quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Deve o cristão julgar? — Uma análise neo-testamentária acerca do julgamento

1. Notas preambulares

Recentes discussões no Facebook obrigam-me a escrever um texto sobre o julgamento cristão. Transcrevo o comentário que fiz que gerou tanta polêmica:
"Se você, de fato, crê que a Bíblia é a Palavra inspirada por Deus, por que cargas d'água nunca se deu ao trabalho de lê-la? Cansei de gente dando pitaco naquilo que não sabe nem do que se trata, que fala do Evangelho sempre de segunda mão, mas nunca daquilo que compreendeu por meio do estudo e do enchimento do Espírito diretamente. Adotarei, agora, o critério do cristão inválido. Tem mais de um ano de convertido? Sim? Já leu a Bíblia? Não? Você, então, não pode ser um cristão!" (Comentário feito no dia 25 de outubro de 2011, às 21h05)
Acho lamentável que eu tenha de escrever um texto sobre este assunto. Sinto-me como Paulo, na sua primeira carta aos coríntios, quando diz que não pôde falar como se o fizesse a pessoas espirituais, mas, sim, a pessoas carnais, como a crianças em Cristo (1 Cor. 3.1). Ainda, com respeito à infantilidade de seus interlocutores, Paulo diz: "Irmãos, deixem de pensar como crianças. Com respeito ao mal, sejam crianças; (sic) mas, quanto ao modo de pensar, sejam adultos." (1 Cor. 14.20)[1].

Estou farto de pessoas que dizem ter 10, 20, 30 anos de "conversão", mas que nunca leram, uma vez sequer, a Bíblia. A Palavra é o principal alimento do cristão. Hebreus 5.13 diz que "Quem se alimenta de leite ainda é criança, e não tem experiência no ensino da justiça". Um dos alimentos mais sólidos à disposição do cristão é, justamente, o texto sagrado. Certa feita, ouvi o depoimento de um recém-convertido ao Cristianismo, que havia deixado de ser muçulmano. Em um ano, ele disse que lera a Bíblia 7 vezes e que, para o mundo muçulmano, no qual as crianças crescem com o Corão na cabeça, isso não é muita coisa. Será que o crescimento do Islamismo no mundo deve-se à paixão que o muçulmano apresenta? Sinto falta dessa mesma paixão nos cristãos.

As desculpas são as mais criativas para o relapso com relação à leitura da Bíblia: falta de tempo, desgosto pela leitura, indisciplina... Aproveitando a comparação de Paulo, lembro-me de quando, ainda aos sete anos, li a Bíblia pela primeira vez. Obviamente, não tive um entendimento satisfatório do texto. O meu livro predileto, na época, era o Apocalipse, mas a minha interpretação era completamente fantasiosa. Quando li Mateus 7.1 — "Não julguem, para que vocês não sejam julgados" —, logo, saí repetindo o versículo para qualquer comentário dos meus pais a meu respeito. Descobri, posteriormente, o Estatuto da criança e do adolescente e percebi que seria mais produtivo citá-lo pelas conseqüências legais atreladas ao seu descumprimento.

A minha atitude infantil, que, ao menos, era própria à minha idade, é observada em senhores de 70 anos de idade! Um tipo de justificativa que também é dada é a de que não se conhece a Deus apenas por meio da leitura da Bíblia. Bem, esse tipo de argumento é bem fraco porque ele mesmo afirma que o conhecimento de Deus dá-se por meio da Bíblia, embora não o seja apenas por este meio; então, por que ignorar ou ser negligente a respeito de um meio que sei que pode revelar-me Deus? Com respeito a esse assunto, recomendo o excelente livro do Richard Foster intitulado Celebração da disciplina — o caminho do crescimento espiritual.O livro é genial. Nunca tinha pensado, antes de lê-lo, que o caminho para o crescimento no Cristianismo seria dado por meio do exercício de disciplinas. O Foster, a título de ênfase, obviamente, lista a leitura da Bíblia — em suas palavras, o "estudo" da Palavra. 


2. Nomeação e predicação

Tratando, agora, da explanação que quero dar sobre o assunto do julgamento no contexto do Novo Testamento, creio que é preciso elucidar alguns pontos lógico-lingüísticos. Existem, basicamente, duas maneiras de distinguir-se os objetos — veremos que na acepção do verbo no original grego, há a acepção de "distinguir". A primeira maneira, e a mais simples, refere-se ao ato de nomear ou dar nomes aos objetos. Se tenho dois objetos e quero fazer uma distinção entre eles, posso chamar o primeiro de "A" e o segundo de "B". Tem-se a possibilidade de, mesmo tendo nomes distintos, os objetos serem os mesmos. Neste caso, teremos nomes distintos que têm a mesma referência, mas o que importa aqui é a epistemologia e não a ontologia, ou seja, o ato de conhecer e não como as coisas são em si de fato. 

A segunda maneira mais precisa de diferenciação de objetos é a predicação. Se dois objetos são idênticos, eles têm as mesmas propriedades; portanto, por contraposição, se eles não têm as mesmas propriedades, eles não são idênticos. A partir do princípio da indiscernibilidade dos idênticos, temos um critério para o apontamento de dois objetos distintos: basta atribuir uma propriedade que os dois objetos não compartilhem. 

O que seria, no entanto, predicar um objeto? Ora, quando digo que um objeto o tem a propriedade P, se a minha afirmação é verdadeira, estou dizendo que existe um conjunto de objetos que têm a propriedade P, que eu vasculhei tal conjunto e que encontrei o objeto o nele. 

O ato de nomeação não exige um julgamento, pois posso colar um rótulo sobre um objeto de maneira totalmente arbitrária; por exemplo, posso chamar alguém de "Jacó" apenas para mencioná-lo, mesmo que ele não seja um enganador, uma vez que a etimologia da palavra revela tal significado. O ato de predicação, contudo, tem por pressuposto o julgamento, tendo em vista que quando digo que o objeto o tem a propriedade P, tenho de incluí-lo num conjunto, logo, tenho de decidir se ele faz parte de um conjunto ou não.

3. O verbo grego "Kríno"[2] e as acepções de "julgar"

O verbo grego para julgamento, incluindo seus cognatos, que aparece no texto de Mateus 7.1 surge 114 vezes no Novo Testamento[3] em 74 variações. Fiz uma análise exaustiva dessas 114 aparições, selecionando os casos que são relevantes na nossa análise. O leitor mais atento, talvez, questione a minha seleção, mas explicarei por que não analisarei todos os casos. O verbo grego "kríno" tem, segundo o Dicionário Grego-Português e Português-Grego, do Isidro Pereira, S.J., as seguintes acepções: 
reparar, escolher, distinguir, discernir, decidir, julgar, acusar, condenar, explicar uma questão, interpretar, apreciar, avaliar, resolver um litígio.
Vejam que a própria possibilidade de acepções do verbo já abre margem para que não consideremos alguns versículos. A título de exemplo, vejam o seguinte versículo de Apocalipse 19.11: "Vi o céu aberto e diante de mim um cavalo branco, cujo cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro. Ele julga e guerreia com justiça". Este versículo não tem serventia para o nosso propósito de analisar se o cristão deve ou não julgar.

As acepções do verbo na Língua Portuguesa não diferem muito daquelas do verbo grego. Uma consulta ao Dicionário Houaiss da língua portuguesa revela as seguintes acepções:
tomar uma decisão na qualidade de juiz; sentenciar, pronunciar uma sentença; emitir parecer, opinião sobre alguma coisa ou alguém, formar conceito, opinião; decidir, após reflexão; considerar; decidir que algo pertence a ou se transfere para outrem; adjudicar; supor-se, imaginar-se, considerar-se, pensar-se.


Vê-se que as acepções do verbo de origem latina "julgar" possui uma conotação mais jurídica que o verbo grego "kríno".

4. Uma exegese de Mateus 7

Existem dois modos ou dois tipos de ênfase que se pode efetuar na leitura de um texto. O primeiro tipo diz respeito à leitura vertical. Neste tipo, a leitura do texto é feita dando-se ênfase ao texto em si. O segundo tipo concerne à leitura horizontal, que é feita dando-se ênfase à obra completa do autor. Podemos falar de vários tipos de leituras horizontais e verticais. No caso do texto de Mateus 7, por exemplo, uma leitura vertical teria por escopo apenas o capítulo 7. Uma leitura horizontal teria várias possibilidades de escopo, por exemplo, todo o livro de Mateus, todo o Novo Testamento ou a Bíblia inteira, levando-se em consideração o pressuposto da unidade do texto bíblico a partir da inspiração divina na sua escrita. No tocante a outros tipos de literatura, tendo um autor como Tolstói, por exemplo, uma leitura vertical restringir-se-ia a um livro específico, digamos, "A morte de Ivan Illitch". Uma leitura horizontal levaria em conta todos os textos de Tolstói ou mesmo aqueles textos que influenciaram a sua escrita. 

Tanto a leitura horizontal quanto a vertical têm o seu lugar e sua função. Minha ênfase agora será uma leitura vertical do texto; posteriormente, abrangerei outros textos neo-testamentários. Das 114 aparições do verbo grego "kríno", apenas quatro versículos apresentam o verbo — Mateus 7.1-2; 19.28; 5.40. Veremos, contudo, que o próprio capítulo 7 fornece as ferramentas para uma interpretação adequada. Talvez, por preguiça, as pessoas enfatizam o versículo 1 "Não julguem, para que vocês não sejam julgados" esquecendo-se de todo o resto. 

