que a ordenação sacerdotal católica depende das intenções, de acordo com a definição católica, mas que é impossível saber se alguém possui uma intenção de fazer algo de fato ou não. O Collette não cogita em nenhum momento em perguntar-se o que a Igreja Católica quer dizer com "intenção". Ele, simplesmente, pega os textos e entende-os como quer. O mesmo processo acontece com praticamente todas as doutrinas católicas. A Igreja Católica fala em "infalibilidade papal" e as pessoas não querem saber se os Papas escrevem bulas papais, encíclicas papais, cartas papais, exortações apostólicas, constituições apostólicas, cartas apostólicas, "motus proprius", sermões etc. e que, dentre esses documentos, apenas as bulas abarcam ensinamentos "ex cathedra" que são previstos pela infalibilidade. Ainda assim, a coisa é mais complexa porque há um conjunto de critérios definidos que devem ser satisfeitos  —  é só ler os documentos do primeiro concílio Vaticano. Assim como há diferenças entre os documentos, há diferenças nos ensinamentos: a Igreja possui depósitos de fé, dogmas, doutrinas, disciplinas e devoções, como classifica David Currie. Nessa lista, apenas os dois primeiros são infalíveis. Qual crítico da infalibilidade papal que busca ter um entendimento disso? Praticamente nenhum. A maioria sai vociferando dizendo que é absurdo dizer que o Papa não peca e que os os documentos da Igreja são prova inequívoca de que a infalibilidade não pode ser verdadeira porque houve muitas contradições entre os Papas. A Igreja afirma que "não há salvação fora da Igreja" e as pessoas saem protestando sem ter a menor idéia do que os católicos querem dizer com isso. Ninguém quer saber que a Igreja diz que qualquer pessoa batizada é incorporada à Igreja por Cristo e que, portanto, um presbiteriano, um batista, um luterano ou anglicano que tenha sido batizado já é católico mesmo que não seja um católico nominal e esteja desligado da plena comunhão com a Igreja Católica. Os exemplos são intermináveis. A mídia costumeiramente faz o mesmo procedimento ao comentar os pronunciamentos dos Papas, sem procurar entender o que ele quer dizer de fato. 

   Confesso, para terminar, que estou cada vez mais desanimado com debates e com discussões. No ambiente brasileiro, pesa o fato de que as pessoas não costumam ter o preparo adequado para ler e entender um texto. Constantemente, você não precisa apenas explicar o que disse, mas explicar ao outro o que ele mesmo falou e o que se pode depreender da sua fala. Quando o debate dá-se no âmbito da oralidade, a falta de preparo é patente. O que há de mais básico e elementar em Teoria da Argumentação é ignorado, de modo que recursos claramente falaciosos — digo "claramente" porque sabemos hoje do caráter contextual das falácias — são trazidos à tona e seus argumentos são completamente ignorados porque as pessoas perderam a sensibilidade de percepção de quando a sua fala é neutralizada por um argumento. A despeito da incompetência técnica, parece-me que impera uma malícia generalizada, uma má-fé entranhada na alma. As pessoas não estão interessadas no conhecimento. Elas não debatem porque querem conhecer o que é correto, mas porque querem mostrar que o outro está errado e  —  mais importante  —  que elas mesmas estão absolutamente certas. Alguém pode perguntar-me: "Ora, se você acredita mesmo que as comunicações humanas são inescrutáveis, por que continua escrevendo?". As razões são várias e deixá-las-ei para uma postagem futura; talvez, intitulada "Por que continuo a escrever (a despeito da descaridade reinante) ?". Como dica de uma das minhas linhas argumentativas, deixo uma citação de Nietzsche: "Há homens que já nascem póstumos".

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Minha Segunda Conversão — Como um ex-protestante abraçou o Catolicismo


Obs. : disponibilizei no Scribd uma nova versão do meu testemunho baseada neste texto com vários acréscimos. Vejam aqui: https://www.mediafire.com/file/k3yryntnx04cs3l/A+jornada+de+um+ex-batista+ao+catolicismo+romano,+testemunho+de+Fábio+Salgado+de+Carvalho.pdf/file.

   Quando me converti ao Cristianismo no dia 25 de janeiro de 2009, prometi a algumas pessoas que descreveria neste blogue aquilo que eu costumo chamar de "o meu caminho de Damasco". Aqueles que conhecem a experiência de conversão de Paulo, que ainda se chamava Saulo — vejam o capítulo 9 de Atos —, sabem que a sua conversão deu-se quando ele estava a caminho de Damasco para prender cristãos — a imagem acima de Caravaggio chama-se "A conversão de São Paulo". Paulo teve uma experiência singular pessoal e intransferível. Creio que todo cristão genuíno, mesmo aqueles que nasceram e foram criados em um lar cristão, tem de ter o seu caminho de Damasco em algum momento. Tive o meu na referida data. Apesar da promessa, sempre adiei o projeto de escrever sobre a minha experiência porque acredito que deveria fazê-lo em um livro e que o espaço deste blog seria inadequado para relatar o ocorrido. A minha pretensão, entretanto, não é a de cumprir a minha antiga promessa, mas a de relatar o que chamei no título desta postagem como sendo a minha segunda conversão. Muitos já devem saber, e se não o sabiam sabem agora, que me converti ao Catolicismo. Antes, era um batista, evangélico, protestante; agora, sou um católico apostólico romano.

   Antes, devo ressaltar que não tenho pretensões de converter ninguém. O meu objetivo aqui é o de registrar uma explicação da minha conversão a fim de não ter de repeti-la sempre, poupando-me de esforços desnecessários, embora tenha de confessar que ela ainda não está organizada suficientemente para que eu possa descrevê-la de maneira concisa — por isso, peço perdão, de antemão, se esta postagem apelar a digressões de modo excessivo ou se eu acabar estendendo-me em demasia. Não é a minha intenção aqui fazer uma apologética de todas as doutrinas católicas, até porque o espaço seria totalmente inadequado para tanto: precisaria escrever um livro para isso — de fato, há uma vasta literatura que já faz isso e procurarei indicar algumas leituras no decorrer deste texto não apenas para fundamentar o que digo, mas para oferecer um apoio de leitura a quem tiver o interesse sincero de conhecer a verdade. 

   Minha jornada ao Catolicismo, creio eu, iniciou-se em 2011. Como praticamente todos os protestantes que conheço — fui dar-me conta das proporções do anticatolicismo dos protestantes apenas muito recentemente —, conhecia o Catolicismo apenas por meio de chavões, caricaturas e espantalhos. Nunca tinha lido nada católico e só conhecia a Igreja Católica de segunda mão, a partir das críticas dos protestantes. Minha mãe, tomando conhecimento do meu catolicismo neste ano, perguntou-me certa feita: "Ué, você não dizia que tinha de ser muito burro pra ser católico?". Sim! Eu já disse isso antigamente, quando não tinha a menor idéia de como os católicos continuavam adorando as imagens depois de um texto tão claro como o de Êxodo 20.4: "Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra" [Nova Versão Internacional (NVI) — uma tradução protestante!]. De maneira semelhante, cheguei a dizer quando era agnóstico, antes da minha conversão ao Cristianismo em 2009, que poderiam internar-me em um hospício se algum dia eu tornasse-me um cristão.

