sexta-feira, 28 de maio de 2010

Festas de aniversário

Sei que posso parecer antiquado, mas sou do tempo em que quando se convidava uma pessoa para a sua festa de aniversário, você não tinha de pagar para comer e beber. Quando se consulta a palavra "convite" no dicionário Houaiss, vê-se que uma das acepções refere-se a um bilhete que dá direito à entrada GRATUITA. Embora outras acepções não explicitem a idéia de gratuidade, a própria etimologia da palavra — do catalão convit —, que faz referência aos banquetes, agrega-a.

Não sou antiquado, mas saudosista (Uma pequena digressão minha... Nostalgia não é sinônimo de saudosismo: aquela traz consigo a melancolia, enquanto esta não necessariamente. No meu conto "Cinco Cigarros", trato a nostalgia como um "saudosismo ressentido"). Tenho saudades do tempo em que o convite para o comparecimento a um aniversário era um requerimento da pessoa e não do bolso. É engraçado ver, também, que os aniversariantes costumam convidar-nos para estabelecimentos que não cobram dos aniversariantes, a partir de um certo número de convidados. Se for para dizer que alguém é sovina na história, não sou eu, mas o aniversariante.

Possam, talvez, argumentar que o dinheiro que era utilizado na compra de presentes foi substituído pelo dinheiro que se gasta para comer no estabelecimento; contudo, até onde saiba, o presente nunca foi obrigatório. Possam, outrossim, dizer que, da mesma forma, não é obrigatório que o convidado gaste dinheiro comendo e bebendo, mas convenhamos que é muito pior gastar algumas horas observando todos comendo e bebendo, especialmente se o estabelecimento for um local de rodízios, do que apenas não levar um presente.

Faz algum tempo que não sou afeto a aniversários e explico por quê. Qual o significado do aniversário? Bem, comemora-se o dia em que você nasceu. É um dia representativo portanto, já que a data do seu nascimento não voltará. O tempo, pelo menos sem nos aprofundar muito, é linear. Imaginem uma reta numerada. Digamos que o zero é fixado na reta quando você nasce e que os números subseqüentes representam o passar do tempo. Você nunca voltará à estaca zero, mas, no máximo, poderá criar um espaçamento fixo para comemorar o que você denominará de aniversário.

Escolheu-se o ciclo da Terra ao redor do Sol para denominar-se o que chamamos de "ano"; contudo, qualquer outro ciclo poderia ser escolhido para chamarmos-lhe de ano. Voltando ao exemplo da reta, qualquer espaçamento do ponto fixo zero poderia ser escolhido para comemorar-se os aniversários. Tive esse raciocínio há alguns anos, mas alguns conceitos que aprendi posteriormente acrescentaram algumas idéias sobre ele.

Aprendi, estudando Física, os conceitos de Isotropia e Anisotropia. Para quem não conhece os termos, mas sabe um pouco de Grego, saberá que "iso" significa "igual", "tropos", "lugar" e "ánisos", "desigual". Para resolvermos alguns problemas, supomos que o Universo é isotrópico, ou seja, que ele tem as mesmas propriedades físicas independentemente da direção escolhida. Sempre fui um pouco desconfiado com essa suposição, mas lendo sobre Cosmologia, achei-a mais razoável. Na minha aula de Filosofia da Religião, o professor utilizou-se desses conceitos para referir-se à falta de comunicação entre a Filosofia/Ciência e a Religião. Ele disse que o problema é que aquelas enxergam o mundo de forma isotrópica e esta de forma anisotrópica.

Em outras palavras, quando a Religião considera qualquer coisa sagrada, as instituições laicas não a reconhecem como tal. Essa idéia pode ser levada para os aniversários. Não consigo entender por que as pessoas consideram um determinado dia com tanta importância, em detrimento dos outros. Por que eu, por exemplo, deveria considerar de modo diferente um parabéns dado a mim no dia 13 de novembro — dia em que nasci — do dia 14 ou de qualquer outro dia, tendo-se por base que aquele dia é representativo e não exatamente o dia em que nasci?

Creio que uma visão isotrópica de mundo evitaria uma sucessão de caprichos humanos. Achei muito interessante o empréstimo de termos que o meu professor de Filosofia da Religião fez. Poderia desenvolver todo um pensamento a partir dessa distinção de visões de mundo. No fim das contas, entramos no âmbito da Hermenêutica. Já faz um tempo que quero tratar aqui sobre o assunto e dizer como tenho ficado deslumbrado com esse campo. Tudo acaba reduzindo-se à Hermenêutica e dedicarei uma futura postagem ao desenvolvimento dessa idéia.

Para terminar, se você está lendo esta postagem, já sabe que se me convidar para um aniversário no qual terei de pagar, não irei nem para cumprimentá-lo, pois minha gasolina não é água.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

10 livros que mudaram minha vida

Não sei exatamente quando e como me sobreveio a idéia de listar no blogue 10 livros que influenciaram de uma maneira direta a minha vida. Não tive por critério de seleção a qualidade literária dos textos; por isso, não listei grandes nomes da Literatura como Goethe ou Tolstói. Se algum dia tiver uma obra literária relacionada ao romance, poderei fazer uma lista de influências — os dois romancistas citados constarão nessa lista certamente.

O que há de comum nos livros que mencionarei é que todos eles provocaram uma mudança de perspectiva na minha vida: ou adotei novos paradigmas ou abandonei preconceitos e pressupostos. Lamento o fato de nem todo mundo possuir o prazer da leitura. A inércia, seja no sentido de paralisia ou no de movimento sem alternâncias, é diretamente combatida pela leitura. As grandes revoluções e transformações ocorrem de dentro para fora, e a Literatura é o grande estopim de tais mudanças. Eis a lista:

Bíblia
Pode parecer um clichê, mas não poderia deixar de mencioná-la. Mesmo que não tivesse nascido num lar cristão e fosse ateu, teria de listá-la, porque a sociedade ocidental não pode ser compreendida à parte da cultura cristã — e esta à parte de seu sagrado livro. Tinha sete anos de idade quando resolvi lê-la por completo. O livro de que mais gostava era o Apocalipse, talvez porque não o entendia e porque toda aquela história de dragões e de cavaleiros era um tanto quanto fantasiosa para mim. Cresci lendo este livro a partir de pressupostos errados que mais tarde fizeram afastar-me da fé.

Nunca li nenhum outro livro mais de uma vez, pois parto do pressuposto de que tenho um tempo finito de vida e uma quantidade imensurável de livros que ainda não li; contudo, espero ler este livro muitas vezes durante minha vida, porque creio que, por meio dele, posso escutar a voz de Deus. Algumas pessoas afirmam que o fato de sempre encontrarem algo novo nela, a cada vez que a lêem, torna-a divina. Isso é uma bobagem. Qualquer livro lido mais de uma vez oferecerá novas interpretações. Quando Heráclito diz que não se entra duas vezes no mesmo rio não é só porque o rio muda, mas porque quem entra também é outra pessoa.

Discurso do Método/ As paixões da alma/ Meditações — Descartes
Sei que minha proposta era listar 10 livros; no entanto, os três livros do Descartes estão num livro só da coleção "Os Pensadores", que foi a edição que li. Na minha leitura, li os três de uma vez sem muita distinção entre um e outro, embora tenha achado a parte das Meditações que trata sobre Medicina bastante chata — percebi que nunca estudaria Medicina depois disso. Li Descartes em 2001. A coleção de livros de Filosofia "Os Pensadores" estava sendo lançada nas bancas e estava bastante interessado em Filosofia na época — uma das poucas aulas a que assisti naquele ano foram as de Filosofia, dado que reprovei o primeiro ano do Ensino Médio. A obra de Descartes causou profundas transformações na minha vida. Acredito que a principal foi a dúvida como método. Percebi que, até aquele momento, tinha vivido sem muitos questionamentos e que defendia muita coisa de modo arbitrário. Resolvi questionar todas as minhas convicções. Mesmo assim, continuei crendo na existência de Deus, embora já não cresse na Bíblia do mesmo modo como cria.

Os elogios de Descartes à Matemática também causaram grande impacto sobre mim. Sempre fui um aluno de Humanas. Minhas matérias prediletas eram História e Geografia, embora gostasse de Ciências na 5ª e 6ª série. Já tinha pensado, inclusive, em cursar História na faculdade. Matemática sempre tinha sido a matéria de que menos gostava, mas Descartes falava tão bem dela que passei a mudar minha visão. O engraçado é que uma das matérias em que reprovei, no primeiro ano, foi Matemática; no entanto, no ano seguinte, tudo pareceu claro para mim. Cheguei a tal ponto que não estudava de propósito para ter mais emoção nas provas. Posso dizer com segurança que nunca gostaria de Exatas hoje se não fosse por esse livro.