Em primeiro lugar, é importante enfatizar que lendo apenas o versículo 1, como algumas pessoas fazem, o julgamento de nós mesmos seria proibido. Não deveríamos julgar nem a nós mesmos para que não fôssemos alvo de julgamento. Vejamos, contudo, o versículo 5: "Hipócrita, tire primeiro a viga no seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.". Ora, para eu tirar a viga do meu olho tenho de olhar para mim mesmo. Lembrem-se que uma das acepções do verbo grego é "reparar" e que qualquer predicação é um julgamento. Ou seja, dizer "Eu tenho uma viga no meu olho" pressupõe um conjunto das coisas que têm vigas nos olhos para que eu possa incluir-me neste conjunto. Outra acepção do verbo grego é "decidir" e é nesse sentido que julgo quando me incluo no conjunto das coisas que têm vigas nos olhos. Estou sendo minucioso quanto a essas explicações, que podem parecer até óbvias, porque algumas pessoas tendem a dizer que isso não é um julgamento.

O mesmo versículo que afirma que devo julgar a mim mesmo diz que devo fazê-lo para quê? Para olhar claramente para tirar o cisco do olho do meu irmão. Ora, o mesmo procedimento que fiz para tirar a trave dos meus olhos é o mesmo procedimento que devo efetuar para tirar o cisco do olho do meu irmão. Devo, portanto, julgar o meu irmão na medida em que "reparo" no cisco dos olhos dele. 

O versículo 6 afirma o seguinte: " 'Não dêem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso, contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão.". Ora, o versículo diz que eu devo identificar quem é o cão e quem é o porco, mais uma vez, voltemos à questão da predicação. Que é eu dizer que alguém é cão? É eu olhar para o conjunto dos cães e ver, JULGAR, se o objeto que predico encontra-se naquele conjunto. 

O versículo 15 fala dos falsos profetas, para termos cuidado com eles. Ora, mas para ter cuidado com o falso profeta, antes, devo identificar quem é um falso profeta, portanto, julgar que alguém é ou não um falso profeta. O versículo 16 diz que um modo de reconhecê-los é por meio dos seus frutos. O versículo 17 fala da árvore boa e da árvore ruim. A primeira é aquela que dá frutos bons e a segunda é a que dá frutos ruins, havendo uma impossibilidade de a árvore boa gerar maus frutos e da árvore ruim gerar bons frutos. Se eu vir que alguém dá maus frutos e disser que ele é uma árvore ruim, creio que ninguém estará disposto a dizer que não estou fazendo um julgamento. 

Tenho constatado que por falta de conhecimento da Palavra, as pessoas tomam o politicamente correto por aquilo que é bíblico. Estudos antropológicos e sociais costumam adotar imparcialidade na avaliação das culturas, afirmando que não existe cultura superior ou inferior. O relativismo onipresente no século XX e que persiste no século XXI dá ensejo para que as pessoas não se sintam seguras para taxar o mal de mal e o bem de bem, diferenciar aquilo que é certo do que é errado e isso tem invadido as nossas igrejas e o meio cristão. 

Se reconhecer, como afirma o versículo 20 — "Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão" — quem é a má árvore e a boa por meio dos frutos não é um julgamento, não sei mais o que pode ser. O versículo 21 continua dando critérios para o reconhecimento do cristão genuíno — por "cristão genuíno" entendo aquele que, de fato, herdará o Reino dos Céus. O versículo 21 afirma que " 'Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor', entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.". O versículo dá um critério objetivo para saber quem irá para o céu. Não é aquele que profere que Deus é seu senhor, mas aquele que faz a vontade de Deus. Se eu conhecer alguém que desrespeita praticamente todos os mandamentos e observâncias bíblicas, mas que se diz cristão, e disser que ele não entrará no Reino dos céus, os politicamente corretos dirão que estou julgando-o e citarão Mateus 7.1, sem nunca ter lido o mencionado versículo 21.

Taxar alguém de prudente ou imprudente pode parecer um julgamento que só deve ser praticado por Deus. Há uma grande confusão aqui. Existe uma grande diferença entre praticar um julgamento a partir da minha perspectiva e praticar um julgamento a partir do que diz a Palavra. Os últimos versículos do capítulo 7 afirmam que é prudente aquele que ouve as palavras de Deus e pratica-as e que é insensato quem deixa de fazê-lo. Fazer um julgamento tendo por base o critério objetivo descrito no texto de Mateus é apenas passar a diante um julgamento que já foi feito pelo próprio Deus. 

5. O bom e o mau julgamento

Partiremos, agora, para uma leitura horizontal. Vejam o que diz João 8.15-16: "Vocês julgam por padrões humanos; eu não julgo ninguém. Mesmo que eu julgue, as minhas decisões são verdadeiras, porque não estou sozinho.". Confirmando o que afirmei acima, vejam que o próprio Cristo, no texto de João, fala de dois julgamentos: aquele segundo os padrões humanos e aquele segundo Deus. Lembrem-se de que uma das acepções do verbo grego "kríno" era "decisão" e, de fato, a palavra "decisões" na tradução da NVI faz referência ao mesmo verbo. Quando Cristo diz que não julga ninguém, está dizendo que não o faz segundo os padrões humanos e, de fato, não devemos fazer julgamentos segundo os padrões humanos. 

No capítulo anterior, no versículo 24, vejam o que o mesmo Cristo afirma: "Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos". O contexto do versículo refere-se ao fato de Jesus curar aos sábados. Vejam que Cristo é claro quando afirma que devemos julgar sim, mas com justiça. Coisa parecida ocorre com a ira no Novo Testamento. Efésios 4.26-27, em referência ao Salmo 4, diz: " 'Quando vocês ficarem irados, não pequem'. Apazigüem a sua ira antes que o sol se ponha, e não dêem lugar ao diabo". Vejam que o versículo não fala para não nos irarmos, mas fala sobre o tipo de procedimento que devemos ter quando tivermos ira. De fato, pode-se investigar como é a ira que advém de Deus e a ira carnal, humana. Fiz este estudo há algum tempo, montando até uma tabela com características. O mesmo poderia ser feito para o caso do julgamento. Vemos que a Bíblia parece indicar que existe um tipo de julgamento que, de fato, deve ser feito, mas outro que não deve ser feito.

6. Textos favoráveis ao julgamento do cristão

O livro de Atos é sempre um livro básico para o entendimento de como era o procedimento da igreja primitiva. A aparição do verbo grego "kríno" é freqüente ao longo do livro, 22 registros, diferentemente do texto de Mateus. A acepção que surge, contudo, na maior parte das aparições é a de "decisão", em contextos que não possuem muita serventia para os nossos propósitos. Quando a acepção é a de "julgamento", sendo o termo grego traduzido pela nossa palavra advinda do latim "judicatio", trata-se ou do termo jurídico, no tocante às prisões de Paulo, ou do julgamento divino e não daquele que deve ser operado pelos cristãos.

O único texto em Atos que nos serve é o do capítulo 4, versículo 19: "Mas Pedro e João responderam: 'Julguem os senhores mesmos se é justo aos olhos de Deus obedecer aos senhores e não a Deus.". Vejam que Pedro e João falam para o sinédrio julgar, mas não de qualquer maneira, mas aos olhos de Deus, que, de fato, deve ser o tipo de julgamento que deve ser procedido pelos homens.

O texto de Coríntios é outro texto repleto de registros, 17 para ser preciso. Comentarei algumas passagens.

"Pois, como haveria eu de julgar os de fora da igreja? Não devem vocês julgar os que estão dentro? Deus julgará os de fora. "Expulsem esse perverso do meio de vocês". (1Cor. 5.12-13)

Ainda no versículo nove do capítulo 5, Paulo diz que não devemos associar-nos a pessoas imorais. No versículo 11, ele diz o seguinte: "Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais.". Mais uma vez, somos chamados a identificar quem é devasso, avarento, idólatra, maldizente, beberrão ou roubador. Para não comer com essas pessoas, antes, preciso julgá-las, no sentido de predicá-las, associá-las a um conjunto de pessoas que tenham uma das características listadas.

"Se algum de vocês tem queixa contra outro irmão, como ousa apresentar a causa para ser julgada pelos ímpios, em vez de levá-la aos santos? Vocês não sabem que os santos hão de julgar o mundo? Se vocês hão de julgar o mundo, acaso não são capazes de julgar as causas de menor importância? Vocês não sabem que haveremos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas desta vida!" (1 Cor. 6.1-3).

Creio que o versículo acima é bastante claro. Nós, os santos, julgaremos os anjos, quanto mais as coisas menos importantes!

"Estou falando a pessoas sensatas; julguem vocês mesmos o que estou dizendo." (1 Cor. 10.15).

Paulo faz um convite para que as pessoas julguem o que ele diz.

"Julguem entre vocês mesmos: é apropriado a uma mulher orar a Deus com a cabeça descoberta?" (1 Cor. 11.13)

Mais uma vez, Paulo convida as pessoas à prática do julgamento!

Romanos, ainda, reitera a recomendação de Mateus, como podemos ver no texto abaixo:

"Portanto, você, que julga, os outros é indesculpável; pois está condenando a si mesmo naquilo em que julga, visto que você, que julga, pratica as mesmas coisas. Sabemos que o juízo de Deus contra os que praticam tais coisas é conforme a verdade. Assim, quando você, um simples homem, os julga, mas pratica as mesmas coisas, pensa que escapará do juízo de Deus?" (Rm. 2.1-3)

O texto acima de Romanos dá-nos uma dica sobre como deve ser o julgamento que o cristão deve praticar. Primeiramente, o julgamento hipócrita é condenado, na medida em que aquele que pratica o que condena não deve exercer juízo, lembremo-nos que, no texto de Mateus, é-nos aconselhado que retiremos a trave de nossos olhos antes de tirarmos o cisco nos olhos dos outros.

7. Possíveis textos contrários ao julgamento do cristão

Mesmo com todos os textos citados até aqui que, claramente, indicam que o cristão deve praticar o julgamento, algumas pessoas, fazendo uso de textos fora de contexto, assim como citam Mateus 7.1, citam textos no intuito de condenar a prática do julgamento exercida pelo cristão. Vejamos alguns destes textos.

