quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Farsa do Criacionismo


Neste último fim de semana, assisti a um conjunto de palestras proferidas por Adauto Lourenço. Antes de fazê-lo, procurei sobre ele na internet e fiquei desconfiado, já que o currículo dele parecia ter algumas incongruências — ele, por exemplo, diz-se pesquisador da FAPESP, mas não tem currículo Lattes. Os principais órgãos de pesquisa no Brasil, CNPQ e afins, exigem-no. Eu mesmo, antes de candidatar-me a bolsista do CNPQ, tive de criar um currículo na plataforma Lattes. Na palestra, ele disse que costumam perguntar onde estudar o Criacionismo, mas ele disse que as universidades não ensinam isso; contudo, quando você entra no site da universidade pela qual ele se formou¹, além de a universidade ser cristã, o curso de Biologia apresenta o Design Inteligente e o Criacionismo entre as suas disciplinas. Sei que é falacioso julgar um argumento pelo seu pronunciador e por isso resolvi assistir às palestras e comprei o livro dele intitulado "Como tudo começou". Já presenciei outras palestras sobre o Criacionismo, e a fórmula mantida por eles tem sido a mesma, embora tenha de admitir que o Adauto foi o melhor que já ouvi falar sobre o assunto. Até conversei com ele pra testar o conhecimento dele em Física e pareceu-me que ele, de fato, sabe Física, exceto a parte mais contemporânea depois do desenvolvimento da Mecânica Quântica. Não li o livro dele todo ainda, mas comentarei a parte inicial, além de comentar algumas partes da palestra na medida em que me lembrar dos assuntos.

Já no prefácio, Adauto comete erros. Ele insiste em dizer que o tema "criação/evolução" remonta à Grécia antiga. Acredito que essa afirmação é incorreta. Não existia a Teoria da Evolução e, além do mais, quando ele fala do debate entre os temas, ele trata a evolução como a crença de que não houve um criador por trás da natureza, o que é claramente falso. Ele mesmo, na palestra, cita o Francis Collins — autor do livro A Linguagem de Deus, que li, mas do qual não gostei muito — que é evolucionista. Não acredito que uma pessoa inteligente como ele, que dirigiu o Projeto Genoma, acreditaria numa teoria que vai de encontro à sua fé. Ele diz, por exemplo, que Tales afirmou que tudo "evoluiu da água". Desafio que me mostrem onde está escrito isso, além do próprio livro dele e dos seus colegas. O fato de dizer-se "tudo é água" nada tem a ver com dizer que as coisas surgiram ou "evoluíram" da água. O Adauto colocou a seguinte citação de Kepler: "O mundo da natureza, o mundo do homem, o mundo de Deus: todos eles se encaixam". Para aqueles que conhecem a biografia de Kepler — para aqueles que não conhecem, recomendo a edição especial da Scientific American Gênios da Ciência —, sabe-se que a crença dele nesse encaixe era literal. Ele insistiu muito tempo na idéia de que os planetas ressoavam como "a música das esferas", revivendo a teoria pitagórica, e construiu um modelo do sistema solar baseado nos sólidos de Platão por causa de suas crenças religiosas. Não ponho em dúvida a importância do trabalho de Kepler para a Ciência, mas, embora tenha abandonado a idéia de que o círculo era a trajetória perfeita e divina, adotando as elipses, ele se manteve fiel à boa parte de suas crenças de modo até obsessivo. Outra crítica que faço ao Adauto é pelo fato de ele dizer que homens como Newton, Platão etc. acreditavam num Criador sem considerar o momento histórico em que eles viviam e a cultura que os cercava. O ateísmo começa a ser construído, pelo menos como o conhecemos atualmente, a partir do século XVIII.

Ele mesmo diz, em seu prefácio, que, embora utilize uma linguagem coloquial, manterá a consistência técnica do assunto. Digo isso porque, ao conversar com algumas pessoas, disseram-me que ele poderia ter errado por querer tornar o assunto acessível ao grande público. Ele também diz-se ex-evolucionista, mas duvido de tal assertiva. Sempre desconfio de pessoas que iniciam seu discurso dizendo-se ex-atéias etc. . Se ele foi evolucionista algum dia, deve ter sido quando criança, já que estudou numa universidade claramente criacionista.

O Adauto faz uma verdadeira confusão de definições. Ele diz que a "Evolução não é um processo natural, pois é tratado por inferência e não por observação direta". Li recentemente, numa das edições da Scientific American — não consegui encontrar a referência exata —, que pesquisadores constataram numa ilha que a Evolução não precisa de milhares de anos para ser observada, pois pássaros mudavam o formato do seu bico de acordo com ciclos de escassez. Se isso não é observação direta, então não sei o que pode ser. Se vocês procurarem, verão que a Teoria da Evolução hoje já tem ramos como a Medicina Evolutiva ou a Psicologia Evolutiva e que várias características inclusive não são entendidas sem a perspectiva evolucionista, como, por exemplo, a hérnia, soluços, cor de pele. Essa observação que eu citei excluiu igualmente a definição dele de Evolução, pois não são necessários longos períodos de tempo para mudanças características numa população. Ele conceitua e define vários termos, como já disse, de forma equivocada. O termo naturalismo, primeiramente, é definido como uma cosmovisão que exclui a ação criadora. Se vocês procurem sobre o naturalismo, verão que não é bem assim. Na verdade, do jeito que ele a define, seria apenas uma visão filosófica de mundo. Isso não é ciência! Ele define Evolução a partir dessa cosmovisão de mundo! Deus não é objeto de estudo da ciência por definição, já que ele é imaterial — desconsiderando-se outras visões de Deus como, por exemplo, a de Espinosa.

Ele fala dos fósseis de transição, usando, inclusive, uma citação de Darwin. É importante dizer que Darwin não conhecia a Genética de Mendel. A Teoria da Evolução hoje é uma junção de Darwin com Mendel. Mesmo que não houvesse os fósseis transicionais — na verdade, existem centenas² deles — não haveria necessidade deles existirem por causa de algo chamado mutação.

