sábado, 28 de abril de 2012

Fé e razão geram inconsistências?


Um colega meu — Rodrigo Cid — indicou-me um jogo pelo Facebook que achei muito interessante ( http://www.philosophersnet.com/games/god.php ). O jogo tem por objetivo verificar em que medida o pensamento religioso das pessoas é consistente, ou seja, não leva a contradições, tendo-se por base a racionalidade. O site, originalmente, está na Língua Inglesa — num Inglês horrível por sinal. Fiz a tradução para postar aqui. Em azul escuro, vocês encontrarão os trechos traduzidos por mim. As minhas respostas às perguntas estarão na cor vermelha. Farei alguns comentários.

Deus no campo de batalha

As suas crenças sobre a religião podem ir de encontro ao campo intelectual? Nesta atividade, você responderá uma série de 17 perguntas sobre Deus e religião. Em cada caso, partindo da questão 1, você precisa responder Verdadeiro ou Falso. O intuito desta atividade não é julgar se as respostas são corretas ou não. O que se encontra no campo de batalha é a consistência da racionalidade. Isso significa que, para atravessá-lo sem lesões, você precisará responder de maneira que seja racionalmente consistente. Isso quer dizer que você precisa evitar escolher respostas que sejam mutuamente contraditórias. Se você responder de uma maneira que seja racionalmente consistente, mas que tenha implicações estranhas ou intragáveis, você será forçado a tomar um tiro.

É claro que você pode concordar com pensadores como, por exemplo, Kierkegaard, acreditando que a crença religiosa não precisa ser racionalmente consistente. Isso, entretanto, está além do escopo desta atividade, que se trata sobre que medida as suas crenças são racionalmente consistentes, e não se isso é algo bom ou ruim.

Kierkegaard cria que a fé começa onde termina a razão. Discordo dele. Quanto à relação entre a fé e a razão [1], existem cinco possibilidades:

( i ) Tudo que é conhecido pela fé também é conhecido pela razão, mas nem tudo que é conhecido pela razão é conhecido pela fé; logo, a fé é uma subdivisão da razão (Racionalismo);
( ii ) Tudo que é conhecido pela razão também é conhecido pela fé, mas nem tudo que é conhecido pela fé é conhecido pela razão; logo, a razão é uma subdivisão da fé (Fideísmo);

( iii ) Tudo que é conhecido pela fé é conhecido também pela razão, e vice-versa; logo, fé e razão são intercambiáveis;

( iv ) Nada que é conhecido pela fé é conhecido pela razão, e vice-versa; logo, fé e razão são mutuamente excludentes (Dualismo);

( v ) Algumas coisas, mas nem todas, que podem ser conhecidas pela fé também são conhecidas pela razão, e vice-versa; logo, fé e razão se interceptam parcialmente (Superposição Parcial);

Eu sou adepto da última opção — a superposição parcial. Kierkegaard era um dualista.
Questão 1
Deus existe.
Verdadeiro/Falso/Não sei

Questão 2
Se Deus não existe, então, não há base para a moralidade.
Verdadeiro/ Falso

Nunca pensei que a ética fosse ser um assunto sobre o qual me preocuparia: primeiramente, sempre fui um teórico. Na Física e na Matemática, sempre me interessei por assuntos abstratos. Nunca tive muito interesse na área aplicada e coisa parecido ocorreu na Filosofia; contudo, tenho percebido, ultimamente, que a Ética é um excelente campo para debater a questão da existência de Deus. Estou concebendo uma obra que se chamará O fundamento único e necessário da Ética no qual buscarei mostrar de maneira definitiva que apenas o Deus cristão fundamenta a Ética de maneira satisfatória.

Questão 3
Qualquer ser que possa ser corretamente chamado de Deus deve ser livre para fazer qualquer coisa
Verdadeiro/Falso

As pessoas podem estranhar a minha resposta aqui. São famosos os chamados "Paradoxos da Onipotência". Uma maneira bastante conhecida de apresentar esse paradoxo é a seguinte: Deus pode criar uma pedra que ele não possa levantar? Se a resposta é afirmativa, Deus não poderá ser onipotente, pois não poderá levantar essa pedra; se a resposta for negativa, Deus, igualmente, não poderá ser onipotente, pois haverá ao menos uma coisa que ele não tem poder para fazer: criar uma pedra que não possa levantar. Tomás de Aquino trata desse problema na questão 25 do Livro I da sua Suma Teológica [2]. Ele afirma que Deus pode fazer apenas o que é logicamente possível. Achava, até pouco tempo, a solução do Tomás de Aquino perfeita. Ele, contudo, não conhecia os desenvolvimentos, que só ocorreram no século XX, de novas lógicas, diferentes de clássica. Tomás de Aquino conhecia apenas a Lógica Aristotélica, que, hoje, é praticamente nada diante de todas as ferramentas que temos. Se Deus pode fazer apenas o que é logicamente possível, tudo bem, mas de que lógica estamos falando? A possibilidade lógica é definida em termos do sistema subjacente à análise que efetuamos para verificar o valor de verdade das proposições. Enfim, um bom exemplo, é que Deus não pode fazer alguém ser, simultaneamente, solteiro e casado ou coisas desse tipo. Deus, também, não pode agir de modo contraditório à sua natureza. Uma boa maneira de entender isso é pensando se Deus poderia agir de modo mal ou praticar o mal. Pensando de modo agostiniano [3], o mal não é uma substância, mas é o afastamento de Deus. Onde Deus não está, aí há o mal. Por definição, então, como o bem é imanado pelo próprio Deus, ele não pode fazer o que é mal, simplesmente, porque é uma contradição lógica que Deus esteja e não esteja, sob as mesmas circunstâncias, no mesmo lugar. Alguns, talvez, perguntarão como fica a onipresença divina. É bom lembrar que, como o mal não é uma substância, mas representa uma atitude de afastamento, não de Deus, de modo literal, mas um afastamento da sua vontade. Não há, portanto, problemas em admitir-se a concepção de mal agostiniana e a manutenção do atributo da onipresença divina.

Questão 4
Qualquer ser que possa ser corretamente chamado de Deus deve querer que exista tão pouco sofrimento no mundo quanto seja possível
Verdadeiro/Falso

É uma possibilidade lógica que haja um mundo sem sofrimento e este mundo, no qual há a menor quantidade possível de sofrimento, é um mundo no qual a quantidade de sofrimento é nula; contudo, é possível que Deus queira criar um mundo no qual haja sofrimento e que a quantidade não seja a mínima possível [4]. É totalmente compatível com a concepção cristã de Deus que Ele não queira que exista um mundo com a menor quantidade de sofrimento possível.

Questão 5
Qualquer ser que seja corretamente chamado de Deus deve ter o poder de fazer qualquer coisa.
Verdadeiro/Falso

Já discuti essa questão na Questão 3.

Questão 6
A teoria evolucionista talvez seja falsa no tocante a alguns detalhes, mas é essencialmente verdadeira.
Verdadeiro/Falso

As pessoas que me conhecem sabem que sou um evolucionista teísta; talvez, elas não entendam por que, então, marquei a opção "Falso" na questão acima. Explico-me. As pessoas têm uma grande dificuldade de entender o que é a ciência. As inferências científicas são inferências indutivas [5]. Para citar um exemplo de uma área que conheço bem, pensemos numa famosa lei da Física Clássica, em particular, a Lei da Gravitação Universal de Newton. Ela afirma que a força gravitacional é diretamente proporcional ao produto das massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre elas. A Física faz experimentos e encontra equações que modelam determinadas situações; no nosso caso, falamos sobre uma relação matemática que modela a força gravitacional entre os corpos. A pergunta é a seguinte: a natureza sempre se comportou dessa maneira? Ela sempre se comportará seguindo essa lei? A resposta mais comum — digo "mais comum" porque existem alguns poucos físicos tentando lidar com "leis" que mudam com o tempo — é a de que o comportamento sempre foi o mesmo e sempre será o mesmo. A ciência supõe uma regularidade que, simplesmente, não pode ser provada. O lógico brasileiro Newton da Costa criou uma teoria da verdade chamada Teoria da Quase-Verdade, na qual ele busca mostrar que a ciência não lida com a verdade, mas com a quase-verdade. Essa característica da ciência que permite que ela seja revisável. Voltando à questão, a partir do caráter indutivo da ciência é plenamente possível que a teoria evolucionista seja falsa, assim como qualquer outra teoria científica; inclusive, Karl Popper fornece como critério para o reconhecimento de uma teoria científica que ela possa ser falseável. Será, portanto, sempre possível que uma teoria científica seja falsa por definição! Dizer que uma teoria científica é essencialmente verdadeira é dizer que ela é necessariamente verdadeira, ou seja, que não há um mundo possível acessível ao nosso no qual a teoria seja falsa.

Perigo! Sem ferimentos até agora, mas fique atento! Perigo à vista!

Questão 7
É justificável para basear as crenças de alguém sobre o mundo externo uma firme convicção interna, independentemente de evidências externas, ou na falta delas, para a verdade ou falsidade dessas convicções.
Verdadeiro/Falso

As pessoas têm a falsa idéia de que a religião ou a crença em Deus é apenas uma "firme convicção interna". No tocante à religião cristã, nada é mais falso. A Teologia cristã faz uma distinção entre "revelação geral" e revelação especial". A primeira trata da revelação dos atributos divinos na Sua criação e a última trata, grosso modo, da revelação que tivemos em Cristo e por meio das Escrituras. Essas duas revelações são externas. Atos 17.28 (estou sempre usando a tradução da NVI) diz: "Pois nEle vivemos, nos movemos e existimos". Não há a possibilidade de tratar Deus como um objeto externo apenas. Crer em Deus não é apenas ter uma crença sobre o mundo externo, mas é ter uma percepção de algo que não apenas é transcendente, mas, também é imanente; por definição, algo tem de imanar primeiramente para depois transcender. A crença em Deus não é baseada apenas numa firme concicção interna e crer que a mera crença de alguém é justificável por conta de suas convicções é negar o próprio Cristianismo, uma vez que uma das principais etapas do Cristianismo, que é a santificação, é, justamente, despirmo-nos de nós mesmos, o que inclui os nossos pensamentos e crenças, a fim de revestirmo-nos do Espírito Santo, portanto, das idéias e pensamentos divinos.

Chegou a hora de escolher!