"Irmãos, não falem mal uns dos outros. Quem fala contra o seu irmão ou julga o seu irmão, fala contra a Lei e a julga. Quando você julga a Lei, não a está cumprindo, mas está se colocando como juiz. Há apenas um Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e destruir. Mas quem é você para julgar o seu próximo?" (Tiago 4:11-12)

Quando se lê todo o livro de Tiago, que é bem curto, vê-se claramente que Tiago fala de um tipo de julgamento particular, que é o humano, o carnal. O capítulo 3 fala sobre o domínio que devemos ter da nossa língua. Vemos que o referido capítulo fala de fofoca, da língua que é capaz de amaldiçoar e de abençoar. Quando, no capítulo 4, Tiago fala sobre o julgamento, ele, com a conjunção grega "kai", que foi traduzida por "ou" pela NVI — que no caso da Língua Portuguesa seria uma disjunção inclusiva e não exclusiva —, restringe-o a um tipo específico de julgamento que, aqui, é falar contra o irmão em Cristo, falar mal, maldizer — o verbo no original é "katalaleo", que tem a acepção de "caluniar". O julgamento de que fala Tiago, portanto, é a calúnia.

Contra qual lei a pessoa que calunia afronta-se? A resposta está no capítulo 2, versículo 8, "Se vocês de fato obedecerem à lei real encontrada na Escritura que diz: 'Ame o seu próximo como a si mesmo', estarão agindo corretamente.". A tradução, a meu ver não está boa. O versículo 12 diz que há apenas um Legislador e um Juiz, capaz de salvar e destruir. O enfoque, portanto, deveria ser no papel condenatório. A última frase seria melhor traduzida se o verbo "condenar" fosse utilizado no lugar de "julgar". De fato, como vimos nas acepções do verbo grego, "condenar" é uma das acepções possíveis e vemos que mesmo na acepção de condenação o uso no texto dar-se-ia de maneira bem restrita, já que fala no contexto de salvação e destruição. Caluniar, portanto, teria o mesmo poder condenatório que o julgamento divino. O capítulo 3 ilustra bem tal poder da calúnia.



"Aquele que come de tudo não deve desprezar o que não come, e aquele que não come de tudo não deve condenar aquele que come, pois Deus o aceitou. Quem é você para julgar o servo alheio? É para o seu senhor que ele está de pé ou cai. E ficará de pé, pois o Senhor é capaz de o sustentar." (Rm. 14.3-5);
"Portanto, você, por que julga seu irmão? E por que despreza seu irmão? Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus." (Rm. 14.10);

"Portanto, deixemos de julgar uns aos outros. Em vez disso, façamos o propósito de não colocar pedra de tropeço ou obstáculo no caminho do irmão." (Rm. 14.13)


O texto de Romanos, no capítulo 14, começa fazendo uma distinção entre fortes e fracos na fé. Ora, se no primeiro versículo, é dito ao forte na fé que o fraco na fé deve ser aceito, já existe uma pressuposição de que, ao menos, um julgamento no tocante àquele que é fraco ou forte deve ser feito. Os questionamentos dos textos acima não seriam, portanto, com respeito a todo e qualquer julgamento. Quando, no versículo 4, Paulo pergunta quem somos nós para julgar o servo alheio, ele está falando, como se vê no versículo anterior, do desprezo que é dirigido aos cristãos que comem ou deixam de comer algo. O tipo de julgamento condenado por Paulo em Romanos 14 é aquele superficial que não se baseia no coração e nas intenções, mas apenas naquilo que, exteriormente, alguém faz ou deixa de fazer.


"Pouco me importa ser julgado por vocês ou por qualquer tribunal humano; de fato, nem eu julgo a mim mesmo. Embora em nada minha consciência me acuse, nem por isso justifico a mim mesmo; o Senhor é quem me julga. Portanto, não julguem nada antes da hora devida; esperem até que o Senhor venha. Ele trará à luz o que está oculto nas trevas e manifestará as intenções dos corações. Nessa ocasião, cada um receberá de Deus a sua aprovação." (1 Coríntios 4:3-5)

Confesso que não tenho uma compreensão plena do texto acima. Consultei vários comentários bíblicos, mas nenhum deles convenceram-me; no entanto, o interessante é que todos eles destacam que o cristão tem, de fato, o papel de julgar, embora não seja qualquer tipo de julgamento. O comentário que mais pareceu esclarecer o texto, a meu ver, foi o da Bíblia do Peregrino, que afirma que aqueles que estão a serviço imediato de Deus não estão submetidos a um julgamento meramente humano.

O meu entendimento do texto é que no capítulo 3, inicia-se uma discussão sobre a divisão na igreja. Alguns se diziam servos de Apolo, outros de Paulo e alguns outros do próprio Cristo. Essa passagem é interessante na medida em que Paulo desaprova inclusive aqueles que se dizem ser de Cristo e não de Apolo ou de Paulo, mas isso é um assunto para uma postagem futura. A questão é que Paulo fala que apenas o julgamento final de Deus poderá revelar, de maneira definitiva, qual obra será aprovada ou não. O problema de uma palavra ter várias acepções é que na tradução dela podem ocorrer equívocos. Se estivesse na posição de tradutor, escolheria o termos "condenar" para referir-me ao ato de julgamento divino no juízo final ou procuraria manter certa uniformidade na tradução do texto no tocante às diferentes acepções do mesmo termo. De fato, não cabe ao homem o papel de julgar ou condenar alguém para o paraíso ou o inferno, mas a eliminação de tal papel não elimina outras possibilidades de julgamento, como, de fato, vimos no decorrer deste texto.

Paulo afirma nos versículos acima que a medida do julgamento não deve ser dada por nós mesmos. Quando ele afirma que pouco importa que ele fosse julgado pelos homens ou por tribunais humanos e que nem ele julgava-se a si mesmo, ele falava que os termos do julgamento deveriam ser divinos e não humanos. Quando baseamos o nosso julgamento na Palavra, é isso que estamos fazendo. Do que Paulo estaria falando quando diz para esperarmos a hora devida. Que tipo de julgamento possui uma hora marcada? Ora, é justamente o julgamento condenatório divino. De fato, não temos acesso às intenções genuínas dos corações das pessoas. Quando Mateus diz-nos para julgarmos de acordo com as obras, o tipo de julgamento que efetuamos é meramente externo, tem em vista os frutos produzidos pelas pessoas. O julgamento que podemos fazer, portanto, sempre é baseado na exterioridade, embora ele revele algo da interioridade, pois, afinal, a árvore má não pode gerar bons frutos.

Creio que ou Paulo faz uso de uma hipérbole no texto ou, de fato, fala de um julgamento restrito, pois, em Romanos, ele recomenda que não sejamos pedra de tropeço no caminho de nossos irmãos — Rm. 14.13 — e em 2 Coríntios 6.3, afirma que não devemos ser motivo de escândalo a ninguém. Paulo, portanto, importa-se sim com a maneira como é julgado pelos outros, de modo que ele não poderia estar falando de todo e qualquer julgamento quando afirma que pouco o importava ser julgado pelos homens.

8. Conclusão 

Vimos, portanto, que o cristão é chamado a julgar, mas não de qualquer maneira. A Bíblia diferencia o julgamento humano, que costuma ser hipócrita, do julgamento divino, conforme a vontade de Deus. O critério para o julgamento do nosso próximo não deve ser aquilo que achamos ou pensamos, mas aquilo que está na Bíblia. Somos, sobretudo, chamados a praticar o julgamento de nós mesmos antes de prestarmo-nos ao julgamento de quem quer que seja. Nosso julgamento, no entanto, é impreciso, pois sempre se baseia nas externalidades, nos frutos, obras e ações das pessoas. Apenas Deus tem a capacidade de um julgamento preciso das verdadeiras intenções dos corações; contudo, mesmo diante da nossa falta de acurácia, temos um método bastante eficaz de praticarmos o julgamento, uma vez que as árvores ruins, de acordo com o texto de Mateus, não podem gerar bons frutos. 

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[1] Quando não for explicitado, a tradução utilizada será a da Nova Versão Internacional.
[2] Peço desculpas pela transliteração. Ainda não domino a técnica.
[3] Recomendo o excelente programa Interlinear Scripture Analyzer, que está disponível gratuitamente no endereço: http://www.scripture4all.org/

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Como identificar um analfabeto em 10 erros


Antes de iniciar o meu texto propriamente dito, é melhor enfatizar, em tempos em que o politicamente correto impera, que de maneira alguma estou agredindo o Tiririca de alguma forma ao fazer uso da imagem dele numa postagem sobre o analfabetismo. Usei-o porque ele teve problemas para provar que era alfabetizado nas últimas campanhas eleitorais; então, ele acaba sendo um símbolo de certa maneira.

Tivemos, recentemente, uma polêmica que envolvia o uso da norma culta num livro do MEC. Algumas pessoas afirmaram, na ocasião, que o importante é comunicar-se e que fazer uso das regras gramaticais é preciosismo. Uma pessoa que faz esse tipo de afirmação desconhece por completo o significado da norma culta. Pretendo abordar o assunto aqui de forma mais esmerada em outra oportunidade. Alguns argumentos utilizados para desqualificar a norma culta, como, por exemplo, atrelando-a à imposição de uma determinada classe dominante, são completamente equivocados, uma vez que a primeira gramática que se tem notícia, surgida na Índia, tinha pretensões religiosas. Acreditava-se que a língua sânscrita era a língua dos deuses e por isso nasceu a iniciativa de preservá-la por meio de uma gramática.