Viagens no tempo no Universo de Einstein — Richard Gott
Sempre gostei do assunto, dentro da Ficção Científica, referente a viagens no tempo. Para ser sincero, gostar é pouco: sempre fui fascinado pelo tema. Comprei esse livro num contexto muito específico. Já tinha me deparado com a obra de Descartes e fiquei impressionado com o fato de ele ter formação na área de Direito, mas, mesmo assim, ter feito importantes realizações na Filosofia, na Medicina, na Matemática e na Física. Inspirado pela vida de Descartes e pela de Einstein, já que me identificava bastante com este, porque ele sempre foi subversivo, resolvi comprar o livro. Meu professor de Filosofia elogiava-me pelas minhas leituras, dizendo-me que eram complicadas. A presunção e o orgulho tomaram conta de mim. Sentia-me a pessoa mais inteligente do mundo. "Viagens no tempo no Universo de Einstein" foi o primeiro livro que li tendo de ler trechos repetidamente. O esforço que fiz para entender o livro foi tremendo. Aquilo me deixou bastante intrigado e motivado. Percebi que havia um imenso mar de conhecimento e que eu estava coletando a água desse mar com um copo. Esse livro fez-me ver que queria desafios na minha vida e que queria extrair o máximo da minha inteligência para ver até onde ela poderia levar-me. Creio que a semente para que escolhesse, futuramente, cursar Física foi plantada por esse livro.

Os problêmas do milênio — sete grandes enigmas matemáticos do nosso tempo — Keith Devlin
Não me importava com o que via no colégio. Aquilo tudo parecia bobagem para mim e acreditava que tudo aquilo seria desmentido quando ingressasse na Universidade. Tinha essa idéia porque, no meu segundo ano, quando estávamos aprendendo Termodinâmica, cheguei à conclusão de que o Universo deveria ter energia infinita por meio de alguns cálculos. Mostrei minhas contas para a minha professora, e ela disse que minhas contas estavam corretas, mas que não se usavam aquelas fórmulas para calcular o que eu queria calcular e que eu precisaria aprender a fazer os cálculos com correções relativísticas. Fiquei frustrado com isso. Desde o meu primeiro ano, estava bastante interessado nos números primos. Gastei mais de dois anos entretido com eles. Descobri algumas propriedades que nunca tinha visto em livros, mas não eram importantes o suficiente para fazer o que eu queria: encontrar um padrão ou uma maneira de encontrar o enésimo número primo a partir de uma fórmula. No meu terceiro ano de Ensino Médio, trabalhava com outras idéias na Matemática, mas sempre que procurava o meu professor para mostrar o que tinha feito, alguém já o tinha descoberto.

Para exemplificar, aprendemos que (a + b)² = 1.a² + 2.a.b + 1.b². Quando aprendi o Triângulo de Pascal, aprendi que existe uma lógica nos coeficientes dos produtos dos termos. Em outras palavras, no exemplo que dei, os coeficientes são 1, 2 e 1. Se a potência for cúbica, ou seja, se tivermos (a + b)³, teremos 1.a³ + 3a².b + 3a.b² + 1.b³, com coeficientes 1, 3, 3 e 1. Existe uma lógica entre os expoentes também. Existe uma permutação entre as potências de modo que a soma entre as potências de a e b, em cada termo da soma, nunca ultrapassa o expoente ao qual se eleva a soma inicial de dois números. Percebam que em (a+b)² temos três termos, nos quais,

( i ) 1.a².bº ; 2 + 0 = 2
( ii ) 2.a¹.b¹; 1 + 1 = 2
( iii ) 1.aº.b²; 0 + 2 = 2

A mesma coisa ocorre em (a + b)³:

( i ) 1.a³.bº; 3 + 0 = 3
( ii ) 3.a².b¹; 2 + 1 = 3
( iii ) 3.a¹.b²; 1 + 2 = 3
( iv ) 1.aº.b³; 0 + 3 = 3

Percebam também que o número de termos na expansão da soma é n + 1. O meu questionamento era se existia uma lógica parecida quando temos n termos na soma, ou seja, se o mesmo é válido para quando temos (a + b + c + ... + n) elevado a uma potência t qualquer. Eu brinquei um pouco com a idéia e cheguei a uma fórmula. Quando fui conversar com o meu professor, ele disse que Leibniz tinha descoberto o meu resultado no século XVII — http://pt.wikipedia.org/wiki/Teorema_multinomial . Aprendi essa fórmula no curso de Cálculo de Probabilidade 1 na UnB. Essa foi uma das muitas investidas minhas.

Voltando ao livro, li-o nesse contexto de tentativas de descobrir algo e ver que alguém já o tinha descoberto. Descobri que o meu trabalho com os números primos estava envolvido com o problema chamado Hipótese de Riemann. Ao mesmo tempo em que fiquei empolgado, porque li no livro que esse era o único dos 7 problemas que poderia ser resolvido por qualquer pessoa, fiquei desestimulado ao ver que ele era tão importante e difícil que pagariam um milhão de dólares para quem o resolvesse. A conjectura de Poincaré está no livro também porque ainda não tinha sido resolvida. Hoje, 6 problemas ainda não foram resolvidos. Enfim, esse foi um livro que me fez querer aprender primeiro para depois tentar descobrir alguma coisa.

Investigações Filosóficas — Ludwig Wittgenstein
Nunca fui alguém que se preocupou com a norma culta da Língua Portuguesa até ler esse livro. Achava até bobagem e preciosismo; contudo, Wittgenstein ensinou-me que a minha linguagem está estritamente ligada com a minha manifestação no mundo. Percebi que grandes problemas dos diversos ramos do conhecimento estão ligados à Linguagem. Ultimamente, inclusive, tenho me impressionado muito com a Hermenêutica, mas deixarei para aprofundar-me em outras postagens. Lembro-me de que fiquei admirado com os experimentos mentais propostos no livro. Quando chegava às mesmas conclusões do livro, ficava deslumbrado. Wittgenstein também aborda um ponto que sempre questionei, mas de outra forma. Será que enxergo as coisas da mesma maneira que outras pessoas? Ele colocaria a questão de outra maneira: o que me garante que sensações que tenho a tendência de chamar de determinado nome são iguais ou semelhantes a sensações que outras pessoas denominam pelo mesmo nome? Esse livro foi também um preâmbulo para que pudesse entender melhor filósofos existencialistas como Sartre e Heidegger.

Assim falava ZaratustraFriedrich Nietzsche
Esse foi o primeiro livro que li de Nietzsche. Ele me causou uma impressão assustadora. Imaginem o sarcasmo de uma pessoa para escrever contra a ética cristã utilizando-se da linguagem bíblica. Nietzsche conseguiu tal façanha. Estava no meu terceiro ano do Ensino Médio, em 2004, quando o li. Nunca mais minha concepção sobre a ética cristã foi a mesma. Num ano em que estava aprendendo a Teoria da Evolução, aliei o modo de pensar do Evolucionismo ao pensamento nietzschiano. Por que a ética cristã diz-nos para controlarmos certos desejos e atitudes inerentemente humanas se foram elas que, justamente, nos trouxeram ao estágio evolutivo em que nos encontramos? A partir desse livro, adotei o orgulho como ideologia.

Crítica da razão pura —Immanuel Kant
Sempre fui racionalista. Levei o racionalismo cartesiano até Spinoza e sempre fui muito avesso ao Empirismo. Kant mostrou-me que a coisa não é tão dualista quanto parece. Creio que a coisa mais importante que aprendi com Kant foi a distinção entre "fenômeno" e "coisa-em-si". Nunca mais enxerguei o mundo da mesma maneira depois de aprender essa distinção; inclusive, é muito difícil ler qualquer pensamento filosófico depois de Kant sem essa terminologia. Schopenhauer foi um pensador que partiu dessa distinção para escrever o seu "O mundo como vontade e representação", que é excelente também.

A História da Filosofia — Will Durant
Esse foi o livro que me fez deixar o Cristianismo em 2005, especificamente, no capítulo IV sobre Spinoza. Estava na praia lendo o livro e resolvi ir para o mar ficar boiando e pensando em tudo o que tinha lido. Nunca me esquecerei daquele momento. Olhava o céu azul, uma paisagem belíssima, e perguntava-me se poderia ter me enganado durante 19 anos de vida, falando com um Deus que não passava de algo que estava dentro de mim mesmo. A frase de Spinoza sobre o círculo pensante que pensaria que Deus é um círculo ficou incrustada em minha mente. Já tinha sido estimulado a ler Schopenhauer por causa de Nietzsche, mas foi o sétimo capítulo desse livro que me fez querer lê-lo definitivamente. O engraçado é que o livro apresenta Spinoza como panteísta. Quando fui ler Spinoza propriamente dito, no prefácio do livro, diziam que era um engano dizer que ele era panteísta, mas que ele era panenteísta. Na UnB, numa palestra de uma especialista em Spinoza, ouvi que ele nunca foi panteísta, nem panenteísta. Tudo é uma questão de hermenêutica de fato!