   Acompanho o programa TrueOutspeak (http://www.blogtalkradio.com/olavo) do filósofo Olavo de Carvalho desde 2010. Mesmo tendo começado apenas em 2010, ouvi todos os programas desde 2006, o que são mais de 300 programas, com média de 50min de duração. O programa, que antes era semanal, passou a ser mensal neste ano. O professor Olavo chegou a anunciar o fim do programa em dezembro do ano passado, mas resolveu retomá-lo mensalmente por conta da enorme quantidade de protestos. O professor Olavo, por quem tenho imensa consideração, respeito e admiração, sempre iniciava os seus programas dizendo o seguinte: "Começamos mais uma vez invocando a santíssima Virgem Maria e o Santo Padre Pio de Pietrelcina para que roguem a Deus que nenhuma injustiça se cometa nesse programa". Quando percebi a erudição do professor Olavo e vi que ele era católico, logo pensei: "é... ninguém é perfeito.". Aquilo, entretanto, intrigava-me porque sabia que a última pessoa do mundo que eu diria que não estudou um assunto seria o professor Olavo. Será que ele, simplesmente, não sabia de passagens como a de Êxodo 20? Em 2011, ouvi um de seus programas citando o padre Paulo Ricardo (http://padrepauloricardo.org/). Procurei o seu site em outubro de 2011 e deixei uma pergunta que reproduzo aqui:

"Padre Paulo Ricardo, em primeiro lugar, parabéns pelo seu trabalho. Deus, com certeza, reserva o seu galardão no céu pela edificação que o senhor traz-nos com os seus vídeos e textos. Cresci na tradição protestante tradicional, para ser específico, a tradição Batista, e sempre tive uma visão bastante distorcida sobre o Catolicismo, baseada naquele catolicismo denunciado por Lutero no medievo.  
Tenho tentado despojar-me do preconceito para tentar compreender melhor a tradição católica e tenho me impressionado e me surpreendido quanto mais aprendo. Tenho quatro dúvidas que gostaria que me fossem respondidas se possível. 
— A primeira pergunta refere-se à reza e às repetições. Jesus, antes de ensinar como se deve orar, disse o seguinte: 
"E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes." [Mateus 6:7-8]  
Se logo antes de ensinar o Pai Nosso Cristo pede que não façamos uso de vãs repetições, por que se reza com repetições? 
— A segunda pergunta refere-se às imagens. O segundo mandamento diz:
"Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra." [Êxodo 20:4]  
Por que, então, faz-se imagens?  
— A terceira refere-se às intercessões feitas aos santos ou mesmo à virgem Maria. Paulo, diz o seguinte:  
"Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem." [1 Timóteo 2:5]  
Ora, se apenas Cristo é o mediador entre Deus e os homens, por que os católicos apelam a outros mediadores, além de Cristo?  
— A última refere-se à salvação. Uma das cinco solas da tradição reformada defende que o homem é justificado somente pela sua fé. Eu discordo disso, crendo que a salvação é obtida pela fé, numa conjunção com as obras. Se não fosse desse modo, o texto de Hebreus 12.14 não diria que sem a santificação ninguém verá o Senhor ou não se falaria de pecados que têm por conseqüência que não se verá a Deus. Costuma-se utilizar o argumento de que o converso, certamente, seguirá o caminho da santificação, mas acho tal argumento controverso e sem justificação. Qual a visão da Igreja Católica a respeito do assunto? Sempre ouvi dizer que ela prega que a salvação vem pelas obras.
Espero que as minhas perguntas sejam respondidas assim que possível e agradeço, desde já, a atenção dispensada.  
Paz de Cristo!
Fábio Salgado"

   Fiz algumas modificações na última pergunta porque na época fui impreciso, falando de "graça" em vez de fé. Não conhecia naquela época o documento assinado no dia 31 de outubro de 1999 intitulado "Declaração Conjunta Sobre a Doutrina da Justificação".
No ponto 15 dessa declaração, luteranos e católicos afirmam: "Confessamos juntos: somente por graça, na fé na obra salvífica de Cristo, e não por causa de nosso mérito, somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo, que nos renova os corações e nos capacita e chama para as boas obras". Esse documento é muito claro. Recentemente, um pastor disse para mim que a Igreja Católica não crê que somos salvos somente pela graça. Quando eu disse que ele estava errado, ele simplesmente disse que isso era óbvio. Quando eu mencionei esse documento, ele, simplesmente, disse que não iria ler nada. Nesse momento, tenho de deixar algo claro aqui. O professor Olavo de Carvalho, no seu já mencionado programa TrueOutspeak, certa feita, disse o seguinte:
"Se o cara não estudou, não sabe, tem é que calar a boca. Eu acho que o direito de ter opinião é proporcional ao interesse sincero que você tem pelo assunto. Se você não tem interesse pelo assunto pra você sequer ler alguma coisa, por que nós devemos ter interesse em ouvir a sua opinião?"
   Aqueles que conhecem o tom do professor nesse programa — o tom dele nas suas aulas é completamente diferente — devem saber que o professor não foi tão educado e polido como procuro ser — infelizmente ou felizmente (não saberia dizer ao certo). Aqui está a sua fala completa: http://www.youtube.com/watch?v=pzZNeBam6ZQ . Concordo com ele: as pessoas não estudam e simplesmente querem opinar sobre aquilo que não entendem. 

Voltando à minha pergunta de 2011, recebi a seguinte resposta no mesmo dia:
"Salve Maria!
Caro Fábio,
Muito obrigado pela sua mensagem.
Sua pergunta já foi encaminhada e na medida do possível, será respondida pelo Pe. Paulo Ricardo durante o podcast "A Resposta Católica". 
Aconselho que assista os vídeos dos links abaixo:
          http://padrepauloricardo.org/episodios/intercessao-dos-santos 
http://padrepauloricardo.org/episodios/culto-aos-santos-e-suas-imagens
Gostaria de aproveitar a oportunidade e convidá-lo a participar dos cursos online do site padrepauloricardo.org e ajudá-lo nesse projeto de formação e incentivar outros a fazê-lo. Nele encontrará um vasto conteúdo para defender e ensinar a fé católica com mais firmeza e solidez.
Ajude-nos a manter este trabalho de apostolado na internet, pela formação dos católicos, por amor a Santa Igreja e sua Sagrada Tradição.
Contamos com as suas orações.
Deus o abençoe sempre. 
Ad maiorem Dei gloriam
Equipe Christo Nihil Praeponere - padrepauloricardo.org "