Outro mito em torno da norma culta é referente à sua função única de fazer referência à língua falada: muito embora ela tenha sido, nas origens, uma forma de registro da oralidade, ela possui sua própria estrutura e riqueza, independentemente da linguagem oral. Um bom exemplo para entender o que ocorre com a norma culta é observar a história do desenvolvimento da Lógica. Esta surgiu, primeiramente, para modelar a linguagem natural. Mesmo com todo o avanço que se observou no campo, a fidelidade da Lógica à linguagem natural é mínima, devido à sua complexidade. O que se observa nos diversos sistemas lógicos é uma abundância de estruturas que fogem à mera descrição da linguagem natural.

Algumas pessoas usam como desculpa o fato de estarem num ambiente coloquial ou de, simplesmente, estarem falando em vez de escrevendo. Não falarei de modo dedutivo aqui, antes que me acusem de falacioso — por falar nisso, a falácia, como conhecemos, restringe-se apenas ao ambiente dedutivo, mas isso é assunto para outra ocasião —, mas a minha experiência demonstra que pessoas que se utilizam desse tipo de argumento, freqüentemente, cometem os mesmos erros na escrita. De qualquer forma, se alguém tem de saber as regras para utilizá-las em momentos específicos, por que não se valer das regras sempre? A linguagem culta fornece precisão e evita ambigüidades. Os erros que comentarei aqui, entretanto, são próprios do âmbito da escrita.

É importante ressaltar também que a linguagem é pública e não privada. Quando se faz uso de uma língua, está-se utilizando algo que não foi criado pelo falante. Se eu tomo por empréstimo um instrumento como um violão, se eu quiser tocá-lo, terei de seguir certas regras na medida em que faço uso de algo que não criei. Não posso querer que um violão usual tenha apenas uma corda, ou que ele tenha uma extensão de escalas maior que aquela disponibilizada e assim por diante.

Foi por meio da leitura de Wittgenstein e de Sartre, no meu terceiro ano do Ensino Médio, que me dei conta de que deveria aprender e respeitar a norma culta. O meu raciocínio da época deixo para outra postagem. A questão é que até então não tinha a preocupação de seguir a norma culta; inclusive, mesmo depois da leitura mencionada, demorei alguns anos para respeitar algumas regras específicas, como, por exemplo, as referentes à colocação pronominal, que, inclusive, encontram-se na listagem que farei. Antes da minha preocupação sistemática, contudo, não cometia erros muito graves devido à minha paixão pela leitura, que sempre me ajudou, e devido, confesso, a certo talento natural, que pode ser observado quando, já na primeira série do Fundamental, ganhei um concurso de redação.

Escolhi 10 erros e comentá-los-ei no decorrer da listagem. É importante ressaltar alguns pontos. Primeiramente[1], não sou perfeito, cometo erros e, inclusive, prefiro ser corrigido a persistir no erro, contrariamente à maioria das pessoas. Comentei, no Facebook, certa vez, que só se pode sentir diminuído ao ser corrigido aquele que é perfeito, pois o erro é pré-condição da existência humana. Admito que não gosto de errar; no entanto, quando alguém aponta um erro meu, fico tão traumatizado que nunca mais volto a cometê-lo. Não existe melhor método de aprendizado. A maior parte das pessoas, no entanto, parece ter problemas sérios para admitir os seus erros e retratar-se, gastando tempo tentando arrumar algum jeito de disfarçar o seu equívoco. Segundamente, para ser analfabeto não é necessário o desconhecimento das 10 regras listadas, mas, se tendo em vista que elas são básicas, o desconhecimento de apenas uma delas já o torna analfabeto. Caro leitor, se você desconhecer algum dos usos que listarei, não se sinta ofendido, mas tenha em mente o que falei sobre o erro. Sempre é tempo para aprender! Por último, não tenho a pretensão de explicar pormenorizadamente cada um dos tópicos, mas apenas de citar os principais erros que vejo no dia a dia.

1. Uso dos porquês
Frustra-me ver o uso que se faz dos porquês. Tentarei explicá-los a partir do que sei sem me apoiar em algum manual. Usa-se junto com acento — "porquê" — sempre que estiver substantivado. Usa-se separado — "por que" sempre que se puder substituir pela expressão "por qual motivo", levando acento sempre que estiver próximo a uma pontuação. O tradicional "porque" é usado sempre que for usado em sentido explicativo.

2. "Afim" ou "a fim" e acento de monossílabos
É muito comum ver as pessoas errando o uso de "afim" e "a fim", principalmente, dizendo, erroneamente, que estão "afim de alguém" ou "afim de fazer algo". A maior parte das pessoas nunca terá de usar "afim". Se for pra chutar, amigo, use "a fim".

Quanto aos monossílabos, a regra mais elementar de acentuação é a de que monossílabos tônicos terminados em "i" e "u" não levam acento. É comum ver gente acentuando "vi", "li", "Ju" — abreviação de "Juliana" — e mais comum ainda é ver gente mal educada, que, obviamente, tinha de ser analfabeta, escrevendo em portas de banheiro a palavra que designa o orifício anal com acento, para não ser mais específico.

3. Regência do verbo "lembrar
Quem se lembra, lembra-se de algo; quem lembra, lembra algo [2]. Simples!

4. Duplo particípio
Alguns verbos possuem duplo particípio — um irregular e outro regular. O primeiro tipo é usado, de forma geral, na voz passiva, acompanhado dos auxiliares "ser" e "estar"; o segundo, na voz ativa, acompanhado dos auxiliares "ter" e "haver". Existem exceções quando se usa o verbo na voz ativa, como, por exemplo, os verbos "pagar", "pegar" ou "ganhar", mas, se você usar a regra geral, não tem erro. Por exemplo, "tinha pegado" e "fui pego".

5. Tempo subjuntivo
O erro que se comete no uso deste tempo é um ótimo critério para saber se alguém, de fato, tem um mínimo conhecimento da Língua Portuguesa. Fico até emocionado quando ouço alguém falando corretamente ou escrevendo da maneira correta. Refiro-me, principalmente, ao futuro do subjuntivo, quando usado em orações subordinadas adverbiais. Para ser mais claro, vejam o exemplo corrente: "Quando eu ver você, a gente se fala". O correto seria: "Quando eu vir você, a gente se fala".

6. Uso do infinitivo
Vejo, diariamente, as pessoas escrevendo expressões do tipo "nada a vê", "se eu olha pra você", em vez de "nada a ver" e "se eu olhar pra você".

7. Colocação Pronominal
Como eu já disse, até pouco tempo, dispensava o seguimento das regras referentes à colocação pronominal, pois achava-as desnecessárias. Um dia, ouvindo uma canção, da qual, infelizmente, não me lembro, percebi a importância da regra quando vi que, se dispensasse a regra, o sentido seria alterado. É até aceitável que as pessoas não sigam as regras de colocação pronominal quando escrevem em ambientes coloquiais, sendo coerentes com a predominância da próclise do Português falado no Brasil, mas o que é inaceitável é quando elas usam a ênclise ou a mesóclise quando o uso é proibido pela norma culta. Um exemplo seria "Não faça-o" em vez de "Não o faça", uma vez que expressões negativas são atrativas. Pior do que gente analfabeta é gente analfabeta que quer fazer-se de culta.

8. Vírgulas entre sujeito e predicado
O conhecimento do que é um vocativo, infelizmente, é raro. Uma simples vírgula pode mudar todo o sentido de uma frase como "Pedro salva-me" ou "Pedro, salva-me". Na primeira frase, faço uma descrição, enquanto na segunda peço a Pedro que me salve. Um dia desses, lendo um poema na internet — e não poesia, como alguns pensam —, vi que o sujeito separou sujeito de predicado por meio da vírgula. Algo do tipo: "O céu, é azul". Tudo bem que existe licença poética no âmbito poético, mas destaco algo que sempre costumo dizer: não se pode derrogar o que não se conhece! Qualquer pintor ou escritor que subverteu as regras clássicas tinha conhecimento delas antes de contrariá-las. Para destruir um muro, é preciso, antes, construí-lo.

9. Uso do cedilha
Descobri uma lógica no uso do cedilha há tempos que nunca li em lugar nenhum. Você só usa o cedilha se a sua ausência acarretar pronúncia diferente. Por exemplo, por que "bagaço" tem "ç"? Experimente retirá-lo. Você falaria a palavra de maneira diferente. Se as pessoas soubessem dessa lógica, não escreveriam barbaridades como "voçê". O pior é ver gente escrevendo "" em vez de "vc".

10. Concordância
O último erro que listei é o que daria para citar mais exemplos. Concordo que o assunto tem a sua complexidade — por exemplo, saber utilizar a concordância no caso da conjunção "ou" ou no caso de porcentagens; no entanto, dois fatores pesam contra a pessoa que comete esse tipo de erro. O primeiro refere-se ao fato de que o aprendizado da Língua Portuguesa inicia-se desde o ingresso no primeiro ano do Fundamental. Se alguém terminar o Ensino Médio, o sujeito passou, em média, no mínimo 11 anos estudando o assunto. Em segundo lugar, vivemos tempos em que qualquer pessoa tem acesso à informação. A internet está aí pra isso; então, não existe desculpa. Pensei em dar uma olhada no Facebook ou no Twitter para encontrar exemplos, mas desisti.


[1] A palavra "primeiramente", incrivelmente, não está dicionarizada, não sendo registrada no VOLP. O excelente professor Claudio Moreno, no entanto, convenceu-me a usá-la, incluindo as generalizações "segundamente", "terceiramente" e assim por diante. Vejam o texto do mencionado professor: http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2010/03/28/primeiramente/ .