Confissões — Santo Agostinho
Esse foi o livro que me fez ver que existe vida inteligente no Cristianismo. Até então, achava que os cristãos eram preguiçosos mentais ou pessoas fortemente influenciadas pela sua cultura e criação. O argumento de Agostinho sobre a inexistência do mal como substância é uma das coisas mais belas que já li. As interrogações dele sobre a natureza do tempo também intrigaram-me bastante. A minha composição chamada "Tiempo" vem, em grande parte, do pensamento de Agostinho — http://www.youtube.com/watch?v=ugT3SJzWIu8 . Depois desse livro, li muita coisa de Agostinho e durante muito tempo ele foi o meu teólogo predileto.

O cinema pensa — uma introdução à Filosofia através dos filmes — Julio Cabrera
Sempre gostei de Cinema, mas, como racionalista e como adepto daquela meta filosófica de guiar minha vida em torno da busca do conhecimento, ficava um pouco constrangido por essa minha paixão pelo Cinema. Antes de ler esse livro, achava que era apenas um entretenimento que me fazia perder tempo: em vez de ver um filme, poderia estar lendo. O Cabrera é professor na UnB; infelizmente, nunca tive a oportunidade de cursar alguma matéria com ele. Sou muito grato a esse livro, porque ele me fez enxergar que existe muita Filosofia no Cinema e que, assim como a Literatura é uma linguagem estreitamente ligada à Filosofia, o Cinema também é uma forma de linguagem que pode, inclusive, utilizar-se de recursos que não estão disponíveis em outras formas de arte para tratar de Filosofia com profundidade.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O cubo mágico — em busca de simetrias

Há tempos não atualizo o blog. Para quem tinha o objetivo de escrever todo sábado, estou longe da minha meta. Os meus sábados estão muito atarefados: tenho aulas de Alemão de manhã, ensaio do coro à tarde, e a noite é reservada para a minha pequena. Verei como posso organizar-me para atualizar mais o blogue. Uma das soluções encontradas por mim será apresentada na próxima postagem, mas, por enquanto, colocarei aqui um pequeno texto que tinha escrito para ser sondado num jornal para uma possível vaga de articulista de ciência. Como já faz um tempo que o mandei,  e não recebi resposta, ei-lo: 

O conhecido cubo mágico, também conhecido como cubo de Rubik — devido ao seu inventor, o húngaro Ernõ Rubik —, é um objeto de entretenimento de adultos e de crianças. Ele tem estrita ligação com um campo de estudo da Matemática denominado “Teoria de Grupos”. Tal campo teve origem na solução das chamadas equações algébricas. 

Ainda no Ensino Fundamental, aprendemos a famosa fórmula de Bháskara para a resolução de equações quadráticas ou do segundo grau. Para a resolução de equações cúbicas, utiliza-se o método de Cardano-Tartaglia; nas equações quárticas, o método de Ferrari. Durante muito tempo, não se sabia resolver equações algébricas acima do quarto grau. No intuito de responder a essa questão, o matemático francês Évariste Galois desenvolveu a Teoria de Grupos. Por meio dessa teoria, ele demonstrou que equações acima do quarto grau não podem ser resolvidas por meio de radicais, ou seja, não existem fórmulas como a de Bháskara para encontrarmos as raízes ou soluções. 

O desenvolvimento da Teoria de Grupos foi um marco na História da Matemática, dando início a todo um desenvolvimento de estruturas algébricas. Um interessante fato na Teoria de Galois é que a toda simetria está associado um grupo. Uma simetria existirá num determinado objeto se transformações puderem ser feitas sobre ele sem alterá-lo. Se um quadro dependurado for rotacionado em 360º, será como se ninguém o tivesse tocado. 

A Teoria de Grupos ocupa um importante papel no desenvolvimento da Física Contemporânea, entre outros campos como a Biologia — a natureza está repleta de simetrias! Ela nos ajuda também a encontrar soluções no Cubo Mágico. A Teoria dos Grupos, o cubo mágico e as simetrias mostram-nos que o fazer ciência não se limita aos laboratórios e a papéis repletos de contas. A nossa intuição sobre a beleza está abarrotada da noção de simetria. Quando produzimos carros ou pintamos, servimo-nos dela; quando apreciamos uma boa música, da mesma maneira. Fazer ciência faz parte do nosso íntimo, da nossa natureza. A Matemática, em particular, encontra-se infiltrada nas nossas brincadeiras, preferências e apreciações estéticas. No fim das contas, todos fazemos ciência!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Afinal, a que vem o Criacionismo?

Não consigo entender qual é a proposta dos criacionistas e dos adeptos do chamado "Design Inteligente" em detrimento da proposta evolucionista. Quem tem conhecimento do desenvolvimento histórico da Ciência sabe que, no decorrer do tempo, teorias costumam ser suplantadas por outras que continuam explicando o que já era explicado, mas abarcam fenômenos que não tinham explicação. Niels Bohr chamou essa necessidade de manter os conhecimentos já desenvolvidos de "Princípio da Correspondência" que acabou tornando-se praxe no fazer ciência. Um exemplo é a Teoria da Relatividade Geral que abarcou a Teoria da Gravitação Universal newtoniana, fornecendo explicações e previsões que esta não conseguia dar.

Diante da indignação dos criacionistas, eu me pergunto: o que o "Criacionismo Científico" ou — não estou dizendo que as duas teorias são a mesma coisa — "Design Inteligente" fornece de explicação que a Teoria da Evolução não explica? Alguns apressados poderiam dizer que elas explicam que o mundo teve um criador. Bem, discordo absolutamente, já que dizer que houve um criador não é explicar nada; além do mais, a proposta evolucionista nada diz respeito da existência de uma entidade sobrenatural. Atenção: ela nada diz respeito significa que ela não confirma, nem nega.

Vi vídeos de uma conferência que tinha por pauta o debate entre as três linhas já mencionadas — http://www.apologia.com.br/?p=76 . Recomendo, inclusive, que vocês vejam a explanação do Dr. Aldo Mellender de Araújo: ele foi muito didático e aprendi coisas que não sabia. É gritante a diferença dele para os outros debatedores. No vídeo da mesa redonda, o Dr. Marcos Nogueira Eberlin, do qual já tinha ouvido falar, mostra o qual tacanha é sua mente. Ele diz que resolveu adotar sua atual postura com relação à Teoria da Evolução depois de ler uma reportagem da Veja, que, por sinal, parece abordar o Evolucionismo com a óptica dos chamados neo-ateístas. Pelo menos, ele tem currículo Lattes, contrariamente ao famigerado Adauto Lourenço, que, infelizmente, tem ganhado notoriedade no meio evangélico.

Analisando, contudo, o currículo do Eberlin, percebi que ele teve 23 artigos publicados em 2009. Alguns podem ficar impressionados, mas para mim, isso é picaretagem. Em primeiro lugar, nenhum artigo dele neste período tem menos de quatro pessoas envolvidas. Alguns pesquisadores, costumam associar-se a tudo que conseguem para ter o seu nome envolvido em projetos para colocarem no seu currículo. Sei que poderão defendê-lo dizendo que a Ciência hoje é feita em grupos, mas não ter nenhum artigo só de autoria dele em 23 é de estranhar-se. A área dele é experimental, o que também facilita a publicação de artigos — você não encontra esses números em currículos de pesquisadores teóricos. Ele ganhou um prêmio da Capes pelo número de artigos. Se existe algo que me frustrou nos dois anos em que trabalhei com pesquisas na UnB foi esse enfoque das instituições de pesquisas nos números.

Existem dois grandes problemas que tenho observado na persistência do embate entre Criacionismo e Evolução. O primeiro grande problema é que as pessoas confudem o materialismo filosófico — que busca um entendimento do mundo em seus diversos níveis, ontológico, metafísico e afins, a partir da exclusão de uma realidade sobrenatural — com a Teoria da Evolução. Creio que os, já mencionados por mim, neo-ateístas, talvez, sejam responsáveis por essa grande confusão. A Evolução é baseada em dois principais pontos: Seleção Natural, sobre a qual acredito que não haja discordâncias, e Ancestralidade comum. Este ponto, em particular, gera muita discórdia, mas mais por falta de entendimento do que qualquer coisa.