A forma como ele define "Criacionismo" de maneira alguma é contrária à Teoria da Evolução: "cosmovisão que propõe que a complexidade encontrada na natureza é resultante de um ato criador intencional". Ele insiste nessa idéia o tempo todo, mas já citei o caso do Collins, que contradiz isso. Uma idéia que todo criacionista adora sustentar é a do relojoeiro. Parece que eles nunca leram Hume. Faço duas críticas a esse raciocínio. A primeira é a de que ele parte do princípio da causalidade de que todo efeito parte de uma causa e que toda causa tem um efeito. Pode parecer uma asserção óbvia, mas não é. A Física Contemporânea inclusive dá alguns indícios da quebra desse princípio, especificamente no que se refere à medida do spin de partículas subatômicas em certos pares. A segunda crítica é que o fato de um raciocínio ser mais provável no que se refere ao senso comum, refiro-me especificamente ao exemplo que ele deu na palestra sobre o bolo encontrado em cima de uma mesa, não o torna correto! Pode ser improvável que o relógio encontrado no meio de uma floresta tenha surgido do nada ou por meio de processos naturais e espontâneos, mas não se pode descartar a possibilidade de que algo improvável continue sendo possível.

Outro erro que o Adauto comete é o de dizer que a Teoria da Evolução nunca chegará a ser uma Lei e que deve ser chamada no máximo de Hipótese. Darei alguns exemplos para que vocês vejam a tolice dessa afirmação. A mecânica clássica newtoniana é baseada nas três leis de Newton e a segunda lei descreve a lei da gravitação universal. A Teoria Eletromagnética de Maxwell incluiu a lei de Faraday, de Coulomb etc. ; a Termodinâmica é baseada em 4 leis básicas. A Teoria da Evolução, da mesma forma, é baseada na lei da seleção natural. Em outras palavras, as teorias são modelos físicos, matemáticos etc. que descrevem as leis da natureza. A Teoria da Relatividade Geral de Einstein foi comprovada com a observação do desvio gravitacional da luz por meio da observação de um eclipse, mas não se tornou lei por isso. Outra distinção importante é que não se prova teoria científica, mas se fazem comprovações. Ela, geralmente, faz previsões e é comprovada por meio destas; contudo, nada impede que fatos novos no futuro tragam a necessidade de uma nova teoria, que, no entanto, deve englobar todas as previsões feitas pela teoria anterior. Teoremas matemáticos que são demonstrados e provados, uma vez que sejam demonstrados, nunca poderão ser derrogados por nada.

No primeiro capítulo do livro, o Adauto diz que Anaximandro de Mileto afirma que tudo o que existe no universo seria proveniente dos quatro elementos: ar, fogo, terra e água e que estas substâncias seriam provenientes de um elemento chamado "apeiron". Quando li isso, não acreditei! Como alguém escreve um absurdo desses num livro? Foi Empédocles que acreditava que os quatro elementos formavam tudo; além do mais, Anaximandro se destaca, justamente, por sugerir um elemento abstrato imaterial como origem de tudo!

Ele diz também que não parte da religião e que por isso o Criacionismo é Ciência, mas, quando fui questioná-lo sobre o Big Bang, ele disse que a Bíblia diz que o Sol foi criado no quarto dia! A insistência da maioria dos criacionistas com relação à interpretação literal do Gênesis — conheço criacionistas que não assumem tal pressuposto de literalidade — pode ser comparada à insistência dos antigos de que as órbitas dos planetas tinham de ser circulares.

A única idéia que o Adauto tratou na palestra que achei interessante, mas que, imediatamente, percebi que era falha, foi a de que a curvatura do espaço-tempo poderia reduzir a distância que observamos das estrelas. Na imagem acima, a Terra está no meio de um tecido espaço-temporal, deformando-o. O Adauto diz que a distância considerada das estrelas é num espaço-tempo euclidiano, sem curvatura, e que, no entanto, estamos medindo uma distância maior por causa da curvatura que não é considerada. Faço dois questionamentos! Em primeiro lugar, interpretando-se o tecido espaço-temporal como uma colcha que se distorce, a luz viajaria em cima deste tecido e, por definição, não existiria universo entre o tecido e o espaço distorcido; logo, não se poderia falar que estamos vendo algo e medindo em linha reta. Essa interpretação, no entanto, considera um tecido bidimensional, mas sabemos que ele é quadridimensional. Se fizermos medições por meio de espectroscopia, medindo, portanto, o brilho das estrelas, não haveria diferença entre a distância percorrida pela luz e a distância real, já que esta seria curva propriamente dita. Acho que teria de fazer desenhos para que vocês entendam melhor. Se tiverem dúvidas, escrevam-me.

Ele também falou na possibilidade de que a luz tenha tido valores diferentes no decorrer do tempo e que a constância da luz é um postulado na Relatividade. Tudo bem: de fato, é um postulado, mas baseado em experiências minuciosas. Mesmo com todo o desenvolvimento tecnológico, nunca se observou mudança na velocidade da luz e Einstein baseou-se nos experimentos de Michelson-Morley. Li, há algum tempo, uma matéria intitulada "constantes inconstantes", de John D. Barrow e de John K. Webb, que diz que, nos últimos seis anos, alguns físicos colocaram em dúvida a suposição de que as constantes físicas têm o mesmo valor em qualquer ponto do espaço e do tempo. Com base na comparação entre a observação de quasares e medidas de controle feitas em laboratório, argumentam que, num passado remoto, os elementos químicos absorviam luz de maneira diferente do que fazem hoje. Se confirmadas essas suposições, as leis físicas observadas não seriam universais e seria um sinal de que o espaço tem dimensões adicionais. Acredita-se que uma teoria da gravitação quântica explicaria o porquê de as constantes físicas terem os valores que têm, mas acho que estamos longe de tal teoria, embora muitos confiem na Teoria de Cordas ou na Teoria de Loops. Não sei o que restaria da Física se concluíssem que um dos pontos fundamentais de que a leis sempre foram e serão as mesmas for mudado, embora sempre tenha questionado como se pode construir todo um campo científico baseado nessa suposição. Acontece que o Adauto parte de uma especulação pra querer dizer que não vemos as estrelas do jeito que acreditamos que vemos.