   Os dois vídeos indicados foram o estopim para que eu percebesse que eu sabia absolutamente nada sobre o Catolicismo e que deveria dar-me ao trabalho de estudar seriamente o assunto. Infelizmente, na época, era um mero bolsista de iniciação científica da UnB e não tinha dinheiro para pagar o acesso ao site do padre Paulo Ricardo e sabia que meus pais nunca aceitariam ajudar-me a pagar cursos sobre o Catolicismo. No dia seguinte, mandei outra mensagem, angustiado com o pouco conhecimento que percebi ter:
"Padre Paulo Ricardo, o senhor poderia indicar uma bibliografia para quem quer entender o Catolicismo? Além dos documentos da igreja, do ponto de vista da Teologia Católica, quais textos o senhor recomendaria?  
Abraço e paz de Cristo!"
   Recebi a resposta, novamente, no mesmo dia:
"Salve Maria!
Caro Fábio,
Muito obrigado pela sua mensagem.
Recomendo que comece por estudar a História da Igreja.
Segue abaixo algumas indicações: 
DUÉ, Andrea.  Atlas histórico do cristianismo. Aparecida-SP: Santuário; Petrópolis: Vozes, 1999.
FRÖLICH, Roland. Curso básico de história da Igreja. 4ª ed. São Paulo: Paulus, 2005.
RATZINGER, Joseph. Compreender a Igreja hoje: vocação para a comunhão. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2005.
BIHLMEYER; TUECHLE, Hermann.  História da Igreja: antiguidade cristã. São Paulo: Paulinas, 1964.
DANIÉLOU, Jean; MARROU, Henri. Nova história da Igreja: dos primórdios a São Gregório Magno, v. 1. Petrópolis: Vozes, 1965.
PIERINI, Franco. A idade antiga: curso de história da Igreja, vol. 1. São Paulo: Paulus, 1998.
ROMAG, Dagoberto.  Compêndio de história da Igreja: a antiguidade cristã, v.1, 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1949.
SESBOÜÉ, Bernard; WOLINSKI, Joseph.  O Deus da Salvação. Col.: SESBOÜÉ, B. (dir.) História dos Dogmas, vol. 1. São Paulo: Loyola, 2002.
VERDETE, Carlos.  História da Igreja Católica: das origens até o cisma do Oriente (1054), v. 1. São Paulo: Paulus, 2006.
DANIEL-ROPS, Henri. História da Igreja de Cristo. Tradução de Henrique Ruas; revisão de Emérico da Gama - São Paulo: Quadrante, (10 vols.), 2006.
LLORCA, Bernardino; GARCÍA-VILLOSLADA, Ricardo e LABOA, Juan María. Historia de la Iglesia Católica. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos (5 vols.), 2005.  
Contamos com as suas orações.
Deus o abençoe sempre.  
Ad maiorem Dei gloriam
Equipe Christo Nihil Praeponere"
   Resolvi levar a sério a recomendação e comecei a estudar seriamente a história do Cristianismo e da Igreja Católica. Faço questão de ressaltar que fui respondido no mesmo dia porque já procurei corresponder-me com muitos pastores do meio cristão brasileiro, mas fui ignorado na maior parte das vezes. Creio que o estrelato deve ter subido às suas cabeças, pois consigo corresponder-me mais facilmente com filósofos estrangeiros extremamente produtivos de maneira muito mais fácil. Conto nos dedos das mãos os filósofos do exterior que deixaram de dar-me respostas. Não posso deixar de citar uma das poucas exceções, que foi o pastor Luiz Sayão, que respondeu inúmeros questionamentos meus por meio do seu programa "Conversando com Luiz Sayão" (http://rtm.radio.br/novo/interna/radio/conversando-com-luiz-sayao). Até hoje estou estudando a bibliografia acima que me foi indicada. Os cinco volumes de Llorca, García-Villoslada e Laboa, por exemplo, eu só comprei recentemente. Antes de ler e estudar essa bibliografia, já tinha estudado a história do Cristianismo da perspectiva de alguns protestantes como, por exemplo, a "História Ilustrada do Cristianismo" de Justo L González, quando ainda não tinha sido editada em apenas dois volumes, e "Uma História do Cristianismo", de Kenneth Scott Latourette. Lembro-me de que algo que me impressionou ao ler González foi que ele já apontava que, na verdade, a Contrarreforma começou antes da Reforma, por mais paradoxal que seja a partir dos nomes. Já na Espanha, a Igreja Católica já tinha começado várias reformas antes de Lutero. É importante dizer aqui que Lutero, de fato, estava certo em muita coisa. Havia, realmente, muitos abusos por parte do Clero. Lutero estava vivo quando o famoso Papa Alexandre VI, o Bórgia, foi eleito. Para ter a imaginação estimulada, recomendo a série "The Borgias".

   Por falar em Lutero, resolvi começar a lê-lo por conta própria (procurem os vários volumes de "Obras Selecionadas" lançadas pela Editora Sinodal). Fiquei horrorizado com Lutero. Descobri que, por exemplo, Lutero acrescentou o termo "alleyn", em Romanos 3.28, para reforçar sua doutrina. Procurem os debates desse sujeito com Erasmo de Roterdã, por exemplo, e vejam como ele era grosseiro. As pessoas não têm o trabalho de, por exemplo, ler as 95 teses de Lutero e mal sabem que ele mesmo não era avesso às indulgências, mas apenas ao comércio de indulgências como se vê claramente na sua septuagésima segunda tese: "Quem levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito.". Quem nunca se deu ao trabalho de ler todas as teses, pode fazê-lo aqui:

Cresci ouvindo as pessoas dizerem que a Igreja desestimulava a leitura da Bíblia, assim como a sua tradução. Se vocês consultarem o "The Cambridge History of the Bible", especificamente o volume 2, "The West from the Fathers to the Reformation", editado por G. W. H. Lampe, vocês verão, por exemplo, que muito antes de Lutero, 58 anos antes, já havia a primeira Bíblia impressa no Alemão e que durante esses 58 anos os católicos imprimiram 30 diferentes edições alemãs da Bíblia — procurem, também, o livro "As diferenças entre a Igreja Católica e Igrejas Evangélicas", de autoria do ex-protestante Jaime Francisco de Moura. Isso não foi exclusividade da Língua Alemã, mas ocorre, por exemplo, com o Espanhol, o Holandês, o Francês, em Inglês, entre outros idiomas.

   Percebi que o desconhecimento era generalizado: até mesmo aqueles que se diziam ex-católicos sabiam de absolutamente nada da Doutrina Católica. O sociólogo Alberto Carlos Almeida — vejam as entrevistas dele ao Roda Viva e à Marília Gabriela — costuma apontar que os protestantes sempre foram bons na educação do povo em geral e que os católicos sempre foram bons na educação da elite — prova disso são as diferenças entre os índices educacionais de países majoritariamente protestantes e majoritariamente católicos, além do nível acadêmico das universidades católicas e das universidades protestantes. Como os protestantes baseiam-se no "Sola Scriptura", eles estavam extremamente interessados em alfabetizar as pessoas. Foi-se, entretanto, o tempo em que os protestantes eram conhecidos pelo seu domínio das Escrituras, uma vez que há protestantes de todo tipo hoje, inclusive denominações que, incrivelmente, desaconselham a leitura da Bíblia. Ouvi recentemente um batista tradicional beirando os sessenta anos dizendo-me que nunca tinha ouvido falar do "Sola Scriptura". Da mesma maneira, pegue uma igreja presbiteriana tradicional ou uma batista tradicional que defenda ferrenhamente que o cristão deve apenas basear-se nas Escrituras. Serão raros aqueles que terão lido a Bíblia toda durante anos de conversão. Digo isso porque os católicos são conhecidos por seu desconhecimento das Escrituras, mas creio que se levarmos em conta o conhecimento que um católico médio tem da Tradição, considerando-se que o católico não aceita a "Sola Scriptura", e formos comparar com o conhecimento de um protestante médio acerca das Escrituras, a diferença não será tanta. 