[2] Para o uso que fiz das vírgulas na minha explicação, recomendo o seguinte texto:
http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2010/01/31/quem-sabe-sabe/


sábado, 15 de janeiro de 2011

Mosquitos Otólatras


Para quem não tem afinidade com os processos de formação das palavras e com os radicais gregos, explicarei o título da postagem de hoje. Como não conheço uma palavra, na Língua Portuguesa, para designar quem tem veneração por ouvidos, criei o termo "otolatria". No meu Ensino Médio, aprendi que o termo correto para designar o local onde compramos óculos é "Óptica" e não "Ótica", embora alguns dicionários já tenham registro dos dois termos como sinônimos. O radical grego em "Ótica" é o mesmo da palavra "Otite", que usamos para referir-nos à inflamação nas cavidades da orelha. "Otos" é, portanto, orelha em Grego. "Latria" vem do Grego "latreia", que significa adorar. "Otólatra" é, por conseguinte, aquele que adora orelhas.

Quem acompanha meu blogue sabe que não tenho uma história muito feliz com insetos [1]. Sempre me perguntei por que os mosquitos fazem questão de voar sobre nossos ouvidos. Já fiz alguns experimentos. Como eu durmo coberto, pode ser que o mosquito tenha algum modo de rastrear a pele. Seria provável que ele sobrevoasse o meu rosto, já que seria a única parte descoberta, mas justamente os ouvidos? Experimentei ficar descoberto para ver se o mosquito ficaria mais interessado por outras partes da minha pele, mas, freqüentemente, meus ouvidos eram incomodados.

Resolvi, por curiosidade, procurar o motivo do fetiche dos mosquitos por ouvidos. Descobri [2] que não existe uma razão específica para o inseto atacar a região da nossa orelha, mas que ele é atraído pelo gás carbônico liberado pelo nosso nariz, o que aumentaria a probabilidade de ele sobrevoar nossas orelhas. Na minha pesquisa, encontrei algumas curiosidades. Entre elas, um livro de contos intitulado "Por que os mosquitos zunem no ouvido da gente" [3], um romance de 456 páginas intitulado "A costa do mosquito", um poema do Vinicius de Moraes intitulado "O Mosquito" [4] e um poema da Cecília Meireles intitulado "O mosquito escreve" [5].

Na madrugada do último domingo, dia 9, estava tentando dormir e, como de costume, fui perturbado por um mosquito. Costumo dar uma chance aos seres vivos de permanecerem vivos, mas parece que, como se já não bastasse a curta vida dos insetos, estes procuram a morte. Depois de ser importunado repetidas vezes, tomei a decisão de livrar-me do mosquito de maneira definitiva. O fim todos sabem: um inseto morto lançado num vaso sanitário.

Depois do episódio, percebi que o incidente seria um bom objeto de literatura, talvez um conto. Tenho me voltado, ultimamente, para o gênero: acredito que ele se ajusta melhor à minha escrita, uma vez que não tenho concisão suficiente para expressar em tão poucas palavras como num poema e nem paciência, tempo e recursos suficientes para escrever um romance. A leitura dos contos do Machado de Assis também tem me empolgado com o gênero. Na medida em que começava a escrever, contudo, acabei visualizando um poema. Pensei, inicialmente, num soneto, mas confesso que ainda não desenvolvi a minha paciência para trabalhar as frases. Quando componho canções, a mesma falta de paciência para escrever as letras e ver logo o projeto acabado acomete-me. O imediatismo do nosso tempo pós-moderno talvez seja o responsável por essa pressa. O mesmo ocorre com a questão da métrica. Tentei, de início, escrever de forma metrificada, mas, depois, acabei desistindo.

O título que dei ao poema, depois de pronto, foi "Mal dito mosquito". Descobri, no entanto, um poema na web, coincidentemente, intitulado "Maldito mosquito!" [6]. Enfim, aí está o poema que confeccionei:

Mal Dito Mosquito
(Fábio Salgado)

Rouba meu sono um mosquito maldito.
Com os olhos fechados, ouço um zumbido.
Com rasantes vôos, penetra-me o ouvido
Um inseto que deve achar-se inaudito.

Sugavas-me o sangue de qualquer lugar,
Mas logo os ouvidos foste-me perturbar?
Que tem a cera de tão peculiar
Para não te entreteres em outro lugar?

Projeto de mosca, tua hora é chegada!
Como uma criança malcriada, toma uma palmada!
Vem de encontro à minha mão,
Não fujas em vão!

De todos, inevitável fim é a morte.
Não tivésseis meus ouvidos alvejado,
Talvez, teríeis outra sorte.







segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Teoria Cristã da Verdade


Numa das minhas aulas de Lógica, aprendi sobre algumas teorias da verdade. Quando se discute sobre a verdade, costuma-se buscar uma conceituação do que seja a verdade e, a partir de tal conceituação, um critério para identificá-la. Existe diferença entre apresentar uma definição para o que seja a verdade e apresentar um teste por meio do qual se diz que uma sentença é verdadeira ou falsa. Pode-se, por exemplo, especificar-se uma temperatura a partir da qual uma pessoa está febril em contrapartida de um método para que se saiba como encontrar a temperatura desta pessoa. Antes de abordar o que intitulei por "Teoria Cristã da Verdade", falarei de algumas teorias para quem nunca ouviu falar do assunto. Utilizarei por base o texto da Susan Haack alcunhado de "Filosofia das Lógicas".

Teoria da verdade enquanto coerência

Esta teoria entende que a verdade consiste em relações de coerência em um conjunto de crenças, ou seja, a ausência de contradições implica veracidade. Pensadores como Bradley, Hegel, alguns oponentes positivistas do Idealismo, como Neurath, e, mais recentemente, Rescher e Dauer defenderam essa abordagem.

Teoria da verdade enquanto correspondência

Esta teoria entende que a verdade de uma proposição não consiste em suas relações com outras proposições, mas em sua relação com o mundo, sua correspondência com os fatos. Pensadores como Aristóteles, Russell, Wittgenstein e Austin eram partidários desta teoria.

Teoria pragmática da verdade

Desenvolvida nas obras de Peirce, Dewey e William James, tem afinidades com as duas teorias anteriores, admitindo que a verdade de uma crença deriva de sua correspondência com a realidade, mas a partir de sua utilidade ou implicação de uma vida melhor.

Teoria da verdade enquanto redundância

Apresentada por Ramsey, afirma que "verdadeiro" é redundante, pois dizer que "é verdade que p" é equivalente a dizer que "p". Para entender melhor esta teoria, pensem na Teoria da verdade enquanto correspondência da seguinte maneira: " 'p' é verdadeira se, e somente se, p ". Percebam que utilizei aspas simples no primeiro p, mas não a utilizei no segundo. A explicação é que se está fazendo uma distinção entre uso e menção do termo. Para exemplificar, pensem nas duas frases: " 'Fábio' tem quatro letras " e "Fábio é um filósofo". Na primeira, refiro-me à palavra "Fábio"; na segunda, refiro-me ao sujeito que tem "Fábio" por nome, que sou eu. A Teoria da verdade enquanto redundância afirma que esse tipo de distinção é redundante.

Teoria da verdade enquanto consenso

Uma proposição será verdadeira, segundo esta teoria, se a maioria acreditar nela. Filósofos como Habermas desenvolveram esta teoria.

Teoria intuicionista da verdade

Uma proposição só será verdadeira se houver uma demonstração dela. Teoria adotada por pensadores como Brouwer e Heyting.

No que se refere às teorias acima, é importante fazer algumas considerações. Cada teoria, primeiramente, tem um campo de atuação com o qual se adequa mais. A Teoria da verdade enquanto consenso é ótima para ser utilizada em democracias; a intuicionista é mais adaptável à Matemática — o que explicaria os próprios conceitos no campo como "conjectura" e "teorema" — e aquela da coerentização parece ser mais apropriada em raciocínios lógicos.

O interessante é que, para posicionar-se com relação a algum sistema, é necessário comprometer-se, de antemão, com algum sistema, ou seja, qualquer comentário sobre qualquer sistema já usará um sistema de forma subjacente. Quem se interessar pelo assunto, pode ver um diagrama com o desenvolvimento histórico dessas teorias:

Quando estudei essas teorias, pensei imediatamente em qual seria a teoria da verdade para o cristão. Debrucei-me, então, na Bíblia.

Teoria Cristã da Verdade

Que é a verdade?

A primeira pergunta que devemos responder é: que é a verdade? Nietzsche, de forma irônica, no seu texto "O Anticristo", afirma o seguinte:
"Preciso acrescentar que, em todo o Novo Testamento, não aparece senão uma única figura merecedora de honra: Pilatos, o governador romano. Levar assuntos judaicos a sério – ele estava muito acima disso. Um judeu a mais ou a menos – que isso importa?... A nobre ironia do romano ante o qual a palavra “verdade” foi cinicamente abusada enriqueceu o Novo Testamento com a única passagem que tem qualquer valor – que é sua crítica e sua destruição: 'Que é a verdade?'."
Para contextualizar, vejam o texto bíblico — Jo. 18.37-38 —, na tradução da NVI:
" 'Então, você é rei!', disse Pilatos. Jesus respondeu: 'Tu dizes que sou rei. De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que são da verdade me ouvem'. 'Que é a verdade?', perguntou Pilatos. Ele disse isso e saiu novamente para onde estavam os judeus, e disse: 'Não acho nele motivo algum de acusação'.".
Nietzsche, de certo, exagerou ao afirmar que a fala de Pilatos era a única que tinha algum valor, mas, com certeza, podemos depreender muitas coisas acerca da verdade nesta passagem de João. Se procuramos a verdade, enquanto cristãos, devemos olhar para Cristo, já que Ele trouxe para si a caracterização de testemunha da verdade. Em segundo lugar, podemos adotar o ato de ouvir a Cristo como um critério da verdade.