Quanto aos métodos de datação, prefiro não comentá-los, pois não estudei todos os métodos com profundidade; contudo, tenho uma objeção! O Adauto diz que as datações radiométricas partem do pressuposto de que as quantidades de elementos na atmosfera sempre foram constantes. Não sei se isso é verdade; contudo, caso seja verdade, como explicar então a datação de pedras lunares? Acredito que os criacionistas fazem uso de dois pesos e de duas medidas no que se refere ao ceticismo: para algumas coisas, eles são extremamente céticos, mas extremamente dogmáticos para outras.

É triste ver como as pessoas que não conhecem a Ciência deixam-se enganar facilmente, aplaudindo de pé idéias tempestuosas que confirmem sua fé. Certa vez, ouvi um comentário de uma professora estudiosa da Filosofia da Religião no Departamento de Filosofia da UnB que questionava o apego dos protestantes à Escritura. Ela disse que o próprio Novo Testamento é uma tradução, já que Cristo pregava em Aramaico, e que vários livros tidos por apócrifos deveriam ser mais considerados por terem sido escritos na língua em que a mensagem foi revelada. Ela também fez uma observação que me fez pensar bastante. Ela disse que os católicos talvez sejam mais fervorosos no que se refere à fé do que os protestantes, já que eles não enfocam a hermenêutica bíblica, com seus preciosismos, mas a experiência pessoal.

Sei que criarei polêmica com o último parágrafo. Concordo em parte com a professora. Algo que sempre achei interessante no Protestantismo é justamente o fato de que as Escrituras podem ser interpretadas "livremente" — claro que esse "livremente" inclui várias premissas próprias da hermenêutica bíblica — por qualquer pessoa; também admiro o fato de determo-nos às Escrituras para não sermos incoerentes, como, por exemplo, os católicos são com os santos; contudo, é interessante ver as coisas por outra perspectiva. Grosso modo, as pessoas costumam acreditar num "Deus das lacunas" em que tudo que não é explicado ainda tem lugar pra Deus; assim, Deus vai ocupando um espaço cada vez menor na vida das pessoas na medida em que o mundo é explicado pela Ciência. O Adauto disse que, no dia em que mostrarem a ele que a Bíblia tem erros científicos, ele vai jogar tudo pro alto porque, se a Bíblia não tem credibilidade no verificável, não terá no que não se verifica. Acho que ele nunca deve ter lido a Bíblia com atenção ou então ficou inventando roubalheira pra cada coisa que lia em desacordo com a Ciência. Se a fé dele está limitada a um texto escrito, eu lamento: a minha fundamenta-se em Cristo.

¹http://www.bju.edu/

²http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_transitional_fossils

Recomendação: http://www.evo.bio.br/EVOXCRIA.HTML

sábado, 9 de maio de 2009

Zii e Zie e Maldita Reforma


Contrariando o que tinha dito na postagem anterior, tenho de admitir que gostei muito do novo álbum do Caetano — "Zii e Zie" (Tios e tias na Língua Italiana). Tal alcunha para o álbum foi escolhida, de acordo com Caetano, quando ele se deparou com a tradução italiana do livro "Istambul — Memórias de uma cidade" do escritor turco Orhan Pamuk, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2006. Ele achou as palavras bonitas, visualmente e sonoramente, e resolveu utilizá-las como título do álbum. Não sei dizer ao certo se gostei mais deste álbum ou do Cê, o anterior; na verdade, cada vez que ouço um álbum do Caetano, Livro, Noites do Norte etc. , parece que gosto mais dele do que dos outros. O álbum possui por subtítulos "transambas" na capa e "transrock" na contra-capa — é um saco ter de ficar consultando a toda hora o uso do hífen depois dessa maldita reforma; voltarei, depois, ao assunto. O prefixo "trans" significa "além de" ou "através de". Muita gente usa a locução "através de" como sinônima à "por meio de" ou "por intermédio de", mas elas não são intercambiáveis. Aquela possui sentido de "por dentro de", "de um lado a outro", sendo que ela é comumente usada para referir-se a algo que transpassa um meio físico. Os subtítulos descrevem bem o álbum de Caetano na medida em que uma banda composta pelo Pedro Sá — guitarra —, Marcelo Callado — bateria — e Ricardo Dias Gomes — baixo e Rhodes — possui um formato básico de rock, mas as músicas são sambas com roupagem de rock. Existe uma comunicação intensa entre os dois estilos musicais. Farei um breve comentário às músicas do álbum.

Perdeu

A música tem uma levada de guitarra muito legal. Boa escolha para abertura do álbum. Não tinha gostado muito dos solos do Pedro Sá no álbum, mas agora os entendo melhor e mudei de idéia. Gostei dos barulhos da guitarra no solo dessa música, mas acho que eu teria feito algo muito mais melódico: dava pra criar muita coisa em cima da levada principal da música. Adoro músicas em que você aumenta o seu vocabulário. Não sabia que "vagir" é "gemer" e "Bruxulear" é "tremeluzir", "estremecer". Não sei se é só impressão minha, mas na parte em que o Caetano canta "não diz isso não, diz isso não", no primeiro "diz", ele pronuncia como "zii" em Italiano, que seria mais ou menos como [dizi]. Muito interessante a combinação de alternâncias de notas com as palavras rimadas: "pariu, cuspiu, expeliu" etc. . Na metade da música, o Caetano canta fazendo u's e a's de um jeito estranho. Não ficou legal. Tem uma hora que parece um burro zurrando. Muito legal a ambigüidade que surge em

"surgiu, vagiu, escapuliu
no som, no sonho, somem
são cem, são mil, são cem mil, milhão"

"somem" pode ser tanto o presente do indicativo do verbo "sumir" quanto o imperativo do verbo "somar". As letras de músicas têm um fator curioso que se refere a uma maior ambigüidade, até porque mesmo os textos, quando escritos, não têm precisão quanto à pontuação. O trecho acima, por exemplo, dependendo da maneira como se articula as vírgulas, pode ter vários significados. Da maneira como está acima, a pessoa pode ter escapulido no som e surgido e vagido no sonho, mas se houvesse uma vírgula após "escapuliu", todas as ações seriam ligadas a "no som" e "no sonho".