   Voltando à fala de algumas pessoas que falam sobre o desestímulo da leitura da Bíblia, reproduzo aqui um trecho do livro do Jaime de Moura que já mencionei:
"João Crisóstomo (354-407 dC), doutor da Igreja, escreveu: 'É isto que tem destruído todas as coisas: vocês pensarem que a leitura da Escritura é tarefa apenas para os monges, quando na verdade vocês precisam dela muito mais do que eles. Aqueles que se põem no mundo e diariamente são feridos têm mais necessidade da medicina. Assim, age bem pior aquele que não lê as Escrituras, supondo que são supérfluas. Tais coisas são invenção do diabo' (Homilia sobre Mat. 2,5). 
Papa S. Gregório I (+604 dC), escreveu: 'O Imperador dos Céus, o Senhor dos homens e dos anjos, enviou suas epístolas para vós, para que aproveiteis a vossa vida, mas vós negligenciais a lê-las devidamente. Estudai e meditai diariamente sobre as palavras do vosso Criador - eu vos imploro. Aprendei o coração de Deus nas palavras de Deus, para que possais aspirar as coisas eternas, para que vossas almas possam ser despertadas pelo desejo da alegria celestial" (Epístola V,46). 
S. Bernardo de Clairvaux (1090-1153 dC), doutor e padre da Igreja, escreveu: 'A pessoa que deseja muito a Deus estuda e medita sobre a Palavra inspirada, para conhecer o que ela diz. É assim que essa pessoa certamente encontra aquele a quem deseja' (Comentário ao Cântico dos Cânticos, Sermão 23,3). 
Papa S. Pio X (1903-1914 dC), escreveu: 'Nada poderia nos alegrar mais do que ver nossos queridos filhos criarem o hábito de ler os Evangelhos, não apenas de tempos em tempos, mas diariamente'. 
Finalmente, o Catecismo da Igreja Católica declara: 'A Igreja 'exorta com veemência e de modo peculiar todos os fiéis cristãos... a que, pela freqüente leitura das divinas Escrituras, aprendam «a eminente ciência de Jesus Cristo» [Fil. 3,8]. «Porquanto ignorar as Escrituras é ignorar Cristo»' [S. Jerônimo]" (CIC 133).  
A proibição de que falam os protestantes, é que o Concílio de Tolosa (França) proibiu traduções da Bíblia para o vernáculo para evitar erros, proibição retirada pelo Concílio da Tarragona (Espanha) em 1233.
O Sínodo de Oxford (1408) proibiu a publicação e a leitura de textos vernáculos da Bíblia não autorizados. O mesmo se deu no Sínodo dos Bispos alemães em Mogúncia (1485), devido a confusão doutrinária criada por John Wiclef (1320-84). O Concílio de Trento (1545-1563) declarou autêntica a Vulgata latina, tradução devida a S. Jerônimo (+420) e decretou que as traduções da Bíblia deveriam conter o visto do Bispo diocesano, para se evitar abusos de tradução.
Isso aconteceu porque a Igreja exerce seu papel de zelar pela fidelidade da doutrina conf. (2 Timóteo 4, 2); (Tito 1, 13). É o que aconteceu ao contrário com os protestantes. Lutero divulgou a Bíblia para que cada um pudesse interpretar a sua maneira.".
   Estou mencionando alguns pontos de equívoco aqui porque a confusão dos protestantes acerca do Catolicismo é enorme! Nesta semana, um pastor perguntou-me se eu cria na Infalibilidade Papal. Após a minha resposta afirmativa, ele perguntou se eu achava que o Papa não pecava. Quando eu falei que era óbvio que não e que, inclusive, o Papa confessava-se toda semana, ele achou que eu estava contradizendo-me. O referido pastor disse-me que as encíclicas papais contradizem-se. Uma pessoa que não compreende nem ao menos a doutrina da Infalibilidade Papal e que não sabe que ela refere-se apenas a definições "ex cathedra" e que encíclicas não são declarações desse tipo, simplesmente, não entende em absoluto a Doutrina Católica. O que tenho visto em todos os textos com críticas ao Catolicismo que procurei, de Boettner a Aníbal Pereira dos Reis, são falsificações grosseiras. Pessoas que, definitivamente, não entenderam nada da doutrina católica, que, simplesmente, não estudaram. Assim diz o Catecismo da Igreja Católica, que estudo todos os dias desde março deste ano:
"891 " 'Goza desta infalibilidade o Pontífice Romano, chefe do colégio dos Bispos, por força de seu cargo quando, na qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fiéis e encarregado de confirmar seus irmãos na fé, proclama, por um ato definitivo, um ponto de doutrina que concerne à fé ou aos costumes... A infalibilidade prometida à Igreja reside também no corpo episcopal quanto este exerce seu magistério supremo em união com o sucessor de Pedro', sobretudo em um Concílio Ecumênico[1611]. Quando, por seu Magistério supremo, a Igreja propõe alguma coisa 'a crer como sendo revelada por Deus'[1612] e como ensinamento de Cristo, 'é preciso aderir na obediência da fé a tais definições'[1613]. Esta infalibilidade tem a mesma extensão que o próprio depósito da Revelação divina[1614]." 
[1611] LG 25; Vaticano I: DS 3074.
[1612] DV 10
[1613] LG 25
[1614] Cf. LG 25"
   Vejam que o texto acima é muito restrito com relação à Infalibilidade Papal — percebam, também, que ele cita documentos da Igreja e dos Concílios. Para uma visão introdutória destes, recomendo o livro "História dos concílios ecumênicos" organizado pelo Giuseppe Alberigo. Para vocês terem uma idéia, as duas únicas declarações "ex-cathedra" em 2000 anos foram os dogmas da Imaculada Conceição (1854) e da Assunção (1950). Um bom livro para quem nunca estudou nada ter uma noção bem introdutória dessas doutrinas é o livro "Catolicismo para leigos", de John Trigilio Jr. e Kenneth Brighenti.

   São muitas as barbaridades que ouço de protestantes que, comprovadamente, não estudaram. Ouvi, também nesta semana, alguém dizendo que a Teologia Católica é feita apenas do aristotelismo. Essa pessoa, simplesmente, desconhece tanto a história da Filosofia quanto do Cristianismo, pois qualquer estudante de Filosofia Medieval e Antiga sabe que Aristóteles era muito mal visto pela cristandade, que o conhecia pouco, uma vez que o movimento de tradução das suas obras deu-se no fim do século XII. Tomás de Aquino foi o grande responsável pela incorporação de Aristóteles à teologia cristã.

   Um pastor afirmou para mim que as heresias da Igreja Católica começaram com Constantino, repetindo o que todo protestante fala. Quando o acusei de desconhecimento, fui acusado de ter o costume de diminuir as pessoas. Creio que ele não fazia idéia do que eu estava falando porque apostaria todos os meus livros que ele não estudou nem 1% da literatura referente à patrologia greco-latina e siríaco-oriental. Para vocês terem uma idéia do que eu estou falando, dêem uma olhada nos 221 volumes da patrologia latina (http://www.logos.com/product/28902/patrologiae-cursus-completus-series-latina), nos 167 volumes da patrologia grega (http://www.logos.com/product/28903/patrologiae-cursus-completus-series-graeca) e nos 18 volumes da siríaco-oriental que ainda não está completa
(http://www.logos.com/product/28982/patrologia-syriaca). Se alguma alma caridosa quiser comprar esse material para mim, ficaria muito grato.