Você está sob fogo cruzado!

Você não pensa que seja justificável basear a crença de alguém sobre o mundo externo numa firme convicção interna, sem alguma prestação de contas a evidências externas, ou na falta delas, para validar ou falsificas uma convicção. Na questão anterior, entretanto, você rejeitou a teoria evolucionista quando a vasta maioria dos cientistas pensa tanto que as evidências apontam para a sua veracidade quanto que não há evidência para falsificá-la. Obviamente, muitos criacionistas reivindicam que o fato de que haja evidências para a evolução não é conclusivo. Ao adotar essa postura, contudo, eles vão de encontro à ortodoxia científica. Você, portanto, tem de fazer uma escolha:

Ser atingido por uma bala e dizer que há evidência de que a evolução não é verdadeira, apesar do que os cientistas dizem;

Bater em retirada e dizer que essa é uma área na qual suas crenças apenas entram em contradição.

Opções:
Os cientistas estão errados. Irei ser atingido pela bala.

Minhas crenças estão em contradição. Baterei em retirada.

Em primeiro lugar, o texto apela para uma falácia ad populum e ad verecundiam: desde quando o fato de a vasta maioria dos cientistas pensar algo torna esse algo verdadeiro e desde quando o fato de um cientista dizer algo torna esse algo verdade? Em segundo lugar, eu mesmo disse anteriormente que eu sou um evolucionista teísta. Não recuso a teoria evolucionista e disse que a Questão 6 era falsa por motivos que nada têm a ver com a minha aceitação ou recusa da teoria. Como não entrei em contradição nenhuma, tive de escolher a opção "Os cientistas estão errado". É importante lembrar que há, novamente, outra falácia, que é aquela chamada de "falácia da bifurcação", na medida em que são oferecidas apenas duas opções, desconsiderando-se que existam outras possibilidades. De fato, as minhas crenças, até aqui, não entraram em contradição e eu, muito menos, acredito que os cientistas estejam errados hoje, mas apenas creio que há a possibilidade de que eles estejam errados. Para os afeitos à semântica dos mundos possíveis de Kripke, a avaliação do valor de verdade de proposições com modalidades é feita de acordo com os mundos acessíveis ao mundo atual. Pode ser o caso da situação do mundo atual nem ao menos ser considerada; em outras palavras, supor que os cientistas possam estar errados pode ser dito sem nenhum tipo de comprometimento com o fato de que os cientistas estejam errados ou não.

Questão 8
Qualquer ser que é corretamente chamado de Deus deve saber tudo o que há para ser conhecido.
Verdadeiro/Falso

Achei muito inteligente restringir a questão a "o que há para ser conhecido"; assim, evitou-se o problema dos futuros contingentes ou mesmo a questão que os adeptos do teísmo aberto colocam sobre o que é passível de ser conhecido.

Questão 9
Torturar pessoas inocentes é moralmente errado.
Verdadeiro/Falso 

A fonte da moral cristã é o próprio Deus. Digo isso porque se Deus mandasse expressamente que alguém torturasse um "inocente" — coloquei a palavra "inocente" entre aspas porque apenas Deus seria capaz de saber quem é inocente ou não. Digo "seria" porque, de acordo com o Cristianismo, não há inocentes: todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (Romanos 3.23) — ele deveria ser torturado. Tentei pensar em algum texto que pudesse indicar que é moralmente errado torturar alguém. Veio à minha mente o texto de Lucas 6.31: "Como vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a eles.". O problema surge se alguém for masoquista e gostar de ser torturado; enfim, como a questão não afirmou que seja SEMPRE moralmente errado torturar pessoas inocentes, não vi problemas em julgá-la como verdadeira.

Questão 10
Se, apesar de anos de tentativas, nenhuma evidência forte ou argumento foram apresentados para mostrar que não há um Monstro do Lago Ness, é racional crer que um monstro como esse não existe.
Verdadeiro/Falso

Quando vi essa questão, já previ um argumento que os ateus sempre gostam de dar sobre a questão do ônus da prova e sobre comparar a racionalidade do ateísmo com a racionalidade da não-crença em duendes, papai noel e afins. O William Lane Craig possui um ótimo texto sobre esse assunto [6].

Questão 11
Pessoas que morrem de forma horrível, por conta de doenças dolorosas, precisam morrer de tal maneira para que seja cumprido um propósito maior.
Verdadeiro/Falso

Supor que fatos do mundo ocorrem por conta do cumprimento de um propósito maior é supor o determinismo. Creio no livre-arbítrio e creio que as pessoas são responsáveis pelos seus atos e que fatalidades — que nada têm a ver com fatalismo! — ocorrem num mundo onde haja liberdade. Quanto a esse assunto, sobre o sofrimento no mundo, recomendo o vídeo que indiquei na Questão 4. 

Questão 12
Se Deus existe, ele poderia agir de maneira que tudo aquilo que agora é considerado pecaminoso fosse moralmente aceitável e de maneira que tudo aquilo que é agora considerado moralmente bom torna-se pecaminoso.
Verdadeiro/Falso

Essa questão tem a ver com um dilema que o meu colega supracitado, Rodrigo Cid, sempre gosta de levantar, que é o conhecido Dilema de Eutífron. Resumidamente, o dilema é o seguinte: Deus faz o que é bom porque é bom ou as coisas que Deus faz são boas porque as faz? Haveria um dilema porque se Deus faz o que é bom porque é bom, há algo externo a Deus ao qual Deus serve. Se, do contrário, as coisas são boas porque Deus praticou-as, quer dizer que a bondade é arbitrária. Esse é um falso dilema na verdade [7] porque há uma opção que não é colocada pelo dilema, o que acaba reduzindo-o à falácia conhecida por "falácia do falso dilema". A opção é a de que a bondade seja imanente ao próprio Deus, de modo que ele nem sirva a algo externa e não torne algo bondoso por um decreto, simplesmente porque ele aja de determinada maneira. Essa questão flerta com a questão 3, pois vimos que Deus não pode fazer o que é logicamente impossível e para que um ato pecaminoso fosse considerado moralmente aceitável, Deus teria de mudar a sua natureza, o que seria contraditório de acordo com o que já discutimos sobre o mal a partir da concepção agostiniana.

Questão 13
É tolice crer em Deus sem certeza ou prova irrevogável de que Ele exista.
Verdadeiro/Falso

Hebreus 11.1 diz o seguinte: "Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos."; logo, a fé é a certeza e a prova de que Deus existe por definição.O famoso versículo de João 3.16 diz: "Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.". O verbo grego para "crer" neste texto é o verbo "pistis" que tem a conotação de fé. A fé, portanto, a necessária para a salvação no Cristianismo e, por sua vez, é a certeza de que Deus existe. É tolo, portanto, crer em Deus sem fé, ou sem a certeza do que esperamos.
 
Questão 14
Tão logo não existam argumentos cogentes ou evidências que mostrem que Deus não existe, o ateísmo é matéria de fé, e não de racionalidade.
Verdadeiro/Falso

Você foi atingido!

Você acabou de tomar um tiro certeiro!

Mais cedo, você concordou que é racional crer que o Monstro do Lago Ness não existe se há ausência de evidências fortes ou argumentos de que ele existisse. Nenhuma evidência forte ou argumento foi exigido para mostrar que o monstro não existe — ausência de evidências ou argumentos foram suficientes. Agora, entretanto, você alega que o ateísta precisa estar apto a providenciar argumentos fortes ou evidências se sua crença na não-existência de Deus é racional, em detrimento de uma mera matéria de fé.

A contradição é que na primeira ocasião — referente ao Monstro do Lago Ness — você concordou que a ausência de evidência ou argumento é suficiente para racionalmente justificar a crença na não-existência do Monstro do Lago Ness; contudo, nesta ocasião — quando nos referimos a Deus — você não concordou de forma semelhante.

Faço menção, novamente, ao texto ao qual fiz referência na Questão 10. Quando se fala sobre o monstro do Lago Ness, está-se falando sobre um objeto no mundo externo que pode ser detectado por meios científicos, o que é completamente distinto de tratar sobre Deus. O texto do Craig esclarece bem esse problema, dissolvendo a tal contradição apontada. Confesso que estou com preguiça de reproduzir o argumento do Craig. Leiam o texto dele!

Questão 15
O estuprador em série Peter Sutcliffe tem uma firme convicção interior de que Deus queria que ele estuprasse e assassinasse prostitutas. Ele foi, portanto, justificado em crer que ele estava realizando a vontade de Deus ao empreender essas ações.
Verdadeiro/Falso

Já mencionei essa questão da "convicção interior" na Questão 7.

Questão 16
Se Deus existe, ele teria a liberdade e poder para criar círculos quadrados e tornar 1 + 1 = 72.
Verdadeiro/ Falso

Já mencionei essa questão na Questão 3.

Questão 17
É justificável crer em Deus se alguém tem a firme convicção interna de que Deus existe, independentemente de evidências externas, ou da ausência delas, referentes à verdade ou falsidade de que Deus exista.
Verdadeiro/Falso

Já discuti isso na Questão 7.

Você chegou ao fim!

Parabéns! Você respondeu às perguntas até o fim desta atividade.

Você tomou um golpe direto e foi acertado por uma bala. O jogador médio dessa atividade até a presente data toma 1,37 golpes e 1,09 balas. 551.377 pessoas têm feito esta atividade.

Clique no link abaixo para uma análise posterior do seu desempenho e veja se você ganhou um prêmio.

Parabéns!
Você foi premiado com a medalha de distinção TPM! Esse é o nosso segundo maior prêmio pelo notável serviço prestado no campo da batalha intelectual.

O fato de você ter progredido durante a atividade sendo golpeado apenas uma vez e tendo recebido apenas uma bala sugere que suas crenças sobre Deus são bem pensadas e que são quase inteiramente consistentes internamente.

O golpe direto que você sofreu ocorreu porque um conjunto das suas respostas implicou uma contradição lógica. O tiro levado ocorreu porque você respondeu de maneira que requeria que você defendeu visões que a maioria das pessoas acharia estranhas, inacreditáveis ou intragáveis. Na parte inferior desta página, temos reproduzida a análise do seu golpe direto e das balas que o feriram.

Como você sofreu apenas um golpe direto e um tiro, você está qualificado a receber o nosso segundo maior prêmio. Bom aproveitamento!