Sem Cais

Parceria do Caetano com o Pedro Sá. Outra música que tem uma levada muito legal. Tenho de destacar que o álbum todo é recheado de levadas interessantes. As notas fantasmas da caixa com o chimbalhi hat — aberto nas batidas principais caíram muito bem. A bateria dá a base, e o baixo, com um fraseado próprio, preenche os espaços vazios deixados pela guitarra.

Por quem?

Música em que o Caetano explora o seu falsete, muito bem executado por sinal. Dessa vez, as batidas com vassourinha na caixa são protagonistas, preenchendo os espaços deixados pelos outros instrumentos. O Violão ocupa um papel primordial depois de um tempo. Os instrumentos vão ocupando espaços e importâncias diferentes no decorrer da música. A guitarra é minimalista. Bela letra do Caetano. A mesma ambigüidade que destaquei na primeira música surge aqui. Quando o Caetano diz "Lágrimas vão de mim por quem?" ele pode estar referindo-se a qual pessoa o faz chorar, ou às sensações e paisagens, personificadas, listadas por ele. Percebam que se ele quisesse referir-se somente a algo que não fosse uma pessoa, seria mais adequado usar o pronome relativo "que", mas geraria outra ambigüidade, pois o questionamento do causador do choro seria trocado pelo questionamento da finalidade, embora o uso de "por quê" também inclua o sentido de quem causou o choro.

Lobão tem razão

Faz um tempo que o Caetano e Lobão têm tido uma rixa*. Caetano citou o Lobão na música "Rock n' Raul" do álbum Noites do Norte, o Lobão não gostou e deu a resposta numa música chamada "Para o mano Caetano" e o Caetano revida com essa música extremamente sarcástica. O Caetano faz jogo de palavras com o nome do Lobão usando Hobbes "o homem é o próprio Lobão do homem" e ditos populares "mais vale um Lobão do que um leão", fazendo alusão, também, à música "Leãozinho". O Lobão critica a Bossa e o Samba e, ironicamente, Caetano fala que o "Rock acertou". Não tinha gostado muito do solo gritado e exagerado do Pedro Sá, mas agora acho que foi intencional pra retratar o incômodo de Caetano, tanto que no fim da música ele, Caetano, faz um barulho parecido ao zumbir de uma abelha ou um mosquito no pé do ouvido.

*http://irradiandoluz.blogspot.com/2009/01/mano-caetano-x-mano-lobao.html

A cor amarela

Não poderiam faltar os coloquialismos do Caetano. Ele tem muita habilidade em cruzar palavras do dia-a-dia com vocabulários mais apurados: na mesma música em que ele usa a palavra "bunda", ele também utiliza "pele tesa". A palavra "tesa" remeteu-me à música "Zera a reza", também do álbum Noites do Norte — adoro jogo de palavras! Perceberam que as palavras "zera" e "reza" são quase iguais? Basta trocar as consoantes! Legal também o uso da palavra "onda" como substantivo e expressão idiomática "que onda". Engraçado o comentário de que a melhor coisa que podia acontecer à cor amarela é a bunda. As palmas que surgem na música com certeza terão repercussão nos shows. Letra simples, mas muito bem construída!

Base de Guantánamo

Música que fica na cabeça e você não pára de querer cantar. Li uma entrevista que perguntava ao Caetano se a música não estaria ultrapassada pela política de Obama com relação aos desmantelamento da Base de Guantánamo, mas não acho que isso seria um motivo para a música deixar de ter voz de protesto. Mesmo que a base deixe de existir, foi um fato histórico e as atrocidades cometidas não deixarão de existir. Lembrei-me das exigências de Che Guevara que aparecem na primeira parte do filme que vi recentemente. A principal parte da música ocorre num crescente seguido de decrescente

Guantánamo
A Base de Guantánamo
A Base da Bahia de Guantánamo
A Base de Guantánamo
Guantánamo

Acredito que além de facilitar na hora de cantar pra evitar confusões, existe uma motivação no sentido de mostrar o surgimento da Base, seu ápice e seu desmembramento e que futuramente, todos os desrespeitos aos direitos humanos não serão mais importantes do que o próprio lugar geográfico. A voz ritmada e falada cruza com o falsete e vozes melódicas. As palhetadas da guitarra parecem facadas, tiros, mas existe uma variação rítmica muito interessantes na levada. A música termina com um toque repentista.

Falso Leblon

A guitarra no início lembrou-me a guitarra de London London no álbum ao vivo Cê. Música recheada de citações: Los Hermanos, Seu Jorge... Há uma crítica veemente às drogas. A música é literalmente "sexo, drogas e rock n' roll".

Incompatibilidade de Gênios

Concordo com o Caetano quando ele diz que essa música do João Bosco/Aldir Blanc é genial. Não acho que a versão do Caetano superou a original, como ele mesmo disse e admitiu, mas achei interessante a releitura. Ele colocou no blog duas versões para esta música e pediu que as pessoas votassem em qual preferiam. Acho que eu preferi a outra versão se não me lembro. A letra é muito legal. Descreve todas as encheções de saco de uma mulher a um provável advogado, por causa do "dotô"; no fim, diz-se que se quer a separação. A batida da bateria com o tempo forte na caixa fora do tempo forte da música deu contraste e um desencontro legal. O solo da guitarra é interessante. Parece com duas pessoas discutindo, alternando-se a altura, duração das notas e desafinando-as.

Tarado ni você

As revistas e resenhas que li dizem que é a bobagem do álbum, mas achei interessante a jogada de linhas harmônicas com a melodia. Músicas com letra menor e menos variação melódica dá margem pra arranjos mais elaborados. O solo do Pedro Sá é um dos melhores do cd. É mais clássico que os outros. Música bem alternativa; no fim, o barulho do mato lembra uma paisagem bucólica.

Menina da Ria

Remete-nos, imediatamente, à Menino do Rio, lançada no álbum Cinema Transcendental (1979). Acho-a muito legal, empolgante. O refrão dá vontade de cantar junto. Interessante a variação da nota quando o Caetano canta "Ria". Ele sobe com falsete no fim da música. O Caetano disse, em entrevista, que havia prometido a música num concerto seu em Aveiro — Portugal — em 2008. Ele disse que todo mundo falava "a ria" por lá e que ele disse, brincando, que um dia ira compor Menina da Ria.