No link para a conferência que citei, o doutor Paul Nelson abarca a Abiogênese como constituinte do Evolucionismo, o que não é verdade; de qualquer forma, mesmo a crença de que o inanimado deu origem ao animado, não exclui a existência de uma entidade divina. Também é importante dizer que a Ancestralidade Comum não fala de apenas um ser vivo dando origem a vários seres, mas, como explica o doutor Aldo na sua palestra, a uma população de indivíduos.

Atenção: a Teoria da Evolução é uma teoria científica como qualquer outra, sujeita a futuras suplantações e aperfeiçoamentos. Li um questionamento do William Lane Craig¹ — um dos meus pensadores na atualidade favoritos — sobre a questão da inferência na constituição da ancestralidade comum. Concordo com os questionamentos dele em certa medida, mas não entendo por que outras teorias não recebem a mesma atenção por possuírem pontos de crítica. A Teoria da Relatividade Geral não consegue explicar o mundo quântico, mas os cristãos não saem vociferando contra ela por aí; da mesma maneira, a Mecânica Quântica é uma teoria probabilística tanto quanto a Evolução, mas nenhum crente fala que não acredita nela ou coisa parecida.

Outro grande problema que vejo é que quem ataca a Ciência o faz por não a entender e quem a coloca em pedestais, dando-a objetivações das quais ela não se propõe, também, tampouco, conhece-a. As pessoas não conhecem a força e a fraqueza da Ciência. Não sabem que nada em Ciência é feito totalmente livre de subjetividade, e as minhas pesquisas no Espaço de Hilbert da Mecânica Quântica confirmam isso para mim, mas também não sabem que a Ciência não tem relação nenhuma com o sobrenatural e nem tem intenção de dizer nada sobre isso.

Não consigo entender como as pessoas querem tornar a existência de um criador incompatível com o Evolucionismo. Quem criou a Seleção Natural? Deus não pode ter se servido dos mecanismos explicados pela Teoria da Evolução para atuar no mundo e criá-lo? Estou terminando de ler um livro do John F. Haught intitulado Cristianismo e Evolucionismo — em 101 perguntas e respostas. O livro está servindo-me muito mais para entender como funciona a mente de quem diz-se criacionista do que para qualquer coisa. Aliás, se existe uma coisa mal formulada no embate de que falo é a terminologia. Criacionista evolucionista deveria ser alguém que crê na Teoria da Evolução, mas acredita num Deus criador. Deveriam livrar-se do termo "Criacionismo" para designar esse conjunto de críticas ao Evolucionismo. Digo "conjunto de críticas" porque não passa disso, já que nunca os vi propondo nada que o Evolucionismo não explique, isso quando as críticas não passam de falácias ou de falta de entendimento.

Enfim, John F. Haught é um teólogo católico. É interessante ver como a Igreja Católica, principalmente a partir do papa João Paulo II, posicionou-se em favor do Evolucionismo. Até os budistas e hindus parecem ser mais sensatos que os protestantes². O engraçado é ver como teólogos importantes e cientistas renomados são cristãos e favoráveis ao Evolucionismo sem ver nenhum problema nisso; por exemplo, John Stott, Billy Granham, Alister McGrath, Kenneth R. Miller, C. S. Lewis, Theodosius Dobzhansky — um dos principais nomes no desenvolvimento da Teoria Sintética Moderna ou Neo-Darwinismo —, Francis Collins — geneticista responsável pelo Projeto Genoma Humano —, Ronald Fisher — um grande nome na Estatística — e muitos outros.

O livro do Haught que citei diz que o problema está no literalismo, tanto científico quanto bíblico. O primeiro refere-se ao que falei sobre pessoas colocando a Ciência num pedestal que não concerne a ela e o segundo refere-se a pessoas que se prendem à Bíblia em suas minúcias. A Bíblia não tem pretensão de fazer Ciência. Ela é fruto da mentalidade de quem escreve e esta é fruto da cultura de sua época, o que inclui o nível de conhecimento científico do momento em que se escrevia o texto. Ora, em Levítico 11.11-19, o morcego é tratado como ave em vez de morcego. Se a Bíblia tivesse a intenção de ser científica, ela não cometeria tal equívoco — mesmo não havendo uma classificação dos seres vivos na época em que foi escrita. Tiago, em Tiago 5.3, não diria que o ouro enferruja! São muitos os exemplos na Bíblia. Esta tem a objetivação de revelar a Deus e não como a natureza funciona. O embate entre Criacionismo e Evolucionismo deveria ser antecedido por um debate sobre Filosofia, Ciência, Hermenêutica Bíblica entre outros campos. Acredito que tal embate nem ao menos existiria se as pessoas conhecessem os referidos campos.

¹Scepticism about the Neo-Darwinian Paradigm:
http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=6711
(Neo-Darwinismo é a junção do darwinismo com a genética proposta por Mendel, também chamada de Teoria Sintética Moderna.)

² Vejam o histograma da sessão "Acceptance
":
http://en.wikipedia.org/wiki/Theistic_evolution

domingo, 22 de novembro de 2009

Sobre a Homossexualidade



Fiquei um tempo sem atualizar o Blog porque tinha um assunto específico que queria abordar, mas não o desenvolvi de forma que me agradasse para colocá-lo aqui; então, não consegui comentar sobre outros assuntos. Surgiram, contudo, vários outros assuntos que suscitaram minha reflexão. Já faz um tempo que tenho pensado acerca da homossexualidade. Minhas meditações tiveram por ponto de partida um contexto teológico. Aviso, com antecedência, que meu texto tem por objetivo muito mais a reflexão aberta do que um fechamento sobre o assunto.

No ano de 2001, quando fiz a minha primeira leitura crítica da Bíblia — utilizando o método da dúvida cartesiano —, cheguei à conclusão de que ela não poderia ser a palavra literal de Deus; no máximo, o melhor guia que temos em mão. Quanto mais aprimoro meus estudos relacionados à Lingüística, mais vejo que se Deus quisesse criar algo como um manual, não teria escrito um livro como a Bíblia, mas isso é discussão para outra postagem.

A maior parte das informações que utilizarei faz parte de uma edição da revista “Mente e Cérebro”, Ano XV, nº 185, intitulada “As novas sexualidades”. Certa vez, discutindo sobre o assunto, algumas pessoas utilizavam o termo “homossexualidade” e outras “homossexualismo”. Indaguei-me, então, se haveria diferença no emprego dos dois termos. Descobri a solução na referida edição da “Mente e Cérebro”. O termo “homossexualismo” era utilizado até 1985 pela CID — Classificação Internacional de Doenças —, publicação da Organização Mundial da Saúde — OMS —, na qual aparecia na categoria de distúrbio mental. O sufixo “ismo”, gramaticalmente, não designa, necessariamente, doenças, como se vê em “Cubismo”, por exemplo; no entanto, grupos gays têm interpretado tal termo como pejorativo. O termo “homossexualidade” é tido como menos discriminatório portanto. Teóricos, juristas, entre outros estudiosos, sugerem o uso de outros termos, como relações homoafetivas ou homoeróticas, no intuito de utilizarem termos neutros. Utilizarei todos os termos sem conotações quaisquer.

Hoje, com o politicamente correto em voga, qualquer opinião torna-se preconceituosa. Se um cristão diz ser contrário ao homossexualismo, é tido por preconceituoso. Admito que a grande maioria nunca estudou o assunto e apenas parte da leitura bíblica para ter uma posição, mas as pessoas têm o direito de tomarem partido sobre qualquer assunto sem serem tidas por preconceituosas, desde que tenham informação e tenham refletido suficientemente sobre tal assunto.

Acredito que ninguém que já tenha lido a Bíblia dirá, em sã consciência, que ela não é contrária às relações homossexuais. Não me aprofundarei no assunto, mas citarei algumas passagens bem esclarecedoras:

“Não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher; é repugnante”.
[ Levítico 18.22]

“Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte”
[ Levítico 20.13 ]

“Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros. Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão” [ Romanos 1.27 ]

“Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos”
[ 1 Coríntios 6.9 ]

A Bíblia foi escrita por homens — fazem questão de dizer “inspirados por Deus”, mas acredito que essa ênfase não passa de um jogo de linguagem, embora acredite que eles, de fato, foram inspirados por Deus — e não o foi de modo psicografado, como era feito pelo Chico Xavier, por exemplo. A escrita deles, portanto, tem influência da cultura em que eles estavam inseridos. A não ser que você acredite que os autores da Bíblia escreveram-na de modo psicografado, não creio que alguém possa questionar que ela possui influências culturais. Conversando com um pastor que admite isso, perguntei como eles podem saber que conselho ou que prática recomendada é divina ou um traço cultural e perguntei, especificamente, sobre o homossexualismo. Foi-me respondido que a homossexualidade é um assunto que tem a mesma abordagem em todo o texto bíblico; então, tem-se um pensamento definitivo sobre o assunto. A questão é: não existe a possibilidade de um preconceito perpetuar por um tempo maior do que o contemplado pela Bíblia? Vários preconceitos só começaram a ser eliminados no século XX com o advento de movimentos ou da própria tecnologia, no sentido do entendimento de doenças por exemplo.