[1] Dêem uma olhada no Manual de Defesa da fé (Peter Kreeft, Ronald K. Taceli) 


[3] Vejam as Confissões, do Santo Agostinho, no Livro VII — "A Caminho de Deus
12 - O Problema do Mal - A Perfeição das Criaturas". Transcrevo o trecho genial de Agostinho para quem não conhece:

"Vi claramente que todas as coisas que se corrompem são boas: não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, nem se poderiam corromper se não fossem boas. Com efeito, se fossem absolutamente boas, seriam incorruptíveis, e se não tivessem nenhum bem, nada haveria nelas que se corrompesse.

De fato, a corrupção é nociva, e, se não diminuísse o bem, não seria nociva. Portanto, ou a corrupção nada prejudica - o que não é aceitável - ou todas as coisas que se corrompem são privadas de algum bem. Isto não admite dúvida. Se, porém, fossem privadas de todo o bem, deixariam inteiramente de existir. Se existissem e já não pudessem ser alteradas, seriam melhores porque permaneceriam incorruptíveis. Que maior monstruosidade do que afirmar que as coisas se tornariam melhores com perder todo o bem?

Por isso, se são privadas de todo o bem, deixarão totalmente de existir. Logo, enquanto existem, são boas. Portanto, todas as coisas que existem são boas, e aquele mal que eu procurava não é uma substância, pois, se fosse substância, seria um bem. Na verdade, ou seria uma substância incorruptível, e então era certamente um grande bem, ou seria substância corruptível, e, nesse caso, se não fosse boa, não se poderia corromper.
Vi, pois, e pareceu-me evidente que criastes boas todas as coisas, e que certissimamente não existe nenhuma substância que Vós não criásseis. E, porque as não criastes todas iguais, por esta razão, todas elas, ainda wue boas em particular, tomadas conjuntamente são muito boas, pois o nosso Deus criou "todas as coisas muito boas".¹

¹ Gen. 1, 31

[4] Vejam o excelente vídeo do William Lane Craig sobre esse assunto:
http://www.youtube.com/watch?v=8o2BtYlH4Sc

[5] Essa questão das inferências indutivas está conectada ao que ficou conhecido como "Problema da Indução de Hume". Recomendo a leitura do verbete da Enciclopédia de Filosofia de Stanford:
http://plato.stanford.edu/entries/induction-problem/


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Deve o cristão julgar? — Uma análise neo-testamentária acerca do julgamento

1. Notas preambulares

Recentes discussões no Facebook obrigam-me a escrever um texto sobre o julgamento cristão. Transcrevo o comentário que fiz que gerou tanta polêmica:
"Se você, de fato, crê que a Bíblia é a Palavra inspirada por Deus, por que cargas d'água nunca se deu ao trabalho de lê-la? Cansei de gente dando pitaco naquilo que não sabe nem do que se trata, que fala do Evangelho sempre de segunda mão, mas nunca daquilo que compreendeu por meio do estudo e do enchimento do Espírito diretamente. Adotarei, agora, o critério do cristão inválido. Tem mais de um ano de convertido? Sim? Já leu a Bíblia? Não? Você, então, não pode ser um cristão!" (Comentário feito no dia 25 de outubro de 2011, às 21h05)
Acho lamentável que eu tenha de escrever um texto sobre este assunto. Sinto-me como Paulo, na sua primeira carta aos coríntios, quando diz que não pôde falar como se o fizesse a pessoas espirituais, mas, sim, a pessoas carnais, como a crianças em Cristo (1 Cor. 3.1). Ainda, com respeito à infantilidade de seus interlocutores, Paulo diz: "Irmãos, deixem de pensar como crianças. Com respeito ao mal, sejam crianças; (sic) mas, quanto ao modo de pensar, sejam adultos." (1 Cor. 14.20)[1].

Estou farto de pessoas que dizem ter 10, 20, 30 anos de "conversão", mas que nunca leram, uma vez sequer, a Bíblia. A Palavra é o principal alimento do cristão. Hebreus 5.13 diz que "Quem se alimenta de leite ainda é criança, e não tem experiência no ensino da justiça". Um dos alimentos mais sólidos à disposição do cristão é, justamente, o texto sagrado. Certa feita, ouvi o depoimento de um recém-convertido ao Cristianismo, que havia deixado de ser muçulmano. Em um ano, ele disse que lera a Bíblia 7 vezes e que, para o mundo muçulmano, no qual as crianças crescem com o Corão na cabeça, isso não é muita coisa. Será que o crescimento do Islamismo no mundo deve-se à paixão que o muçulmano apresenta? Sinto falta dessa mesma paixão nos cristãos.

As desculpas são as mais criativas para o relapso com relação à leitura da Bíblia: falta de tempo, desgosto pela leitura, indisciplina... Aproveitando a comparação de Paulo, lembro-me de quando, ainda aos sete anos, li a Bíblia pela primeira vez. Obviamente, não tive um entendimento satisfatório do texto. O meu livro predileto, na época, era o Apocalipse, mas a minha interpretação era completamente fantasiosa. Quando li Mateus 7.1 — "Não julguem, para que vocês não sejam julgados" —, logo, saí repetindo o versículo para qualquer comentário dos meus pais a meu respeito. Descobri, posteriormente, o Estatuto da criança e do adolescente e percebi que seria mais produtivo citá-lo pelas conseqüências legais atreladas ao seu descumprimento.

A minha atitude infantil, que, ao menos, era própria à minha idade, é observada em senhores de 70 anos de idade! Um tipo de justificativa que também é dada é a de que não se conhece a Deus apenas por meio da leitura da Bíblia. Bem, esse tipo de argumento é bem fraco porque ele mesmo afirma que o conhecimento de Deus dá-se por meio da Bíblia, embora não o seja apenas por este meio; então, por que ignorar ou ser negligente a respeito de um meio que sei que pode revelar-me Deus? Com respeito a esse assunto, recomendo o excelente livro do Richard Foster intitulado Celebração da disciplina — o caminho do crescimento espiritual.O livro é genial. Nunca tinha pensado, antes de lê-lo, que o caminho para o crescimento no Cristianismo seria dado por meio do exercício de disciplinas. O Foster, a título de ênfase, obviamente, lista a leitura da Bíblia — em suas palavras, o "estudo" da Palavra. 


2. Nomeação e predicação

Tratando, agora, da explanação que quero dar sobre o assunto do julgamento no contexto do Novo Testamento, creio que é preciso elucidar alguns pontos lógico-lingüísticos. Existem, basicamente, duas maneiras de distinguir-se os objetos — veremos que na acepção do verbo no original grego, há a acepção de "distinguir". A primeira maneira, e a mais simples, refere-se ao ato de nomear ou dar nomes aos objetos. Se tenho dois objetos e quero fazer uma distinção entre eles, posso chamar o primeiro de "A" e o segundo de "B". Tem-se a possibilidade de, mesmo tendo nomes distintos, os objetos serem os mesmos. Neste caso, teremos nomes distintos que têm a mesma referência, mas o que importa aqui é a epistemologia e não a ontologia, ou seja, o ato de conhecer e não como as coisas são em si de fato. 

A segunda maneira mais precisa de diferenciação de objetos é a predicação. Se dois objetos são idênticos, eles têm as mesmas propriedades; portanto, por contraposição, se eles não têm as mesmas propriedades, eles não são idênticos. A partir do princípio da indiscernibilidade dos idênticos, temos um critério para o apontamento de dois objetos distintos: basta atribuir uma propriedade que os dois objetos não compartilhem. 

O que seria, no entanto, predicar um objeto? Ora, quando digo que um objeto o tem a propriedade P, se a minha afirmação é verdadeira, estou dizendo que existe um conjunto de objetos que têm a propriedade P, que eu vasculhei tal conjunto e que encontrei o objeto o nele. 

O ato de nomeação não exige um julgamento, pois posso colar um rótulo sobre um objeto de maneira totalmente arbitrária; por exemplo, posso chamar alguém de "Jacó" apenas para mencioná-lo, mesmo que ele não seja um enganador, uma vez que a etimologia da palavra revela tal significado. O ato de predicação, contudo, tem por pressuposto o julgamento, tendo em vista que quando digo que o objeto o tem a propriedade P, tenho de incluí-lo num conjunto, logo, tenho de decidir se ele faz parte de um conjunto ou não.

3. O verbo grego "Kríno"[2] e as acepções de "julgar"

O verbo grego para julgamento, incluindo seus cognatos, que aparece no texto de Mateus 7.1 surge 114 vezes no Novo Testamento[3] em 74 variações. Fiz uma análise exaustiva dessas 114 aparições, selecionando os casos que são relevantes na nossa análise. O leitor mais atento, talvez, questione a minha seleção, mas explicarei por que não analisarei todos os casos. O verbo grego "kríno" tem, segundo o Dicionário Grego-Português e Português-Grego, do Isidro Pereira, S.J., as seguintes acepções: 
reparar, escolher, distinguir, discernir, decidir, julgar, acusar, condenar, explicar uma questão, interpretar, apreciar, avaliar, resolver um litígio.
Vejam que a própria possibilidade de acepções do verbo já abre margem para que não consideremos alguns versículos. A título de exemplo, vejam o seguinte versículo de Apocalipse 19.11: "Vi o céu aberto e diante de mim um cavalo branco, cujo cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro. Ele julga e guerreia com justiça". Este versículo não tem serventia para o nosso propósito de analisar se o cristão deve ou não julgar.

As acepções do verbo na Língua Portuguesa não diferem muito daquelas do verbo grego. Uma consulta ao Dicionário Houaiss da língua portuguesa revela as seguintes acepções:
tomar uma decisão na qualidade de juiz; sentenciar, pronunciar uma sentença; emitir parecer, opinião sobre alguma coisa ou alguém, formar conceito, opinião; decidir, após reflexão; considerar; decidir que algo pertence a ou se transfere para outrem; adjudicar; supor-se, imaginar-se, considerar-se, pensar-se.


Vê-se que as acepções do verbo de origem latina "julgar" possui uma conotação mais jurídica que o verbo grego "kríno".