Ingenuidade
Composição do Serafim Adriano. Eu, como baterista, nunca pensaria nessa levada pra tocar um samba. O Marcelo Callado mandou bem. O baixo entra depois com uma levada muito legal com uma melodia própria que casa muito bem com a guitarra. Dá pra ver que a letra não é do Caetano, já que as dele são sempre mais cerebrais. Interessante o uso do verbo "reclamar" como intransitivo, já que ele não é muito usado. A música intitula-se "Ingenuidade" e esse ar de ingenuidade impera na maneira como a temática é abordada. Não conheço as gravações anteriores a esta. Estou baixando uma versão cantada pelo Roberto Ribeiro. Para ser sincero, nem conhecia o Serafim Adriano, mas gostei muito da música.

Lapa

Música emblemática do cd. Gostei muito das linhas melódicas com os acordes menores. É triste eu não conhecer essas particularidades do Rio que aparecem no álbum. O Caetano adora um estrangeirismo — vide "cool". Ele sempre solta uma palavra do tipo nas suas letras. O modo como a música termina é muito interessante porque você acha que ele repetirá a palavra "Lapa", mas ele diz "lá". Outra música recheada de citações: Kassin, Lula, FHC... A levada de marcha da bateria marca a música.

Diferentemente
Aqui, continuam as citações, Madona, Obama... Uma bossa básica pra fechar o álbum. Possui uma temática filosófica profunda, abrangendo a Ontologia, Metafísica. Interessante como ele inicia o assunto a partir de uma canção da Madona — "When you look at me", e mistura romantismo com Filosofia, finalizando com Política. Só o Caetano pra manipular as palavras e temáticas de maneira tão magistral.
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Tinha muitos assuntos pra escrever, mas os deixarei para uma outra oportunidade, com exceção a um acontecimento desta semana, que se refere à "maldita reforma" a qual me referi na abertura desta postagem — quero evitar a palavra "post". A Dani, minha namorada, queria vender alguns livros didáticos num Sebo; no entanto, fomos em dois e ambos recusaram-se a comprar os livros tendo-se por base o fato de que os colégios da rede particular já adotaram livros com a grafia da nova reforma e que a rede pública já pretende trocar os livros. Cada vez mais eu me indigno com essa reforma. O pior é que ela foi assinada por um presidente analfabeto. Até agora não conheço um escritor de renome que tenha dado a sua aprovação à reforma do modo que ela foi feita. Com exceção do uso dos hífens, que eu já tinha bastante dor de cabeça de usá-los antes da reforma, decidi que não irei modificar minha grafia, a não ser que escreva textos de provas e afins. O engraçado é que em vez de tomarem medidas que popularizem a norma culta e difunda o seu uso, inventam moda. A Língua Francesa nunca teve uma reforma deste tipo, ela teve poucas mudanças no decorrer do tempo, enquanto a Língua Portuguesa, que é muito menos importante mundialmente em todos os âmbitos, teve um festival de mudanças no século XX. Os franceses possuem um apreço pela língua que nós não temos; talvez, seja porque eles não entram na Universidade sem passar por um exame de conhecimento da Língua, enquanto temos vários doutores analfabetos aqui.




sexta-feira, 1 de maio de 2009

Justificar
Queria, primeiramente, desculpar-me pela minha omissão. Admito que ela não se deve à falta de tempo, mas por desorganização mesmo. Vi ontem o filme "X-men Origens: Wolverine". Gosto bastante de ler as resenhas sobre os filmes antes de vê-los, assim como também gosto de ler resenhas de livros antes de lê-los; contudo, acabei vendo o filme sem críticas atreladas. Não sei se os fãs da HQ gostarão do filmes, mas, com certeza, os fãs do desenhos clássico que costumava ser transmitido pela Globo sentir-se-ão extasiados com o filme, principalmente no que se refere às explicações. Nunca fui muito dado a HQ's. Sempre gostei mais do formato dos mangás. Cheguei a comprar alguns números de Spawn, mas achei muito fraquinho. Fui atraído mais pela história apocalíptica, envolvendo céu e inferno. Gosto muito de tudo que envolve esse tipo de assunto. Quando criança, meu livro da Bíblia favorito era o Apocalipse e hoje muitas das minhas obras literárias favoritas envolvem esse tipo de assunto — Fausto de Goethe, A Divina Comédia de Dante etc. . Muitas das minhas dúvidas foram esclarecidas por meio do filme; por exemplo, sempre tive a dúvida referente ao fato do Wolverine ser ou não um mutante, já que acreditava que ele tinha ganhado seus poderes depois de submeter-se ao experimento para ter sua estrutura óssea substituída por adamantium. Outra dúvida que tinha era com relação à implicância do Dentes de Sabre com o Wolverine. Essas e muitas outras dúvidas foram suprimidas com o filme. Depois de vê-lo, resolvi ler a resenha do Omelete¹, que não fui muito boa. Admito que concordo que fiquei meio confuso com a cena inicial do filme na qual ocorre a maior quebradeira pra conseguirem um peso de papel, que era de adamantium, mas o dono não sabia de sua importância; no entanto, não acho que esses problemas com o roteiro tenham prejudicado o filme em sua totalidade. Recomendo para todos os fãs, tanto da franquia cinematográfica, quanto das HQ's ou desenhos animados.
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Comprei ontem o ingresso para o show do Caetano Veloso, que se dará no dia 16 deste mês. Fico indignado com os preços dos shows em Brasília. Os preços dos ingressos variam de 60 a 150 reais a meia! Fui, no início do ano, a um show do Gilberto Gil em João Pessoa e paguei, se não me engano, 30 reais! Adoro esta cidade, mas algumas coisas nela, como, por exemplo, o custeio de atividades culturais, deixam-me extremamente chateado. Estou ouvindo a discografia do Caetano e tenho descoberto músicas singulares. Sempre gostei do Caetano, mas nunca o tinha ouvido como fiz, por exemplo, com Queen, Mutantes, Roberto Carlos, Pink Floyd, entre outros, dos quais conheço toda as músicas. Gravei, inclusive, uma música do Caetano e do Waly Salomão da qual gostei muito.² Minha versão não se compara ao dueto do Lulu Santos com o Caetano, mas tentei cantá-la do meu jeito. Quando ouvi esta versão do Caetano, que encontra-se no álbum ao vivo Noites do Norte, não reconheci a voz do Lulu Santos. Só depois de procurar quem cantava com o Caetano que soube que era ele. Quanto ao novo cd do Caetano, "Zii e Zie", ainda não consegui ouví-lo, mas ouvi as músicas colocados no blog do Caetano³. Não gostei muito das músicas, preferi o anterior "Cê", mas verei se as versões de estúdio convencem-me.