Por meio do filme Kinsey — Vamos falar de sexo, conheci o trabalho do Alfred Kinsey. Tenho enorme vontade de ler os dois principais livros dele sobre sexualidade: “Sexual Behavior in the Human Male” e “Sexual Behavior in the Human Female”. São obras extensas: cada uma excede oitocentas páginas. Kinsey fez uma classificação da sexualidade humana e divulgou estatísticas sobre relacionamentos homossexuais, que até então não eram conhecidas. Kinsey era bissexual. Ele procurou não divulgar isso para não interpretarem sua pesquisa de maneira errada, mas após sua morte, sua esposa contou sobre a opção sexual de seu esposo e muitos interpretaram-no como farsante. Não vejo nenhum problema nisso; inclusive, praticamente todos os pesquisadores do assunto tem sexualidade, digamos, não convencional. Quem faz a apologia cristã é o cristão e não o ateu! A filósofa Judith Butler tem questionado a divisão entre macho e fêmea, masculino e feminino. Ela lançou um livro intitulado “Problemas de Gênero” que ainda não li, mas que quero ler para entender melhor o assunto. Para ela, gênero é um ato, uma ação pública, a encenação de significações já estabelecidas socialmente. Como explicar, por exemplo, o caso da ex-prefeita de Cambridge Jenny Bailey que após cirurgia de redefinição de sexo, tornando-se mulher, escolheu ter como objeto de amor alguém do mesmo sexo, ou seja, outra mulher?

A teoria da psicanálise freudiana pode ser tida como uma teoria sobre a aquisição do gênero masculino ou do feminino. Freud já abordava o desenvolvimento da sexualidade. Robert Stoller, na década de 60, estudou crianças do sexo masculino que tinham identificação com o feminino. Quando brincavam, agiam como se fossem meninas, assumindo papéis femininos. Stoller tratava tais casos como patológicos. É fato que existem casos de não-coerência entre sexo anatômico e gênero. A sociedade exige que haja coerência entre anatomia, identidade de gênero, desejo e prática sexual.

Para os detratores de plantão do Evolucionismo, a bióloga, professora e pesquisadora, de Stanford, Joan Roughgarden[1] contesta a Teoria da Seleção Sexual de Darwin. Ela diz que “se uma teoria diz que algo está errado com tantas pessoas em tantas culturas e épocas diferentes, então, talvez, o erro esteja na teoria — e não nas pessoas”. Os exemplos clássicos do pavão e do cervo, este com relação à sua galhada e aquele com relação à ornamentação de sua cauda, são contrapostos pela jaçanã, cujas fêmeas são fortemente ornamentadas e cujos machos são insípidos e sem graça, invertendo a lógica portanto.

Muitos animais, inclusive, nem sequer são nitidamente classificados em dois sexos. Nos recifes de corais, cerca de um terço dos peixes produzem óvulos e esperma, alguns ao mesmo tempo e outros em épocas diferentes ao longo da vida. Eles são chamados, respectivamente, de hermafroditas simultâneos ou seqüenciais e diz-se que eles “trocam de sexo”. O mais comum entre organismos multicelulares, inclusive plantas, é um mesmo indivíduo produzir tanto gametas masculinos quanto femininos em algum momento da vida. Portanto, a classificação, sem ambigüidade, como macho ou fêmea não deveria ser norma.

O escritor Bruce Bagemihl[2] catalogou mais de 300 espécies de vertebrados nas quais o contato genital entre indivíduos do mesmo sexo ocorre regularmente. Em algumas dessas espécies, a homossexualidade não é muito comum — de 1% a 10% de todos os casais. Em outros casos, como no dos chimpanzés bonobos, o acasalamento homossexual ocorre com a mesma freqüência que o heterossexual. Com relação ao tempo da duração, algumas espécies têm uniões esporádicas e outras duradouras.

Não tenho dúvidas de que o homossexualismo é resultado da genética, embora saiba que o meio contribui, e muito, para o desenvolvimento de comportamentos que têm predisposições genéticas. Não entrarei nesse mérito; contudo, não entendo o motivo dos homossexuais levantarem a bandeira da homossexualidade congênita: e se ele escolher ser homossexual? E daí? Acredito que eles deveriam defender sua causa a partir de um contexto da liberdade[3].

Agora, irei expor o meu questionamento em si. Se é fato que as relações homossexuais são comuns na natureza, por que Deus reprovaria tal ato nos homens se o comportamento animal foi criado pelo próprio Deus? Conversando com um primo meu sobre essa minha argumentação, ele disse que Deus não teria motivo para estabelecer o mesmo padrão moral entre os homens e os animais; contudo, utilizar-me-ei de um texto do livro de Gênesis para mostrar que existe tão padrão moral:

“A todo aquele que derramar sangue, tanto homem como animal, pedirei contas; a cada um pedirei contas da vida do seu próximo” [ Gênesis 9.5 ]

Ora, talvez, possam argumentar que o “tanto homem como animal” refere-se ao ato do homem matar outro homem ou outro animal e não a um homem matar alguém ou um animal matar alguém. Ainda não sei Hebraico de modo satisfatório para analisar o texto original; no entanto, utilizarei outra passagem que esclarecerá que a minha interpretação faz sentido:

“Se um boi chifrar um homem ou uma mulher, causando-lhe morte, o boi terá que ser apedrejado até a morte, e a sua carne não poderá ser comida. Mas o dono do boi será absolvido”
[ Êxodo 21.28 ]

Acredito que a passagem acima mostra que o texto de Gênesis prova que Deus mantém um paralelo entre o comportamento moral dos animais e o dos homens — na verdade, o texto de Êxodo bastaria. Se Deus incutiu nos organismos o homossexualismo, por que os repreenderia por isso? Sei que o meu questionamento abre margem para a discussão acerca da existência de volição de fato em outros seres além da espécie humana; no entanto, a partir da perspectiva bíblica de que apenas nós fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, acredito que a nossa capacidade de julgamento e de raciocínio é o que nos diferencia dos outros seres e aproxima-nos de Deus. Partindo-se desse pressuposto, qual seria a explicação para abominar um determinado ato se ele é tão comum na natureza? Poder-se-ia argumentar que a nossa capacidade de raciocínio serve para, justamente, afastar-nos de tal natureza corrompida; no entanto, acredito que, no que se refere ao comportamento dos organismos, não seria muito lógico Deus ordenar seres inocentes agirem de um modo extremamente "repugnante", segundo os trechos que citei. Podem também argumentar que a lógica divina não é a mesma que a nossa, mas adentrar nesse tipo de caminho, para mim, é preguiça intelectual. Seria como dizer: "já que Deus é infinitamente superior a nós e somos incapazes de entendê-lo completamente, vamos deixar pra lá.". Citarei um versículo para exterminar esse tipo de pensamento:

"As coisas encobertas pertencem ao Senhor, o nosso Deus, mas as reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre, para que sigamos todas as palavras desta lei"
[ Deuteronômio 29.29 ]

Sei que podem utilizar o versículo acima para contestarem minha visão sobre a Bíblia, na medida em que se diz que devemos seguir todas as "palavras desta lei", mas quero enfatizar neste versículo que as coisas reveladas incluem a própria criação. É importante, outrossim, frisar que Deus revela-se na natureza — os teólogos denominam tal tipo de revelação como Geral. Essa é uma verdade bíblica. Posso citar algumas passagens:

“Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos.”
[ Salmos 19.1]

“Pois desde a criação do mundo, os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis” [ Romanos 1.20]

O texto acima de Romanos é bem contundente: compreendemos Deus por meio das coisas criadas. Observar a natureza e compreendê-la é compreender o próprio Deus. Não estou divulgando nenhuma forma de panteísmo. Deus está acima de sua criação. Mais do que julgar o comportamento homossexual como correto ou não, devemos amar e respeitar o homossexual como a qualquer ser humano.


[1] Evolução do gênero e da sexualidade. Joan Roughgarden. Ed. Planta, 2004
[2] Biological exuberance: animal homossexuality and natural diversity, Bruce Bagemihl. St. Martin's Press, 2000
[3] Não Pode @ HOMOSSEXUAL Ser LIVRE?
http://www.xr.pro.br/ENSAIOS/Homossexualismo.HTML

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Que é a Teologia?

Meus dias de postagem neste blog são nos sábados, mas como estive ausente nos dois últimos, resolvi abrir uma exceção nesta semana. Teve, recentemente, uma controvérsia no Twitter sobre o que seria a Teologia. Acredito que é importante delinear as fronteiras de todo campo de estudo. A maioria das matérias costumam, em seus livros introdutórios, definir, mesmo que seja de modo não definitivo, o que é que se propõe a estudar. Eu não cheguei a dar uma definição, mas alguém chegou a dizer que a Teologia não é o estudo sobre Deus, mas sob Deus. É bem diferente definir o que é algo e como se quer que esse algo seja. A palavra Teologia surge da aglutinação de duas palavras gregas: θεóς (theos) e λóγος (logos). A primeira, como se sabe, significa Deus. A segunda costuma ser traduzida por "razão" ou "estudo"; no entanto, consultando o meu dicionário de Grego do Isidro Pereira, vi que as acepções são muitas: "palavra", "dito", "revelação divina", "resposta dum oráculo", "máxima", "sentença", "exemplo", "decisão", "resolução", "condição", "promessas", "pretexto", "argumento", "ordem" e por aí vai. Algumas acepções, inclusive, não se parecem adequar muito com o significado de razão costumamente atribuído à palavra grega.

Fazendo um paralelo da palavra "Teologia" com "Biologia" ou mesmo "Filosofia", não há porque não atribuir-se uma definição de estudo de Deus ou sobre Deus, sendo que o uso da preposição "de" gera a ambigüidade — talvez, satisfatória para alguns, mas tendenciosa para outros — de um estudo que provém de Deus em vez de tentar abarcá-lo. É importante estudar um pouco a etimologia histórica da palavra "Teologia". Ela aparece pela primeira vez na República de Platão, sendo que a palavra "logos" possui toda uma carga semântica depois de sua apropriação por parte de Heráclito, já que ela passa a contrapor-se a um contexto mitológico freqüente no período micênico e dórico e que ainda tem certo predomínio no período arcaico. A palavra "logos", portanto, opondo-se ao mito, possui todo um contexto que deve ser considerado quando se quer dizer o que é a Teologia.

Lendo a Teologia Sistemática de Paul Tillich, contudo, encontrei um texto interessante sobre o assunto que me fez ver que a coisa não é tão simples como imaginava. As pessoas não partem de uma análise etimológica e histórica para conceituar campos de estudos. O texto faz uma distinção entre Teologia e Filosofia da Religião e, posteriormente, distingue um ramo que poderia chamar-se Teologia Científica. Resolvi colocá-lo aqui. Partindo da minha leitura do texto transcrito, não acredito que seja necessária uma concordância por parte do teólogo com relação ao seu objeto de estudo. Obviamente, quando se ama o que se estuda, há maior envolvimento, mas eu mesmo já tive a experiência de ter de estudar teorias com as quais não concordava. Não vejo, portanto, impedimento para que existam teólogos ateus, por exemplo, dentro da minha definição etimológica. O Paul Tillich, contudo, define a Teologia por meio de um artifício chamado "círculo teológico". Achei muito interessante o corte que ele construiu a partir dessa conceituação.

O Círculo Teológico

Tentativas de elaborar uma teologia como uma "ciência" empírico-indutiva ou metáfico-dedutiva, ou como uma combinação de ambas, evidenciaram amplamente que não conseguem ter êxito. Em toda teologia pretensamente científica, há um ponto em que a experiência individual, a valoração tradicional e o compromisso pessoal exercem um papel decisivo. Tal ponto, muitas vezes ignorado pelos autores de tais teologias, é óbvio para os que olham para elas com outras experiências e outros compromissos. Se empregarmos uma abordagem indutiva, devemos perguntar pela direção em que o escritor busca seu material. E se a resposta for que ele olha em qualquer direção e para qualquer experiência, devemos perguntar: que característica da realidade ou da experiência é a base empírica de sua teologia? Qualquer que seja a resposta, está implícito um a priori de experiência e valoração. O mesmo ocorre quando o método empregado é o dedutivo, como no idealismo clássico. Os princípios últimos da teologia idealista são expressões racionais de uma preocupação última; como todas as ultimidades metafísicas, tais princípios são, ao mesmo tempo, ultimidades religiosas. Uma teologia daí derivada se encontra determinada pela teologia oculta implícita neles.
Em ambas as abordagens, a empírica e a metafísica, bem como nos inúmeros casos que combinam as duas, podemos observar que o a priori que dirige a indução e a dedução é um tipo de experiência mística. Seja ele o "ser-em-si" (escolástica) ou a "substância universal" (Spinoza), seja o "além da subjetividade e objetividade" (James) ou a "identidade de espírito e natureza" (Schelling), seja o "universo" (Schleiermacher) ou a "totalidade cósmica" (Hocking), seja o "processo criador de valor" (Whitehead) ou a "integração progressiva" (Wieman), seja o "espírito absoluto" (Hegel) ou a "pessoa cósmica" (Brightman) — cada um desses conceitos está baseado em uma experiência imediata de um valor ou ser último, do qual podemos chegar a ser conscientes intuitivamente. Idealismo e naturalismo, quando desenvolvem conceitos teológicos, diferem muito pouco em seu ponto de partida. Ambos dependem de um ponto de identidade entre o sujeito que vive a experiência e o elemento de caráter último que aparece na experiência religiosa ou na experiência do mundo como "religioso". Os conceitos teológicos, tanto dos idealistas quanto dos naturalistas, estão enraizados em um "a priori místico", uma consciência de algo que transcende a separação entre sujeito e objeto. E se, no curso de um processo "científico", descobrimos tal a priori, isto só é possível porque ele já estava presente desde o começo. Esse é o círculo do qual nenhum filósofo religioso pode escapar. E de modo algum ele é vicioso. Toda compreensão no âmbito do espírito (Geisteswissenschaft) é circular.
Mas o círculo em que atua o teólogo é mais estreito do que o do filósofo da religião. Ele acrescenta ao "a priori místico" o critério da mensagem cristã. Enquanto o filósofo da religião tenta permanecer geral e abstrato em seus conceitos, como o próprio termo "religião" indica, o teólogo é, consciente e intencionalmente, específico e concreto. A diferença naturalmente não é absoluta. Já que a a base experimental de toda filosofia da religião está parcialmente determinada pela tradição cultural à qual pertence — mesmo o misticismo está culturalmente condicionado — ela inevitavelmente inclui elementos concretos e específicos. Mas o filósofo, enquanto filósofo, tenta abstrair desses elementos e criar conceitos acerca da religião que tenham validade geral. O teólogo, por seu turno, propõe a validez universal da mensagem cristã, apesar de seu caráter concreto e específico. Ele não justifica esta reivindicação abstraindo da concretude da mensagem, mas acentuando sua unidade irrepetível. Ele entra no círculo teológico com um compromisso concreto. Entra nele como membro da igreja cristã para cumprir uma das funções essenciais da igreja: sua auto-interpretação teológica.
O teólogo "científico" quer ser mais do que um filósofo da religião. Ele quer interpretar a mensagem cristã de uma forma geral com o auxílio de seu método. Isto o coloca diante de duas alternativas. Ele pode incluir a mensagem cristã em seu conceito de religião, e então o cristianismo é considerado como um exemplo de vida religiosa, ao lado de outros. Certamente é a religião mais alta, mas não é a final nem a única. Esta teologia não entra no círculo teológico. Ela permanece dentro do círculo religioso-filosófico e de seus horizontes indefinidos — horizontes que se abrem para um futuro de novas e talvez mais elevadas formas de religião. O teólogo científico, apesar de seu desejo de ser teólogo, permanece um filósofo da religião. Ou ele se torna realmente um teólogo, um intérprete de sua igreja e de sua reivindicação à unicidade e validez universal. Neste caso, ele entra no círculo teológico e deveria admitir que o fez e parar de falar de si mesmo como um teólogo "científico" no sentido corrente do termo.
Mas inclusive o ser humano que ingressou consciente e abertamente no círculo teológico enfrenta outro problema sério. Para estar dentro do círculo, ele deve ter tomado uma decisão existencial. Deve estar na situação de fé. Mas ninguém pode dizer de si mesmo que está na situação de fé. Ninguém pode chamar a si mesmo de teólogo, mesmo que tenha sido chamado a ser professor de teologia. Todo teólogo está comprometido e alienado. Ele está sempre na fé e na dúvida; está dentro e fora do círculo teológico. Às vezes um lado prevalece, às vezes o outro, e ele jamais tem certeza sobre qual dos lados prevalece efetivamente. Portanto, só é possível aplicar um critério: alguém só pode ser teólogo na medida em que reconhecer o conteúdo do círculo teólogico como sua preocupação última. A verdade disso não depende de seu estado intelectual, moral ou emocional. Não depende da intensidade e da certeza da fé. Não depende do poder de regeneração ou do grau de santificação. Antes, depende de que ele se sinta preocupado de forma última com a mensagem cristã, ainda que, à vezes, esteja inclinado a atacá-la e rejeitá-la.
Essa compreensão da "existência teológica" resolve o conflito entre os teólogos ortodoxos e pietistas sobre a theologia irregenitorum ("teologia dos não-regenerados"). Os pietistas sabiam que não se pode ser teólogo sem fé, sem decisão, sem compromisso, sem estar no círculo teológico. Mas identificavam a existência teológica com uma experiência da regeneração. Os ortodoxos protestaram contra isso, argumentando que ninguém pode estar certo de sua regeneração e que, além disso, a teologia lida com materiais objetivos que podem ser manuseados por qualquer pensador, dentro e fora do círculo teológico, desde que satisfaça as condições intelectuais requeridas. Hoje, os teólogos ortodoxos e pietistas se acham aliados contra os teólogos críticos, supostamente descrentes, ao passo que a herança do objetivismo ortodoxo foi assumida pelo programa (não pelas realizações) da teologia empírica. Diante dessa antiga controvérsia, devemos reafirmar que o teólogo deve estar dentro do círculo teológico, mas o critério para determinar se está dentro dele é a aceitação da mensagem cristã como sua preocupação última.
A doutrina do círculo teológico tem uma conseqüência metodológica: nem a introdução nem qualquer outra parte do sistema teológico constitui a base lógica para as outras partes. Cada parte é dependente das outras. A introdução pressupõe a cristologia e a doutrina da igreja, e vice-versa. A distribuição temática depende tão-somente de considerações práticas.

sábado, 10 de outubro de 2009

20 passos para um relacionamento saudável

A postagem de hoje tem por inspiração os textos que o Artur da Távola — falecido em maio do ano passado — escrevia sobre o amor. Uma breve pesquisa no Google já fornece vários dos excelentes textos dele. Não gosto de textos de autoajuda e acredito que aqueles que privilegiam esse tipo de leitura são preguiçosos para construírem um saber filosófico consistente, já que todos os temas abordados por escritores de autoajuda podem ser encontrados em textos de filósofos geniais.

Dois textos que acredito que são fundamentais para o entendimento do amor são o belíssimo soneto de Camões "Amor é fogo que arde sem se ver" e o texto bíblico de Coríntios 13. A abordagem dos dois textos, contudo, refere-se a esferas distintas: enquanto Camões disserta sobre um amor sentimental, Paulo refere-se a um amor platônico, na medida em que ele trata de um amor no qual devemos espelhar-nos. Seria, mais ou menos, como a distinção que se costuma fazer, no campo da Ética, entre moral e ética, esta representando como a moral deve ser e aquela representando como se dão ou deram-se as relações morais no decorrer do tempo.

Pensei também em escrever um texto a partir da abordagem do mito de Eros e Psiquê, destrinchando algumas particularidades que enxergo, de uma genealogia bíblica, tratando os diversos contextos em que o amor aparece no texto bíblico, ou a partir de uma perspectiva filosófica, já que toda filosofia parte do amor ao conhecimento. Optei, no entanto, por fazer uma enumeração de conselhos ou observações que tenho feito ao longo dos meus relacionamentos e tendo-se por base os relacionamentos de pessoas próximas a mim. É claro que a lista não é fechada: provavelmente, acrescentarei muita coisa a ela no decorrer da minha vida, mas acho que vale a pena tentar fazer esse tipo de trabalho e disponibilizá-lo no meu blogue. Enfim, eis a lista:

1) Não inicie um relacionamento sem o vislumbramento de um futuro com o seu parceiro.

Se você está apenas a fim de um "peguete" fixo ou coisa do gênero, não inicie um namoro. As pessoas costumam discordar sobre qual é o significado de um namoro. Várias delas interpretam-no como uma espécie de "test-drive" no qual quanto mais carros você experimentar melhor. O meu conselho é: não façam isso! Pessoas não são carros! Além de você poder magoar profundamente alguém, você pode perder a oportunidade de construir uma vida ao lado de quem realmente deveria ser o seu parceiro. Sei que hoje existem pessoas que não são adeptas da monogamia e que acham que esse papo de alma gêmea e afins é um assunto ultrapassado, mas posso dizer que o que tenho visto nos relacionamentos felizes e sadios confirma o que tem sido chamado de conservadorismo. Para resumir, se você não se vê com aquela pessoa daqui a dez anos, nem comece um relacionamento.

2) Busque relacionar-se com pessoas que se assemelham a você.

Este item pode gerar controvérsias num primeiro momento, mas acho que, com a minha explicação, ele se tornará mais claro. O papo de que "opostos se atraem" só funciona na Física, e mesmo assim só por uma questão de convenção. Quanto menos divergências, mais fácil será o namoro. Não excluo o fato de que o amor verdadeiro pode tudo superar, e não só pode, mas supera; contudo, procurar pessoas que compartilhem das suas crenças e convicções evita muita dor de cabeça. Esse é um conselho que minha mãe sempre me deu e concordo inteiramente com ela. O próximo item irá mostrar que seguir este já facilita as coisas, já que as diferenças são inevitáveis.

3) Saiba que as diferenças são as regras, e não as exceções.

Homens e mulheres são diferentes por natureza em todos os âmbitos: psicológicos, fisiológicos, sociológicos etc. . As diferenças já começam no fato de vocês serem de sexos distintos — espero que nenhum homossexual surja aqui dizendo que os deixei de lado. Não é à toa que dizem que os homens são de Marte e as mulheres, de Vênus. Se quem foi criado com você, seus irmãos, já são completamente diferentes de você, imagine quem foi criado em condições totalmente diferentes! As diferenças certamente surgirão e não se espante com elas, mas saiba enfrentá-las e persista no amor que você sente.

4) Seja moldável sem se descaracterizar.

É importante saber ceder num relacionamento. Não existe isso de você querer que alguém ame você do jeito que você é e pronto. Se, na pior das hipóteses, você e o seu parceiro divergirem em tudo, resta a possibilidade de vocês cederem em certos pontos, não significando que vocês, simplesmente, não nasceram um pro outro. Há, no entanto, uma tênue linha que deve ser mantida e respeitada: ao mesmo tempo em que você deve aprender a ceder, você não deve descaracterizar-se completamente, esvaziar-se de si mesmo e deixar de ser quem você é, perdendo a sua identidade. Saber respeitar isso é extremamente complicado e só o tempo fornece a experiência necessária para saber fazer a distinção correta. Você estará no ponto certo quando você puder dizer: "eu sou outra pessoa com você: alguém mais parecido comigo mesmo".

5) Não deixe que o caráter passional do amor defina-o, mas torne-o uma decisão tomada no dia a dia.

Em outras palavras, existe uma diferença fundamental entre paixão e amor. As próprias definições nos dicionários confundem as palavras, mas até a Ciência já mostrou estatisticamente que a paixão dura, em média, pouco mais de um ano [1], embora também já tenha mostrado que é possível prolongá-la [2]. Ainda me questiono se os nossos sentimentos são apenas ação de substâncias bioquímicas ou algo mais. Acho que esse algo mais está na nossa capacidade de decisão. Nada contra a paixão; inclusive, se houver paixão no amor, melhor ainda, mas ela não deve definir o amor que se sente ou ser base dele. Trataria o amor como hiperônimo da paixão, pois o amor pode abrangê-la, mas a paixão pode existir sem o amor. Se você está tendo um relacionamento com alguém, decida amar essa pessoa a cada dia que você acordar: se o amor for uma decisão, ele será capaz de sustentar o seu relacionamento, independentemente de como esteja o nível da sua paixão.

6) Privilegie o papel do diálogo no seu relacionamento.

Busque essa interação na sua relação tendo em vista que você tem dois ouvidos e apenas uma boca. Estejam prontos para ouvir e sejam tardios para falar [3] e, quando forem falar, tenham em mente que a boca fala daquilo que o coração está cheio [4]; portanto, se o seu coração está cheio de amor, você irá sempre falar palavras de amor ao seu parceiro. Evite termos sinônimos de grosseria ou que sejam chulos. Tente sempre manter o nível do diálogo com palavras saudáveis. O diálogo abre espaço para discussão de idéias e dá oportunidade para que você conheça melhor o outro; da mesma maneira, é por meio do diálogo que você descobrirá, com antecedência, como vocês administrarão um lar, educarão os filhos e se existem grandes dissonâncias na maneira de vocês encararem a vida e os seus percalços.