4. Uma exegese de Mateus 7

Existem dois modos ou dois tipos de ênfase que se pode efetuar na leitura de um texto. O primeiro tipo diz respeito à leitura vertical. Neste tipo, a leitura do texto é feita dando-se ênfase ao texto em si. O segundo tipo concerne à leitura horizontal, que é feita dando-se ênfase à obra completa do autor. Podemos falar de vários tipos de leituras horizontais e verticais. No caso do texto de Mateus 7, por exemplo, uma leitura vertical teria por escopo apenas o capítulo 7. Uma leitura horizontal teria várias possibilidades de escopo, por exemplo, todo o livro de Mateus, todo o Novo Testamento ou a Bíblia inteira, levando-se em consideração o pressuposto da unidade do texto bíblico a partir da inspiração divina na sua escrita. No tocante a outros tipos de literatura, tendo um autor como Tolstói, por exemplo, uma leitura vertical restringir-se-ia a um livro específico, digamos, "A morte de Ivan Illitch". Uma leitura horizontal levaria em conta todos os textos de Tolstói ou mesmo aqueles textos que influenciaram a sua escrita. 

Tanto a leitura horizontal quanto a vertical têm o seu lugar e sua função. Minha ênfase agora será uma leitura vertical do texto; posteriormente, abrangerei outros textos neo-testamentários. Das 114 aparições do verbo grego "kríno", apenas quatro versículos apresentam o verbo — Mateus 7.1-2; 19.28; 5.40. Veremos, contudo, que o próprio capítulo 7 fornece as ferramentas para uma interpretação adequada. Talvez, por preguiça, as pessoas enfatizam o versículo 1 "Não julguem, para que vocês não sejam julgados" esquecendo-se de todo o resto. 

Em primeiro lugar, é importante enfatizar que lendo apenas o versículo 1, como algumas pessoas fazem, o julgamento de nós mesmos seria proibido. Não deveríamos julgar nem a nós mesmos para que não fôssemos alvo de julgamento. Vejamos, contudo, o versículo 5: "Hipócrita, tire primeiro a viga no seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.". Ora, para eu tirar a viga do meu olho tenho de olhar para mim mesmo. Lembrem-se que uma das acepções do verbo grego é "reparar" e que qualquer predicação é um julgamento. Ou seja, dizer "Eu tenho uma viga no meu olho" pressupõe um conjunto das coisas que têm vigas nos olhos para que eu possa incluir-me neste conjunto. Outra acepção do verbo grego é "decidir" e é nesse sentido que julgo quando me incluo no conjunto das coisas que têm vigas nos olhos. Estou sendo minucioso quanto a essas explicações, que podem parecer até óbvias, porque algumas pessoas tendem a dizer que isso não é um julgamento.

O mesmo versículo que afirma que devo julgar a mim mesmo diz que devo fazê-lo para quê? Para olhar claramente para tirar o cisco do olho do meu irmão. Ora, o mesmo procedimento que fiz para tirar a trave dos meus olhos é o mesmo procedimento que devo efetuar para tirar o cisco do olho do meu irmão. Devo, portanto, julgar o meu irmão na medida em que "reparo" no cisco dos olhos dele. 

O versículo 6 afirma o seguinte: " 'Não dêem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso, contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão.". Ora, o versículo diz que eu devo identificar quem é o cão e quem é o porco, mais uma vez, voltemos à questão da predicação. Que é eu dizer que alguém é cão? É eu olhar para o conjunto dos cães e ver, JULGAR, se o objeto que predico encontra-se naquele conjunto. 

O versículo 15 fala dos falsos profetas, para termos cuidado com eles. Ora, mas para ter cuidado com o falso profeta, antes, devo identificar quem é um falso profeta, portanto, julgar que alguém é ou não um falso profeta. O versículo 16 diz que um modo de reconhecê-los é por meio dos seus frutos. O versículo 17 fala da árvore boa e da árvore ruim. A primeira é aquela que dá frutos bons e a segunda é a que dá frutos ruins, havendo uma impossibilidade de a árvore boa gerar maus frutos e da árvore ruim gerar bons frutos. Se eu vir que alguém dá maus frutos e disser que ele é uma árvore ruim, creio que ninguém estará disposto a dizer que não estou fazendo um julgamento. 

Tenho constatado que por falta de conhecimento da Palavra, as pessoas tomam o politicamente correto por aquilo que é bíblico. Estudos antropológicos e sociais costumam adotar imparcialidade na avaliação das culturas, afirmando que não existe cultura superior ou inferior. O relativismo onipresente no século XX e que persiste no século XXI dá ensejo para que as pessoas não se sintam seguras para taxar o mal de mal e o bem de bem, diferenciar aquilo que é certo do que é errado e isso tem invadido as nossas igrejas e o meio cristão. 

Se reconhecer, como afirma o versículo 20 — "Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão" — quem é a má árvore e a boa por meio dos frutos não é um julgamento, não sei mais o que pode ser. O versículo 21 continua dando critérios para o reconhecimento do cristão genuíno — por "cristão genuíno" entendo aquele que, de fato, herdará o Reino dos Céus. O versículo 21 afirma que " 'Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor', entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.". O versículo dá um critério objetivo para saber quem irá para o céu. Não é aquele que profere que Deus é seu senhor, mas aquele que faz a vontade de Deus. Se eu conhecer alguém que desrespeita praticamente todos os mandamentos e observâncias bíblicas, mas que se diz cristão, e disser que ele não entrará no Reino dos céus, os politicamente corretos dirão que estou julgando-o e citarão Mateus 7.1, sem nunca ter lido o mencionado versículo 21.

Taxar alguém de prudente ou imprudente pode parecer um julgamento que só deve ser praticado por Deus. Há uma grande confusão aqui. Existe uma grande diferença entre praticar um julgamento a partir da minha perspectiva e praticar um julgamento a partir do que diz a Palavra. Os últimos versículos do capítulo 7 afirmam que é prudente aquele que ouve as palavras de Deus e pratica-as e que é insensato quem deixa de fazê-lo. Fazer um julgamento tendo por base o critério objetivo descrito no texto de Mateus é apenas passar a diante um julgamento que já foi feito pelo próprio Deus. 

5. O bom e o mau julgamento

Partiremos, agora, para uma leitura horizontal. Vejam o que diz João 8.15-16: "Vocês julgam por padrões humanos; eu não julgo ninguém. Mesmo que eu julgue, as minhas decisões são verdadeiras, porque não estou sozinho.". Confirmando o que afirmei acima, vejam que o próprio Cristo, no texto de João, fala de dois julgamentos: aquele segundo os padrões humanos e aquele segundo Deus. Lembrem-se de que uma das acepções do verbo grego "kríno" era "decisão" e, de fato, a palavra "decisões" na tradução da NVI faz referência ao mesmo verbo. Quando Cristo diz que não julga ninguém, está dizendo que não o faz segundo os padrões humanos e, de fato, não devemos fazer julgamentos segundo os padrões humanos. 

No capítulo anterior, no versículo 24, vejam o que o mesmo Cristo afirma: "Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos". O contexto do versículo refere-se ao fato de Jesus curar aos sábados. Vejam que Cristo é claro quando afirma que devemos julgar sim, mas com justiça. Coisa parecida ocorre com a ira no Novo Testamento. Efésios 4.26-27, em referência ao Salmo 4, diz: " 'Quando vocês ficarem irados, não pequem'. Apazigüem a sua ira antes que o sol se ponha, e não dêem lugar ao diabo". Vejam que o versículo não fala para não nos irarmos, mas fala sobre o tipo de procedimento que devemos ter quando tivermos ira. De fato, pode-se investigar como é a ira que advém de Deus e a ira carnal, humana. Fiz este estudo há algum tempo, montando até uma tabela com características. O mesmo poderia ser feito para o caso do julgamento. Vemos que a Bíblia parece indicar que existe um tipo de julgamento que, de fato, deve ser feito, mas outro que não deve ser feito.

6. Textos favoráveis ao julgamento do cristão

O livro de Atos é sempre um livro básico para o entendimento de como era o procedimento da igreja primitiva. A aparição do verbo grego "kríno" é freqüente ao longo do livro, 22 registros, diferentemente do texto de Mateus. A acepção que surge, contudo, na maior parte das aparições é a de "decisão", em contextos que não possuem muita serventia para os nossos propósitos. Quando a acepção é a de "julgamento", sendo o termo grego traduzido pela nossa palavra advinda do latim "judicatio", trata-se ou do termo jurídico, no tocante às prisões de Paulo, ou do julgamento divino e não daquele que deve ser operado pelos cristãos.

O único texto em Atos que nos serve é o do capítulo 4, versículo 19: "Mas Pedro e João responderam: 'Julguem os senhores mesmos se é justo aos olhos de Deus obedecer aos senhores e não a Deus.". Vejam que Pedro e João falam para o sinédrio julgar, mas não de qualquer maneira, mas aos olhos de Deus, que, de fato, deve ser o tipo de julgamento que deve ser procedido pelos homens.

O texto de Coríntios é outro texto repleto de registros, 17 para ser preciso. Comentarei algumas passagens.

"Pois, como haveria eu de julgar os de fora da igreja? Não devem vocês julgar os que estão dentro? Deus julgará os de fora. "Expulsem esse perverso do meio de vocês". (1Cor. 5.12-13)

Ainda no versículo nove do capítulo 5, Paulo diz que não devemos associar-nos a pessoas imorais. No versículo 11, ele diz o seguinte: "Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais.". Mais uma vez, somos chamados a identificar quem é devasso, avarento, idólatra, maldizente, beberrão ou roubador. Para não comer com essas pessoas, antes, preciso julgá-las, no sentido de predicá-las, associá-las a um conjunto de pessoas que tenham uma das características listadas.

"Se algum de vocês tem queixa contra outro irmão, como ousa apresentar a causa para ser julgada pelos ímpios, em vez de levá-la aos santos? Vocês não sabem que os santos hão de julgar o mundo? Se vocês hão de julgar o mundo, acaso não são capazes de julgar as causas de menor importância? Vocês não sabem que haveremos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas desta vida!" (1 Cor. 6.1-3).

Creio que o versículo acima é bastante claro. Nós, os santos, julgaremos os anjos, quanto mais as coisas menos importantes!

"Estou falando a pessoas sensatas; julguem vocês mesmos o que estou dizendo." (1 Cor. 10.15).

Paulo faz um convite para que as pessoas julguem o que ele diz.

"Julguem entre vocês mesmos: é apropriado a uma mulher orar a Deus com a cabeça descoberta?" (1 Cor. 11.13)

Mais uma vez, Paulo convida as pessoas à prática do julgamento!