¹ http://www.omelete.com.br/cine/100019424/X_Men_Origens__Wolverine.aspx
² http://www.youtube.com/watch?v=hlmHx1Iuf0w



³http://www.obraemprogresso.com.br/

quarta-feira, 4 de março de 2009

Acordo ortográfico para brasileiros



Escrevi o título desta postagem de acordo com a nova reforma ortográfica. Alguém conseguiria dizer-me se o "para" é uma preposição ou um verbo? Antes da reforma, não existiria problema, pois a grafia seria "pára" ou "para". Não posso deixar de registrar minha indignação. Para aqueles que ainda não estão familiarizados com a reforma, dêem uma olhada neste guia do Michaelis: http://www.scribd.com/doc/5789225/Guia-Pratico-Michaelis-da-Nova-Ortografia . Algo que não entendo é que a base para o tal acordo era a unificação da ortografia entre os países de Língua Portuguesa, mas qual a lógica de mudar-se o que não era diferente e deixar-se o que é diferente? Para exemplificar, continuamos escrevendo "ato" e os portugueses "acto", assim como "prémio" e "prêmio", "Antônia" e "Antónia". O trema era usado nos dois países; contudo, exterminaram-no. Sempre achei que a Língua Portuguesa, em comparação com línguas que tenho certo conhecimento da gramática, possui uma estrutura gramatical muito bem elaborada; no entanto, nossa gramática está virando um bacanal. O trema que servia de indicação para a pronúncia foi substituído pela mediunidade, pela arte da adivinhação — se é que se pode chamar isso de arte.
É triste ver que a maioria das pessoas indigna-se pelo trabalho que terão de reaprender regras e mudar em vez de fazê-lo pela inconsistência da reforma. Admito que o uso do hífen foi facilitado. Sempre precisei usar tabelas para usar o hífen, mas até o que foi facilitado foi chafurdado, já que algumas palavras não seguem a regra geral por estarem "consagradas pelo uso". Como amante das Letras e das Artes, como, também, das Ciências Exatas, conheço suas particularidades e divergências. É próprio das Ciências Humanas servirem-se da subjetividade, mas não no caso do uso de regras gramaticais. Com relação à reincorporação, já que elas faziam parte do alfabeto antes da reforma de 1941, das letras "k", "w" e "y", admito que me desagradei, mas é uma questão pessoal apenas, pois admito que se trata de uma necessidade. Já li alguns livros escritos na ortografia de Portugal e nunca tive dificuldade; talvez, nosso presidente apedeuta deve ter endossado o acordo por ter sentido dificuldades. Não vou dar-me ao trabalho de comentar item por item, até porque discuti tanto o assunto que já estou esgotado de entremear-me em destrinças. Os portugueses continuarão metendo o cacete no garoto e enfrentando bichas. A reforma passou nem perto de unificar a escrita e muito menos a semântica. Tentarei separar dois dias fixos da semana para postar no blog...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Axiomas e Mariposas — que é a verdade?



Um assunto pelo qual tenho interessado-me é pela axiomatização, não só da Matemática, mas do conhecimento grosso modo. Quando descobri que a Geometria Euclidiana não era única, que existiam as geometrias não-euclidianas e que por um ponto exterior à uma reta podem passar mais de uma reta que seja paralela àquela, tive uma espécie de terromoto na minha concepção de mundo. Vivemos um tempo de relativismos. Uma das principais teorias físicas do século XX tem por nome "Teoria da Relatividade"; contudo, a frase que costumam atribuir a Eintein de que "Tudo é relativo" nunca foi dita por ele e, inclusive, ele queria que o nome da teoria fosse "Teoria das Invariâncias", mas o nome "Teoria da Relatividade" já tinha popularizado-se. O nome original do artigo que lançou os postulados da Relatividade Restrita, que não inclui a ação da força gravitacional, tem por título original "Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento". Por falar nos postulados, eles enfatizam absolutismos em vez de relativismos. O Primeiro diz que as leis físicas são as mesmas para qualquer referencial e o segundo diz que a velocidade da luz é invariante, independentemente do referencial.

Desde o Ensino Médio, questiono-me sobre o que quer dizer um ponto, que é um ente fundamental no desenvolvimento de toda a Física e a Matemática. Um ponto é definido como um ente adimensional, mas existe algo adimensional? Quanto mais você se aproximar daquilo que temos por ponto, mais poderemos subdividi-lo, mas existe um limite para isso? A Física costuma impor alguns limites, mas a Física é baseada na Matemática e a partir do conceito de ponto, retas são construídas etc. . Dispensar o conceito de ponto é dispensar todo o nosso conhecimento em Exatas. O que mais me impressiona é que o castelo erigido por conceitos que não existem constrói pontes, edifícios, manda espaçonaves ao espaço e faz tantas outras maravilhas. Nunca fui adepto da idéia de que os resultados mostram se o método estava certo. Esse maquiavelismo é desonesto pra mim; da mesma maneira, esse pensamento leva-me às religiões. A Ciência não é muito diferente da Religião no que se refere a axiomatizações; no entanto, segundo o Houaiss, "axioma" é "premissa considerada necessariamente evidente e verdadeira, fundamento de uma demonstração, porém ela mesma indemonstrável". As premissas adotadas pelos religiosos não são tão evidentes assim.