   Vamos voltar à minha história. No ano passado, uma colega minha perguntou-me, sabendo que gosto muito de ler, se eu já tinha lido Chesterton e o que achava dele. Vergonhosamente, disse que nada conhecia dele. Resolvi, então, comprar tudo o que havia sido lançado dele em Português, apenas por uma questão de facilidade de acesso, e não por eu ser monoglota, uma vez que ainda não tinha as condições que tenho hoje de importar livros, graças à minha bolsa de mestrado. O Chesterton, simplesmente, tornou-se um dos meus autores favoritos. Ele é um escritor realmente muito talentoso. Quando estava no meu terceiro ou quarto livro dele, descobri que ele era um ex-anglicano converso ao Catolicismo. Fiquei muito impressionado com aquilo e fui procurar livros dele tratando o assunto. Cheguei ao livro "Todos os caminhos levam a Roma". Pesquisando sobre esse livro, cheguei ao livro "Todos os caminhos vão dar a Roma" do casal Hahn, que na edição mais nova foi traduzido com precisamente o mesmo título do livro de Chesterton. Por curiosidade, comprei os dois livros. O interessante é que o título original "Rome sweet home" é um trocadilho intraduzível com "Lar, doce lar". Ninguém me recomendou o livro do casal Hahn, mas cheguei a ele por essa feliz "coincidência".

   Se você, leitor, quer entender um pouco sobre como se deu a minha conversão, leia o livro do casal Hahn, Scott e Kimberly. É um livro maravilhoso! Ele fez toda a diferença na minha vida. Ele conta a história de um casal que era presbiteriano e calvinista e que se converteu ao Catolicismo durante os seus anos de estudo de Teologia. É uma bela história. Virei um fã do Scott Hahn e saí comprando tudo o que havia dele em Português para depois comprar os ebooks dele que ainda não tinham sido traduzidos.

   Depois que terminei a leitura desse livro, uma série de "coincidências" começou a ocorrer. Estava estudando Existencialismo em um curso ministrado pelo meu atual orientador, Julio Cabrera, e vimos uma série de autores católicos: Gabriel Marcel, Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima. é bom dizer que o professor Cabrera não é religioso. Só não digo que ele é ateu porque creio que ele não gostaria de ser classificado assim por crer que não precisa posicionar-se acerca de uma questão que ele não aceita. Na mesma semana, minha namorada enviou-me um vídeo da Gabriela Rocha cantando a canção "Restless" (http://www.youtube.com/watch?v=ooQhH3AIu2A). Quando fui procurar quem era a cantora original, descobri a Audrey Assad, uma ex-protestante que se converteu ao Catolicismo. Por meio dela, cheguei ao Matt Maher, outro músico ex-protestante converso! Sem que eu fizesse esforço, encontrava uma série de conversos ex-protestantes. Durante a minha vida toda, nunca tinha ouvido falar dessas conversões, mas apenas de ex-católicos. O meu próprio pai é um ex-católico. Agora, desafio o leitor a procurar na rede livros e depoimentos de ex-católicos que se converteram ao Protestantismo e de ex-protestantes que se converteram ao Catolicismo. Em primeiro lugar, os últimos são inúmeros. Você encontrará muitos depoimentos. Infelizmente, o material em Português não é tão vasto como aquele de Língua Inglesa. O Jaime Francisco de Moura, que já citei, tem um livro chamado "Por que estes ex-protestantes se tornaram Católicos! Testemunhos de ex-pastores e leigos que voltaram à Igreja Mãe". Há, também, o livro "Homens que regressaram à Igreja" do Severin Lamping. Para quem lê na Língua Inglesa, há uma série de três livros editados pelo Patrick Madrid: "Surprised by truth: 11 converts give the biblical an historical reasons for becoming catholic"; "Surprised by truth 2: 15 men and women give the biblical and historical reasons for becoming catholic"; "Surprised by truth 3: 10 more converts explain the biblical and historical reasons for becoming catholic". Compare o nível dos argumentos dos dois lados. Para ser sincero, nunca encontrei um protestante anticatólico que demonstrasse conhecer a doutrina católica. Ainda estou à procura desse livro porque, por enquanto, só encontro argumentos falaciosos que fazem uso de espantalhos. O padre Paulo Ricardo fala num vídeo que os protestantes, em sua grande maioria, rejeitam uma completa caricatura da fé católica (http://www.youtube.com/watch?v=1Pu0AP4VvwU). Os católicos baseiam-se, também, na Tradição. Os textos da patrologia que coloquei aqui são apenas o começo dessa Tradição. Pergunto-me quantos protestantes já leram pelo menos o Catecismo da Igreja Católica. A resposta é óbvia a partir das acusações infundadas que já demonstram ignorância apenas pelo questionamento.

   Discutirei agora o que um apologista católico, também ex-protestante, chamado Dave Armstrong, chama de "o calcanhar de Aquiles do Protestantismo", que é o "Sola Scriptura". Essa doutrina afirma que as Escrituras são tomadas como a única regra de fé e conduta. Se existe algo que aprendi com a Filosofia Analítica, especificamente, com o Paradoxo de Russell, foi que sempre temos de considerar o critério da autorreferência. Se a Escritura é a única base de fé e conduta, pergunto-me onde está isso na Bíblia. A resposta é: não está! Mostrem-me um versículo sequer que afirme isso; pelo contrário, vocês encontrarão inúmeros textos contra a "Sola Scriptura". O próprio Dave Armstrong, que já citei, tem um livro chamado "100 biblical arguments against Sola Sciptura". Eu concordo plenamente com o Armstrong e creio que se a "Sola Scriptura" for derrubada todo o Protestantismo desaba junto. Apenas isso já é suficiente para abandonar o Protestantismo a meu ver. Por isso, estou estudando um vasto material para eu mesmo escrever um livro chamado "O calcanhar de Aquiles do Protestantismo". Para citar apenas alguns textos sobre o assunto, há o livro "Not by Scripture Alone: A Catholic Critique of the Protestant Doctrine of Sola Scriptura", do Robert A. Sungenis, e a trilogia "Holy Scripture: The Ground and Pillar of Our Faith" — "Volume I: A Biblical Defense of the Reformation Principle of Sola Scriptura" (David T. King); "Volume II: An Historical Defense of the Reformation Principle of Sola Scriptura" (William Webster); "Volume III: The Writings of the Church Fathers Affirming the Reformation Principle of Sola Scriptura" (David T. King; William Webster). Como vocês podem ver, esta trilogia defende o "Sola Scriptura". Eu vou ler e estudar essas 1107 páginas de defesa do "Sola Scriptura", fora os outros livros que estou organizando como bibliografia. Isso não é nada mais do que a minha obrigação porque isso é ter honestidade intelectual, o que está difícil de encontrar no Brasil.