Romanos, ainda, reitera a recomendação de Mateus, como podemos ver no texto abaixo:

"Portanto, você, que julga, os outros é indesculpável; pois está condenando a si mesmo naquilo em que julga, visto que você, que julga, pratica as mesmas coisas. Sabemos que o juízo de Deus contra os que praticam tais coisas é conforme a verdade. Assim, quando você, um simples homem, os julga, mas pratica as mesmas coisas, pensa que escapará do juízo de Deus?" (Rm. 2.1-3)

O texto acima de Romanos dá-nos uma dica sobre como deve ser o julgamento que o cristão deve praticar. Primeiramente, o julgamento hipócrita é condenado, na medida em que aquele que pratica o que condena não deve exercer juízo, lembremo-nos que, no texto de Mateus, é-nos aconselhado que retiremos a trave de nossos olhos antes de tirarmos o cisco nos olhos dos outros.

7. Possíveis textos contrários ao julgamento do cristão

Mesmo com todos os textos citados até aqui que, claramente, indicam que o cristão deve praticar o julgamento, algumas pessoas, fazendo uso de textos fora de contexto, assim como citam Mateus 7.1, citam textos no intuito de condenar a prática do julgamento exercida pelo cristão. Vejamos alguns destes textos.

"Irmãos, não falem mal uns dos outros. Quem fala contra o seu irmão ou julga o seu irmão, fala contra a Lei e a julga. Quando você julga a Lei, não a está cumprindo, mas está se colocando como juiz. Há apenas um Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e destruir. Mas quem é você para julgar o seu próximo?" (Tiago 4:11-12)

Quando se lê todo o livro de Tiago, que é bem curto, vê-se claramente que Tiago fala de um tipo de julgamento particular, que é o humano, o carnal. O capítulo 3 fala sobre o domínio que devemos ter da nossa língua. Vemos que o referido capítulo fala de fofoca, da língua que é capaz de amaldiçoar e de abençoar. Quando, no capítulo 4, Tiago fala sobre o julgamento, ele, com a conjunção grega "kai", que foi traduzida por "ou" pela NVI — que no caso da Língua Portuguesa seria uma disjunção inclusiva e não exclusiva —, restringe-o a um tipo específico de julgamento que, aqui, é falar contra o irmão em Cristo, falar mal, maldizer — o verbo no original é "katalaleo", que tem a acepção de "caluniar". O julgamento de que fala Tiago, portanto, é a calúnia.

Contra qual lei a pessoa que calunia afronta-se? A resposta está no capítulo 2, versículo 8, "Se vocês de fato obedecerem à lei real encontrada na Escritura que diz: 'Ame o seu próximo como a si mesmo', estarão agindo corretamente.". A tradução, a meu ver não está boa. O versículo 12 diz que há apenas um Legislador e um Juiz, capaz de salvar e destruir. O enfoque, portanto, deveria ser no papel condenatório. A última frase seria melhor traduzida se o verbo "condenar" fosse utilizado no lugar de "julgar". De fato, como vimos nas acepções do verbo grego, "condenar" é uma das acepções possíveis e vemos que mesmo na acepção de condenação o uso no texto dar-se-ia de maneira bem restrita, já que fala no contexto de salvação e destruição. Caluniar, portanto, teria o mesmo poder condenatório que o julgamento divino. O capítulo 3 ilustra bem tal poder da calúnia.



"Aquele que come de tudo não deve desprezar o que não come, e aquele que não come de tudo não deve condenar aquele que come, pois Deus o aceitou. Quem é você para julgar o servo alheio? É para o seu senhor que ele está de pé ou cai. E ficará de pé, pois o Senhor é capaz de o sustentar." (Rm. 14.3-5);
"Portanto, você, por que julga seu irmão? E por que despreza seu irmão? Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus." (Rm. 14.10);

"Portanto, deixemos de julgar uns aos outros. Em vez disso, façamos o propósito de não colocar pedra de tropeço ou obstáculo no caminho do irmão." (Rm. 14.13)


O texto de Romanos, no capítulo 14, começa fazendo uma distinção entre fortes e fracos na fé. Ora, se no primeiro versículo, é dito ao forte na fé que o fraco na fé deve ser aceito, já existe uma pressuposição de que, ao menos, um julgamento no tocante àquele que é fraco ou forte deve ser feito. Os questionamentos dos textos acima não seriam, portanto, com respeito a todo e qualquer julgamento. Quando, no versículo 4, Paulo pergunta quem somos nós para julgar o servo alheio, ele está falando, como se vê no versículo anterior, do desprezo que é dirigido aos cristãos que comem ou deixam de comer algo. O tipo de julgamento condenado por Paulo em Romanos 14 é aquele superficial que não se baseia no coração e nas intenções, mas apenas naquilo que, exteriormente, alguém faz ou deixa de fazer.


"Pouco me importa ser julgado por vocês ou por qualquer tribunal humano; de fato, nem eu julgo a mim mesmo. Embora em nada minha consciência me acuse, nem por isso justifico a mim mesmo; o Senhor é quem me julga. Portanto, não julguem nada antes da hora devida; esperem até que o Senhor venha. Ele trará à luz o que está oculto nas trevas e manifestará as intenções dos corações. Nessa ocasião, cada um receberá de Deus a sua aprovação." (1 Coríntios 4:3-5)

Confesso que não tenho uma compreensão plena do texto acima. Consultei vários comentários bíblicos, mas nenhum deles convenceram-me; no entanto, o interessante é que todos eles destacam que o cristão tem, de fato, o papel de julgar, embora não seja qualquer tipo de julgamento. O comentário que mais pareceu esclarecer o texto, a meu ver, foi o da Bíblia do Peregrino, que afirma que aqueles que estão a serviço imediato de Deus não estão submetidos a um julgamento meramente humano.

O meu entendimento do texto é que no capítulo 3, inicia-se uma discussão sobre a divisão na igreja. Alguns se diziam servos de Apolo, outros de Paulo e alguns outros do próprio Cristo. Essa passagem é interessante na medida em que Paulo desaprova inclusive aqueles que se dizem ser de Cristo e não de Apolo ou de Paulo, mas isso é um assunto para uma postagem futura. A questão é que Paulo fala que apenas o julgamento final de Deus poderá revelar, de maneira definitiva, qual obra será aprovada ou não. O problema de uma palavra ter várias acepções é que na tradução dela podem ocorrer equívocos. Se estivesse na posição de tradutor, escolheria o termos "condenar" para referir-me ao ato de julgamento divino no juízo final ou procuraria manter certa uniformidade na tradução do texto no tocante às diferentes acepções do mesmo termo. De fato, não cabe ao homem o papel de julgar ou condenar alguém para o paraíso ou o inferno, mas a eliminação de tal papel não elimina outras possibilidades de julgamento, como, de fato, vimos no decorrer deste texto.

Paulo afirma nos versículos acima que a medida do julgamento não deve ser dada por nós mesmos. Quando ele afirma que pouco importa que ele fosse julgado pelos homens ou por tribunais humanos e que nem ele julgava-se a si mesmo, ele falava que os termos do julgamento deveriam ser divinos e não humanos. Quando baseamos o nosso julgamento na Palavra, é isso que estamos fazendo. Do que Paulo estaria falando quando diz para esperarmos a hora devida. Que tipo de julgamento possui uma hora marcada? Ora, é justamente o julgamento condenatório divino. De fato, não temos acesso às intenções genuínas dos corações das pessoas. Quando Mateus diz-nos para julgarmos de acordo com as obras, o tipo de julgamento que efetuamos é meramente externo, tem em vista os frutos produzidos pelas pessoas. O julgamento que podemos fazer, portanto, sempre é baseado na exterioridade, embora ele revele algo da interioridade, pois, afinal, a árvore má não pode gerar bons frutos.

Creio que ou Paulo faz uso de uma hipérbole no texto ou, de fato, fala de um julgamento restrito, pois, em Romanos, ele recomenda que não sejamos pedra de tropeço no caminho de nossos irmãos — Rm. 14.13 — e em 2 Coríntios 6.3, afirma que não devemos ser motivo de escândalo a ninguém. Paulo, portanto, importa-se sim com a maneira como é julgado pelos outros, de modo que ele não poderia estar falando de todo e qualquer julgamento quando afirma que pouco o importava ser julgado pelos homens.

8. Conclusão 

Vimos, portanto, que o cristão é chamado a julgar, mas não de qualquer maneira. A Bíblia diferencia o julgamento humano, que costuma ser hipócrita, do julgamento divino, conforme a vontade de Deus. O critério para o julgamento do nosso próximo não deve ser aquilo que achamos ou pensamos, mas aquilo que está na Bíblia. Somos, sobretudo, chamados a praticar o julgamento de nós mesmos antes de prestarmo-nos ao julgamento de quem quer que seja. Nosso julgamento, no entanto, é impreciso, pois sempre se baseia nas externalidades, nos frutos, obras e ações das pessoas. Apenas Deus tem a capacidade de um julgamento preciso das verdadeiras intenções dos corações; contudo, mesmo diante da nossa falta de acurácia, temos um método bastante eficaz de praticarmos o julgamento, uma vez que as árvores ruins, de acordo com o texto de Mateus, não podem gerar bons frutos. 

_________
[1] Quando não for explicitado, a tradução utilizada será a da Nova Versão Internacional.
[2] Peço desculpas pela transliteração. Ainda não domino a técnica.
[3] Recomendo o excelente programa Interlinear Scripture Analyzer, que está disponível gratuitamente no endereço: http://www.scripture4all.org/

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Como identificar um analfabeto em 10 erros


Antes de iniciar o meu texto propriamente dito, é melhor enfatizar, em tempos em que o politicamente correto impera, que de maneira alguma estou agredindo o Tiririca de alguma forma ao fazer uso da imagem dele numa postagem sobre o analfabetismo. Usei-o porque ele teve problemas para provar que era alfabetizado nas últimas campanhas eleitorais; então, ele acaba sendo um símbolo de certa maneira.

Tivemos, recentemente, uma polêmica que envolvia o uso da norma culta num livro do MEC. Algumas pessoas afirmaram, na ocasião, que o importante é comunicar-se e que fazer uso das regras gramaticais é preciosismo. Uma pessoa que faz esse tipo de afirmação desconhece por completo o significado da norma culta. Pretendo abordar o assunto aqui de forma mais esmerada em outra oportunidade. Alguns argumentos utilizados para desqualificar a norma culta, como, por exemplo, atrelando-a à imposição de uma determinada classe dominante, são completamente equivocados, uma vez que a primeira gramática que se tem notícia, surgida na Índia, tinha pretensões religiosas. Acreditava-se que a língua sânscrita era a língua dos deuses e por isso nasceu a iniciativa de preservá-la por meio de uma gramática.

Outro mito em torno da norma culta é referente à sua função única de fazer referência à língua falada: muito embora ela tenha sido, nas origens, uma forma de registro da oralidade, ela possui sua própria estrutura e riqueza, independentemente da linguagem oral. Um bom exemplo para entender o que ocorre com a norma culta é observar a história do desenvolvimento da Lógica. Esta surgiu, primeiramente, para modelar a linguagem natural. Mesmo com todo o avanço que se observou no campo, a fidelidade da Lógica à linguagem natural é mínima, devido à sua complexidade. O que se observa nos diversos sistemas lógicos é uma abundância de estruturas que fogem à mera descrição da linguagem natural.

Algumas pessoas usam como desculpa o fato de estarem num ambiente coloquial ou de, simplesmente, estarem falando em vez de escrevendo. Não falarei de modo dedutivo aqui, antes que me acusem de falacioso — por falar nisso, a falácia, como conhecemos, restringe-se apenas ao ambiente dedutivo, mas isso é assunto para outra ocasião —, mas a minha experiência demonstra que pessoas que se utilizam desse tipo de argumento, freqüentemente, cometem os mesmos erros na escrita. De qualquer forma, se alguém tem de saber as regras para utilizá-las em momentos específicos, por que não se valer das regras sempre? A linguagem culta fornece precisão e evita ambigüidades. Os erros que comentarei aqui, entretanto, são próprios do âmbito da escrita.

É importante ressaltar também que a linguagem é pública e não privada. Quando se faz uso de uma língua, está-se utilizando algo que não foi criado pelo falante. Se eu tomo por empréstimo um instrumento como um violão, se eu quiser tocá-lo, terei de seguir certas regras na medida em que faço uso de algo que não criei. Não posso querer que um violão usual tenha apenas uma corda, ou que ele tenha uma extensão de escalas maior que aquela disponibilizada e assim por diante.

Foi por meio da leitura de Wittgenstein e de Sartre, no meu terceiro ano do Ensino Médio, que me dei conta de que deveria aprender e respeitar a norma culta. O meu raciocínio da época deixo para outra postagem. A questão é que até então não tinha a preocupação de seguir a norma culta; inclusive, mesmo depois da leitura mencionada, demorei alguns anos para respeitar algumas regras específicas, como, por exemplo, as referentes à colocação pronominal, que, inclusive, encontram-se na listagem que farei. Antes da minha preocupação sistemática, contudo, não cometia erros muito graves devido à minha paixão pela leitura, que sempre me ajudou, e devido, confesso, a certo talento natural, que pode ser observado quando, já na primeira série do Fundamental, ganhei um concurso de redação.

Escolhi 10 erros e comentá-los-ei no decorrer da listagem. É importante ressaltar alguns pontos. Primeiramente[1], não sou perfeito, cometo erros e, inclusive, prefiro ser corrigido a persistir no erro, contrariamente à maioria das pessoas. Comentei, no Facebook, certa vez, que só se pode sentir diminuído ao ser corrigido aquele que é perfeito, pois o erro é pré-condição da existência humana. Admito que não gosto de errar; no entanto, quando alguém aponta um erro meu, fico tão traumatizado que nunca mais volto a cometê-lo. Não existe melhor método de aprendizado. A maior parte das pessoas, no entanto, parece ter problemas sérios para admitir os seus erros e retratar-se, gastando tempo tentando arrumar algum jeito de disfarçar o seu equívoco. Segundamente, para ser analfabeto não é necessário o desconhecimento das 10 regras listadas, mas, se tendo em vista que elas são básicas, o desconhecimento de apenas uma delas já o torna analfabeto. Caro leitor, se você desconhecer algum dos usos que listarei, não se sinta ofendido, mas tenha em mente o que falei sobre o erro. Sempre é tempo para aprender! Por último, não tenho a pretensão de explicar pormenorizadamente cada um dos tópicos, mas apenas de citar os principais erros que vejo no dia a dia.

1. Uso dos porquês
Frustra-me ver o uso que se faz dos porquês. Tentarei explicá-los a partir do que sei sem me apoiar em algum manual. Usa-se junto com acento — "porquê" — sempre que estiver substantivado. Usa-se separado — "por que" sempre que se puder substituir pela expressão "por qual motivo", levando acento sempre que estiver próximo a uma pontuação. O tradicional "porque" é usado sempre que for usado em sentido explicativo.

2. "Afim" ou "a fim" e acento de monossílabos
É muito comum ver as pessoas errando o uso de "afim" e "a fim", principalmente, dizendo, erroneamente, que estão "afim de alguém" ou "afim de fazer algo". A maior parte das pessoas nunca terá de usar "afim". Se for pra chutar, amigo, use "a fim".

Quanto aos monossílabos, a regra mais elementar de acentuação é a de que monossílabos tônicos terminados em "i" e "u" não levam acento. É comum ver gente acentuando "vi", "li", "Ju" — abreviação de "Juliana" — e mais comum ainda é ver gente mal educada, que, obviamente, tinha de ser analfabeta, escrevendo em portas de banheiro a palavra que designa o orifício anal com acento, para não ser mais específico.

3. Regência do verbo "lembrar
Quem se lembra, lembra-se de algo; quem lembra, lembra algo [2]. Simples!

4. Duplo particípio
Alguns verbos possuem duplo particípio — um irregular e outro regular. O primeiro tipo é usado, de forma geral, na voz passiva, acompanhado dos auxiliares "ser" e "estar"; o segundo, na voz ativa, acompanhado dos auxiliares "ter" e "haver". Existem exceções quando se usa o verbo na voz ativa, como, por exemplo, os verbos "pagar", "pegar" ou "ganhar", mas, se você usar a regra geral, não tem erro. Por exemplo, "tinha pegado" e "fui pego".

5. Tempo subjuntivo
O erro que se comete no uso deste tempo é um ótimo critério para saber se alguém, de fato, tem um mínimo conhecimento da Língua Portuguesa. Fico até emocionado quando ouço alguém falando corretamente ou escrevendo da maneira correta. Refiro-me, principalmente, ao futuro do subjuntivo, quando usado em orações subordinadas adverbiais. Para ser mais claro, vejam o exemplo corrente: "Quando eu ver você, a gente se fala". O correto seria: "Quando eu vir você, a gente se fala".

6. Uso do infinitivo
Vejo, diariamente, as pessoas escrevendo expressões do tipo "nada a vê", "se eu olha pra você", em vez de "nada a ver" e "se eu olhar pra você".

7. Colocação Pronominal
Como eu já disse, até pouco tempo, dispensava o seguimento das regras referentes à colocação pronominal, pois achava-as desnecessárias. Um dia, ouvindo uma canção, da qual, infelizmente, não me lembro, percebi a importância da regra quando vi que, se dispensasse a regra, o sentido seria alterado. É até aceitável que as pessoas não sigam as regras de colocação pronominal quando escrevem em ambientes coloquiais, sendo coerentes com a predominância da próclise do Português falado no Brasil, mas o que é inaceitável é quando elas usam a ênclise ou a mesóclise quando o uso é proibido pela norma culta. Um exemplo seria "Não faça-o" em vez de "Não o faça", uma vez que expressões negativas são atrativas. Pior do que gente analfabeta é gente analfabeta que quer fazer-se de culta.

8. Vírgulas entre sujeito e predicado
O conhecimento do que é um vocativo, infelizmente, é raro. Uma simples vírgula pode mudar todo o sentido de uma frase como "Pedro salva-me" ou "Pedro, salva-me". Na primeira frase, faço uma descrição, enquanto na segunda peço a Pedro que me salve. Um dia desses, lendo um poema na internet — e não poesia, como alguns pensam —, vi que o sujeito separou sujeito de predicado por meio da vírgula. Algo do tipo: "O céu, é azul". Tudo bem que existe licença poética no âmbito poético, mas destaco algo que sempre costumo dizer: não se pode derrogar o que não se conhece! Qualquer pintor ou escritor que subverteu as regras clássicas tinha conhecimento delas antes de contrariá-las. Para destruir um muro, é preciso, antes, construí-lo.

9. Uso do cedilha
Descobri uma lógica no uso do cedilha há tempos que nunca li em lugar nenhum. Você só usa o cedilha se a sua ausência acarretar pronúncia diferente. Por exemplo, por que "bagaço" tem "ç"? Experimente retirá-lo. Você falaria a palavra de maneira diferente. Se as pessoas soubessem dessa lógica, não escreveriam barbaridades como "voçê". O pior é ver gente escrevendo "" em vez de "vc".

10. Concordância
O último erro que listei é o que daria para citar mais exemplos. Concordo que o assunto tem a sua complexidade — por exemplo, saber utilizar a concordância no caso da conjunção "ou" ou no caso de porcentagens; no entanto, dois fatores pesam contra a pessoa que comete esse tipo de erro. O primeiro refere-se ao fato de que o aprendizado da Língua Portuguesa inicia-se desde o ingresso no primeiro ano do Fundamental. Se alguém terminar o Ensino Médio, o sujeito passou, em média, no mínimo 11 anos estudando o assunto. Em segundo lugar, vivemos tempos em que qualquer pessoa tem acesso à informação. A internet está aí pra isso; então, não existe desculpa. Pensei em dar uma olhada no Facebook ou no Twitter para encontrar exemplos, mas desisti.


[1] A palavra "primeiramente", incrivelmente, não está dicionarizada, não sendo registrada no VOLP. O excelente professor Claudio Moreno, no entanto, convenceu-me a usá-la, incluindo as generalizações "segundamente", "terceiramente" e assim por diante. Vejam o texto do mencionado professor: http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2010/03/28/primeiramente/ .