Quanto à pergunta de Pilatos, referente à natureza da verdade ou à sua conceituação, o Evangelho de João é o único que registra o questionamento. O Evangelho de Lucas, que tem como público alvo os gregos, não reproduz essa pergunta, mesmo que o contexto grego tivesse uma contextualização filosófica muito forte com relação à busca da verdade — basta observarmos em Atos 17, a partir do décimo sexto versículo, a discussão de Paulo com os epicuristas e estóicos. João era conhecido como apóstolo do amor e sua Carta enfatizava Cristo enquanto divindade. Voltaremos a essas características do texto de João posteriormente.

A palavra hebraica para verdade é "תמא" — "amth". Ela surge pela primeira vez no texto bíblico em Gênesis 24.48 no seguinte trecho:
"E inclinando-me adorei ao SENHOR, e bendisse ao SENHOR, Deus do meu senhor Abraão, que me havia encaminhado pelo caminho da verdade, para tomar a filha do irmão de meu senhor para seu filho.". [Almeida Corrigida e Revisada Fiel]
A palavra hebraica aparece 58 vezes no Antigo testamento. Quando vamos para o Novo Testamento, temos a palavra grega "alhqeia" — "aletheia" — que aparece 44 vezes. A título de curiosidade, o primeiro livro de Tessalonicenses foi o primeiro a ser escrito entre os livros compilados no Novo Testamento; no entanto, nele, não temos a palavra grega para "verdade". A primeira vez que a palavra grega surge no Novo Testamento, da maneira que foi compilado, é em Mateus 22.16, conforme podemos conferir:
"Enviaram-lhe seus discípulos juntamente com os herodianos que lhe disseram: "Mestre, sabemos que és íntegro e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. Tu não te deixas influenciar por ninguém, porque não te prendes à aparência dos homens.". [NVI]
O Antigo Testamento (AT) é constituído de 66 livros, enquanto o Novo Testamento (NT) contém 39 livros. O AT cobre, portanto, aproximadamente, 63% da Bíblia, enquanto o NT tem a cobertura de, aproximadamente, 37%. Quando comparamos as aparições da palavra verdade, temos 57% no AT e 43% no NT, também em termos aproximados. Ora, a diferença percentual que era de 26 diminuiu para 14. Podemos concluir, por conseguinte, que o peso da palavra "verdade" no NT é muito maior.

Qual seria a motivação para um maior peso à palavra no Novo Testamento? Voltemos ao texto de Gênesis. A idéia de verdade lá está atrelada à idéia de caminho. Quando, também, vamos ao mencionado texto de Mateus, também, encontramos as duas idéias. De fato, quando procuramos a conjunção dos termos "caminho" e "verdade" no NT, deparamo-nos com o seguinte texto de João 14.6:
"Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.". [Almeida Revista e Atualizada (ARA)]
Se, em Gênesis, a idéia de verdade estava atrelada aos conceitos de caminho e de verdade, Cristo identifica-se como sendo, justamente, o caminho e a verdade. Temos, portanto, um conceito para a verdade: Cristo é a verdade! Coincidentemente ou não, em Salmos, que é o livro do AT em que a palavra hebraica "amth" mais aparece e em João, que é o livro do NT em que a palavra grega "aletheia" mais aparece, a quantidade de aparições, tanto no primeiro livro quanto no segundo, é de exatamente 13 vezes.

Creio que o fato de o livro de Salmos ser um livro poético e aquele dentre os do AT que mais contém a palavra verdade é uma grande lição para o que se tem feito na arte cristã atualmente. Até nas nossas manifestações artísticas, a verdade deve estar presente.

Outra identificação é feita no livro de João. No capítulo 17, versículo 17, temos o seguinte trecho:
"Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.". [ARA]
Do texto acima podemos inferir que Cristo identifica-se com a sua palavra. Não se pode inferir o mesmo da humanidade: apenas numa entidade divina, o verbo é o próprio ser. O fato de justamente no Evangelho que apresenta Cristo enquanto divindade aparecer por mais vezes o termo grego para verdade está ligado, justamente, ao fato da verdade ser uma propriedade divina.

Qual o critério para a verdade?

A Bíblia não fala de um critério, mas de vários. Não será analisado aqui, de modo exaustivo, quais são os critérios para a verdade, pois seria necessária uma análise exaustiva das 102 aparições bíblicas do termo verdade e seus cognatos. Como já vimos no tópico anterior, escutar a verdade, conforme João 18.17-18, é um critério para a verdade. Uma vez que o conceito de verdade foi identificado com uma pessoa, que é Cristo, provavelmente, os critérios também terão identificações personalistas. No texto de Mateus citado anteriormente, vemos que a verdade também não está conectada a aparências humanas.

O texto de João 3.21 assevera o seguinte:
"Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.". [ARA]
Vemos, portanto, que a verdade não se identifica com o anonimato: ela se faz manifesta. O interessante é que a justificação para esse não anonimato é pautada no próprio Deus. Podemos concluir, portanto, que o próprio Deus não se esconde, mas se expõe à luz.

O famoso texto de João 8.32
"e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.". [ARA]
conecta o conhecimento da verdade à liberdade. Outro critério para a verdade, portanto, é a liberdade.

No tópico anterior, comentei o fato do apóstolo conhecimento como o "Apóstolo do amor" ser aquele que mais fala sobre a verdade. A resposta encontra-se num texto paulino:
"Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.". [Efésios 4.15 — ARA]
O seguimento da verdade, ou seja, de Cristo, deve ser em amor. Não é ao desbarato que o Evangelho de João é texto do NT que mais privilegia o termo grego "aletheia".

A verdade é também caracterizada pela sua propriedade de poder ser recomendada:
"pelo contrário, rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; antes, nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade.". [2 Coríntios 4.2 — ARA]
O versículo acima dialoga com João 3.21 na medida em que ele relaciona o que é vergonhoso ao que é ocultado. Um critério para saber o que é verdadeiro, portanto, é poder ser recomendado a qualquer pessoa. Kant, no desenvolvimento de sua teoria moral, flerta, em certo sentido, com essa propriedade bíblica da verdade da recomendação a todos os homens. Ele afirmava que um ato é correto moralmente se ele pode ser universalizado, ou tomado como um princípio geral que pode ser aplicado em qualquer lugar a qualquer pessoa. Nesse sentido, existe uma aproximação aqui entre a moral kantiana e o critério para a verdade no âmbito do Cristianismo.

Outra característica da verdade é que a Igreja é baluarte dela. I Timóteo 3.15 afirma:
"mas, se eu demorar, saiba como as pessoas devem comportar-se na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade.". [NVI]
O texto acima apresenta a Igreja como fundamento da verdade. Não é de estranhar-se uma vez que Cristo é a cabeça da Igreja — Ef. 1.22-23; 4.15. Vemos, novamente, a personalização da verdade. Se as teorias lógicas da verdade tratam de conexões entre mundo e linguagem, a teoria cristã da verdade faz conexões entre Cristo, que é a verdade por essência, e seus representantes na Terra. Não se fala de verdade de proposições, mas de vida.

Para finalizar, esta segunda parte, referente aos critérios de verdade, acabou prolongando-se mais do que previ. Creio que uma outra postagem sobre o assunto seria bem-vinda. Comentei que não abordaria o assunto de maneira exaustiva, mas tenham esta parte apenas como alguns vislumbres sobre o assunto. Aproveitando a iminência das festividades natalinas, desejo um feliz natal a todos e que a paz de Cristo estejam com todos os leitores deste blog.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Gente Cansada de Igreja

O título da postagem de hoje é homônimo ao título de um livro do Israel Belo de Azevedo que comprei para presentear um amigo que anda decepcionado com a igreja pelos motivos errados. Confesso que, em certo sentido, também estou farto. Em tom de desabafo e solidão, escrevi o texto que se segue.

Cansado de gente cansada

Estou cansado de gente que discute escatologia — uma das áreas mais complexas na Teologia —, esquecendo-se do feijão com arroz, da parte pragmática do Evangelho; gente que olha para o passado, para o futuro, mas nunca para o presente; gente que toma o pragmatismo na sua concepção de sucesso, dando valor a titulações, bens materiais, mas incapaz de não fazer ao outro aquilo que não querem sofrer (Mt. 7. 12).

Estou cansado de gente que procura a ação do diabo em tudo, mas que não percebe que se Cristo estivesse encarnado ao seu lado, diria: "Para trás de mim, Satanás"; gente que não consegue deixar de ver um jogo de futebol para louvar e prestar culto a Deus, que não consegue separar um dia simbólico para Ele e muito menos separar sua vida de modo integral, consagrando-a a Ele.

Estou cansado de gente que se diz cansada de igreja, que perambula de igreja em igreja, querendo sentir-se bem em vez de querer ser benção onde está. Estou cansado de gente com dez, vinte, cinqüenta anos de igreja que nunca leu a Bíblia toda; gente que lê romances bobos, best-sellers, livros de auto-ajuda, mas que ignora a palavra revelada de Deus.

Estou cansado de gente que acha que o Evangelho é um conjunto de regras a não serem quebradas; gente imersa no pecado que culpa seus infortúnios pelo pecado alheio; gente tão envolta em pecado que trata este por normalidade; gente que olha para o cisco no olho do outro, precisando fazer uma urgente cirurgia de catarata (Mt. 7.3).

Estou cansado de gente que tem facilidade de acordar cedo, mas negligencia a EBD; gente que lê revista de fofoca, mas que se sente totalmente desinteressada em aprender mais de Cristo, em saber sobre as últimas notícias do Evangelho que são as mesmas desde sempre, mas que ninguém conhece inteiramente.

Estou cansado de gente sentimental, emocional, que acha que sempre existe alguém confabulando contra ela e que, quando exortada, acha que sofre perseguição. Estou cansado de gente individualista que diz que ninguém nada tem a ver com o que ela faz ou deixa de fazer e que, portanto, só deve satisfações a Deus.