Uma pergunta que sempre me incomodou foi "que é a verdade". Parece que não tem incomodado só a mim. Nietzsche dizia que "em todo o novo testamento só aparece uma figura digna de homenagens: Pilatos, o vice-rei romano". Ele dizia isso porque em João 18.38, Pilatos questiona "que é a verdade?", apoderando-se de um dos maiores questionamentos da Filosofia. Eu passei muito tempo tentando dar uma definição satisfatória. Nunca fui muito fã dos empiristas, até ler Shaftesbury, e o relativismo das sensações não me pareceu ser um caminho para a definição de verdade. Algo que sempre me perguntei foi se nós enxergamos as coisas do mesmo jeito ou se apenas demos nomes convencionais. Explico-me. Digamos que eu enxergue a cor vermelha como sendo amarela, e vice-versa, mas, desde pequeno, disseram-me que o amarelo chama-se vermelho, então, quando comparar com outra pessoa, falarei que estou vendo a mesma cor que ela, mas, em verdade, estarei vendo algo distinto. Alguém pode me dizer que isso pode acontecer com um homem e um crustáceo, que tem órgãos sensoriais distintos, e que como os instrumentos de captação entre dois homens quaisquer são iguais, a percepção seria a mesma; no entanto, quando alguém sente dor de dente, vai fazer uma cirurgia e recebe uma anestesia, a dor cessa. A dor está no dente ou no cérebro? Hoje, acredito que tudo está no cérebro e que nada existe sem ele, inclusive alma, mas isso é assunto para outra postagem — aumentando a minha lista de assuntos a serem tratados aqui.

Deixando um pouco de lado os questionamentos, e adentrando o campo das respostas, direi qual o meu conceito de verdade. Quando li Kant, percebi que a verdade absoluta é a coisa-em-si e que a mentira é o fenômeno. Para aqueles que estão menos familiarizados com termos filosóficos, coisa-em-si é a coisa como ela é, sem as perspectivas de quem vê, e o fenômeno é como enxergamos as coisas. Para exemplificar, imaginem um átomo. Ele tem um certo movimento. Para observá-lo, temos de incidir luz nele, mudando sua trajetória original. O átomo, antes de ser observado, é a coisa-em-si e o fenômeno é o que vemos. Perguntar-me-iam se não temos acesso às coisas-em-si. Teria de responder que não. Poderia listar muitos motivos físicos que me levam a crer que não tenho acesso às coisas-em-si e que nunca terei tal acesso enquanto viver. Os motivos adentram o campo da Psicologia etc. . "Nosso espírito é um cárcere: nunca pode saber quanto do objeto que ele conhece está nesse objeto ou no espírito que ele 'conhece'.".



Sempre me perguntei se as mariposas, com seu movimento desesperado, têm algum sensor ou se, simplesmente por instinto, não se chocam com certos objetos, por exemplo, um copo com líquido. Acontece que ontem estava na cozinha, peguei meu copo, enchi-o com Ades de banana. Fui pegar um pacote de biscoito e quando voltei para pegar o copo, havia uma mariposa se contorcendo dentro do meu copo. Mais uma das minhas intermináveis perguntas foi respondida. Aqueles que me conhecem há mais tempo devem estar perguntando-se aonde foi o meu célebre Toddynho. Acontece que descobri recentemente que tenho intolerância à Lactose e, portanto, estou abstendo-me dele. Não nasci com um bom paladar. Considero que assim como as Artes Visuais estão para os olhos e a Música para os ouvidos, a Gastronomia está para o paladar. Estou tentando mudar esse hábito. Gosto de borboletas, mas odeio profundamente as mariposas; no entanto, descobri recentemente uma música do Francis Hime, com a letra da Olivia Hime, intitulada, justamente, Mariposa e que, apesar do título, é linda! A intérprete é a Mônica Salmaso, que, por sinal, manda muito.

Mônica Salmaso — Mariposa
Música: Francis Hime/ Letra: Olivia Hime

Ó filhinha minha
Não sai de perto
Até clarear
Tua mãe tem medo
E precisa muito
Do teu olhar

Conta
Aquela história
Que eu te contava
Pra dor passar
Me acalma
Sussura um verso
E me diz o que é
Que faz sossegar

Nana, nana, nana
Menina e nina
Quem te nanou
Tua mãe tá triste
É de tanto amor

Me diz
Quantas folhas
Perde a palmeira
Antes dela crescer
Será que eu
Vou ter a coragem
De tanto me perder

Me diz
Quantas cruzes
Bordo em meu peito
Antes de me render
Se nos meus bordados
Ou mesmo nos pontos
De um botão
Arremato a dor
Que foi em vão

Pra onde vai
Tanta luz
E essa mariposa
Que se espantou
Pra onde vai
A ternura
Que um dia
Meu peito
Já guardou

Pra onde
É que vou
Tão triste
E madura
Pra onde
Meu amor

Nana, nana, nana
Menina e nina
Quem te nanou
Tua mãe tá triste
É de tanto amor

Ó filhinha minha
Não sai de perto
Até clarear
Tua mãe precisa
Do teu olhar

Nana, nana, nana
Menina e nina
Quem te nanou
Tua mãe tá triste
É de tanto amor


quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Os 10 mais


Sempre gostei de listas. A revista Bravo! tem lançado edições especiais com listas dos 100 mais; por exemplo, os 100 lugares essenciais da cultura mundial, os 100 filmes essenciais, 100 obras essenciais da pintura mundial, os 100 objetos essenciais do design mundial etc. Esta última revista inclusive ajudou-me bastante a ter um pouco mais de noção sobre design, já que meu conhecimento sobre o assunto era quase nulo. Acompanho, da mesma maneira, listas de revistas como Rolling Stone ou de blogues ou sites que acompanho — um dia tenho de postar aqui sobre essa paixão que tenho por revistas, mas é melhor perder a mania de prometer que devo falar sobre determinado assunto porque já contabilizo duas postagens e dois assuntos prometidos.

Numa de minhas andanças quase diárias na banca de revistas, encontrei o livreto acima intitulado "Os 10 mais" com o subtítulo "250 rankings que todo mundo deveria conhecer" — Luiz André Alzer e Mariana Claudino. Não o li todo ainda. Ele é subdividido em temas, e, por enquanto, só li a primeira parte que se chama "Caldo de cultura — Cinema, Televisão, Música, Literatura e Artes em geral". Várias listas chamaram-me a atenção — agora fui parar para pensar e existem as duas expressões "chamar a atenção" e "chamar à atenção" dependendo do que se quer dizer! Eu fui pesquisar para confirmar meu insight (perdoem-me os avessos a estrangeirismos, mas não achei outro termo aportuguesado e, além do mais, o termo está dicionarizado) e encontrei que "chamar a atenção" tem por significado "despertar interesse ou curiosidade", "ser bem visível" ou "fazer notar ou destacar", enquanto "chamar à atenção" significa "fazer uma crítica ou reparo". Não sei se vocês já perceberam, mas o uso do travessão, geralmente, indica alguma digressão minha. O livreto possui, ainda, listas de personalidades famosas. Zeca Pagodinho indica os 10 maiores compositores de Samba de todos os tempos, DJ Marlboro indica as 10 músicas mais importantes de todos os tempos e muitos outros fazem suas listas. A lista do DJ Marlboro impressionou-me bastante. Sempre li coisas boas sobre ele com certa incredulidade, mas o fato de Beethoven figurar em primeiro lugar e John Lennon em décimo fez-me mudar minha opinião. Uma lista interessante que escolhi para afigurar-se aqui é uma referente às 10 maiores palavras da Língua Portuguesa. Espero que o limite de caracteres não seja excedido aqui — suponho que deva existir um limite! A lista não inclui palavras que mudam apenas o sufixo. Ei-la!

1. pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico (46 letras)
Relativo a uma doença pulmonar aguda causada pela aspiração de cinzas vulcânicas;

2.paraclorobenzilpirrolidinonetilbenzimidazol (43 letras)
Substância presente em medicamentos como o Ultraproct;

3. piperidinoetoxicarbometoxibenzofenona (37 letras)
Substância presente em medicamentos como o Baralgin;

4. tetrabromometacresolsulfonoftaleína (35 letras)
Termo específico da área de Química¹;

5. dimetilaminofenildimetilpirazolona (34 letras)
Substância ativa em vários comprimidos para dor de cabeça;

6. hipopotomonstrosesquipedaliofobia (33 letras)
Doença psicológica que se caracteriza pelo medo irracional (ou fobia) de pronunciar palavras grandes ou complicadas²;

7. monosialotetraesosilgangliosideo (32 letras)
Substância presente em medicamentos como o Sinaxial e o Sygen;

8. anticonstitucionalissimamente (29 letras)
Maior advérbio da Língua Portuguesa. Significa o mais alto grau de inconstitucionalidade³;

9. oftalmotorrinolaringologista (28 letras)
Profissional especializado nas doenças dos olhos, ouvidos, nariz e garganta*

10. inconstitucionalissimamente (27 letras)
Sinônimo de anticonstitucionalissimamente.

¹Ainda bem que na Física ou Matemática os termos são relativamente pequenos!
²Parece que não só os químicos, médicos, mas também os psicólogos sofrem com palavras grandes. Deve ser curioso alguém que padece dessa doença ter de dizer toda vez aos outros o que sofre. Poderiam ter inventado uma sigla ou coisa parecida!
³Olha os juristas se juntando à classe dos químicos, médicos e psicólogos!
*Podiam inventar um nome grande para clínicos gerais! Tenho de aprender a fazer os índices acima de ³!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Postagem primogênita

Resolvi virar "blogueiro" — as aspas devem-se ao fato do termo ainda não estar dicionarizado. Intitulei o "blog" de De omnibus dubitandum est — "duvide de tudo" em latim — porque apropriei-me do mote cartesiano desde que tive meu despertar filosófico; contudo, tudo poderá ser tomado por tema para este espaço, não se limitando, portanto, às discussões filosóficas, embora acredite que tudo pode ser tomado por debate filosófico, até mesmo aquilo que é tomado por futilidade por alguns. Tenho muitos assuntos em mente para escrever; no entanto, como sou partidário de Nietzsche quando ele diz que "sem a Música, a vida seria um erro", começarei pela Música. Compus uma música ontem chamada Tiempo. Não foi só o título que saiu na Língua Espanhola, mas o resto da música também foi composto na Língua. Estou receoso de que tenha cometido algum equívoco na escrita, pois o Espanhol, das Línguas que, de certa maneira, falo é a que menos tenho afinidade. Só li um livro na minha vida em Espanhol e faz muito tempo que a estudei. Transcreverei a letra e peço para que quem tem maior afinidade com a gramática espanhola possa ajudar-me.

Tiempo

Yo me pregunto lo que és
Eso que llaman de tiempo.
¡Él tiempo! ¡Tiempo!

¿Que és él tiempo al fin?
Cercado de tanto espacio vacío y materia.

¿Porque yo me recuerdo del pasado,
Pero no me recuerdo del futuro?
¿Si yo me olvido del pasado,
Porque no me olvido del futuro?

¡Tiempo que és tan incomprensible!

Resolvi compor uma música numa língua diferente porque tenho deparado-me com bandas cosmopolitas. O engraçado é que as conheci por coincidência. Citarei duas. A primeira chama-se Brazilian Girls e a segunda Pink Martini. Aquela canta em Italiano, Alemão, Espanhol, Português, Francês e Inglês e esta em Inglês, Espanhol, Francês, Italiano, Português, Japonês, Árabe e Grego — é bom deixar claro que, embora seja adepto da norma culta de nossa Língua, opto por algumas regras próprias, principalmente depois da palhaçada dessa nova reforma ortográfica, que é assunto para outra postagem. Eu utilizo, por exemplo, maiúsculas para diferenciar Português, Língua, de português, aquele que nasceu em Portugal. Com o tempo, vocês perceberão minhas preferências — . Achei muito legal isso, principalmente porque gosto de treinar meu poliglotismo. Gostei mais do som da Pink Martini. As duas bandas lançaram álbuns novos no ano passado. Voltando à minha composição, estava pensando um dia desses que eu sou eclético no que se refere a ouvir música, mas que meu ecletismo não se reverte muito nas minhas composições: elas são mais Mpb. O ruim é que além de ter muita limitação técnica, também tenho limitações no que se refere ao timbre. Como compor um Heavy Metal tradicional usando só violão? Eu tenho ouvido muito Indie Rock e tentei compor algo mais ou menos no estilo. Se eu tivesse mais recursos para gravar outros instrumentos, teria ficado melhor, mas acho que deu pra fazer algo no estilo. Quando colocar a música no YouTube, disponibilizo-a aqui.