[2] Para o uso que fiz das vírgulas na minha explicação, recomendo o seguinte texto:
http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2010/01/31/quem-sabe-sabe/


sábado, 15 de janeiro de 2011

Mosquitos Otólatras


Para quem não tem afinidade com os processos de formação das palavras e com os radicais gregos, explicarei o título da postagem de hoje. Como não conheço uma palavra, na Língua Portuguesa, para designar quem tem veneração por ouvidos, criei o termo "otolatria". No meu Ensino Médio, aprendi que o termo correto para designar o local onde compramos óculos é "Óptica" e não "Ótica", embora alguns dicionários já tenham registro dos dois termos como sinônimos. O radical grego em "Ótica" é o mesmo da palavra "Otite", que usamos para referir-nos à inflamação nas cavidades da orelha. "Otos" é, portanto, orelha em Grego. "Latria" vem do Grego "latreia", que significa adorar. "Otólatra" é, por conseguinte, aquele que adora orelhas.

Quem acompanha meu blogue sabe que não tenho uma história muito feliz com insetos [1]. Sempre me perguntei por que os mosquitos fazem questão de voar sobre nossos ouvidos. Já fiz alguns experimentos. Como eu durmo coberto, pode ser que o mosquito tenha algum modo de rastrear a pele. Seria provável que ele sobrevoasse o meu rosto, já que seria a única parte descoberta, mas justamente os ouvidos? Experimentei ficar descoberto para ver se o mosquito ficaria mais interessado por outras partes da minha pele, mas, freqüentemente, meus ouvidos eram incomodados.

Resolvi, por curiosidade, procurar o motivo do fetiche dos mosquitos por ouvidos. Descobri [2] que não existe uma razão específica para o inseto atacar a região da nossa orelha, mas que ele é atraído pelo gás carbônico liberado pelo nosso nariz, o que aumentaria a probabilidade de ele sobrevoar nossas orelhas. Na minha pesquisa, encontrei algumas curiosidades. Entre elas, um livro de contos intitulado "Por que os mosquitos zunem no ouvido da gente" [3], um romance de 456 páginas intitulado "A costa do mosquito", um poema do Vinicius de Moraes intitulado "O Mosquito" [4] e um poema da Cecília Meireles intitulado "O mosquito escreve" [5].

Na madrugada do último domingo, dia 9, estava tentando dormir e, como de costume, fui perturbado por um mosquito. Costumo dar uma chance aos seres vivos de permanecerem vivos, mas parece que, como se já não bastasse a curta vida dos insetos, estes procuram a morte. Depois de ser importunado repetidas vezes, tomei a decisão de livrar-me do mosquito de maneira definitiva. O fim todos sabem: um inseto morto lançado num vaso sanitário.

Depois do episódio, percebi que o incidente seria um bom objeto de literatura, talvez um conto. Tenho me voltado, ultimamente, para o gênero: acredito que ele se ajusta melhor à minha escrita, uma vez que não tenho concisão suficiente para expressar em tão poucas palavras como num poema e nem paciência, tempo e recursos suficientes para escrever um romance. A leitura dos contos do Machado de Assis também tem me empolgado com o gênero. Na medida em que começava a escrever, contudo, acabei visualizando um poema. Pensei, inicialmente, num soneto, mas confesso que ainda não desenvolvi a minha paciência para trabalhar as frases. Quando componho canções, a mesma falta de paciência para escrever as letras e ver logo o projeto acabado acomete-me. O imediatismo do nosso tempo pós-moderno talvez seja o responsável por essa pressa. O mesmo ocorre com a questão da métrica. Tentei, de início, escrever de forma metrificada, mas, depois, acabei desistindo.

O título que dei ao poema, depois de pronto, foi "Mal dito mosquito". Descobri, no entanto, um poema na web, coincidentemente, intitulado "Maldito mosquito!" [6]. Enfim, aí está o poema que confeccionei:

Mal Dito Mosquito
(Fábio Salgado)

Rouba meu sono um mosquito maldito.
Com os olhos fechados, ouço um zumbido.
Com rasantes vôos, penetra-me o ouvido
Um inseto que deve achar-se inaudito.

Sugavas-me o sangue de qualquer lugar,
Mas logo os ouvidos foste-me perturbar?
Que tem a cera de tão peculiar
Para não te entreteres em outro lugar?

Projeto de mosca, tua hora é chegada!
Como uma criança malcriada, toma uma palmada!
Vem de encontro à minha mão,
Não fujas em vão!

De todos, inevitável fim é a morte.
Não tivésseis meus ouvidos alvejado,
Talvez, teríeis outra sorte.







segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Teoria Cristã da Verdade


Numa das minhas aulas de Lógica, aprendi sobre algumas teorias da verdade. Quando se discute sobre a verdade, costuma-se buscar uma conceituação do que seja a verdade e, a partir de tal conceituação, um critério para identificá-la. Existe diferença entre apresentar uma definição para o que seja a verdade e apresentar um teste por meio do qual se diz que uma sentença é verdadeira ou falsa. Pode-se, por exemplo, especificar-se uma temperatura a partir da qual uma pessoa está febril em contrapartida de um método para que se saiba como encontrar a temperatura desta pessoa. Antes de abordar o que intitulei por "Teoria Cristã da Verdade", falarei de algumas teorias para quem nunca ouviu falar do assunto. Utilizarei por base o texto da Susan Haack alcunhado de "Filosofia das Lógicas".

Teoria da verdade enquanto coerência

Esta teoria entende que a verdade consiste em relações de coerência em um conjunto de crenças, ou seja, a ausência de contradições implica veracidade. Pensadores como Bradley, Hegel, alguns oponentes positivistas do Idealismo, como Neurath, e, mais recentemente, Rescher e Dauer defenderam essa abordagem.

Teoria da verdade enquanto correspondência

Esta teoria entende que a verdade de uma proposição não consiste em suas relações com outras proposições, mas em sua relação com o mundo, sua correspondência com os fatos. Pensadores como Aristóteles, Russell, Wittgenstein e Austin eram partidários desta teoria.

Teoria pragmática da verdade

Desenvolvida nas obras de Peirce, Dewey e William James, tem afinidades com as duas teorias anteriores, admitindo que a verdade de uma crença deriva de sua correspondência com a realidade, mas a partir de sua utilidade ou implicação de uma vida melhor.

Teoria da verdade enquanto redundância

Apresentada por Ramsey, afirma que "verdadeiro" é redundante, pois dizer que "é verdade que p" é equivalente a dizer que "p". Para entender melhor esta teoria, pensem na Teoria da verdade enquanto correspondência da seguinte maneira: " 'p' é verdadeira se, e somente se, p ". Percebam que utilizei aspas simples no primeiro p, mas não a utilizei no segundo. A explicação é que se está fazendo uma distinção entre uso e menção do termo. Para exemplificar, pensem nas duas frases: " 'Fábio' tem quatro letras " e "Fábio é um filósofo". Na primeira, refiro-me à palavra "Fábio"; na segunda, refiro-me ao sujeito que tem "Fábio" por nome, que sou eu. A Teoria da verdade enquanto redundância afirma que esse tipo de distinção é redundante.

Teoria da verdade enquanto consenso

Uma proposição será verdadeira, segundo esta teoria, se a maioria acreditar nela. Filósofos como Habermas desenvolveram esta teoria.

Teoria intuicionista da verdade

Uma proposição só será verdadeira se houver uma demonstração dela. Teoria adotada por pensadores como Brouwer e Heyting.

No que se refere às teorias acima, é importante fazer algumas considerações. Cada teoria, primeiramente, tem um campo de atuação com o qual se adequa mais. A Teoria da verdade enquanto consenso é ótima para ser utilizada em democracias; a intuicionista é mais adaptável à Matemática — o que explicaria os próprios conceitos no campo como "conjectura" e "teorema" — e aquela da coerentização parece ser mais apropriada em raciocínios lógicos.

O interessante é que, para posicionar-se com relação a algum sistema, é necessário comprometer-se, de antemão, com algum sistema, ou seja, qualquer comentário sobre qualquer sistema já usará um sistema de forma subjacente. Quem se interessar pelo assunto, pode ver um diagrama com o desenvolvimento histórico dessas teorias:

Quando estudei essas teorias, pensei imediatamente em qual seria a teoria da verdade para o cristão. Debrucei-me, então, na Bíblia.

Teoria Cristã da Verdade

Que é a verdade?

A primeira pergunta que devemos responder é: que é a verdade? Nietzsche, de forma irônica, no seu texto "O Anticristo", afirma o seguinte:
"Preciso acrescentar que, em todo o Novo Testamento, não aparece senão uma única figura merecedora de honra: Pilatos, o governador romano. Levar assuntos judaicos a sério – ele estava muito acima disso. Um judeu a mais ou a menos – que isso importa?... A nobre ironia do romano ante o qual a palavra “verdade” foi cinicamente abusada enriqueceu o Novo Testamento com a única passagem que tem qualquer valor – que é sua crítica e sua destruição: 'Que é a verdade?'."
Para contextualizar, vejam o texto bíblico — Jo. 18.37-38 —, na tradução da NVI:
" 'Então, você é rei!', disse Pilatos. Jesus respondeu: 'Tu dizes que sou rei. De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que são da verdade me ouvem'. 'Que é a verdade?', perguntou Pilatos. Ele disse isso e saiu novamente para onde estavam os judeus, e disse: 'Não acho nele motivo algum de acusação'.".
Nietzsche, de certo, exagerou ao afirmar que a fala de Pilatos era a única que tinha algum valor, mas, com certeza, podemos depreender muitas coisas acerca da verdade nesta passagem de João. Se procuramos a verdade, enquanto cristãos, devemos olhar para Cristo, já que Ele trouxe para si a caracterização de testemunha da verdade. Em segundo lugar, podemos adotar o ato de ouvir a Cristo como um critério da verdade.

Quanto à pergunta de Pilatos, referente à natureza da verdade ou à sua conceituação, o Evangelho de João é o único que registra o questionamento. O Evangelho de Lucas, que tem como público alvo os gregos, não reproduz essa pergunta, mesmo que o contexto grego tivesse uma contextualização filosófica muito forte com relação à busca da verdade — basta observarmos em Atos 17, a partir do décimo sexto versículo, a discussão de Paulo com os epicuristas e estóicos. João era conhecido como apóstolo do amor e sua Carta enfatizava Cristo enquanto divindade. Voltaremos a essas características do texto de João posteriormente.