7) Relacionamentos demandam tempo.

O belo texto de Eclesiastes 3 afirma que "há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu". Não há como manter um relacionamento se você não dispensar tempo de investimento nele. Acredito que este item serve de pressuposto para os outros itens porque não há como dialogar, conhecer, amar sem dedicar tempo para isso. Se você deseja ter um relacionamento saudável, é indispensável que você reserve o tempo necessário para tanto.

8) Tenha o amor por ideologia.

Respeite o amor como se fosse algo que não pertence só a você, como se fosse um nome de família que você leva e que, se você desonrá-lo, estará desonrando várias pessoas se não tomar os cuidados devidos. Seja engajado no que se refere ao amor, lute por ele, o preserve!

9) Tenha empatia pelo seu parceiro.

Ter empatia é a capacidade de colocar-se no lugar do outro. Uma pergunta fundamental que deve ser feita no seu modo de agir é: "Eu gostaria se ele/ela fizesse isso comigo?". Quando você age pensando dessa forma, as coisas ficam mais simples.

10) Não deixe o seu relacionamento cair no marasmo.

O item 5 evita, de certa forma, que o seu relacionamento não definhe por causa do marasmo, mas convenhamos que um namoro torna-se muito mais saudável quando ainda se tem romantismo, surpresa. Não fique preso às datas comemorativas e especiais, mas saiba surpreender o seu parceiro com presentes e com palavras de carinho em momentos inesperados. Títulos, alianças e afins não sustentam nada. Não é só em novela que relacionamentos de 30 anos acabam. Conheço relacionamentos de 50 anos que terminaram. Não sei as causas, mas a falta de romantismo é um fator que pode ser determinante. Sei que para nós, homens, é complicado ser detalhista, notar roupas novas, cabelos cortados, mas não custa nada fazer um esforço para elogiar sempre. Elogios em excesso nunca fazem mal.

11) Seja alguém responsável por aumentar a autoestima do seu parceiro. Seja amigo.

Na vida, não são poucas as pessoas que encontramos que estão sempre dispostas a derrubar-nos, deixar-nos para baixo. Não seja mais uma pessoa a fazer isso com o seu parceiro. Tenha sempre palavras de amor, superação, alegria. Levante o seu parceiro e seja o ombro amigo com o qual ele saiba que pode chorar, desabafar. No contexto da antiguidade grega, fazia-se distinção entre quatro tipos de amor: filéo, ágape, eros e stergo. O primeiro diz respeito a gostar de alguém, sentir afeição; o segundo, ao amor de Deus para com a sua Criação; o terceiro, ao amor erótico; e o último refere-se à afeição entre pais e filhos, entre um soberano e os seus súditos, ou mesmo entre um cão e o seu dono. Acredito que um relacionamento saudável deve ser a fusão dessas quatro instâncias, sendo que o descaso com relação a um desses tipos de amor pode ser determinante no insucesso de um relacionamento. Existe um poema do Jorge de Lima chamado "O acendedor de lampiões" que influenciou bastante o meu modo de enxergar o mundo. O poema fala sobre um acendedor de lampiões que é responsável por levar luz para as pessoas, mas que, na própria choupana, talvez não tenha luz. O poema termina dizendo que muita gente insinua nos outros crenças, religiões, amor, felicidade, sendo como o acendedor de lampiões que não tem luz na sua própria casa. Aprendi com o poema que, mesmo quando não estamos felizes, podemos fazer outras pessoas felizes. Mesmo quando você mesmo está para baixo, você pode ser responsável pela alegria de outra pessoa.

12) Seja fiel.

Não seja apenas fiel ao seu parceiro, mas seja fiel ao seu sentimento. Se for engajado com o amor, como disse num item 8, você será fiel ao próprio amor que você sente.

13) Tenha confiança.

Um relacionamento construído sobre desconfiança nunca poderá ser, de fato, saudável. É extremamente necessário que você confie em quem está com você. Se você não tem essa capacidade, é porque ainda não está suficientemente preparado para um relacionamento.

14) Materialize o que você sente.

Não adianta dizer todo dia que você ama o seu parceiro se você não demonstra isso nos seus pequenos gestos, na maneira como você trata-o, com o seu olhar. Tente expressar o que você sente das maneiras mais diversas possíveis. É uma necessidade humana apegar-se a coisas concretas para entender o abstrato; portanto, presenteie o seu parceiro, mas não ache que apenas objetos sofisticados e caros serão responsáveis por manifestar o seu sentimento. Tente ater-se a detalhes, momentos em que você pode mostrar que você, realmente, é alguém com quem se pode contar.

15) Seja cuidadoso ao lidar com o passado, o presente e o futuro.

Não seja o tipo de pessoa que fala insistentemente dos erros do seu parceiro ou que joga diariamente na cara dele fatos desagradáveis do passado. Importe-se com o seu presente. Valorize-o! Dê importância aos poucos momentos em que você pode estar ao lado de quem você ama, mas tenha sempre em vista o futuro — vide item 1.

16) Seja cúmplice.

Cumplicidade é um fator preponderante numa relação. Não tive a preocupação de organizar esta lista de maneira lógica e axiomática, para que ela contivesse o menor número de itens, e a prova disso é o fato de a cumplicidade dialogar com vários itens desta lista. Seja refém do seu amor, tanto do sentimento quanto do seu parceiro. Quando o seu parceiro estiver numa situação ruim, mesmo que ele esteja errado, não o exponha. Seja o primeiro a estender-lhe a mão. Mesmo que ele mereça ser repreendido, faça-o de maneira delicada e privada. Seja, da mesma maneira, o primeiro a defender quem você ama.

17) Relacionamentos têm altos e baixos.

Assim como tudo na vida, os relacionamentos têm momentos em que tudo parecerá estar bem e têm outros momentos em que parecerá que você está vivendo no próprio Inferno. Não se assuste com isso. As próprias alternâncias naturais de humor podem gerar esses altos e baixos. Seja responsável por não ser mantenedor dos momentos ruins, mas sempre procurar melhorar o seu relacionamento.

18) Prime pela verdade.

Não minta, nem omita, mas aprenda a dizer a verdade na hora certa e do jeito certo. Quanto a este quesito em particular, saiba que o fato de você ter razão não lhe dá o direito de fazer cobranças ou de colocar o outro em situação delicada. Comprometa-se com a verdade, mas com bom senso e sensatez. Um relacionamento construído na mentira não dura, gera desconfiança e traz outros inconvenientes.

19) Busque um bom relacionamento com os familiares e amigos do seu parceiro.

Se você pensa em ter um relacionamento duradouro, é imprescindível que você busque dar-se bem com a família e com os amigos do seu parceiro. Nunca diga ao seu parceiro para afastar-se de um amigo, até porque, quando os relacionamentos acabam, os amigos verdadeiros são aqueles que ficam. Dê tempo para o seu parceiro gastar com os seus amigos e familiares: da mesma maneira que ele precisa dispensar tempo para ter um bom relacionamento com você, ele precisa fazer o mesmo com outras pessoas com quem ele se relaciona. É complicado tentar fazer isso quando algumas figuras exóticas e nem um pouco edificadoras surgem, mas busque representar um papel de reconciliador, e não de criador de dissensões. Entenda também que, se o seu parceiro sentir a necessidade de sair sozinho ou fazer coisas sozinho, não quer dizer que ele não ama você ou não sente sua falta ou necessidade de estar ao seu lado, apenas ele tem preferências. Respeite isso.

20) "Um cordão de três dobras não se rompe com facilidade".

Mais uma vez citando Eclesiastes — um dos meus livros favoritos da Bíblia —, deixei este último item para quem crê em Deus, embora ele sirva também para reafirmar o item anterior, já que um relacionamento que tem apoio dos familiares e amigos tem mais consistência. Busque crescer com o seu parceiro em todos os âmbitos: cultural, social, intelectual e, principalmente, espiritual. Coloque o seu relacionamento na presença de Deus. Orem por vocês, busquem-nO! Compartilhem os seus desejos, sonhos e planos com Deus e tentem, juntos, criar um relacionamento de intimidade com Deus.


[1] http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2005/11/051128_amorcc.shtml

[2] http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2009/01/090105_amorpesquisaml.shtml
[3] Tg 1.9

[4] Lc. 6.45