   Outro ponto com relação à "Sola Scriptura" é que foi a Igreja quem compilou as Escrituras. Por que os protestantes aceitam a Bíblia como ela está? Que arbitrariedade é essa? Simplesmente, não tem lógica crer que Deus inspirou quem escreveu, mas não inspirou quem ouviria a mensagem e identificá-la-ia como inspirada, como costuma dizer o padre Paulo Ricardo. Por que os protestantes aceitam a autoridade da Igreja Católica para escolher o Novo Testamento, mas não aceitam a autoridade da Igreja para escolher o cânone do Antigo Testamento? Se você quer jogar fora a autoridade da Igreja, jogue fora junto as Escrituras que a própria Igreja escolheu. Tenhamos em mente, agora, a seguinte situação: suponha que alguém me deu uma série de jornais antigos e que eu estou fazendo uma seleção apenas dos noticiários sobre assassinatos, jogando fora todo o resto. Digamos que eu tenha compilado um livro com esse material. Você não encontraria nele, pelo menos em princípio, nada que falasse de eventos que nada tivessem a ver com um assassinato. Da mesma maneira, a Igreja Católica compilou as Escrituras de acordo com a Tradição, com aquilo que ela tinha na oralidade — os métodos foram muitos, mas nos detenhamos apenas nesse quesito a título de argumentação. Vocês acreditam mesmo que haveria algo nas Escrituras que seria contraditório à Tradição e à Doutrina Católica? É muita ingenuidade pensar isso. Alguém pode questionar-me, dizendo que a Igreja Católica perverteu-se com o tempo; no entanto, sinto informá-lo de que o reconhecimento de dogmas no decorrer da história da Igreja, como a Imaculada Conceição ou a Assunção, já mencionadas neste texto, foram apenas reconhecimentos de algo que já estava presente na Igreja. Os diversos textos dos padres apostólicos, por exemplo, comprovam todas as doutrinas católicas. Depois que me convenci de que a "Sola Scriptura" estava, realmente, equivocada, fui procurar os argumentos católicos para as suas doutrinas e fui vendo que todas têm base bíblica. Um outro apologeta ex-protestante que posso recomendar é o filósofo Peter Kreeft. Que princípio é esse que não existiu durante mais de duzentos anos enquanto os cristãos não tinham uma Bíblia compilada e que seria impossível de ser aplicado na Idade Média quando não havia imprensa, as Bíblias eram copiadas à mão e a maior parte das pessoas nem sabia ler? Teria Cristo abandonado a sua Igreja, em vez de estar com ela "todos os dias" como prometeu em Mateus 28.20, resolvendo reaparecer apenas com Lutero e os reformadores depois no século XVI?

   Sempre gostei de interpretação de texto. Uma das áreas que mais estudei em Teologia foi Hermenêutica. Estudando autores como Grant R. Osborne, Kevin Vanhoozer, Uwe Wegner, Gordon Fee, Douglas Stuart, entre outros, você dá-se conta de que a metodologia para interpretar-se a Bíblia, simplesmente, não está na Bíblia. Isso é externo a ela. Envolvi-me durante muito tempo com discussões com calvinistas, uma vez que era arminiano. Percebi, em um dado momento, que, simplesmente, o embate nunca seria resolvido por meio das Escrituras: os dois lados faziam uso delas, mas tinham pressupostos de leitura distintos. Quando li pela primeira vez a Bíblia após ter estudado Descartes, fazendo uso do seu método da dúvida hiperbólica, cheguei à conclusão de que a Bíblia não poderia ser a Palavra de Deus de modo algum, pois achava que a Bíblia não poderia ter nenhum erro de nenhuma estirpe. Ainda não conhecia aos 15 anos as discussões sobre infalibilidade bíblica, inerrância etc. . Acreditei, durante um tempo, que a Ciência seria a norteadora da interpretação bíblica. Com o tempo, percebi que aquilo não daria certo e acreditei que a Lógica seria a condutora; no entanto, vi fracassar esse critério também depois de estudar a fundo. É importante ressaltar que levei a sério o estudo do Trivium medieval — Lógica, Gramática e Retórica. No medievo, era imprescindível que um teólogo estudasse isso; hoje, infelizmente, os teólogos não sabem nem escrever e compreender um texto, quanto mais saber Lógica e Filosofia — creio sinceramente que não se faz Teologia sem Filosofia. No ano passado, usando recursos de Lógica Modal em discussões com um pastor, ele disse que Matemática tinha nada a ver com aquilo. Ele, simplesmente, desconhecia toda a literatura de Filosofia Analítica da Religião. Autores como William Lane Craig, Plantinga ou Swinburne, que qualquer estudante de graduação que estude uma introdução de Filosofia da Religião conhece, usam e abusam de ferramentas lógicas. Quando você denuncia essa inaptidão, ainda por cima, é tido por arrogante, em vez de essas pessoas serem tidas por picaretas. Enfim, o que quero dizer aqui é que percebi que se não apelássemos à Tradição da Igreja, cairíamos num vale-tudo, como de fato o Protestantismo caiu, com suas mais de 30 mil denominações, com outras mil surgindo diariamente, como indicam as estatísticas — não me lembro de onde li isso para indicar os números precisos e a fonte exata. É importante ressaltar que toda vez que se fala de "Tradição" as pessoas falam de "tradições humanas". A própria Igreja Católica faz essa distinção. A Tradição da Igreja são "as verdades transmitidas através dos tempos pela viva Voz de Cristo na sua Igreja". Tradições humanas "são leis feitas por homens e que podem ser modificadas.".

   O próprio Lutero, com o tempo, percebeu o seu erro:
"Este não quer o batismo, aquele nega os sacramentos; há quem admita outro mundo entre este e o juízo final, quem ensina que Cristo não é Deus; uns dizem isto, outros aquilo, em breve serão tantas as seitas e tantas as religiões quantas são as cabeças.". [Luthers M. In. Weimar, XVIII, 547; De Wett III, 61) 
"Se o mundo durar mais tempo, será necessário receber de novo os decretos dos concílios (católicos) a fim de conservar a unidade da fé contra as diversas interpretações da Escritura que por aí correm.". (Carta de Lutero a Zwinglio. In Bougard, Le Christianisme et les temps presents, tomo IV (7), p.289)
   Retirei as duas citações acima de outro livro que indico: "Em defesa da Fé Católica nas questões mais difíceis", do Alessandro Lima.

   Outro ponto do qual discordo há tempos é o "Sola Fide", como vocês podem ver na pergunta de 2011 que fiz ao padre Paulo Ricardo. Leiam Tiago. O livro é muito claro e só não enxerga quem não quer. Lutero sabia disso e por isso dizia: "A carta de Tiago é uma carta de palha, pois não contém nada de evangélico" ("Preface to the New Testament', ed. Dillenberger, p. 19). Todo o Novo Testamento, com as suas advertências para o cristão, simplesmente, não faz sentido se as obras são conseqüências necessárias da fé. Aqui, é importante ressaltar que o católico não crê que as obras salvam. Ouvi o absurdo por parte de um pastor que os sete sacramentos serviam para a salvação. Ele, simplesmente, não sabia nem a definição de um sacramento: "um sinal sensível e eficaz da graça, instituído por Jesus Cristo para santificar as nossas almas". Aproveito aqui para recomendar o excelente livro do Leo J. Trese chamado "A fé explicada". Para quem quer ter uma visão panorâmica do Catolicismo, é um ótimo livro. O Sungenis, que já citei aqui, tem um livro de 773 páginas chamado "Not by faith alone: a biblical study of the catholic doctrine of justification" sobre o assunto. O livro do Trese diz o seguinte:
"Certa vez, li na secção de pequenas notícias de um jornal que um homem construiu uma casa para a sua família. Ele mesmo executou quase todas as obras, investindo todas as suas economias nos materiais. Quando a terminou, verificou com horror que se tinha enganado de propriedade e que a tinha construído no terreno de um vizinho. Este, tranqüilamente, apossou-se da casa, enquanto o construtor não pôde fazer outra coisa senão chorar o dinheiro e o tempo perdidos.
   Por lamentável que nos pareça a história deste homem, não chega a ter importância se a compararmos com a da pessoa que vive sem a graça santificante. Por nobres e heróicas que sejam as suas ações, não têm valor aos olhos de Deus.".
   Vejam que as obras isoladamente, sem a Graça, não servem para nada! Agora, quantos de vocês já ouviram pessoas repetindo que a Igreja Católica crê que as pessoas são salvas pelas obras? Leiam o documento que mencionei neste texto sobre a justificação para vocês entenderem melhor o que a Igreja Católica entende sobre a questão.

   Estudando cada vez mais a Doutrina da Igreja Católica, senti-me extremamente solitário: afinal, estava chegando a várias conclusões apenas por meio do estudo, sem interagir com ninguém que pudesse ajudar-me. Comecei a orar a Deus pedindo ajuda. No dia 24 de maio, fui participar de uma reunião com um grupo de Brasília que pretendia iniciar estudos sobre o Conservadorismo. Quando apareci na reunião, estava lá apenas o Felipe Melo, autor do blog "Juventude Conservadora da UnB"
(http://unbconservadora.blogspot.com.br/).

   Sabia que o Felipe tinha se tornado católico, se não me engano, em 2011. Como estávamos só nós dois, acabamos conversando e disse a ele que estava em uma jornada de conversão ao Catolicismo. Ele disse-me que logo depois da reunião ele iria ao CEAC (http://www.ceacdf.org.br/), um centro católico da Opus Dei. Fiquei meio assustado e disse a ele que o que eu conhecia da Opus Dei vinha dos livros do Dan Brown. Ele logo tranqüilizou-me, dizendo que não encontraria pessoas mutilando-se lá e nem sangue espalhado pelo chão. Fiquei, também, mais tranqüilo porque sabia que o próprio Scott Hahn é da Opus Dei, por meio do seu livro sobre o assunto chamado "Trabalho ordinário, graça extraordinária". Chegando lá, gostei bastante do ambiente. Fui muito bem recebido e acolhido. Ele falou-me do padre Rafael Stanziona de Moraes, cujo livro "Por que confessar-se" recomendo fortemente: o meu entendimento da confissão mudou completamente depois dessa leitura. O Felipe disse-me que o padre Rafael era formado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP, em Física pela mesma Universidade, que tinha sido professor do IME aos 21 anos, que havia feito mestrado em Matemática e que tinha se doutorado em Teologia Moral pela Universidade de Navarra. Fiquei muito empolgado ao saber disso porque eu mesmo iniciei minha vida acadêmica na Física, fui para a Matemática e terminei na Filosofia. Ainda por cima, estava estudando uma série de textos sobre Teologia Moral. O Felipe disse-me que ele tinha um acompanhamento com o padre Rafael e eu disse que gostaria de fazer o mesmo. Isso ocorreu em uma sexta-feira. Marquei, então, um encontro com o padre Rafael para a terça seguinte.

   Antes de continuar a história, outra razão que me levou ao Catolicismo foi a questão da Moral. No ano passado, por meio de discussões com o professor Julio Cabrera sobre a sua Ética Negativa, após uma série de conferências que fui na UnB, comecei a interessar-me por Ética. Sempre fui uma pessoa mais teórica, meu principal interesse na época era Lógica e Filosofia da Linguagem. Nunca achei que fosse ter interesse em estudar Ética, o que hoje me parece absurdo. Só fui ter aulas pela primeira vez com o professor Cabrera, por quem já tinha admiração desde 2007 — cito ele no meu antigo flog:  (http://www.fotolog.com.br/fabiosal/23552538/) —  no primeiro semestre de 2011. O professor Cabrera, embora eu tivesse dito a ele que nunca tinha estudado nada de Ética e nem feito a disciplina, que fui fazer no meu último semestre na graduação, nunca me desprezou. Pelo contrário, chegou a escrever um texto respondendo questões que tinha feito a ele http://pt.scribd.com/doc/98045319/ACERCA-DO-CARATER-CONTINGENTE-DA-ETICA-NEGATIVA-Julio-Cabrera . Ainda estou devendo uma resposta a ele. Digo isso porque já tive a experiência de pessoas acreditarem que o seu diploma é uma razão suficiente para que se tenha alguma autoridade, desprezando quem não tenha um. O filósofo Olavo de Carvalho, que mencionei aqui, não tem diploma e é, simplesmente, a pessoa mais culta que já conheci. O professor Cabrera sempre me tratou com igualdade em todas as discussões que já tive com ele — e olha que não foram poucas. Meus argumentos sempre foram tratados enquanto argumentos a despeito do fato de eu ter um diploma na época ou não, do fato de ele ter muitos mais anos de estudo que eu, ser muito mais culto ou pelo fato de eu nunca ter estudado Ética. Curiosamente, quando fui fazer oficialmente o curso de Ética, que infelizmente não fiz com o professor Cabrera, dei-me conta de que aprenderia nada nele porque tinha aprendido muito mais por meio das discussões com o professor Cabrera.

   Na época, fui convencido de que a procriação seria imoral, como o professor Cabrera defende a partir da sua Ética Negativa, mas o interessante é que os seus argumentos não dependem do seu sistema ético particular. Durante muito tempo, defendi que a procriação seria imoral e cheguei a convencer outras pessoas, incluindo a minha própria namorada. Um argumento do padre Paulo Ricardo, entretanto, foi crucial para mudar o meu pensamento. Ele dizia que uma pessoa que se questiona sobre o número de filhos já não está pensando a partir de uma cosmovisão cristã, uma vez que toda a Bíblia mostra os filhos como sendo bênçãos, e uma questão que sempre me incomodou a partir daquilo que vejo em outras pessoas sempre foi a questão de elas dizerem-se cristãs defendendo pontos completamente absurdos quando se tem em vista o Cristianismo. Enfim, comecei a buscar literaturas que discutissem a Ética Cristã. Para a minha surpresa, encontrei quase nada produzido entre os protestantes e uma vasta discussão entre os católicos. Tomás de Aquino, Santo Afonso de Ligório, Dietrich von Hildebrand, Bernhard Häring, Servais Pinckaers, Martin Rhonheimer, o próprio Alasdair MacIntyre, que é um filósofo bastante conhecido, Jacques Maritain, entre muitos outros. Todos eles católicos! Fiquei impressionado com toda a discussão moral desses autores. O que me impressionou também foi que várias conclusões a que cheguei em termos de Ética pensando sozinho já eram defendidas pela Igreja Católica. Não foi apenas a Teologia Moral católica que me impressionou, mas a sua Teologia de modo geral. Teólogos como Henri de Lubac, Bernard Lonergan, Hans Urs von Balthasar, Reginald Garrigou-Lagrange, Jean Daniélou, o próprio Ratzinger, o Papa João Paulo II, com a sua Teologia do Corpo maravilhosa, entre muitos outros são de um nível altíssimo. Quando você estuda esses teólogos e passa para um teólogo protestante, a diferença de nível é realmente gritante.