A palavra hebraica para verdade é "תמא" — "amth". Ela surge pela primeira vez no texto bíblico em Gênesis 24.48 no seguinte trecho:
"E inclinando-me adorei ao SENHOR, e bendisse ao SENHOR, Deus do meu senhor Abraão, que me havia encaminhado pelo caminho da verdade, para tomar a filha do irmão de meu senhor para seu filho.". [Almeida Corrigida e Revisada Fiel]
A palavra hebraica aparece 58 vezes no Antigo testamento. Quando vamos para o Novo Testamento, temos a palavra grega "alhqeia" — "aletheia" — que aparece 44 vezes. A título de curiosidade, o primeiro livro de Tessalonicenses foi o primeiro a ser escrito entre os livros compilados no Novo Testamento; no entanto, nele, não temos a palavra grega para "verdade". A primeira vez que a palavra grega surge no Novo Testamento, da maneira que foi compilado, é em Mateus 22.16, conforme podemos conferir:
"Enviaram-lhe seus discípulos juntamente com os herodianos que lhe disseram: "Mestre, sabemos que és íntegro e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. Tu não te deixas influenciar por ninguém, porque não te prendes à aparência dos homens.". [NVI]
O Antigo Testamento (AT) é constituído de 66 livros, enquanto o Novo Testamento (NT) contém 39 livros. O AT cobre, portanto, aproximadamente, 63% da Bíblia, enquanto o NT tem a cobertura de, aproximadamente, 37%. Quando comparamos as aparições da palavra verdade, temos 57% no AT e 43% no NT, também em termos aproximados. Ora, a diferença percentual que era de 26 diminuiu para 14. Podemos concluir, por conseguinte, que o peso da palavra "verdade" no NT é muito maior.

Qual seria a motivação para um maior peso à palavra no Novo Testamento? Voltemos ao texto de Gênesis. A idéia de verdade lá está atrelada à idéia de caminho. Quando, também, vamos ao mencionado texto de Mateus, também, encontramos as duas idéias. De fato, quando procuramos a conjunção dos termos "caminho" e "verdade" no NT, deparamo-nos com o seguinte texto de João 14.6:
"Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.". [Almeida Revista e Atualizada (ARA)]
Se, em Gênesis, a idéia de verdade estava atrelada aos conceitos de caminho e de verdade, Cristo identifica-se como sendo, justamente, o caminho e a verdade. Temos, portanto, um conceito para a verdade: Cristo é a verdade! Coincidentemente ou não, em Salmos, que é o livro do AT em que a palavra hebraica "amth" mais aparece e em João, que é o livro do NT em que a palavra grega "aletheia" mais aparece, a quantidade de aparições, tanto no primeiro livro quanto no segundo, é de exatamente 13 vezes.

Creio que o fato de o livro de Salmos ser um livro poético e aquele dentre os do AT que mais contém a palavra verdade é uma grande lição para o que se tem feito na arte cristã atualmente. Até nas nossas manifestações artísticas, a verdade deve estar presente.

Outra identificação é feita no livro de João. No capítulo 17, versículo 17, temos o seguinte trecho:
"Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.". [ARA]
Do texto acima podemos inferir que Cristo identifica-se com a sua palavra. Não se pode inferir o mesmo da humanidade: apenas numa entidade divina, o verbo é o próprio ser. O fato de justamente no Evangelho que apresenta Cristo enquanto divindade aparecer por mais vezes o termo grego para verdade está ligado, justamente, ao fato da verdade ser uma propriedade divina.

Qual o critério para a verdade?

A Bíblia não fala de um critério, mas de vários. Não será analisado aqui, de modo exaustivo, quais são os critérios para a verdade, pois seria necessária uma análise exaustiva das 102 aparições bíblicas do termo verdade e seus cognatos. Como já vimos no tópico anterior, escutar a verdade, conforme João 18.17-18, é um critério para a verdade. Uma vez que o conceito de verdade foi identificado com uma pessoa, que é Cristo, provavelmente, os critérios também terão identificações personalistas. No texto de Mateus citado anteriormente, vemos que a verdade também não está conectada a aparências humanas.

O texto de João 3.21 assevera o seguinte:
"Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.". [ARA]
Vemos, portanto, que a verdade não se identifica com o anonimato: ela se faz manifesta. O interessante é que a justificação para esse não anonimato é pautada no próprio Deus. Podemos concluir, portanto, que o próprio Deus não se esconde, mas se expõe à luz.

O famoso texto de João 8.32
"e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.". [ARA]
conecta o conhecimento da verdade à liberdade. Outro critério para a verdade, portanto, é a liberdade.

No tópico anterior, comentei o fato do apóstolo conhecimento como o "Apóstolo do amor" ser aquele que mais fala sobre a verdade. A resposta encontra-se num texto paulino:
"Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.". [Efésios 4.15 — ARA]
O seguimento da verdade, ou seja, de Cristo, deve ser em amor. Não é ao desbarato que o Evangelho de João é texto do NT que mais privilegia o termo grego "aletheia".

A verdade é também caracterizada pela sua propriedade de poder ser recomendada:
"pelo contrário, rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; antes, nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade.". [2 Coríntios 4.2 — ARA]
O versículo acima dialoga com João 3.21 na medida em que ele relaciona o que é vergonhoso ao que é ocultado. Um critério para saber o que é verdadeiro, portanto, é poder ser recomendado a qualquer pessoa. Kant, no desenvolvimento de sua teoria moral, flerta, em certo sentido, com essa propriedade bíblica da verdade da recomendação a todos os homens. Ele afirmava que um ato é correto moralmente se ele pode ser universalizado, ou tomado como um princípio geral que pode ser aplicado em qualquer lugar a qualquer pessoa. Nesse sentido, existe uma aproximação aqui entre a moral kantiana e o critério para a verdade no âmbito do Cristianismo.

Outra característica da verdade é que a Igreja é baluarte dela. I Timóteo 3.15 afirma:
"mas, se eu demorar, saiba como as pessoas devem comportar-se na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade.". [NVI]
O texto acima apresenta a Igreja como fundamento da verdade. Não é de estranhar-se uma vez que Cristo é a cabeça da Igreja — Ef. 1.22-23; 4.15. Vemos, novamente, a personalização da verdade. Se as teorias lógicas da verdade tratam de conexões entre mundo e linguagem, a teoria cristã da verdade faz conexões entre Cristo, que é a verdade por essência, e seus representantes na Terra. Não se fala de verdade de proposições, mas de vida.

Para finalizar, esta segunda parte, referente aos critérios de verdade, acabou prolongando-se mais do que previ. Creio que uma outra postagem sobre o assunto seria bem-vinda. Comentei que não abordaria o assunto de maneira exaustiva, mas tenham esta parte apenas como alguns vislumbres sobre o assunto. Aproveitando a iminência das festividades natalinas, desejo um feliz natal a todos e que a paz de Cristo estejam com todos os leitores deste blog.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Gente Cansada de Igreja

O título da postagem de hoje é homônimo ao título de um livro do Israel Belo de Azevedo que comprei para presentear um amigo que anda decepcionado com a igreja pelos motivos errados. Confesso que, em certo sentido, também estou farto. Em tom de desabafo e solidão, escrevi o texto que se segue.

Cansado de gente cansada

Estou cansado de gente que discute escatologia — uma das áreas mais complexas na Teologia —, esquecendo-se do feijão com arroz, da parte pragmática do Evangelho; gente que olha para o passado, para o futuro, mas nunca para o presente; gente que toma o pragmatismo na sua concepção de sucesso, dando valor a titulações, bens materiais, mas incapaz de não fazer ao outro aquilo que não querem sofrer (Mt. 7. 12).

Estou cansado de gente que procura a ação do diabo em tudo, mas que não percebe que se Cristo estivesse encarnado ao seu lado, diria: "Para trás de mim, Satanás"; gente que não consegue deixar de ver um jogo de futebol para louvar e prestar culto a Deus, que não consegue separar um dia simbólico para Ele e muito menos separar sua vida de modo integral, consagrando-a a Ele.

Estou cansado de gente que se diz cansada de igreja, que perambula de igreja em igreja, querendo sentir-se bem em vez de querer ser benção onde está. Estou cansado de gente com dez, vinte, cinqüenta anos de igreja que nunca leu a Bíblia toda; gente que lê romances bobos, best-sellers, livros de auto-ajuda, mas que ignora a palavra revelada de Deus.

Estou cansado de gente que acha que o Evangelho é um conjunto de regras a não serem quebradas; gente imersa no pecado que culpa seus infortúnios pelo pecado alheio; gente tão envolta em pecado que trata este por normalidade; gente que olha para o cisco no olho do outro, precisando fazer uma urgente cirurgia de catarata (Mt. 7.3).

Estou cansado de gente que tem facilidade de acordar cedo, mas negligencia a EBD; gente que lê revista de fofoca, mas que se sente totalmente desinteressada em aprender mais de Cristo, em saber sobre as últimas notícias do Evangelho que são as mesmas desde sempre, mas que ninguém conhece inteiramente.

Estou cansado de gente sentimental, emocional, que acha que sempre existe alguém confabulando contra ela e que, quando exortada, acha que sofre perseguição. Estou cansado de gente individualista que diz que ninguém nada tem a ver com o que ela faz ou deixa de fazer e que, portanto, só deve satisfações a Deus.

Estou cansado de gente que faz uso de dois pesos e duas medidas no sentido de sempre estar em vantagem. Estou cansado de gente que se desculpa por falta de tempo, por conta de estudos ou concursos; gente que sempre arruma uma desculpa para adiar o que deve ser feito e não percebe que seu problema não está na falta de tempo, mas na falta de compromisso. Estou cansado de gente crítica que não move um dedo para mudar as coisas; gente conformista que não consegue renovar sua mente (Rm. 12. 2), que exige mudança sempre dos outros, mas nunca de si.

Estou cansado de gente que se auto-justifica, que usa seu passado em sua defesa, esquecendo-se de que louvamos um Deus que é Senhor do tempo e da história. Estou cansado de gente que faz do Evangelho um mantra; gente que exige dos outros o que não faz; gente que se importa com a opinião dos outros, mas ignora completamente o que Deus pensa.

Estou cansado de gente aborrecida; gente gasta que diz seguir um Evangelho que sempre se faz novo; gente fatigada, enfastiada, infértil. Estou cansado de gente cansada.