Estou cansado de gente que faz uso de dois pesos e duas medidas no sentido de sempre estar em vantagem. Estou cansado de gente que se desculpa por falta de tempo, por conta de estudos ou concursos; gente que sempre arruma uma desculpa para adiar o que deve ser feito e não percebe que seu problema não está na falta de tempo, mas na falta de compromisso. Estou cansado de gente crítica que não move um dedo para mudar as coisas; gente conformista que não consegue renovar sua mente (Rm. 12. 2), que exige mudança sempre dos outros, mas nunca de si.

Estou cansado de gente que se auto-justifica, que usa seu passado em sua defesa, esquecendo-se de que louvamos um Deus que é Senhor do tempo e da história. Estou cansado de gente que faz do Evangelho um mantra; gente que exige dos outros o que não faz; gente que se importa com a opinião dos outros, mas ignora completamente o que Deus pensa.

Estou cansado de gente aborrecida; gente gasta que diz seguir um Evangelho que sempre se faz novo; gente fatigada, enfastiada, infértil. Estou cansado de gente cansada.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sobre a perseverança dos santos

Creio que não falei ainda abertamente sobre o assunto aqui, até porque há pouco tempo que me identifico como arminiano, já que me converti há pouco mais de um ano [1]. Costuma-se utilizar sistemas reducionistas para a classificação de um arminiano. Parte-se, geralmente, dos cinco artigos da Remonstrância que defendem, grosso modo, a eleição condicional, expiação ilimitada, depravação total, graça resistível e preservação condicional dos santos. Não me aprofundarei nesses conceitos porque meu objetivo nesta postagem é outro; contudo, é importante lembrar que os remonstrantes foram ministros e teólogos que deram continuidade ao pensamento de Jacobus Arminius após sua morte. Assim como o Neoplatonismo difere do pensamento original de Platão, o pensamento defendido pelos remonstrantes diverge em alguns sentidos do pensamento originalmente defendido por Arminius. Para exemplificar, Arminius não tinha definição quanto à perseverança dos santos, embora parecesse crer no que se convencionou por perseverança condicional [2].

Creio nos cinco pontos defendidos pelos remonstrantes, mas até a madrugada de hoje ainda tinha problemas para defender o porquê d'eu não crer na perseverança dos santos — não estou falando da condicional. O único versículo bíblico que me restava para fundamentar a minha interpretação era o de I Jo 2.19. Ele afirma o seguinte:

"Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos. Se de fato fossem dos nossos, teriam permanecido conosco, mas eles saíram para que ficasse patente que nem todos são dos nossos.".
[ Novo Testamento Interlinear Analítico (NTIA) — Paulo Sérgio Gomes e Odayr Olivetti] (Aqui está a melhor tradução no meu entendimento a partir do original Grego)

Aqueles que crêem na perseverança dos santos afirmam que o versículo acima diz que, de fato, nenhum cristão genuíno desviar-se-á porque, sendo cristão verdadeiro, permanecerá na comunidade cristã e na fé. O grande problema para mim era conciliar o versículo acima com o seguinte texto de Hb. 6.4-6:

"Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, e caíram, é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública.". [NVI]

O texto de Hebreus é claro quando fala sobre pessoas que foram convertidas de modo genuíno, mas abandonaram a fé, sendo, inclusive, impossível que voltem a converter-se
[3]. Alguns intérpretes tentam dar outro significado ao texto, mas forçam a barra tentando manter sua crença na perseverança dos santos e, por conseguinte, na impossibilidade do cristão deixar de crer. Já ouvi até a explicação de que o texto mostra que é possível que um cristão deixe de ser cristão, mas que o fato nunca ocorrerá; contudo, adentraremos numa questão de linguagem porque algo que nunca ocorrerá é impossível e não possível, pelo menos quando lidamos com conjuntos que não sejam não-enumeráveis (Para aqueles que não são afeitos à Matemática, a Teoria da Probabilidade aceita eventos de probabilidade zero, que, teoricamente seriam impossíveis, mas que, na prática ocorrem, quando os conjuntos são não-enumeráveis. Por exemplo, qual a probabilidade de que alguém escolha o número 0,5 no intervalo real [0,1]? A probabilidade é zero, mas é possível que alguém escolha 0,5).

Estou, num primeiro momento, delimitando-me aos dois textos porque são aqueles que se digladiavam diretamente a meu ver; no entanto, existem várias referências utilizadas pelos defensores da perseverança dos santos para defenderem sua interpretação, assim como existem várias referências bíblicas utilizadas pelos contrários para defenderem sua posição. Meu intuito não é fazer uma análise exaustiva aqui, embora, talvez, algum dia venha a fazê-la aqui.

Voltemos ao texto de I João. Um dos grandes entraves na interpretação bíblica é quando se deixa de lado o contexto. Como se costuma dizer: "texto fora de contexto para tudo vira pretexto". No segundo capítulo do primeiro livro de João, ele começa, a partir do versículo 18, a tratar dos anticristos. A terceira pessoa do plural implícita na conjugação do verbo "sair" no início do versículo 19 refere-se, justamente, aos anticristos. Ora, quem são os anticristos? A palavra "anticristo", do grego "
anticristos" — antichristos —, aparece quatro vezes no Novo testamento, especificamente nos textos de I Jo 2.18, I Jo 2.22; I Jo 4.3 ; II Jo 1.7. A partir destes textos, sabemos que é chamado de anticristo aquele que
1 — Nega a encarnação [ I Jo 4.2-3; II Jo 7 ];

2 — Nega que Jesus é o Cristo [ I Jo 2.22 ];

3 — Nega a Deus, Pai [ I Jo 2.22 ] ;

4 — Não tem o Pai [ I Jo 2.23 ];

5 — É mentiroso [ I Jo 2.22 ];

6 — É enganador [ II Jo 7 ].

Pergunto eu: um agnóstico enquadra-se na descrição de um anticristo, visto que ele não nega a existência de Deus ou a divindade de Cristo, mas suspende o seu juízo? Vejam que o anticristo é um enganador e não um enganado, num sentido de ingenuidade ou ignorância. A negação não é de alguém que não sabe que Deus existe ou que crê que Deus não existe ou que Cristo não é divino; pelo contrário, ele sabe que Deus existe e antepõe-se a Ele. A própria etimologia da palavra, tanto na tradução portuguesa quanto no original grego, demonstra a deliberada atitude contrária a Cristo. Teria sentido contrapor-se a algo que se supõe não existir? Até um ateu, portanto, não parece enquadrar-se na descrição de João de um anticristo.

Percebam, também, que os anticristos são enganadores e mentirosos, portanto, mesmo que tenham professado em algum momento serem cristãos, faziam-no de modo enganador e não genuíno. Vejam, contudo, que não interessa muito, para a nossa análise, a quem o texto dirige-se porque o mais importante é que ele caracteriza os cristãos como aqueles que permanecem, independentemente de quem saiu do meio. Em outras palavras, se um corinthiano defende que quem é verdadeiramente corinthiano nunca o deixará de ser, não importa se alguém que já afirmou ser corinthiano, mas o deixou de ser, é flamenguista ou palmeirense atualmente. Digo isso porque farei uma crítica às explicações que encontrei pela net
[4].

Para fins de resumo, traduzirei um texto do Robert Shank para refutar sua linha de argumentação — desculpo-me, de antemão, pela qualidade da tradução, que não é o meu forte.
“Eles saíram do nosso meio, mas eles não eram dos nossos; se eles tivessem sido dos nossos, teriam sem dúvida continuado conosco; contudo, saíram para que se fizesse manifesto que nem todos eram dos nossos” (I João 2.19). Alguns têm asseverado que as declarações de João indicam que todos aqueles que professam falsamente irão eventualmente retirar-se da companhia dos verdadeiros crentes (o que é contrário a várias passagens da Escritura) e que todos que se retiram nunca foram verdadeiros crentes (o que é contrário tanto às passagens de admoestação quanto aos registros de reais exemplos de apostasia). No que diz respeito aos anticristos citados por João, existem duas possibilidades. Suas profissões de fé devem ser falsas desde o princípio; ou, eles devem ter sido apóstatas reais que abandonaram a fé e afastaram-se de Cristo. As duas circunstâncias podem ser reais. João afirma apenas que, no momento em que se afastaram da comunidade espiritual de crentes genuínos, “eles não eram dos nossos”; caso contrário, eles teriam permanecido na comunidade com fidelidade.
Observemos que, qualquer que tenha sido a perspectiva circunstancial dos anticristos, João estava escrevendo sobre exemplos específicos, mais do que declarando um princípio universal. Precavemo-nos da falácia de assumir que toda verdade pode e deve ser reduzida a uma única sentença da Escritura, e que a circunstância precisa num exemplo de deserção necessariamente governa a circunstância em outros exemplos. Existem várias pessoas cujas profissões de fé são falsas desde o início, e existem outras que abandonaram a fé e retiraram-se de um relacionamento salvífico com Cristo. As Escrituras reconhecem ambas as circunstâncias, e a precisa circunstância dos anticristos citada por João determina nada a respeito de outras circunstâncias. Observemos que, após citar o trágico registro de anticristos que negaram que Jesus é o Cristo (vs.. 18-23), João urgentemente avisa seus filhos na fé a precaverem-se contra o perigo de sucumbir às tentações dos anticristos, abraçando sua heresia fatal, falhando na retenção do verdadeiro Evangelho salvífico e na permanência no Filho e no Pai, compartilhando da vida eterna Nele. (vs. 24-28).".