   O Scott Hahn já tinha apontado para uma questão no "Todos os caminhos levam a Roma" que me fizeram ter cuidado com a questão litúrgica. Li dois livros dele sobre o assunto: "O Banquete do Cordeiro" e "A Sagrada Escritura no Mistério da Santa Missa", organizado junto com o Flaherty. O Scott relata no seu livro sobre a sua conversão, as diferença entre a missa e um culto evangélico. Eu sabia que não encontraria um coro todos os domingos com várias vozes como eu tinha na minha igreja antiga. Sabia que não teria um órgão imponente como havia na minha igreja batista. Sabia, entretanto, que os católicos criam na transubstanciação, presença real de Cristo na Missa, e que ela toda tinha uma razão de ser que o Scott Hahn explica muito bem. Depois da explicação dele, não vejo, por exemplo, como entender o Apocalipse sem a Missa — na verdade, é Apocalipse que explica a Missa. Só fui à minha primeira Missa depois de ter certeza de que eu entenderia o que está acontecendo nela em termos litúrgicos. No dia 16 de junho, fui à minha primeira missa na Paróquia São Pedro de Alcântara. Tinha dito ao padre Rafael que a minha antiga Igreja costumava ter um culto muito cuidadoso e que gostaria de freqüentar uma paróquia que tivesse cuidado com a liturgia. Dentre as duas que ele indicou-me, essa era a que ficava mais perto de casa. Foi emocionante ver na Missa tudo aquilo que eu tinha estudado. Vi com os meus próprios olhos como os católicos respeitavam as Escrituras —  o Scott Hahn já tinha explicado que se você for às missas todos os dias durante três anos você escutaria toda a Escritura na Missa, diferentemente dos cultos evangélicos nos quais o pastor prega o que quiser. Já tinha ouvido falar dos milagres eucarísticos, mas tive a oportunidade de presenciar um milagre durante uma Missa no dia 16 de junho na minha própria vida. Isso eu contarei algum dia quando escrever melhor sobre a minha conversão em algum livro. Como dizia Tomás de Aquino, "contra fatos, não há argumentos".

   Uma pessoa que também me ajudou bastante foi um professor meu com quem, também, tive a primeira aula no primeiro semestre de 2011, chamado Scott Randall Paine. Coincidentemente, o professor Scott, que é outra das pessoas mais cultas que já conheci, é um especialista na obra de Chesterton. Ele fez o seu doutorado sobre Chesterton — "Chesterton e o universo". No ano passado, fiz dois cursos com o professor Scott sobre Filosofia Oriental. No segundo semestre, o professor emprestou-me um livro que estava carimbado como "Rev. Scott Randall Paine". Eu perguntei a ele sobre o "Reverendo" e ele disse-me que era padre. Até então, eu não sabia. Contei várias das minhas dúvidas sobre o Catolicismo ao professor Scott e ele ajudou-me com várias delas. Outra coisa que me impressionou muito no Catolicismo é algo que já tinha me impressionado nos meus estudos de religiões orientais: todas elas tinham costumes que envolviam toda a dimensão humana, seja física ou mental. O Protestantismo era muito abstrato quando comparado às grandes religiões — nunca achei que fosse reclamar de excesso de abstração. O Catolicismo possui toda uma dimensão ascética e mística — não confundam com esoterismo! Recomendo o excelente "Compêndio de Teologia Ascética e Mística" do pe. Tanquerey — que não existe no Protestantismo. A minha vida de santificação tem se tornado mais fácil e, por incrível que pareça, o próprio entendimento de várias doutrinas católicas ajudam na sua vida espiritual. Eu seguiria o Catolicismo mesmo que me fizesse mal porque sei que é verdadeiro, mas nunca me senti tão bem na minha vida. Sempre ouvi falar de uma felicidade que o Cristianismo deveria produzir, mas só tenho descoberto essa felicidade depois da minha descoberta do Catolicismo. Deus tem colocado na minha vida pessoas realmente comprometidas com a Sua Palavra e que são extremamente piedosas e, como se já não bastasse a sua piedade, além do mais, conhecem bastante as Escrituras e a Tradição da Igreja Católica.

   Não posso deixar de citar um grande amigo que conheci pelo Facebook, que é o Arthur Olinto, que está passando por uma experiência bem parecida com a minha. Temos planos de escrever um livro sobre a nossa conversão ao Catolicismo. Na semana passada, conheci o padre da paróquia que estou freqüentando: tinha marcado um dia para conversar com ele. Expliquei ao padre Givanildo sobre a minha conversão e, para a minha alegria, soube que a paróquia tinha um coral. No mesmo dia, em uma quarta-feira, fui ao ensaio e reconheci a lindíssima "Cantique de jean Racine" de Fauré no ensaio. Gosto muito de música e temia que não tivesse a oportunidade de usar o meu dom na Igreja. Até nisso Deus foi bondoso comigo. Ouvi, um dia desses, um comentário malicioso de que as missas são sem graça quando comparadas ao cultos protestantes. Penso que a pirotecnia, o espetáculo e a pompa costumam ser inversamente proporcionais àquilo que realmente tem importância. Quando, por exemplo, um artista precisa de mil bailarinos, fogos de artifício e efeitos especiais, é porque o seu talento não é suficiente para despertar o interesse do ouvinte. Não trocaria, sinceramente, qualquer show da Beyoncé, por exemplo, por um show do Caetano Veloso. Qualquer semelhança com a diferença entre o minimalismo das missas católicas e a grandiloqüência dos cultos protestantes não é mera coincidência.

   Para terminar, tenho sofrido uma perseguição e uma incompreensão por parte dos protestantes que nunca cheguei a sofrer quando me declarava ser um agnóstico. Creio que a razão principal deve ser porque a maior parte das pessoas nem sabia do que se tratava ser um agnóstico, enquanto o espantalho do Catolicismo está pronto para ser queimado: afinal, não é todo mundo que vai dar-se ao trabalho de estudar os documentos eclesiásticos, a patrologia e a patrística, os textos dos doutores da Igreja etc. Tenho tentado não reagir ao anticatolicismo dos Protestantes com um antiprotestantismo; no entanto, tem sido difícil. Já cheguei a ouvir que "o Diabo está batendo palmas" diante da notícia da minha conversão. Não tinha a noção de que as pessoas fossem tão intolerantes. Sinto-me confortado pelas palavras de Tomás de Kempis:
"Cristo teve adversários e difamadores; e você quer ter todos os homens por amigos e benfeitores seus? [...] Viver pacificamente com pessoas difíceis, e perversas, ou indisciplinadas, é uma grande graça e um feito muitíssimo louvável e corajoso. Não obstante, toda nossa paz nessa vida miserável consiste mais em sofrimento humilde do que em não sentir as adversidades. Seja forte com Cristo, e por Cristo, se você deseja Reinar com Cristo.".
   Tenho constatado na prática o que disse certa feita Pio XII:
"os homens [...] facilmente procuram persuadir-se de que seja falso ou ao menos duvidoso aquilo que não desejam que seja verdadeiro.". 
   As pessoas, infelizmente, estão pouco interessadas na verdade, por mais que saibam que no Cristianismo a verdade é Cristo. Conheço, ainda, muito pouco do Catolicismo se eu for comparar a outras coisas que já estudei: afinal, descobri todo um mundo que nunca havia explorado. Quanto mais estudo, no entanto, mais tenho a certeza de que a Igreja Católica tem sido desde sempre o depósito da fé cristã e que Cristo nunca abandonou a Sua Igreja, mas sempre esteve com ela.