segunda-feira, 6 de julho de 2009

Racionalização dos fracassos

Participei de um concurso literário promovido pela excelente revista piauí — com letra minúscula para diferenciá-la do Estado — no qual o desafio era escrever um conto baseado na ilustração de Al Parker acima. Conheci a revista piauí em sua segunda edição — hoje, ela está na sua trigésima quarta edição — no programa do . Um dos redatores, João Moreira Salles, falou sobre a revista e achei-a interessante. Não me decepcionei e sou assinante hoje em dia. Gosto muito do projeto da revista, inclusive o estético. O prêmio seria a publicação do conto na edição especial da revista que seria distribuída gratuitamente entre os dias 1 a 5 de julho na Flip — Festa Literária Internacional de Paraty —, evento badalado com direito a participação de nomes famosos da literatura brasileira e internacional, como, por exemplo, Chico Buarque, Cristovão Tezza — quero muito ler o elogiadíssimo e premiado "O Filho Eterno" —, Catherine Millet, Gay Talese, Richard Dawkins, Zuenir Ventura etc. . O vencedor seria avisado por e-mail. Como não recebi nada, supus que não tinha ganhado o concurso, mas ainda tinha esperanças, já que acreditava que meu conto tinha nível suficiente para ganhar; no entanto, hoje, li o texto do vencedor, que colocarei aqui, no site da revista*. Admito que sou arrogante, até por ideologia por causa das minhas leituras de Nietzsche, mas sei reconhecer quando um texto ou qualquer coisa é melhor do que algo que eu produzo. O conto do João Gabriel da Silva Ascenso é muito bom, mas acredito que o meu seja melhor. Os responsáveis pela escolha do texto admitem que não sabem o porquê de sua escolha e a introdução escrita para anunciar o vencedor foi escrita antes da escolha deste, por questões de prazo. Não quero duvidar da capacidade de julgamento da revista, mas, talvez não tenham tido tempo de ler os textos candidatos com atenção.

Eu tenho mania de tentar justificar racionalmente os meus fracassos. É bem provável que o texto escolhido seja melhor do que o meu e pronto. O único conto do qual me lembro de ter escrito é do ano de 2005. Sou muito hábil em escrever textos dissertativos, mas sou iniciante nas outras modalidades. Mesmo na poesia, escrevi muito pouco. Estou tentando voltar a treinar minha escrita literária neste ano. Já tenho muita coisa em mente. Fui pesquisar sobre o tal João Gabriel e descobri seu blog, seu currículo Lattes, entre outras coisas. Ele é estudante de História e já fez iniciação científica em Literatura e História na UFRJ. Fiquei pensando... Bem, ele cursa Humanas, e eu, Exatas. Ele já trabalhou com pesquisa em Literatura, eu fiz pesquisa em Números Hipercomplexos e Teoria da Computação. O problema é que sei que esses títulos acadêmicos representam nada. Alguém pode ter mais talento literário que outra pessoa, independentemente da área em que atue.

Vou, agora, utilizar-me de uma digressão, mas logo voltarei ao tema. No meu Ensino Médio, gastei muito tempo tentando descobrir alguma coisa; contudo, sempre me dava conta de que o que achava ser uma descoberta já o tinha sido há muito tempo. Aprende-se na escola que (a + b)² é o quadrado do primeiro mais duas vezes o primeiro vezes o segundo mais o quadrado do segundo. Aprende-se o famoso Triângulo de Pascal, em que os números das colunas são os coeficientes dos produtos nas potências da soma de dois termos; por exemplo,

(a + b)³ = 1.(a³) + 3.(a.b²) + 3.(a².b) + 1.(b³)

,onde os coeficientes 1, 3, 3, 1 são os números da linha 3 do triângulo**. Percebam que a soma dos expoentes das parcelas nunca excede o expoente ao qual a soma (a + b) foi elevada. Existe uma lógica na expansão. Eu ficava questionando-me se não existiria uma lógica para expandir uma soma de n termos a um expoente qualquer. Eu comecei a pensar nisto e acabei chegando numa fórmula. Eu fui conversar com um professor meu do Sigma, mas ele falou que Leibniz descobriu isso no século XVII e que essas séries chamavam-se multinomiais***. Eu fiquei muito decepcionado. Depois disso, tudo que eu achava que tinha descoberto, falavam-me que alguém já tinha feito algo. Eu resolvi que deixaria de lado as descobertas e estudaria primeiro o que os outros descobriram. Foi nessa época que eu li um livro chamado "Os problemas do milênio — Os sete maiores enigmas da matemática contemporânea" — do Keith Devlin. O instituto Clay daria um milhão de dólares a quem resolvesse um dos problemas; inclusive, o russo Grigori Perelman resolveu um dos problemas intitulado "Conjectura de Poincaré", mas recusou o prêmio. Quando li o livro, eu trabalhava para encontrar um padrão ou uma fórmula para os números primos. Cheguei a listar os dez mil primeiros. Encontrei algumas coisas, mas não sei se alguém já tinha descoberto. Usava apenas aritmética simples e lógica. Se fosse trabalhar com esse problema hoje em dia, usaria muitas ferramentas, utilizando mais Cálculo do que Aritmética. Fiquei desiludido com o problema quanto mais li sobre ele.

Voltando... Fiz toda essa digressão pra dizer que talvez eu pense em abandonar a minha produção literária para, antes, ler e estudar mais. Admito que li poucos contos, crônicas e poemas na vida. Vi, de novo no programa do , uma entrevista do Ferreira Gullar na qual ele disse que passou uns dois anos estudando a gramática para escrever. Acho que preciso de coisa semelhante. Já pensei em fazer coisa parecida com minhas composições musicais, mas a vontade de compor é maior. Enfim, eis os poemas — o meu e o do referido ganhador do concurso respectivamente.

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Cinco Cigarros
(Fábio Salgado)
Primeiro cigarro — Abertura/Fastio

Estou cansada desta festa: falsos sorrisos, falsos vestidos, falsas jóias, bijuterias baratas. Falsos estímulos que demandam respostas fingidas e dissimuladas. Ainda não consigo arcar com o peso de relacionar-me com pessoas da alta sociedade, fardo que me inclina ainda mais à nicotina: minha salvadora, minha confidente; esta, sim, comprometida com a verdade. Mesmo a caixa contendo o maço não faz uso de meandros pra dizer-me que terei câncer provavelmente. O prazer compensa. O cansaço abate-me.

Segundo cigarro — Solilóquio

Um trago, uma bebida, meu quarto, minha ânsia por espaço, minha ansiedade pelo que passou e minha nostalgia, meu saudosismo ressentido, pelo o que ainda não aconteceu. A fumaça espalhando-se pelo quarto, exaurindo-se pela janela e as vozes e gargalhadas são as únicas que me acompanham, mas que são incapazes de ouvir-me, além da minha própria voz narradora de uma narrativa sem nexo e sem causa.

Terceiro cigarro — Desdobramentos em preto e branco

O teto confunde-se com o ventilador. O ventilador confunde-se com o seu movimento. O movimento confunde-se com as vozes. As vozes confundem-se com o emaranhado dos meus cabelos, que se confundem com meus olhos. Meus olhos confundem-se com meus pensamentos. Meus pensamentos confundem-se com meu vestido, que se confunde com o chão.

Quarto cigarro — Subjuntivos subjetivos

Se tivesse vindo com outro vestido;
Se esta festa não tivesse acontecido;
Se eu não tivesse bebido;
Se o passado não tivesse sido remoído;

Se eu pudesse perder a compostura,
Se ficasse nua,
Testemunha minha seria a Lua
Da minha vã loucura

Exigiriam-me que me confessasse,
Dos meus pecados me desvencilhasse,
Não deixariam que eu ultrapassasse
Os limites do pudor e que, então, me retratasse.

Falta apenas um cigarro!
Se pudesse livrar-me deste maldito pigarro!
Os sintomas são inevitáveis: neles sempre me esbarro!
O vício é maior: dele nunca me desgarro.

Quinto cigarro — Derradeiro ato em cinco sentidos

Não sei por quê, mas não me canso de ver o ventilador que se confunde com seu movimento emaranhado. Cheiro de bebida destilada, de pessoas engomadas, perfumes franceses, Chanéis vencidos. Sinto o gosto de intrigas, de murmurinhos, do meu batom. Sinto minha pele fria, meus ombros desnudos e descobertos. Ouço vozes, ouço passos...
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CLARICE NÃO QUERIA
(João Gabriel da Silva Ascenso)
Clarice não queria ser famosa. Clarice não queria carros, brilhantes ou vestidos de alta-costura. Clarice não queria cachorros de raça tomando conta do jardim com fonte e esculturas de estilo neoclássico e, sobretudo, Clarice não queria Ricardo.
Ricardo era uma espécie de homem à moda antiga, gentil e discreto. Trabalhava geralmente de tarde, jantava por volta das 20 horas, não fumava mais de meio maço por dia e não dormia sem um cálice de licor. Ricardo não bebia nada alcoólico além de licor. Ricardo não gostava de charutos. Ricardo não ria, a não ser em raras ocasiões, e não falava além do necessário. Ricardo não amava Clarice.
Clarice vivia de sua imagem. Vivia dos vestidos e brilhantes que ostentava sem orgulho. Vivia das colunas sociais e dos sorrisos marcados pelo batom carmim. Vivia do delicado lápis preto em torno do olho. Vivia por viver. Clarice não vivia.
Ricardo oferecia jantares em que Clarice sempre estava: carmim, lápis, vestido e brilhantes. Nos jantares, Clarice ria elegantemente - nem alto demais, o que seria indelicado, nem baixo demais, o que demonstraria timidez -; comia pouco, bebia não mais que alguns goles. Nos jantares, Clarice não fumava.
Clarice não queria viajar com Ricardo. Clarice não queria andar de avião, fazer malas, comprar roupas. Clarice não queria ter que voltar e jantar e sorrir, e viajar de novo, fazer malas, pegar táxis. Ricardo corria as cidades em busca das melhores oportunidades e quase não olhava os lugares por onde passava. Clarice nem lembrava que passava por aqueles lugares.
Clarice sabia que Ricardo sabia. Ricardo nunca disse que sabia. Clarice sentou-se no chão do quarto, apagou o cigarro. Deitou-se, enfim. Queria chorar, mas não chorou. Ricardo entrou. Clarice olhou Ricardo. Ricardo queria passar, Clarice deu passagem. No dia seguinte haveria festa, mais licor e mais brilhantes. Seria o dia mais importante do ano, o dia mais aguardado por todos. Ricardo queria que tudo fosse perfeito. Clarice levantou-se do chão, tirou o lápis preto, o vestido, o batom.
Clarice não queria.


* http://www.revistapiaui.com.br/

** Para os desmemoriados ou que não tiveram um bom Ensino Médio, dêem uma olhada no Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tri%C3%A2ngulo_de_pascal

De preferência, para quem sabe Inglês, vejam:
http://en.wikipedia.org/wiki/Pascal%27s_triangle


*** http://pt.wikipedia.org/wiki/Teorema_multinomial
http://en.wikipedia.org/wiki/Multinomial_series (De novo, para quem sabe Inglês)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O Rei do Pop/ Música e Literatura

Não posso deixar de homenagear o grande astro do pop que foi o Michael Jackson, gênio da música pop. Se a música pop atingiu os patamares atuais, com certeza, foi por causa dele. Antes de Thriller, os clipes musicais não tinham o papel que desempenham hoje. É impressionante como talentos precoces costumam deixar o mundo de modo, também, precoce. Os exemplos são muitos nas diversas áreas da cultura e do conhecimento. Sempre me pergunto se essas pessoas teriam feito muito mais, mas acredito que elas viveram o que tinha de ser vivido. No caso particular do Michael, ele já estava morto, oco em si mesmo, usando as palavras do Reinaldo Azevedo*. Já faz algum tempo que eu me perguntava se ele faria coisas geniais como na década de 80. Como intérprete, ele já era um gênio desde criança**. Ele não precisava ter feito mais nada além de cantar que já teria feito muito, mas, não satisfeito, posteriormente, revolucionou o mundo pop com seus passos coreografados, seus clipes e composições. É triste ver que algumas gerações mais recentes desconhecem a sua genialidade e têm na memória apenas a figura caricata, caindo na bizarrice, que ele se tornou. Lembro-me do desenho dedicado aos Jackson Five que assistia quando criança. Não sei quantos lembrar-se-ão dele***. Quanto aos casos polêmicos dele, especificamente os de pedofilia, vi, certa vez, um especial sobre a vida dele num History Channel da vida, Discovery ou coisa parecida. Podem chamar-me de ingênuo, mas via sinceridade no depoimento dele quando se referia às acusações. Acredito que houve muita maldade com relação a ele. Não faltaram aproveitadores. Enfim, independentemente da vida pessoal dele, a vida artística foi exemplar. A quantidade de elogios dispensados a ele é impressionante. Artistas de todo gênero enalteceram-no e emocionaram-se com seu repentino e inesperado falecimento****. Alguns afirmam que ele representará o Elvis negro na história da música. Não duvido e espero que a história faça jus ao seu talento.

* http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/as-parcas/

**Lindíssima essa música! Não consegui entender ainda se ela foi encomendada pelo Michael, já que li que Ben era um ratinho do Michael. Acreditava que a composição era dele, mas pesquisei e é da dupla Black/Scharf



*** Aí está uma imagem do desenho:


**** http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2009/06/25/artistas-brasileiros-lamentam-morte-de-michael-jackson-756523930.asp (Alguns exemplos)
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Gosto muito de Literatura. Num teste vocacional que fiz no segundo ano do Ensino Médio, numa das minhas aulas de Filosofia, atingi a pontuação máxima em Música, com um ponto a menos, vinha Literatura/Letras — não me lembro de qual foi o termo específico utilizado — e, em terceiro lugar, Ciências Físicas. Foi a partir deste teste que comecei a confirmar para mim mesmo que cursaria Física, embora já pensasse no assunto desde que li o livro Viagens no Tempo no Universo de Einstein — Richard Gott. As outras áreas eu quase zerei. Lembro-me de uma amiga que hoje faz Serviço Social na UnB que ficou indignada com a minha pontuação na área social e com minhas argumentações de que esta era inútil. Tenho uma coleção da revista Entrelivros que contempla a literatura inglesa, russa, americana, francesa, portuguesa, italiana, latino-americana e alemã¹. Lendo alguns blogs na rede, descobri uma lista da New York Times — já falei aqui que adoro listas — intitulada "What is the best work of American Fiction of the Last 25 Years?" (Qual o melhor trabalho da ficção americana dos últimos 25 anos?). Colocarei aqui a lista dos 25 livros com os respectivos títulos originais em Inglês que foram citados, incluindo o ganhador². Pretendo lê-los, principalmente porque preciso treinar meu Inglês. Na época em que pesquisei sobre Números Hipercomplexos, lia bastante na língua, mas, hoje, estou meio enferrujado. Até as músicas, que ouvia muito na língua, diminuíram muito em sua quantidade, já que tenho focado a música brasileira ultimamente; aliás, pelo que conheço, acredito que a música brasileira é a mais rica do mundo em todos os aspectos! Hoje, entendo melhor o interesse do Mário de Andrade pelo assunto. Eis a lista:

Ganhador:
Beloved - Toni Morrison (1987)

Citados que se aproximaram do ganhador:

Underworld - Don DeLillo (1997)

Blood Meridan - Cormac McCarthy (1985)

Rabbit Angstrom: The Four Novels - John Updike³ (1995)
— "Rabbit, Run" (1960)
— "Rabbit Redux" (1971)
— "Rabbit is Rich" (1981)
— "Rabbit at Rest" (1990)

American Pastoral - Philip Roth (1997)

Livros que receberam muitos votos:

A Confederacy of Dunces - John Kennedy Toole (1980)

Housekeeping - Marilynne Robinson (1980)

Winter's Tale - Mark Helprin (1983)

White Noise - Don DeLillo (1985)

The Counterlife - Philip Roth (1986)

Libra - Don DeLillo (1988)

Where I'm Calling From - Raymond Carver (1988)

The Things They Carried - Tim O'Brien (1990)

Mating - Norman Rush (1991)

Jesus' Son - Denis Johnson (1992)

Operation Shylock - Philip Roth (1993)

Independence Day - Richard Ford (1995)

Sabbath's Theater - Philip Roth (1995)

Border Trilogy - Cormac McCarthy (1999)
— "Cities of the Plain" (1998)
— "The Crossing" (1994)
— "All The Pretty Horses" (1992)

The Human Satin - Philip Roth (2000)

The Know World - Edward P. Jones (2003)

The Plot Against America - Philip Roth (2004)


Percebam que o Philip Roth tem 6 livros na lista! Eu gosto muito dele. Acho o livro "O Complexo de Portnoy" genial. Um dia, escreverei um romance nos moldes deste livro. Li, também, um livro do Marcelo Mirisola, "O Azul do Filho Morto" que gostei muito e que me lembrou muito o livro do Philip Roth e seu estilo.

Assim como a Literatura, a Música, como vocês já devem ter suposto pelo meu teste vocacional, é outra paixão minha. Não dirijo sem ouvir música; aliás, geralmente, baixo os álbuns no computador, ouço rapidamente e, depois, gravo um cd para ouvir no carro. Aqueles álbuns que gosto mais vão para o som do meu quarto, onde ouço com mais atenção, acompanhando com as letras em mão. Pensei em resenhar muitos álbuns aqui, mas não me acho conhecer suficiente da obra dos artistas pra comentar algo — para exemplificar, os últimos álbuns da Zélia Duncan e do Nando Reis. Da Zélia, até que conheço mais —; no entanto, estou ouvindo o último álbum do Dream Theater, "Black Clouds & Silver Linings", banda que acompanho desde o álbum genial de 1999 "Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory", e pretendo resenhá-lo aqui. Estive pensando nas minhas influênciais musicais. Quando criança, ouvi muita MpB, Jovem Guarda, Roberto Carlos, Vencedores por Cristo por causa da influência dos meus pais. O interessante é que meu pai, quando estava na quinta série, chegou em casa com o cd do Legião Urbana "As Quatro Estações". Desde então, sou fã da banda. Digo interessante porque rock nunca foi um ritmo apreciado pelos meus pais, embora eles sejam fãs do Elvis, porém das músicas mais lentas. Minha mãe não consegue ouvir uma música que tenha qualquer guitarra distorcida de fundo. Quando completei sete anos de idade, comecei a estudar na Escola de Música de Brasília e entrei em contato com a Música Erudita. Apaixonei-me! Mozart, Beethoven, Vivaldi, Villa-Lobos, entre outros clássicos. Nas minhas aulas de Inglês, os meus amigos ouviam Nirvana, Ramones, e eu Roberto Carlos. Não passei pelo movimento punk, apenas curti algumas bandas como Green Day, MXPX, The Offspring, as quais não considero como punk puro mesmo. Tinha muito preconceito. Não entendia o contexto histórico em que o movimento punk surgiu. Achava que quem gostava de punk é porque não tinha habilidade suficiente para ser um virtuose.

Na oitava série, comecei a ouvir algumas bandas como Metallica. Iron Maiden nem tanto. Ouvia mais Heavy Metal tradicional, mas gostava muito de progressivo. Symphony X, Dream Theater... Eu pirava ouvindo essas bandas. Ja fui preconceituoso com Metal Melódico, mas acabei aderindo a todos os estilos. Passei boa parte da minha vida ouvindo só Heavy Metal. Achava todo o resto mal feito, simplista demais. Li, certa vez, numa revista que aqueles que ouviam Heavy Metal na adolescência, quando chegavam por volta dos 18 anos, tinham, normalmente, duas atitudes: ou abandonavam o Heavy Metal ou começavam a se interessar por bandas mais antigas de rock. Quando li isso, estava começando a ouvir bandas como Pink Floyd, Black Sabbath, Led Zeppelin, Queen, Yes, The Beatles. Fiquei um bom tempo ouvindo bandas antigas de rock e achava que a música da minha época era um lixo e que, infelizmente, não se fazia mais nada no nível do que foi feito nas décadas de 60/70. Comecei a ouvir Heavy Metal, principalmente, por influência do meu melhor amigo na época. Um belo dia, ele chegou a mim dizendo que queria aprender a tocar cavaquinho, sendo que ele tocava guitarra! Fiquei pasmado! Ele falou que estava curtindo muito Choro. Por influência dele, comecei a ouvir Choro e acho que graças a este estilo musical, abri as portas da minha influência musical para bandas contemporâneas de estilos diversos.

Toda essa história é pra dizer que devemos estar sempre abertos a tendências, novidades, ritmos. Nunca achei que defenderia a Música Pop na vida, mas o que fiz no início desta postagem foi, justamente, uma defesa da Música Pop, pois ela, certamente, não existiria, sem exageros, sem Michael Jackson, pelo menos nos moldes que conhecemos.

¹ https://ssl430.locaweb.com.br/clubeduetto/loja/categoria.asp?fml=4&ctgr=57

² http://www.nytimes.com/ref/books/fiction-25-years.html

³ Em 2001, foi lançado um novo romance da série intitulado "Rabbit Remembered".


sábado, 13 de junho de 2009

Honra de um elogio/ Letras empoeiradas

Ontem, vi um filme muito bom! Recomendo a todos! Os atores protagonistas são Julia Roberts e Clive Owen. O filme é muito inteligente, bem construído. Excelente roteiro e nem um pouco óbvio. Gosto muito de filmes que você não consegue adivinhar como as coisas acontecem. A trama é muito bem entremeada e tão corrida que o filme parece ter muito mais do que os 125 min. A trilha sonora também é excelente. Quando o filme terminou, fiquei com uma sensação de que não se pode confiar em ninguém. Fiquei pensando como seria o mundo se todas as pessoas resolvessem ser trapaceiras umas com as outras, dispensando a honestidade.
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Tive a honra de receber um elogio do Caetano Veloso! É engraçado como certas coincidências ocorrem na vida. Por falar nelas, voltarei ao assunto mais tarde. No show do Caetano, que foi perfeito por sinal, tentei entregar um cd com algumas composições minhas por meio de uma segurança. Na última música que ele cantou — Força estranha — ele levou um tombo, como vocês devem saber; inclusive, o Pânico fez uma brincadeira muito engraçada com o fato¹. Eu gravei, acidentalmente, a cena e fui o primeiro a colocar o vídeo no Youtube, infelizmente as cabeçorras próximas a mim, além da bateria baixa das pilhas, impossibilitou-me de gravar a cena com maior precisão. Na referida música, o Caetano pára de cantar e deixa o público cantar — vocês podem ver isso lá por 2 min56 no vídeo abaixo. A minha voz se sobressai por eu estar mais próximo da câmera. A Lícia Peixoto — a quem agradeço muito pela atenção dispensada e envio do jornal —, no Youtube², comentou que o Caetano tinha elogiado a voz de quem cantava na Gazeta de Alagoas e disse que poderia mandar a cópia do jornal ao dono da voz. Entrei em contato com ela e no jornal de domingo, 24 de maio de 2009, Caetano disse o seguinte:

Incrível, ? Voltando ao assunto das coincidências, estive discutindo com a Dani, minha namorada, sobre o assunto nesta semana. Sabe quando você começa a prestar atenção em certas coisas e acha que elas estão ocorrendo com mais freqüência? Darei um exemplo! Quando comecei a aprender Francês, comecei a ver um bando de coisa referente à língua na minha frente! Na semana passada, li uma matéria sobre um projeto do Arnaldo Antunes, Edgard Escandurra, Taciana Barros e Antônio Pinto na Veja. Vi, casualmente, o álbum para baixar na net, antes de encontrar, também casualmente, o MySpace³ do grupo e, coincidentemente, eles se apresentaram na madrugada do domingo passado no programa Altas horas! Coisa parecida aconteceu com Édson e Hudson. Vi uma entrevista deles no Soares, resolvi baixar o último álbum deles "Despedida" e o álbum solo do Hudson "Turbination" para ouvir, então, eles se apresentaram no programa do Sbt "Uma hora de sucesso" no sábado à noite. A questão é: será que de fato os acontecimentos foram coincidências ou eles foram percebidos, justamente, porque passei a dar mais atenção a eles, ou seja, eles teriam acontecido de uma maneira ou de outra, mas eu que prestaria ou não atenção neles? Acredito que a última possibilidade é mais verosímil, a primeira, contudo, não é completamente descartável.

¹ http://www.youtube.com/watch?v=oAVfg3DHjMI


² http://www.youtube.com/watch?v=4STkcgOX92g


³ http://www.myspace.com/pequenocidadao



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Um dia, escreverei um livro. Acredito que, preferencialmente, um romance, embora envereda, também, no caminho da poesia e dos contos, apesar da freqüência nestes ser menor — escrevi um conto nesta semana para um concurso promovido pela revista piauí. Depois, colocarei-o aqui. Já tive muitas idéias de romances, além de livros filosóficos e científicos, e muitas destas encontram-se perdidas em cadernos empoeirados. Limpando o meu armário, encontrei um caderno do ano de 2000 — tinha 14 anos. Encontrei um texto introdutório intitulado "Consumismo". Eu me lembro de que na época comecei a ler obras de cunho marxista, anarquista e libertário. Acho engraçado quando vejo pessoas ingressarem nas universidades em cursos de Humanas e usarem o linguajar que eu utilizava quando tinha 14 anos, próprio de pessoas que se iniciam nas leituras que citei. Muitos termos não têm sentido na sociedade de hoje. Falar de burguesia é até anacrônico.

Já publiquei no meu floghttp://www.fotolog.com.br/fabiosal/16359804 — um outro texto que já encontrei numa das minhas limpadas de armário. É interessante encontrar esse tipo de coisa porque vejo a evolução das minhas idéias e da minha escrita, no caso do texto que colocarei aqui, evolução é sinônimo de progresso — evolução significa, pelo menos em termos biológicos, mudança simplesmente. Não sabia pontuar, coisa que só comecei a aprender no meu terceiro ano do Ensino Médio. Acreditava, na verdade, que a norma culta era ladainha de quem não tinha mais o que fazer. Só quando conheci a Filosofia Existencialista e a Filosofia da Linguagem que comecei a importar-me com o assunto. Ainda acho que algumas regras são apenas questão de padronização, mas que não ajudam na lógica de expressar-me. Colocação pronominal, por exemplo, é um assunto pelo qual comecei a interessar-me recentemente, pois sempre achei e ainda acho, desnecessário para uma melhor expressão escrita ou oral. Eis o texto:

Consumismo
Defino consumismo como o ato de comprar deliberadamente algum produto sem a necessidade básica de fazê-lo. O sistema capitalista, no qual vivemos hoje, tem imposto à sociedade o consumismo. Este sistema impôs a crueldade de alguns consumirem exacerbadamente apenas para parecer bonito para a sociedade ou apenas se encaixar no padrão de moda existente, enquanto outros, nem se quisessem, podem comprar com a finalidade dita ou comprar o que vestir. O ato em si de consumo não é errado. Se as pessoas consumissem para se sentir bem, independentemente da opinião alheia, e para o seu entretenimento, este ato não estaria errado. Todos merecem a mesma oportunidade e devem consumir sim, não para atender a algum padrão pré-determinado, mas para sua felicidade e, principalmente, necessidade, esta que se torna importantíssima no caso do consumismo. É necessário comprar três camisas se a finalidade original desta é proteger do frio e cobrir a nudez? Enfim, com um bom senso*, pode-se distinguir claramente a necessidade e a excessividade.

* O bom senso será abordado no desenrolar deste livro


Voltando... A lógica da minha escrita era um tanto quanto embolada. O meu texto apresenta várias falhas. Defini consumismo como um ato deliberado, mas, depois, digo que é um ato imposto pelo sistema. Acho que, como na época não pensava nem na possibilidade de questionar o livre-arbítrio nem de pensar nele de forma crítica, o arraigamento da liberdade de escolha no meu pensamento produziu essa inconsistência. Nunca fui muito chegado em Ecologia, falatório de politicamente corretos ou conversa de sustentabilidade. Não via nada errado, na época, em consumir por entretenimento; contudo, hoje, acredito que o ato de consumo deve estar aliado à sustentabilidade. Estava muito mais preocupado com as liberdades da consciência para pensar em preservação da natureza. Via a necessidade de agirmos pela volição plena sem sermos manipulados, embora soubesse que a influência de certos valores familiares, culturais etc. é insuperável.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Ética e o sofrimento de conhecer

Assisti nesta semana ao nono episódio da 12ª temporada dos Simpsons. Gosto muito deste desenho: é um dos poucos que consegue fazer-me rir, além de ser um desenho muito inteligente. No referido episódio, Homer descobre que sua burrice deve-se a um giz crayon em sua cabeça, o que ocorreu num acidente quando ele era criança. Os médicos disseram a ele que a retirada do giz de sua cabeça aumentaria o seu Q.I. em mais de cinqüenta pontos. O aumento de inteligência do Homer surpreendeu sua filha Lisa, mas começou a causar certos incômodos. Ele percebeu que era mais feliz quando era burro. Um fato interessante é que o aumento de inteligência do Homer correspondeu a uma atitude ética quando ele denuncia anonimamente aos superiores responsáveis as condições precárias nas quais a usina nuclear em que trabalha opera. O Senhor Burns, dono da usina, resolve despedir vários empregados por causa das indenizações que ele terá de pagar. Os colegas de Homer, que sabem que ele foi quem delatou a usina, revoltam-se com ele. Homer recorre aos médicos para que o giz seja reinserido em seu cérebro, alegando que ele é um intelectual no meio de ignorantes. Angustiado, ele pergunta à sua filha como ela consegue ser feliz.

O episódio é muito rico e sugere muitas reflexões, lembrando-me daqueles livros comerciais que almejam ver Filosofia* em tudo que for popular e constituinte da cultura pop. Lembrei-me, também, de dois episódios. O primeiro diz respeito a um caso real de uma alemã que teve um lápis retirado de seu cérebro após 55 anos** e o segundo, a um caso que li no meu livro de Biologia no Ensino Médio sobre o qual já fiz referência no meu flog***. Este último caso levava-me à crença da inexistência da alma, mas depois de estudar várias concepções filosóficas que exigem a existência dela ou que a caracterizam diferentemente de uma substância imutável, terei de repensar o caso.

O livro bíblico de Eclesiastes diz o seguinte no último versículo do primeiro capítulo:

"Pois quanto maior a sabedoria, maior o sofrimento; e quanto maior o conhecimento, maior o desgosto.".

Numa entrevista que li do Clóvis de Barros Filho, ele diz que conhecer é algo extremamente prazeroso para ele. Não sei dizer se compartilho da mesma sensação. Já se tornou clichê citar Matrix, mas é perfeita a cena em que um dos guerrilheiros vende-se para retornar à Matrix, dizendo que preferia viver na ilusão do que conhecer a realidade. Em troca da entrega dos seus companheiros, ele pediu para retornar como um milionário, alguém de sucesso na vida. Sempre tive a verdade como bandeira, mas não sei explicar direito o porquê da preferência da verdade acompanhada do sofrimento em vez da mentira e da ilusão. Um tema que o episódio também aborda é a questão da ética. Nunca pensei na Ética de um modo formal. Acho que tenho de ler mais sobre o assunto e refletir mais. Sempre agi seguindo o princípio de que não devo fazer aos outros o que não quero que me façam. Não sabia, inclusive, que este lema ético era explícito na Bíblia como, por exemplo, em Lucas — 6:31 — : "Como vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a eles.".

Estudando a ética kantiana, descobri dois princípios que poderiam nortear-me. O primeiro diz que se determinada atitude não pode ser universalizada, não é correta. Explico-me. O ato de mentir por exemplo. O que ocorreria numa sociedade em que a mentira fosse regra? Outros atos como o assassinato ou o suicídio podem ser pensados nessa perspectiva. Outro princípio é que não devemos agir usando o princípio da causalidade, ou seja, tendo as conseqüências por panorama. Se alguém age corretamente pensando em não ser pego ou apresentar uma boa imagem, está agindo errado. As pessoas devem agir segundo o ato em si mesmo. Elas devem ser boas independentemente de serem recompensadas ou não. Concordo com este último princípio, mas tenho minhas dúvidas quanto ao primeiro. Um pai que quer fazer uma surpresa ao seu filho, mas é encurralado por este não pode mentir? Depois de ler o livro Auto-Engano do Eduardo Giannetti****, passei a ter outra visão sobre a mentira e o engano. Já acreditava que estes eram necessários à sobrevivência e responsáveis pelo homem estar no ápice da cadeia alimentar, mas reafirmei minhas convicções depois da leitura do livro. Comecei a pensar desta forma depois que li Nietzsche.

Não acredito que o homem seja naturalmente bom como Rousseau, mas que nasce mau e é mau Tal fato também é bíblico, mas não consegui encontrar a referência exata. Sou adepto da idéia aristotélica de que o ato bom passa a ser praticado a partir do hábito. A Bíblia, aliás, é veemente quando diz que "aquele que faz o mal não viu a Deus" — 3 Jo 11. A idéia do hábito pode ser deduzida a partir do texto de Romanos quando Paulo diz "Odeiem o que é mau; apeguem-se ao que é bom" — Rm 12.9. Não acredito, na verdade, que somos totalmente maus. Minto. Acredito que o mal não existe enquanto substância, mas que é a ausência do bem em diversas intensidades. Minha crença deve-se ao argumento de Santo Agostinho que postei num outro flog meu*****, embora tenha de admitir que a idéia de corruptibilidade no argumento é bem ampla — o que seria a corrupção de ser vivo que não seja humano?.

As pessoas são precipitadas ao criticarem os nossos políticos, mas não percebem que deixam de ser éticas no dia a dia — o uso do hífen é um dos poucos casos que aderi no que se refere à famigerada reforma ortográfica; antes desta, havia diferenças entre "dia-a-dia" e "dia a dia". Atos corriqueiros como enfrentar uma fila de um estabelecimento ou jogar papel no chão mostram o caráter das pessoas. Não sou bonzinho. Já fiz muita coisa errada e, provavelmente, devo fazer muitas coisas das quais não me dou conta. Nesta semana, resolvi observar na UnB quantas pessoas jogariam ao chão o papel de propaganda colocado no carro. De 15 carros que observei, apenas uma pessoa guardou o papel dentro do carro para jogar fora depois — a pessoa poderia ter se interessado pelo assunto contido no panfleto também. No último programa Altas Horas que assisti, o Herbert Vianna, vocalista do Paralamas do Sucesso, disse que se uma pessoa não é capaz de respeitar a vaga reservada para um deficiente físico, quanto mais as outras coisas.

Almoço nas terças com minha namorada e costumo esperá-la debaixo da sombra das árvores perto do portão onde ela sai. Observo, quase sempre, que as pessoas param de qualquer forma na vaga, ocupando duas ou mais vagas, impedindo que outras pessoas possam aproveitar a sombra. Deixei até um recado escrito para uma pessoa que cometeu tal ato. Estou tentando repensar os meus atos para descobrir o que faço ou deixo de fazer que prejudica o meu próximo. Sou uma pessoa extremamente impaciente no trânsito. Acho que as pessoas não têm habilidade e admito que saio cortando os carros. Um primo meu critica o fato de eu não esperar nas filas nos retornos e ir para a "segunda faixa" que, segundo ele, não existe. Ao mesmo tempo em que acho que não sou obrigado a pagar o preço pela lerdeza das pessoas, vejo que, pensando dessa forma, caio no erro de agir segundo o princípio da causalidade que citei anteriormente.

A aquisição de conhecimento e de sabedoria pode ser um caminho que traga sofrimento; contudo, é um caminho necessário para a ética. Não acredito no exercício da ética plena sem algum exercício reflexivo, até porque a ausência deste mostra uma ética que não é plena. Servindo-me de um exemplo do meu professor de Introdução à Filosofia, alguém que se diz caridoso por prazer não é ético! Se a caridade provocasse repulsa, nojo, esse alguém não seria caridoso então? Devemos ser éticos pelo ato em si e sempre nos policiar para que o hábito nos faça éticos. Um fato recente de nossa política que demonstra que o auto-policiamento deve ser diário é o festival das passagens aéreas. Vários políticos que eram tidos como exemplo de ética e defensores desta estavam envolvidos, como, por exemplo, Fernando Gabeira. A ética, por fim, é um assunto que tem de ser pensado e repensado com freqüência.

*http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2221457&sid=1882282111165845965694825&k5=2E1F610C&uid=

** http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/08/070807_lapisalema_fp.shtml

***http://fabiosal.flogbrasil.terra.com.br/foto8757793.html

****http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=946660&sid=1882282111165845965694825&k5=2319D147&uid=
*****http://www.fotolog.com.br/fabiosal/20921314



quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Farsa do Criacionismo


Neste último fim de semana, assisti a um conjunto de palestras proferidas por Adauto Lourenço. Antes de fazê-lo, procurei sobre ele na internet e fiquei desconfiado, já que o currículo dele parecia ter algumas incongruências — ele, por exemplo, diz-se pesquisador da FAPESP, mas não tem currículo Lattes. Os principais órgãos de pesquisa no Brasil, CNPQ e afins, exigem-no. Eu mesmo, antes de candidatar-me a bolsista do CNPQ, tive de criar um currículo na plataforma Lattes. Na palestra, ele disse que costumam perguntar onde estudar o Criacionismo, mas ele disse que as universidades não ensinam isso; contudo, quando você entra no site da universidade pela qual ele se formou¹, além de a universidade ser cristã, o curso de Biologia apresenta o Design Inteligente e o Criacionismo entre as suas disciplinas. Sei que é falacioso julgar um argumento pelo seu pronunciador e por isso resolvi assistir às palestras e comprei o livro dele intitulado "Como tudo começou". Já presenciei outras palestras sobre o Criacionismo, e a fórmula mantida por eles tem sido a mesma, embora tenha de admitir que o Adauto foi o melhor que já ouvi falar sobre o assunto. Até conversei com ele pra testar o conhecimento dele em Física e pareceu-me que ele, de fato, sabe Física, exceto a parte mais contemporânea depois do desenvolvimento da Mecânica Quântica. Não li o livro dele todo ainda, mas comentarei a parte inicial, além de comentar algumas partes da palestra na medida em que me lembrar dos assuntos.

Já no prefácio, Adauto comete erros. Ele insiste em dizer que o tema "criação/evolução" remonta à Grécia antiga. Acredito que essa afirmação é incorreta. Não existia a Teoria da Evolução e, além do mais, quando ele fala do debate entre os temas, ele trata a evolução como a crença de que não houve um criador por trás da natureza, o que é claramente falso. Ele mesmo, na palestra, cita o Francis Collins — autor do livro A Linguagem de Deus, que li, mas do qual não gostei muito — que é evolucionista. Não acredito que uma pessoa inteligente como ele, que dirigiu o Projeto Genoma, acreditaria numa teoria que vai de encontro à sua fé. Ele diz, por exemplo, que Tales afirmou que tudo "evoluiu da água". Desafio que me mostrem onde está escrito isso, além do próprio livro dele e dos seus colegas. O fato de dizer-se "tudo é água" nada tem a ver com dizer que as coisas surgiram ou "evoluíram" da água. O Adauto colocou a seguinte citação de Kepler: "O mundo da natureza, o mundo do homem, o mundo de Deus: todos eles se encaixam". Para aqueles que conhecem a biografia de Kepler — para aqueles que não conhecem, recomendo a edição especial da Scientific American Gênios da Ciência —, sabe-se que a crença dele nesse encaixe era literal. Ele insistiu muito tempo na idéia de que os planetas ressoavam como "a música das esferas", revivendo a teoria pitagórica, e construiu um modelo do sistema solar baseado nos sólidos de Platão por causa de suas crenças religiosas. Não ponho em dúvida a importância do trabalho de Kepler para a Ciência, mas, embora tenha abandonado a idéia de que o círculo era a trajetória perfeita e divina, adotando as elipses, ele se manteve fiel à boa parte de suas crenças de modo até obsessivo. Outra crítica que faço ao Adauto é pelo fato de ele dizer que homens como Newton, Platão etc. acreditavam num Criador sem considerar o momento histórico em que eles viviam e a cultura que os cercava. O ateísmo começa a ser construído, pelo menos como o conhecemos atualmente, a partir do século XVIII.

Ele mesmo diz, em seu prefácio, que, embora utilize uma linguagem coloquial, manterá a consistência técnica do assunto. Digo isso porque, ao conversar com algumas pessoas, disseram-me que ele poderia ter errado por querer tornar o assunto acessível ao grande público. Ele também diz-se ex-evolucionista, mas duvido de tal assertiva. Sempre desconfio de pessoas que iniciam seu discurso dizendo-se ex-atéias etc. . Se ele foi evolucionista algum dia, deve ter sido quando criança, já que estudou numa universidade claramente criacionista.

O Adauto faz uma verdadeira confusão de definições. Ele diz que a "Evolução não é um processo natural, pois é tratado por inferência e não por observação direta". Li recentemente, numa das edições da Scientific American — não consegui encontrar a referência exata —, que pesquisadores constataram numa ilha que a Evolução não precisa de milhares de anos para ser observada, pois pássaros mudavam o formato do seu bico de acordo com ciclos de escassez. Se isso não é observação direta, então não sei o que pode ser. Se vocês procurarem, verão que a Teoria da Evolução hoje já tem ramos como a Medicina Evolutiva ou a Psicologia Evolutiva e que várias características inclusive não são entendidas sem a perspectiva evolucionista, como, por exemplo, a hérnia, soluços, cor de pele. Essa observação que eu citei excluiu igualmente a definição dele de Evolução, pois não são necessários longos períodos de tempo para mudanças características numa população. Ele conceitua e define vários termos, como já disse, de forma equivocada. O termo naturalismo, primeiramente, é definido como uma cosmovisão que exclui a ação criadora. Se vocês procurem sobre o naturalismo, verão que não é bem assim. Na verdade, do jeito que ele a define, seria apenas uma visão filosófica de mundo. Isso não é ciência! Ele define Evolução a partir dessa cosmovisão de mundo! Deus não é objeto de estudo da ciência por definição, já que ele é imaterial — desconsiderando-se outras visões de Deus como, por exemplo, a de Espinosa.

Ele fala dos fósseis de transição, usando, inclusive, uma citação de Darwin. É importante dizer que Darwin não conhecia a Genética de Mendel. A Teoria da Evolução hoje é uma junção de Darwin com Mendel. Mesmo que não houvesse os fósseis transicionais — na verdade, existem centenas² deles — não haveria necessidade deles existirem por causa de algo chamado mutação.

A forma como ele define "Criacionismo" de maneira alguma é contrária à Teoria da Evolução: "cosmovisão que propõe que a complexidade encontrada na natureza é resultante de um ato criador intencional". Ele insiste nessa idéia o tempo todo, mas já citei o caso do Collins, que contradiz isso. Uma idéia que todo criacionista adora sustentar é a do relojoeiro. Parece que eles nunca leram Hume. Faço duas críticas a esse raciocínio. A primeira é a de que ele parte do princípio da causalidade de que todo efeito parte de uma causa e que toda causa tem um efeito. Pode parecer uma asserção óbvia, mas não é. A Física Contemporânea inclusive dá alguns indícios da quebra desse princípio, especificamente no que se refere à medida do spin de partículas subatômicas em certos pares. A segunda crítica é que o fato de um raciocínio ser mais provável no que se refere ao senso comum, refiro-me especificamente ao exemplo que ele deu na palestra sobre o bolo encontrado em cima de uma mesa, não o torna correto! Pode ser improvável que o relógio encontrado no meio de uma floresta tenha surgido do nada ou por meio de processos naturais e espontâneos, mas não se pode descartar a possibilidade de que algo improvável continue sendo possível.

Outro erro que o Adauto comete é o de dizer que a Teoria da Evolução nunca chegará a ser uma Lei e que deve ser chamada no máximo de Hipótese. Darei alguns exemplos para que vocês vejam a tolice dessa afirmação. A mecânica clássica newtoniana é baseada nas três leis de Newton e a segunda lei descreve a lei da gravitação universal. A Teoria Eletromagnética de Maxwell incluiu a lei de Faraday, de Coulomb etc. ; a Termodinâmica é baseada em 4 leis básicas. A Teoria da Evolução, da mesma forma, é baseada na lei da seleção natural. Em outras palavras, as teorias são modelos físicos, matemáticos etc. que descrevem as leis da natureza. A Teoria da Relatividade Geral de Einstein foi comprovada com a observação do desvio gravitacional da luz por meio da observação de um eclipse, mas não se tornou lei por isso. Outra distinção importante é que não se prova teoria científica, mas se fazem comprovações. Ela, geralmente, faz previsões e é comprovada por meio destas; contudo, nada impede que fatos novos no futuro tragam a necessidade de uma nova teoria, que, no entanto, deve englobar todas as previsões feitas pela teoria anterior. Teoremas matemáticos que são demonstrados e provados, uma vez que sejam demonstrados, nunca poderão ser derrogados por nada.

No primeiro capítulo do livro, o Adauto diz que Anaximandro de Mileto afirma que tudo o que existe no universo seria proveniente dos quatro elementos: ar, fogo, terra e água e que estas substâncias seriam provenientes de um elemento chamado "apeiron". Quando li isso, não acreditei! Como alguém escreve um absurdo desses num livro? Foi Empédocles que acreditava que os quatro elementos formavam tudo; além do mais, Anaximandro se destaca, justamente, por sugerir um elemento abstrato imaterial como origem de tudo!

Ele diz também que não parte da religião e que por isso o Criacionismo é Ciência, mas, quando fui questioná-lo sobre o Big Bang, ele disse que a Bíblia diz que o Sol foi criado no quarto dia! A insistência da maioria dos criacionistas com relação à interpretação literal do Gênesis — conheço criacionistas que não assumem tal pressuposto de literalidade — pode ser comparada à insistência dos antigos de que as órbitas dos planetas tinham de ser circulares.

A única idéia que o Adauto tratou na palestra que achei interessante, mas que, imediatamente, percebi que era falha, foi a de que a curvatura do espaço-tempo poderia reduzir a distância que observamos das estrelas. Na imagem acima, a Terra está no meio de um tecido espaço-temporal, deformando-o. O Adauto diz que a distância considerada das estrelas é num espaço-tempo euclidiano, sem curvatura, e que, no entanto, estamos medindo uma distância maior por causa da curvatura que não é considerada. Faço dois questionamentos! Em primeiro lugar, interpretando-se o tecido espaço-temporal como uma colcha que se distorce, a luz viajaria em cima deste tecido e, por definição, não existiria universo entre o tecido e o espaço distorcido; logo, não se poderia falar que estamos vendo algo e medindo em linha reta. Essa interpretação, no entanto, considera um tecido bidimensional, mas sabemos que ele é quadridimensional. Se fizermos medições por meio de espectroscopia, medindo, portanto, o brilho das estrelas, não haveria diferença entre a distância percorrida pela luz e a distância real, já que esta seria curva propriamente dita. Acho que teria de fazer desenhos para que vocês entendam melhor. Se tiverem dúvidas, escrevam-me.

Ele também falou na possibilidade de que a luz tenha tido valores diferentes no decorrer do tempo e que a constância da luz é um postulado na Relatividade. Tudo bem: de fato, é um postulado, mas baseado em experiências minuciosas. Mesmo com todo o desenvolvimento tecnológico, nunca se observou mudança na velocidade da luz e Einstein baseou-se nos experimentos de Michelson-Morley. Li, há algum tempo, uma matéria intitulada "constantes inconstantes", de John D. Barrow e de John K. Webb, que diz que, nos últimos seis anos, alguns físicos colocaram em dúvida a suposição de que as constantes físicas têm o mesmo valor em qualquer ponto do espaço e do tempo. Com base na comparação entre a observação de quasares e medidas de controle feitas em laboratório, argumentam que, num passado remoto, os elementos químicos absorviam luz de maneira diferente do que fazem hoje. Se confirmadas essas suposições, as leis físicas observadas não seriam universais e seria um sinal de que o espaço tem dimensões adicionais. Acredita-se que uma teoria da gravitação quântica explicaria o porquê de as constantes físicas terem os valores que têm, mas acho que estamos longe de tal teoria, embora muitos confiem na Teoria de Cordas ou na Teoria de Loops. Não sei o que restaria da Física se concluíssem que um dos pontos fundamentais de que a leis sempre foram e serão as mesmas for mudado, embora sempre tenha questionado como se pode construir todo um campo científico baseado nessa suposição. Acontece que o Adauto parte de uma especulação pra querer dizer que não vemos as estrelas do jeito que acreditamos que vemos.

Quanto aos métodos de datação, prefiro não comentá-los, pois não estudei todos os métodos com profundidade; contudo, tenho uma objeção! O Adauto diz que as datações radiométricas partem do pressuposto de que as quantidades de elementos na atmosfera sempre foram constantes. Não sei se isso é verdade; contudo, caso seja verdade, como explicar então a datação de pedras lunares? Acredito que os criacionistas fazem uso de dois pesos e de duas medidas no que se refere ao ceticismo: para algumas coisas, eles são extremamente céticos, mas extremamente dogmáticos para outras.

É triste ver como as pessoas que não conhecem a Ciência deixam-se enganar facilmente, aplaudindo de pé idéias tempestuosas que confirmem sua fé. Certa vez, ouvi um comentário de uma professora estudiosa da Filosofia da Religião no Departamento de Filosofia da UnB que questionava o apego dos protestantes à Escritura. Ela disse que o próprio Novo Testamento é uma tradução, já que Cristo pregava em Aramaico, e que vários livros tidos por apócrifos deveriam ser mais considerados por terem sido escritos na língua em que a mensagem foi revelada. Ela também fez uma observação que me fez pensar bastante. Ela disse que os católicos talvez sejam mais fervorosos no que se refere à fé do que os protestantes, já que eles não enfocam a hermenêutica bíblica, com seus preciosismos, mas a experiência pessoal.

Sei que criarei polêmica com o último parágrafo. Concordo em parte com a professora. Algo que sempre achei interessante no Protestantismo é justamente o fato de que as Escrituras podem ser interpretadas "livremente" — claro que esse "livremente" inclui várias premissas próprias da hermenêutica bíblica — por qualquer pessoa; também admiro o fato de determo-nos às Escrituras para não sermos incoerentes, como, por exemplo, os católicos são com os santos; contudo, é interessante ver as coisas por outra perspectiva. Grosso modo, as pessoas costumam acreditar num "Deus das lacunas" em que tudo que não é explicado ainda tem lugar pra Deus; assim, Deus vai ocupando um espaço cada vez menor na vida das pessoas na medida em que o mundo é explicado pela Ciência. O Adauto disse que, no dia em que mostrarem a ele que a Bíblia tem erros científicos, ele vai jogar tudo pro alto porque, se a Bíblia não tem credibilidade no verificável, não terá no que não se verifica. Acho que ele nunca deve ter lido a Bíblia com atenção ou então ficou inventando roubalheira pra cada coisa que lia em desacordo com a Ciência. Se a fé dele está limitada a um texto escrito, eu lamento: a minha fundamenta-se em Cristo.

¹http://www.bju.edu/

²http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_transitional_fossils

Recomendação: http://www.evo.bio.br/EVOXCRIA.HTML

sábado, 9 de maio de 2009

Zii e Zie e Maldita Reforma


Contrariando o que tinha dito na postagem anterior, tenho de admitir que gostei muito do novo álbum do Caetano — "Zii e Zie" (Tios e tias na Língua Italiana). Tal alcunha para o álbum foi escolhida, de acordo com Caetano, quando ele se deparou com a tradução italiana do livro "Istambul — Memórias de uma cidade" do escritor turco Orhan Pamuk, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2006. Ele achou as palavras bonitas, visualmente e sonoramente, e resolveu utilizá-las como título do álbum. Não sei dizer ao certo se gostei mais deste álbum ou do Cê, o anterior; na verdade, cada vez que ouço um álbum do Caetano, Livro, Noites do Norte etc. , parece que gosto mais dele do que dos outros. O álbum possui por subtítulos "transambas" na capa e "transrock" na contra-capa — é um saco ter de ficar consultando a toda hora o uso do hífen depois dessa maldita reforma; voltarei, depois, ao assunto. O prefixo "trans" significa "além de" ou "através de". Muita gente usa a locução "através de" como sinônima à "por meio de" ou "por intermédio de", mas elas não são intercambiáveis. Aquela possui sentido de "por dentro de", "de um lado a outro", sendo que ela é comumente usada para referir-se a algo que transpassa um meio físico. Os subtítulos descrevem bem o álbum de Caetano na medida em que uma banda composta pelo Pedro Sá — guitarra —, Marcelo Callado — bateria — e Ricardo Dias Gomes — baixo e Rhodes — possui um formato básico de rock, mas as músicas são sambas com roupagem de rock. Existe uma comunicação intensa entre os dois estilos musicais. Farei um breve comentário às músicas do álbum.

Perdeu

A música tem uma levada de guitarra muito legal. Boa escolha para abertura do álbum. Não tinha gostado muito dos solos do Pedro Sá no álbum, mas agora os entendo melhor e mudei de idéia. Gostei dos barulhos da guitarra no solo dessa música, mas acho que eu teria feito algo muito mais melódico: dava pra criar muita coisa em cima da levada principal da música. Adoro músicas em que você aumenta o seu vocabulário. Não sabia que "vagir" é "gemer" e "Bruxulear" é "tremeluzir", "estremecer". Não sei se é só impressão minha, mas na parte em que o Caetano canta "não diz isso não, diz isso não", no primeiro "diz", ele pronuncia como "zii" em Italiano, que seria mais ou menos como [dizi]. Muito interessante a combinação de alternâncias de notas com as palavras rimadas: "pariu, cuspiu, expeliu" etc. . Na metade da música, o Caetano canta fazendo u's e a's de um jeito estranho. Não ficou legal. Tem uma hora que parece um burro zurrando. Muito legal a ambigüidade que surge em

"surgiu, vagiu, escapuliu
no som, no sonho, somem
são cem, são mil, são cem mil, milhão"

"somem" pode ser tanto o presente do indicativo do verbo "sumir" quanto o imperativo do verbo "somar". As letras de músicas têm um fator curioso que se refere a uma maior ambigüidade, até porque mesmo os textos, quando escritos, não têm precisão quanto à pontuação. O trecho acima, por exemplo, dependendo da maneira como se articula as vírgulas, pode ter vários significados. Da maneira como está acima, a pessoa pode ter escapulido no som e surgido e vagido no sonho, mas se houvesse uma vírgula após "escapuliu", todas as ações seriam ligadas a "no som" e "no sonho".


Sem Cais

Parceria do Caetano com o Pedro Sá. Outra música que tem uma levada muito legal. Tenho de destacar que o álbum todo é recheado de levadas interessantes. As notas fantasmas da caixa com o chimbalhi hat — aberto nas batidas principais caíram muito bem. A bateria dá a base, e o baixo, com um fraseado próprio, preenche os espaços vazios deixados pela guitarra.

Por quem?

Música em que o Caetano explora o seu falsete, muito bem executado por sinal. Dessa vez, as batidas com vassourinha na caixa são protagonistas, preenchendo os espaços deixados pelos outros instrumentos. O Violão ocupa um papel primordial depois de um tempo. Os instrumentos vão ocupando espaços e importâncias diferentes no decorrer da música. A guitarra é minimalista. Bela letra do Caetano. A mesma ambigüidade que destaquei na primeira música surge aqui. Quando o Caetano diz "Lágrimas vão de mim por quem?" ele pode estar referindo-se a qual pessoa o faz chorar, ou às sensações e paisagens, personificadas, listadas por ele. Percebam que se ele quisesse referir-se somente a algo que não fosse uma pessoa, seria mais adequado usar o pronome relativo "que", mas geraria outra ambigüidade, pois o questionamento do causador do choro seria trocado pelo questionamento da finalidade, embora o uso de "por quê" também inclua o sentido de quem causou o choro.

Lobão tem razão

Faz um tempo que o Caetano e Lobão têm tido uma rixa*. Caetano citou o Lobão na música "Rock n' Raul" do álbum Noites do Norte, o Lobão não gostou e deu a resposta numa música chamada "Para o mano Caetano" e o Caetano revida com essa música extremamente sarcástica. O Caetano faz jogo de palavras com o nome do Lobão usando Hobbes "o homem é o próprio Lobão do homem" e ditos populares "mais vale um Lobão do que um leão", fazendo alusão, também, à música "Leãozinho". O Lobão critica a Bossa e o Samba e, ironicamente, Caetano fala que o "Rock acertou". Não tinha gostado muito do solo gritado e exagerado do Pedro Sá, mas agora acho que foi intencional pra retratar o incômodo de Caetano, tanto que no fim da música ele, Caetano, faz um barulho parecido ao zumbir de uma abelha ou um mosquito no pé do ouvido.

*http://irradiandoluz.blogspot.com/2009/01/mano-caetano-x-mano-lobao.html

A cor amarela

Não poderiam faltar os coloquialismos do Caetano. Ele tem muita habilidade em cruzar palavras do dia-a-dia com vocabulários mais apurados: na mesma música em que ele usa a palavra "bunda", ele também utiliza "pele tesa". A palavra "tesa" remeteu-me à música "Zera a reza", também do álbum Noites do Norte — adoro jogo de palavras! Perceberam que as palavras "zera" e "reza" são quase iguais? Basta trocar as consoantes! Legal também o uso da palavra "onda" como substantivo e expressão idiomática "que onda". Engraçado o comentário de que a melhor coisa que podia acontecer à cor amarela é a bunda. As palmas que surgem na música com certeza terão repercussão nos shows. Letra simples, mas muito bem construída!

Base de Guantánamo

Música que fica na cabeça e você não pára de querer cantar. Li uma entrevista que perguntava ao Caetano se a música não estaria ultrapassada pela política de Obama com relação aos desmantelamento da Base de Guantánamo, mas não acho que isso seria um motivo para a música deixar de ter voz de protesto. Mesmo que a base deixe de existir, foi um fato histórico e as atrocidades cometidas não deixarão de existir. Lembrei-me das exigências de Che Guevara que aparecem na primeira parte do filme que vi recentemente. A principal parte da música ocorre num crescente seguido de decrescente

Guantánamo
A Base de Guantánamo
A Base da Bahia de Guantánamo
A Base de Guantánamo
Guantánamo

Acredito que além de facilitar na hora de cantar pra evitar confusões, existe uma motivação no sentido de mostrar o surgimento da Base, seu ápice e seu desmembramento e que futuramente, todos os desrespeitos aos direitos humanos não serão mais importantes do que o próprio lugar geográfico. A voz ritmada e falada cruza com o falsete e vozes melódicas. As palhetadas da guitarra parecem facadas, tiros, mas existe uma variação rítmica muito interessantes na levada. A música termina com um toque repentista.

Falso Leblon

A guitarra no início lembrou-me a guitarra de London London no álbum ao vivo Cê. Música recheada de citações: Los Hermanos, Seu Jorge... Há uma crítica veemente às drogas. A música é literalmente "sexo, drogas e rock n' roll".

Incompatibilidade de Gênios

Concordo com o Caetano quando ele diz que essa música do João Bosco/Aldir Blanc é genial. Não acho que a versão do Caetano superou a original, como ele mesmo disse e admitiu, mas achei interessante a releitura. Ele colocou no blog duas versões para esta música e pediu que as pessoas votassem em qual preferiam. Acho que eu preferi a outra versão se não me lembro. A letra é muito legal. Descreve todas as encheções de saco de uma mulher a um provável advogado, por causa do "dotô"; no fim, diz-se que se quer a separação. A batida da bateria com o tempo forte na caixa fora do tempo forte da música deu contraste e um desencontro legal. O solo da guitarra é interessante. Parece com duas pessoas discutindo, alternando-se a altura, duração das notas e desafinando-as.

Tarado ni você

As revistas e resenhas que li dizem que é a bobagem do álbum, mas achei interessante a jogada de linhas harmônicas com a melodia. Músicas com letra menor e menos variação melódica dá margem pra arranjos mais elaborados. O solo do Pedro Sá é um dos melhores do cd. É mais clássico que os outros. Música bem alternativa; no fim, o barulho do mato lembra uma paisagem bucólica.

Menina da Ria

Remete-nos, imediatamente, à Menino do Rio, lançada no álbum Cinema Transcendental (1979). Acho-a muito legal, empolgante. O refrão dá vontade de cantar junto. Interessante a variação da nota quando o Caetano canta "Ria". Ele sobe com falsete no fim da música. O Caetano disse, em entrevista, que havia prometido a música num concerto seu em Aveiro — Portugal — em 2008. Ele disse que todo mundo falava "a ria" por lá e que ele disse, brincando, que um dia ira compor Menina da Ria.

Ingenuidade
Composição do Serafim Adriano. Eu, como baterista, nunca pensaria nessa levada pra tocar um samba. O Marcelo Callado mandou bem. O baixo entra depois com uma levada muito legal com uma melodia própria que casa muito bem com a guitarra. Dá pra ver que a letra não é do Caetano, já que as dele são sempre mais cerebrais. Interessante o uso do verbo "reclamar" como intransitivo, já que ele não é muito usado. A música intitula-se "Ingenuidade" e esse ar de ingenuidade impera na maneira como a temática é abordada. Não conheço as gravações anteriores a esta. Estou baixando uma versão cantada pelo Roberto Ribeiro. Para ser sincero, nem conhecia o Serafim Adriano, mas gostei muito da música.

Lapa

Música emblemática do cd. Gostei muito das linhas melódicas com os acordes menores. É triste eu não conhecer essas particularidades do Rio que aparecem no álbum. O Caetano adora um estrangeirismo — vide "cool". Ele sempre solta uma palavra do tipo nas suas letras. O modo como a música termina é muito interessante porque você acha que ele repetirá a palavra "Lapa", mas ele diz "lá". Outra música recheada de citações: Kassin, Lula, FHC... A levada de marcha da bateria marca a música.

Diferentemente
Aqui, continuam as citações, Madona, Obama... Uma bossa básica pra fechar o álbum. Possui uma temática filosófica profunda, abrangendo a Ontologia, Metafísica. Interessante como ele inicia o assunto a partir de uma canção da Madona — "When you look at me", e mistura romantismo com Filosofia, finalizando com Política. Só o Caetano pra manipular as palavras e temáticas de maneira tão magistral.
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Tinha muitos assuntos pra escrever, mas os deixarei para uma outra oportunidade, com exceção a um acontecimento desta semana, que se refere à "maldita reforma" a qual me referi na abertura desta postagem — quero evitar a palavra "post". A Dani, minha namorada, queria vender alguns livros didáticos num Sebo; no entanto, fomos em dois e ambos recusaram-se a comprar os livros tendo-se por base o fato de que os colégios da rede particular já adotaram livros com a grafia da nova reforma e que a rede pública já pretende trocar os livros. Cada vez mais eu me indigno com essa reforma. O pior é que ela foi assinada por um presidente analfabeto. Até agora não conheço um escritor de renome que tenha dado a sua aprovação à reforma do modo que ela foi feita. Com exceção do uso dos hífens, que eu já tinha bastante dor de cabeça de usá-los antes da reforma, decidi que não irei modificar minha grafia, a não ser que escreva textos de provas e afins. O engraçado é que em vez de tomarem medidas que popularizem a norma culta e difunda o seu uso, inventam moda. A Língua Francesa nunca teve uma reforma deste tipo, ela teve poucas mudanças no decorrer do tempo, enquanto a Língua Portuguesa, que é muito menos importante mundialmente em todos os âmbitos, teve um festival de mudanças no século XX. Os franceses possuem um apreço pela língua que nós não temos; talvez, seja porque eles não entram na Universidade sem passar por um exame de conhecimento da Língua, enquanto temos vários doutores analfabetos aqui.




sexta-feira, 1 de maio de 2009

Justificar
Queria, primeiramente, desculpar-me pela minha omissão. Admito que ela não se deve à falta de tempo, mas por desorganização mesmo. Vi ontem o filme "X-men Origens: Wolverine". Gosto bastante de ler as resenhas sobre os filmes antes de vê-los, assim como também gosto de ler resenhas de livros antes de lê-los; contudo, acabei vendo o filme sem críticas atreladas. Não sei se os fãs da HQ gostarão do filmes, mas, com certeza, os fãs do desenhos clássico que costumava ser transmitido pela Globo sentir-se-ão extasiados com o filme, principalmente no que se refere às explicações. Nunca fui muito dado a HQ's. Sempre gostei mais do formato dos mangás. Cheguei a comprar alguns números de Spawn, mas achei muito fraquinho. Fui atraído mais pela história apocalíptica, envolvendo céu e inferno. Gosto muito de tudo que envolve esse tipo de assunto. Quando criança, meu livro da Bíblia favorito era o Apocalipse e hoje muitas das minhas obras literárias favoritas envolvem esse tipo de assunto — Fausto de Goethe, A Divina Comédia de Dante etc. . Muitas das minhas dúvidas foram esclarecidas por meio do filme; por exemplo, sempre tive a dúvida referente ao fato do Wolverine ser ou não um mutante, já que acreditava que ele tinha ganhado seus poderes depois de submeter-se ao experimento para ter sua estrutura óssea substituída por adamantium. Outra dúvida que tinha era com relação à implicância do Dentes de Sabre com o Wolverine. Essas e muitas outras dúvidas foram suprimidas com o filme. Depois de vê-lo, resolvi ler a resenha do Omelete¹, que não fui muito boa. Admito que concordo que fiquei meio confuso com a cena inicial do filme na qual ocorre a maior quebradeira pra conseguirem um peso de papel, que era de adamantium, mas o dono não sabia de sua importância; no entanto, não acho que esses problemas com o roteiro tenham prejudicado o filme em sua totalidade. Recomendo para todos os fãs, tanto da franquia cinematográfica, quanto das HQ's ou desenhos animados.
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Comprei ontem o ingresso para o show do Caetano Veloso, que se dará no dia 16 deste mês. Fico indignado com os preços dos shows em Brasília. Os preços dos ingressos variam de 60 a 150 reais a meia! Fui, no início do ano, a um show do Gilberto Gil em João Pessoa e paguei, se não me engano, 30 reais! Adoro esta cidade, mas algumas coisas nela, como, por exemplo, o custeio de atividades culturais, deixam-me extremamente chateado. Estou ouvindo a discografia do Caetano e tenho descoberto músicas singulares. Sempre gostei do Caetano, mas nunca o tinha ouvido como fiz, por exemplo, com Queen, Mutantes, Roberto Carlos, Pink Floyd, entre outros, dos quais conheço toda as músicas. Gravei, inclusive, uma música do Caetano e do Waly Salomão da qual gostei muito.² Minha versão não se compara ao dueto do Lulu Santos com o Caetano, mas tentei cantá-la do meu jeito. Quando ouvi esta versão do Caetano, que encontra-se no álbum ao vivo Noites do Norte, não reconheci a voz do Lulu Santos. Só depois de procurar quem cantava com o Caetano que soube que era ele. Quanto ao novo cd do Caetano, "Zii e Zie", ainda não consegui ouví-lo, mas ouvi as músicas colocados no blog do Caetano³. Não gostei muito das músicas, preferi o anterior "Cê", mas verei se as versões de estúdio convencem-me.

¹ http://www.omelete.com.br/cine/100019424/X_Men_Origens__Wolverine.aspx
² http://www.youtube.com/watch?v=hlmHx1Iuf0w



³http://www.obraemprogresso.com.br/