Quando Robert Shank diz que o texto de I João refere-se apenas a um momento específico, ele comete um sério engano. O primeiro texto da referência [5] chega a dizer que o texto não diz que os anticristos nunca foram cristãos, mas que apenas não eram cristãos no exato momento de sua retirada da comunidade — "Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos.". Pode-se refutar essa linha de argumentação de uma maneira simples. Suponhamos três tempos seqüenciais, t1, t2 e t3. Suponhamos que t3 é o tempo presente, no qual João escreve, e t2 um tempo no qual os referidos anticristos saíram dos nossos, ou seja, do convívio do meio cristão. Mesmo que o texto falasse de um tempo específico do passado t2, se formos ao tempo t1, os anticristos, se fossem cristãos, de acordo com o texto, nunca deveriam ter saído dos nossos, pois quem é dos nossos permanece; portanto, o texto apresentaria uma contradição interna se ele se referisse apenas a um tempo específico. A questão não se restringe a uma questão de restrição de temporalidade portanto e os tais anticristos teriam de nunca ter sido cristão em todo o tempo.

Quanto à afirmação de que a circunstância dos anticristos nada diz respeito a situações gerais, volto à situação do flamenguista e do palmeirense que já foram corinthianos. O que um flamenguista teria de diferente de um palmeirense para que ele nunca pudesse ter sido um corinthiano verdadeiro? A afirmação de que todo corinthiano autêntico permanece corinthiano nada diz respeito à natureza de quem, porventura, tenha afirmado um dia ter sido corinthiano. Em outras palavras, não importa se o texto trata dos anticristos em particular, mas o modo como se caracteriza um cristão de maneira genérica.
Para conciliar o texto de I João com o de Hebreus, proponho uma solução. Teremos de voltar ao texto de I João.

1 ) “Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos”
O texto afirma que os anticristos pertenciam ao convívio dos crentes, mas não eram crentes propriamente ditos. É interessante contrastar esse fato com os seguintes textos:

At. 20.30
“E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos.”.

I Cor. 11.19
“Pois é necessário que haja divergências entre vocês, para que sejam conhecidos quais dentre vocês são aprovados.”.
É interessante notar que o texto de Atos pode referir-se tanto a cristãos que se tornaram enganadores ou a anticristos que nunca foram cristãos. O texto de Coríntios, por sua vez, fala que, no meio cristão, existem aqueles que serão aprovados e, portanto, outros que serão reprovados. Numa outra tradução, o mencionado texto de Coríntios toma a seguinte forma:

“Na verdade, para que os legítimos sejam conhecidos entre vós, é preciso que haja divisões no vosso meio.”. [NTIA]

De fato, o termo grego dokimoidokimoi —, traduzido por "legítimo", tem as acepções de provado, experimentado, de caráter aprovado, fiel. Ora, parece haver, portanto, uma distinção entre um simples cristão e um cristão aprovado. 

2) “mas eles saíram para que ficasse patente que nem todos são dos nossos.”.
É importante destacar que aqui se encontra a explicação de por que os anticristos saíram. Eles saíram do convívio, e não do Cristianismo, como já explanado, para que ficasse claro que nem todo aquele que está no convívio cristão é-no de fato. Poder-se-ia concluir isso apenas analisando a lógica da seguinte parte do versículo: 

"Se de fato fossem dos nossos, teriam permanecido conosco"

Vejam que o fato de uma proposição A implicar B não significa, necessariamente, que B implica A; ou seja, o fato de ser dos nossos implicar permanência não significa que da permanência pode-se concluir que se é dos nossos, o que dá abertura para pessoas que estão no convívio cristão, permanecendo, mas não fazem parte dos cristãos de fato.

Cristão Legítimo e Cristão Ilegítimo

A partir das caracterizações feitas, creio que temos de partir da conceituação de cristão legítimo e cristão ilegítimo, aproveitando a contextualização que foi feita do termo grego dokimoi. Possam, talvez, sugerir que o cristão ilegítimo não é cristão, assim como uma pedra preciosa ilegítima não é preciosa, mas, descontando as contradições terminológicas associadas às denotações dos termos, proponho que a ilegitimidade seja vista como uma possível adjetivação possível ao cristão que não o descaracteriza ao ponto dele não poder ser adjetivado, conjuntamente, de cristão. Creio que seria menos confuso criar um novo termo, talvez "cristão adokimoi", para falar de um cristão que não permaneceu ou não permanecerá; no entanto, acredito que feita essa ressalva, não haverá problemas.
Para melhor exemplificar, faço uso das palavras de Cristo sobre a Videira e os Ramos contida no texto de João 15.1-8

1 "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. 2 Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda. 3 Vocês já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado. 4 Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim. 5 "Eu sou a videira; vocês são os ramos. 6 Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma. Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados. 7 Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido. 8 Meu Pai é glorificado pelo fato de vocês darem muito fruto; e assim serão meus discípulos.”

Percebam que Cristo fala de um ramo que está Nele, mas que não dá frutos e que o destino de tal ramo é ser jogado fora. Aí temos um exemplo de um cristão, pois está em Cristo, mas que é ilegítimo, pois não produz frutos e é jogado fora. Vejam, também, que a permanência na videira é prerrogativa para o ramo dar fruto. A ilegitimidade, portanto, associada à falta de frutos, está, igualmente, associada à não-permanência na videira. É importante ressaltar que uma vez que Cristo é a cabeça da igreja, não permanecer na comunidade cristã, ou na igreja, implica não permanecer no próprio Cristo.
Retornando ao texto de I Jo 2.19, façamos uma conversão do trecho do livro de João utilizando a terminologia proposta:

“Saíram do nosso meio, mas não eram cristãos legítimos. Se de fato fossem-no, teriam permanecido conosco, mas eles saíram para que ficasse patente que nem todos são cristãos legítimos.”.

Assim, o texto não contradiz o texto de Hebreus, pois lá, fala-se de cristãos, de fato, já que estavam em Cristo, usando a terminologia de João 15 — prova disso é quando se fala que eles foram iluminados, provaram o dom celestial e tornaram-se participantes do Espírito Santo —, mas ilegítimos, pois não permaneceram na fé.
É importante ressaltar também que o próprio capítulo 2 de I João, no versículo 24, faz a seguinte admoestação:
"Quanto a vocês, cuidem para que aquilo que ouviram desde o princípio permaneça em vocês. Se o que ouviram desde o princípio permanecer em vocês, vocês também permanecerão no Filho e no Pai.". [NVI]

Ora, por que João colocaria uma condição de permanência em Deus se não existisse a possibilidade do salvo deixar de permanecer? Costumo comparar as admoestações bíblicas a placas na estrada. Teria sentido Deus colocar uma placa numa estrada escrito "Atenção! Curva Sinuosa" se não houvesse curva sinuosa? Deus seria mentiroso e o próprio texto de I João 2, no versículo 21, afirma que "nenhuma mentira procede da verdade", mas Cristo, em João 14.6, afirma ser a própria verdade!
Aproveitando o assunto da perseverança dos santos, outro texto que costuma ser utilizado para defendê-la é o de João 10.28 que diz:

"Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão.".
[ Almeida Revista e Atualizada ]

Uma simples análise da construção dos tempos verbais indica o significado do texto. Percebam o seguinte. O primeiro verbo está no presente; contudo, faço uma pergunta: o salvo tem a vida eterna? A minha resposta é: depende. Explico-me. Na realidade, não temos a vida eterna em ato porque, de fato, morremos. Não viverei eternamente, pelo menos a priori — digo a priori porque não sei até onde a Ciência pode desenvolver-se nessa área. Vejam que quem tem a vida eterna em ato jamais perecerá, mas perecemos! O que ocorre é que o texto fala da vida eterna em potencial. A vida eterna que recebemos quando nos convertemos é potencial. De fato, depois do juízo final, apoderar-nos-emos da vida eterna, vivenciando-a em ato, e não morreremos e aí sim ninguém nos arrebatará das mãos de Deus. De qualquer maneira, João 15, transcrito acima, explica que, de fato, ninguém, mas só o próprio Deus é capaz de tirar um salvo de suas mãos e Ele, realmente, faz isso. O trecho dos versículos 5 ao 8 tornam isso claro. Quando um cristão não permanece na fé, é Deus quem o lançará ao fogo!

Para terminar, creio na perseverança condicional dos santos. Os crentes são mantidos seguros por Deus em seu relacionamento com Ele sob a condição da permanência na fé; contudo, ao mesmo tempo em que Deus nos responsabiliza pelos nossos atos, o que demanda uma atitude nossa, não conseguimos nada sem que Ele esteja conosco. O processo de permanência na fé é uma via de mão dupla: ao tempo em que o buscamos de maneira voluntária, Deus fornece o que necessitamos para permanecermos Nele. Coisa parecida ocorre com a nossa salvação: utilizando uma famosa analogia, Deus é como um pai que levanta uma criança na direção de uma árvore para que ela apanhe um fruto; no entanto, se a criança não estender os braços e pegar o fruto com suas mãos, ela nunca poderá apossar-se do fruto. Ao mesmo tempo em que somos totalmente dependentes de Deus, Ele quer que sejamos responsáveis pelos nossos atos.
[1] Quero postar um texto aqui sobre como se deu minha conversão, mas sempre postergo a data.
[2] Vejam este texto de Arminius:http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=article&id=182%3A5-sobre-a-perseveranca-dos-santos&catid=76%3Ajames-arminius-as-obras-de-james-arminius-vol1-&Itemid=100030

A sua obra completa em Inglês pode ser encontrada no seguinte link:
http://www.ccel.org/ccel/arminius/?show=worksBy
[3] Excelente texto do Antonio Lazarini Neto sobre a interpretação do referido texto:http://www.vidanova.com.br/teologiadet.asp?codigo=136

Um bom livro sobre o assunto é um de autoria do Michel Augusto intitulado "Apostasia — O abandono da fé", prefaciado pelo Russell Shedd


[4] Visão arminiana de I Jo. 2.19


[5] Vejam a página 32: