segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sobre a perseverança dos santos

Creio que não falei ainda abertamente sobre o assunto aqui, até porque há pouco tempo que me identifico como arminiano, já que me converti há pouco mais de um ano [1]. Costuma-se utilizar sistemas reducionistas para a classificação de um arminiano. Parte-se, geralmente, dos cinco artigos da Remonstrância que defendem, grosso modo, a eleição condicional, expiação ilimitada, depravação total, graça resistível e preservação condicional dos santos. Não me aprofundarei nesses conceitos porque meu objetivo nesta postagem é outro; contudo, é importante lembrar que os remonstrantes foram ministros e teólogos que deram continuidade ao pensamento de Jacobus Arminius após sua morte. Assim como o Neoplatonismo difere do pensamento original de Platão, o pensamento defendido pelos remonstrantes diverge em alguns sentidos do pensamento originalmente defendido por Arminius. Para exemplificar, Arminius não tinha definição quanto à perseverança dos santos, embora parecesse crer no que se convencionou por perseverança condicional [2].

Creio nos cinco pontos defendidos pelos remonstrantes, mas até a madrugada de hoje ainda tinha problemas para defender o porquê d'eu não crer na perseverança dos santos — não estou falando da condicional. O único versículo bíblico que me restava para fundamentar a minha interpretação era o de I Jo 2.19. Ele afirma o seguinte:

"Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos. Se de fato fossem dos nossos, teriam permanecido conosco, mas eles saíram para que ficasse patente que nem todos são dos nossos.".
[ Novo Testamento Interlinear Analítico (NTIA) — Paulo Sérgio Gomes e Odayr Olivetti] (Aqui está a melhor tradução no meu entendimento a partir do original Grego)

Aqueles que crêem na perseverança dos santos afirmam que o versículo acima diz que, de fato, nenhum cristão genuíno desviar-se-á porque, sendo cristão verdadeiro, permanecerá na comunidade cristã e na fé. O grande problema para mim era conciliar o versículo acima com o seguinte texto de Hb. 6.4-6:

"Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, e caíram, é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública.". [NVI]

O texto de Hebreus é claro quando fala sobre pessoas que foram convertidas de modo genuíno, mas abandonaram a fé, sendo, inclusive, impossível que voltem a converter-se
[3]. Alguns intérpretes tentam dar outro significado ao texto, mas forçam a barra tentando manter sua crença na perseverança dos santos e, por conseguinte, na impossibilidade do cristão deixar de crer. Já ouvi até a explicação de que o texto mostra que é possível que um cristão deixe de ser cristão, mas que o fato nunca ocorrerá; contudo, adentraremos numa questão de linguagem porque algo que nunca ocorrerá é impossível e não possível, pelo menos quando lidamos com conjuntos que não sejam não-enumeráveis (Para aqueles que não são afeitos à Matemática, a Teoria da Probabilidade aceita eventos de probabilidade zero, que, teoricamente seriam impossíveis, mas que, na prática ocorrem, quando os conjuntos são não-enumeráveis. Por exemplo, qual a probabilidade de que alguém escolha o número 0,5 no intervalo real [0,1]? A probabilidade é zero, mas é possível que alguém escolha 0,5).

Estou, num primeiro momento, delimitando-me aos dois textos porque são aqueles que se digladiavam diretamente a meu ver; no entanto, existem várias referências utilizadas pelos defensores da perseverança dos santos para defenderem sua interpretação, assim como existem várias referências bíblicas utilizadas pelos contrários para defenderem sua posição. Meu intuito não é fazer uma análise exaustiva aqui, embora, talvez, algum dia venha a fazê-la aqui.

Voltemos ao texto de I João. Um dos grandes entraves na interpretação bíblica é quando se deixa de lado o contexto. Como se costuma dizer: "texto fora de contexto para tudo vira pretexto". No segundo capítulo do primeiro livro de João, ele começa, a partir do versículo 18, a tratar dos anticristos. A terceira pessoa do plural implícita na conjugação do verbo "sair" no início do versículo 19 refere-se, justamente, aos anticristos. Ora, quem são os anticristos? A palavra "anticristo", do grego "
anticristos" — antichristos —, aparece quatro vezes no Novo testamento, especificamente nos textos de I Jo 2.18, I Jo 2.22; I Jo 4.3 ; II Jo 1.7. A partir destes textos, sabemos que é chamado de anticristo aquele que
1 — Nega a encarnação [ I Jo 4.2-3; II Jo 7 ];

2 — Nega que Jesus é o Cristo [ I Jo 2.22 ];

3 — Nega a Deus, Pai [ I Jo 2.22 ] ;

4 — Não tem o Pai [ I Jo 2.23 ];

5 — É mentiroso [ I Jo 2.22 ];

6 — É enganador [ II Jo 7 ].

Pergunto eu: um agnóstico enquadra-se na descrição de um anticristo, visto que ele não nega a existência de Deus ou a divindade de Cristo, mas suspende o seu juízo? Vejam que o anticristo é um enganador e não um enganado, num sentido de ingenuidade ou ignorância. A negação não é de alguém que não sabe que Deus existe ou que crê que Deus não existe ou que Cristo não é divino; pelo contrário, ele sabe que Deus existe e antepõe-se a Ele. A própria etimologia da palavra, tanto na tradução portuguesa quanto no original grego, demonstra a deliberada atitude contrária a Cristo. Teria sentido contrapor-se a algo que se supõe não existir? Até um ateu, portanto, não parece enquadrar-se na descrição de João de um anticristo.

Percebam, também, que os anticristos são enganadores e mentirosos, portanto, mesmo que tenham professado em algum momento serem cristãos, faziam-no de modo enganador e não genuíno. Vejam, contudo, que não interessa muito, para a nossa análise, a quem o texto dirige-se porque o mais importante é que ele caracteriza os cristãos como aqueles que permanecem, independentemente de quem saiu do meio. Em outras palavras, se um corinthiano defende que quem é verdadeiramente corinthiano nunca o deixará de ser, não importa se alguém que já afirmou ser corinthiano, mas o deixou de ser, é flamenguista ou palmeirense atualmente. Digo isso porque farei uma crítica às explicações que encontrei pela net
[4].

Para fins de resumo, traduzirei um texto do Robert Shank para refutar sua linha de argumentação — desculpo-me, de antemão, pela qualidade da tradução, que não é o meu forte.
“Eles saíram do nosso meio, mas eles não eram dos nossos; se eles tivessem sido dos nossos, teriam sem dúvida continuado conosco; contudo, saíram para que se fizesse manifesto que nem todos eram dos nossos” (I João 2.19). Alguns têm asseverado que as declarações de João indicam que todos aqueles que professam falsamente irão eventualmente retirar-se da companhia dos verdadeiros crentes (o que é contrário a várias passagens da Escritura) e que todos que se retiram nunca foram verdadeiros crentes (o que é contrário tanto às passagens de admoestação quanto aos registros de reais exemplos de apostasia). No que diz respeito aos anticristos citados por João, existem duas possibilidades. Suas profissões de fé devem ser falsas desde o princípio; ou, eles devem ter sido apóstatas reais que abandonaram a fé e afastaram-se de Cristo. As duas circunstâncias podem ser reais. João afirma apenas que, no momento em que se afastaram da comunidade espiritual de crentes genuínos, “eles não eram dos nossos”; caso contrário, eles teriam permanecido na comunidade com fidelidade.
Observemos que, qualquer que tenha sido a perspectiva circunstancial dos anticristos, João estava escrevendo sobre exemplos específicos, mais do que declarando um princípio universal. Precavemo-nos da falácia de assumir que toda verdade pode e deve ser reduzida a uma única sentença da Escritura, e que a circunstância precisa num exemplo de deserção necessariamente governa a circunstância em outros exemplos. Existem várias pessoas cujas profissões de fé são falsas desde o início, e existem outras que abandonaram a fé e retiraram-se de um relacionamento salvífico com Cristo. As Escrituras reconhecem ambas as circunstâncias, e a precisa circunstância dos anticristos citada por João determina nada a respeito de outras circunstâncias. Observemos que, após citar o trágico registro de anticristos que negaram que Jesus é o Cristo (vs.. 18-23), João urgentemente avisa seus filhos na fé a precaverem-se contra o perigo de sucumbir às tentações dos anticristos, abraçando sua heresia fatal, falhando na retenção do verdadeiro Evangelho salvífico e na permanência no Filho e no Pai, compartilhando da vida eterna Nele. (vs. 24-28).".

Quando Robert Shank diz que o texto de I João refere-se apenas a um momento específico, ele comete um sério engano. O primeiro texto da referência [5] chega a dizer que o texto não diz que os anticristos nunca foram cristãos, mas que apenas não eram cristãos no exato momento de sua retirada da comunidade — "Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos.". Pode-se refutar essa linha de argumentação de uma maneira simples. Suponhamos três tempos seqüenciais, t1, t2 e t3. Suponhamos que t3 é o tempo presente, no qual João escreve, e t2 um tempo no qual os referidos anticristos saíram dos nossos, ou seja, do convívio do meio cristão. Mesmo que o texto falasse de um tempo específico do passado t2, se formos ao tempo t1, os anticristos, se fossem cristãos, de acordo com o texto, nunca deveriam ter saído dos nossos, pois quem é dos nossos permanece; portanto, o texto apresentaria uma contradição interna se ele se referisse apenas a um tempo específico. A questão não se restringe a uma questão de restrição de temporalidade portanto e os tais anticristos teriam de nunca ter sido cristão em todo o tempo.

Quanto à afirmação de que a circunstância dos anticristos nada diz respeito a situações gerais, volto à situação do flamenguista e do palmeirense que já foram corinthianos. O que um flamenguista teria de diferente de um palmeirense para que ele nunca pudesse ter sido um corinthiano verdadeiro? A afirmação de que todo corinthiano autêntico permanece corinthiano nada diz respeito à natureza de quem, porventura, tenha afirmado um dia ter sido corinthiano. Em outras palavras, não importa se o texto trata dos anticristos em particular, mas o modo como se caracteriza um cristão de maneira genérica.
Para conciliar o texto de I João com o de Hebreus, proponho uma solução. Teremos de voltar ao texto de I João.

1 ) “Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos”
O texto afirma que os anticristos pertenciam ao convívio dos crentes, mas não eram crentes propriamente ditos. É interessante contrastar esse fato com os seguintes textos:

At. 20.30
“E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos.”.

I Cor. 11.19
“Pois é necessário que haja divergências entre vocês, para que sejam conhecidos quais dentre vocês são aprovados.”.
É interessante notar que o texto de Atos pode referir-se tanto a cristãos que se tornaram enganadores ou a anticristos que nunca foram cristãos. O texto de Coríntios, por sua vez, fala que, no meio cristão, existem aqueles que serão aprovados e, portanto, outros que serão reprovados. Numa outra tradução, o mencionado texto de Coríntios toma a seguinte forma:

“Na verdade, para que os legítimos sejam conhecidos entre vós, é preciso que haja divisões no vosso meio.”. [NTIA]

De fato, o termo grego dokimoidokimoi —, traduzido por "legítimo", tem as acepções de provado, experimentado, de caráter aprovado, fiel. Ora, parece haver, portanto, uma distinção entre um simples cristão e um cristão aprovado. 

2) “mas eles saíram para que ficasse patente que nem todos são dos nossos.”.
É importante destacar que aqui se encontra a explicação de por que os anticristos saíram. Eles saíram do convívio, e não do Cristianismo, como já explanado, para que ficasse claro que nem todo aquele que está no convívio cristão é-no de fato. Poder-se-ia concluir isso apenas analisando a lógica da seguinte parte do versículo: 

"Se de fato fossem dos nossos, teriam permanecido conosco"

Vejam que o fato de uma proposição A implicar B não significa, necessariamente, que B implica A; ou seja, o fato de ser dos nossos implicar permanência não significa que da permanência pode-se concluir que se é dos nossos, o que dá abertura para pessoas que estão no convívio cristão, permanecendo, mas não fazem parte dos cristãos de fato.

Cristão Legítimo e Cristão Ilegítimo

A partir das caracterizações feitas, creio que temos de partir da conceituação de cristão legítimo e cristão ilegítimo, aproveitando a contextualização que foi feita do termo grego dokimoi. Possam, talvez, sugerir que o cristão ilegítimo não é cristão, assim como uma pedra preciosa ilegítima não é preciosa, mas, descontando as contradições terminológicas associadas às denotações dos termos, proponho que a ilegitimidade seja vista como uma possível adjetivação possível ao cristão que não o descaracteriza ao ponto dele não poder ser adjetivado, conjuntamente, de cristão. Creio que seria menos confuso criar um novo termo, talvez "cristão adokimoi", para falar de um cristão que não permaneceu ou não permanecerá; no entanto, acredito que feita essa ressalva, não haverá problemas.
Para melhor exemplificar, faço uso das palavras de Cristo sobre a Videira e os Ramos contida no texto de João 15.1-8

1 "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. 2 Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda. 3 Vocês já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado. 4 Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim. 5 "Eu sou a videira; vocês são os ramos. 6 Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma. Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados. 7 Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido. 8 Meu Pai é glorificado pelo fato de vocês darem muito fruto; e assim serão meus discípulos.”

Percebam que Cristo fala de um ramo que está Nele, mas que não dá frutos e que o destino de tal ramo é ser jogado fora. Aí temos um exemplo de um cristão, pois está em Cristo, mas que é ilegítimo, pois não produz frutos e é jogado fora. Vejam, também, que a permanência na videira é prerrogativa para o ramo dar fruto. A ilegitimidade, portanto, associada à falta de frutos, está, igualmente, associada à não-permanência na videira. É importante ressaltar que uma vez que Cristo é a cabeça da igreja, não permanecer na comunidade cristã, ou na igreja, implica não permanecer no próprio Cristo.
Retornando ao texto de I Jo 2.19, façamos uma conversão do trecho do livro de João utilizando a terminologia proposta:

“Saíram do nosso meio, mas não eram cristãos legítimos. Se de fato fossem-no, teriam permanecido conosco, mas eles saíram para que ficasse patente que nem todos são cristãos legítimos.”.

Assim, o texto não contradiz o texto de Hebreus, pois lá, fala-se de cristãos, de fato, já que estavam em Cristo, usando a terminologia de João 15 — prova disso é quando se fala que eles foram iluminados, provaram o dom celestial e tornaram-se participantes do Espírito Santo —, mas ilegítimos, pois não permaneceram na fé.
É importante ressaltar também que o próprio capítulo 2 de I João, no versículo 24, faz a seguinte admoestação:
"Quanto a vocês, cuidem para que aquilo que ouviram desde o princípio permaneça em vocês. Se o que ouviram desde o princípio permanecer em vocês, vocês também permanecerão no Filho e no Pai.". [NVI]

Ora, por que João colocaria uma condição de permanência em Deus se não existisse a possibilidade do salvo deixar de permanecer? Costumo comparar as admoestações bíblicas a placas na estrada. Teria sentido Deus colocar uma placa numa estrada escrito "Atenção! Curva Sinuosa" se não houvesse curva sinuosa? Deus seria mentiroso e o próprio texto de I João 2, no versículo 21, afirma que "nenhuma mentira procede da verdade", mas Cristo, em João 14.6, afirma ser a própria verdade!
Aproveitando o assunto da perseverança dos santos, outro texto que costuma ser utilizado para defendê-la é o de João 10.28 que diz:

"Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão.".
[ Almeida Revista e Atualizada ]

Uma simples análise da construção dos tempos verbais indica o significado do texto. Percebam o seguinte. O primeiro verbo está no presente; contudo, faço uma pergunta: o salvo tem a vida eterna? A minha resposta é: depende. Explico-me. Na realidade, não temos a vida eterna em ato porque, de fato, morremos. Não viverei eternamente, pelo menos a priori — digo a priori porque não sei até onde a Ciência pode desenvolver-se nessa área. Vejam que quem tem a vida eterna em ato jamais perecerá, mas perecemos! O que ocorre é que o texto fala da vida eterna em potencial. A vida eterna que recebemos quando nos convertemos é potencial. De fato, depois do juízo final, apoderar-nos-emos da vida eterna, vivenciando-a em ato, e não morreremos e aí sim ninguém nos arrebatará das mãos de Deus. De qualquer maneira, João 15, transcrito acima, explica que, de fato, ninguém, mas só o próprio Deus é capaz de tirar um salvo de suas mãos e Ele, realmente, faz isso. O trecho dos versículos 5 ao 8 tornam isso claro. Quando um cristão não permanece na fé, é Deus quem o lançará ao fogo!

Para terminar, creio na perseverança condicional dos santos. Os crentes são mantidos seguros por Deus em seu relacionamento com Ele sob a condição da permanência na fé; contudo, ao mesmo tempo em que Deus nos responsabiliza pelos nossos atos, o que demanda uma atitude nossa, não conseguimos nada sem que Ele esteja conosco. O processo de permanência na fé é uma via de mão dupla: ao tempo em que o buscamos de maneira voluntária, Deus fornece o que necessitamos para permanecermos Nele. Coisa parecida ocorre com a nossa salvação: utilizando uma famosa analogia, Deus é como um pai que levanta uma criança na direção de uma árvore para que ela apanhe um fruto; no entanto, se a criança não estender os braços e pegar o fruto com suas mãos, ela nunca poderá apossar-se do fruto. Ao mesmo tempo em que somos totalmente dependentes de Deus, Ele quer que sejamos responsáveis pelos nossos atos.
[1] Quero postar um texto aqui sobre como se deu minha conversão, mas sempre postergo a data.
[2] Vejam este texto de Arminius:http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=article&id=182%3A5-sobre-a-perseveranca-dos-santos&catid=76%3Ajames-arminius-as-obras-de-james-arminius-vol1-&Itemid=100030

A sua obra completa em Inglês pode ser encontrada no seguinte link:
http://www.ccel.org/ccel/arminius/?show=worksBy
[3] Excelente texto do Antonio Lazarini Neto sobre a interpretação do referido texto:http://www.vidanova.com.br/teologiadet.asp?codigo=136

Um bom livro sobre o assunto é um de autoria do Michel Augusto intitulado "Apostasia — O abandono da fé", prefaciado pelo Russell Shedd


[4] Visão arminiana de I Jo. 2.19


[5] Vejam a página 32:

sábado, 12 de junho de 2010

10 Questões Teológicas

Sempre gostei de listas. Acompanho alguns blogs na net que são estruturados à base de listas[1] — Zeca Camargo costuma lançar boas listas no seu blog[2] — e, além do mais, costumo comprar revistas que listam obras literárias, filmes etc. .[3] Já comentei sobre o assunto aqui no blog na minha segunda postagem[4], listando as 10 maiores palavras da nossa Língua. Numa postagem recente, listei os 10 livros que mudaram minha vida. Hoje, listarei 10 questões teológicas que têm tirado minhas noites de sono — um professor meu costumava dizer que se você precisa utilizar aspas para ser irônico, ou para fazer uso de alguma figura de linguagem, a sua escrita não é boa. Listarei as questões de forma aleatória; portanto, elas não estão em ordem de dificuldade ou em qualquer outra seqüência, crescente ou decrescente, qualitativa ou quantitativa. Enfim, aí está a lista:

1. Substancialidade do Homem

Esta é a única questão a que cheguei a uma resposta quase definitiva. Pretendia, inclusive, postar sobre o assunto aqui em três partes — a primeira, tratando do Monismo; a segunda, tratando, do Dicotomismo e a terceira, tratando do Tricotomismo. Tenho até um título preparado para a postagem. Para quem não está familiarizado com a terminologia no campo da Antropologia Cristã, a Bíblia costuma tratar o homem em termos de três conceituações: corpo, alma e espírito. O Monismo defende que o homem é constituído apenas de uma substância; o Dicotomismo, que somos constituídos de duas substâncias e, finalmente, o Tricotomismo, que somos constituídos de três substâncias. Mesmo chegando a uma conclusão sobre o assunto, resolvi pensar mais sobre ele porque encontrei muita bibliografia interessante e, também, porque quero fundamentar bem o meu raciocínio.

2. Trindade
Introduzirei a minha questão quanto à trindade com uma pergunta que enviei ao programa do Luiz Sayão na Transmundial[5]:

A cristandade tem assumido, historicamente, que Cristo, enquanto viveu na Terra, era totalmente homem e totalmente Deus. Hebreus 1.3 diz que Cristo é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata Dele; contudo, em Mateus 24.36, Cristo diz que ninguém sabe o dia e a hora de sua volta, a não ser o pai. Se Cristo era totalmente Deus, deveria ser, igualmente, onisciente e, portanto, deveria saber o dia de sua volta. Se a falta de informação sobre a data de sua volta era uma condição temporária de seu estado humano, Cristo, enquanto Deus, seria mutável. Como aliar a onisciência e imutabilidade divina nesse caso?

Desde Agostinho, tem-se certa compreensão sobre a trindade que se costuma ter como verdadeira, no que tange a Cristo, diz-se que ele era totalmente homem e totalmente Deus. O que foge à interpretação agostiniana costuma ser tido por herético. Não gosto deste termo — "herético" — por questões históricas. Não consigo entender, inclusive, como os protestantes emprestaram essa palavra para fazer acusações depois de sofrerem tanto nas mãos da Igreja Católica. Em suma, questões históricas à parte, ainda não tenho uma visão clara sobre o assunto, tanto bíblica quanto logicamente. Falo dessas duas áreas porque creio que é importante raciocinar não só em termos bíblicos — a partir da Revelação Especial —, mas em termos de Teologia Natural — a partir da Revelação Geral — também.

3. Criação do Homem
Por que Deus criou o homem? Para mim, essa é uma grande questão. Pode, num primeiro momento, parecer sem muito sentido questionar-se a respeito disso, mas tentarei explicar o que essa questão traz consigo. Em primeiro lugar, a partir de uma concepção que remonta aos pensadores gregos, particularmente aos epicuristas, a perfeição leva ao repouso, ou seja, algo só está em movimento se é imperfeito. Como situar o Deus cristão diante dessa concepção de perfeição? Como argumentar contra ela? Outra questão que surge quando pensamos no que Deus fazia antes de criar o Universo é referente ao tempo. Partindo-se do pressuposto de que Deus é atemporal, outra herança agostiniana, como pensar Deus em termos de momento de criação? Em outras palavras, por que Deus criou o Universo num dado momento, e não antes, mas como, ao mesmo tempo, podemos falar de momento, se não existia o tempo? Embora não seja adepto do que tem sido chamado de Teísmo Aberto, acho algumas idéias interessantes. Uma delas é a que fala de um Deus que evolui com o tempo; contudo, teríamos de criar uma idéia de mutabilidade divina que seria difícil de construir a partir do texto bíblico.

4. Escatologia
Talvez, essa seja a área na qual tenho menos definições. Por conta da famosa e excelente série de livros "Deixados para trás", do Tim LaHaye e do Jerry B. Jenkins, considerava-me pré-milenista num primeiro momento; contudo, não tinha estudado muito sobre o assunto e refletido sobre as outras linhas de interpretação. Desde criança, inclusive, a visão geral que me foi passada no que se refere aos últimos tempos foi a pré-milenista. Quando comecei a estudar mais, contudo, percebi que a base de interpretação bíblica que se usa reflete a sua interpretação dos textos escatológicos. Sou avesso à interpretação literalista e fiquei feliz quando estudei que os primeiros padres no Cristianismo tinham a mesma aversão, mesmo sabendo que o uso do argumento de autoridade é falacioso. O movimento fundamentalista, surgido em contraponto ao crescente liberalismo, foi o responsável por uma onda de equívocos na Hermenêutica Bíblica, se é que se pode chamar o literalismo de Hermenêutica, já que ele desconsidera boa parte da metodologia para ter-se uma boa interpretação de um texto.

A minha indefinição na área deve-se também ao fato de que, mesmo escolhendo uma das três opções escatológicas — Amilenismo, Pré-Milenismo ou Pós-Milenismo —, dentro do Pré-Milenismo ainda se tem três linhas — Dispensacional , Histórico ou Pré-Tribulacionista — e no Pós-Milenismo, duas linhas — Revivalista ou Reconstrucionista. Por enquanto só falei das interpretações quanto ao milênio, ainda se tem diferentes visões quanto ao julgamento — Idealismo, Futurismo, Historicismo e Preterismo — sendo que esta subdivide-se em total ou parcial. Vejam o quão intrincada é a área. É interessante ver as discussões de dois tios meus que são pastores, um amilenista e outro pré-milenista[6].

Gostaria de entender por que o Pós-Milenismo não é tão popular quanto na época de Agostinho e na época da Reforma Protestante e por que hoje a visão predominante na cristandade é a Pré-Milenista. Da mesma forma, gostaria de entender por que os batistas, historicamente, eram partidários do Amilenismo.

5. Culturalização Bíblica
Essa questão é bem hermenêutica, embora toda questão seja um problema hermenêutico no fim das contas. Gostaria de entender quais são os pressupostos para tornar uma descrição bíblica própria da cultura da época, enquanto outras são tidas por universais e atemporais. Por exemplo, por que não damos importância para o uso do véu por parte das mulheres ou para o silêncio delas nas igrejas, mas não tratamos as questões acerca da sexualidade da mesma maneira? Poderia enumerar muitas outras questões. Sei que não vivemos no legalismo, mas qual a nossa base de interpretação para considerar um ato cultural ou não? Creio que não existe uma sistematização para um crivo correto na área.

6. Teologia Apofática ou Teologia Catafática?
A Teologia Apofática, ou Teologia Negativa, é aquela que busca entender Deus a partir daquilo que ele não é ou não pode ser; em contrapartida, a Teologia Catafática, ou Positiva, busca a caracterização de Deus a partir de afirmações plenas — digo "afirmações plenas" porque uma negação acaba sendo uma afirmação também, por mais contraditório que pareça. Muitos erros que vejo serem perpetrados por teólogos hoje surgem do abandono da perspectiva apofática. Creio que ela evidencia e problematiza a linguagem.

Por que chamamos um gato de "gato" em vez de "cachorro"? Chamar um gato de "gato" diz nada a respeito do animal. As palavras são associações e rótulos que pregamos de modo aleatório nas coisas. Quando digo que "Deus é justo", estou dizendo absolutamente nada, pois Deus é algo muito além daquilo que posso denominar "justiça". Aliás, Hume faz uma crítica ao pensamento por analogias que cabe bem no âmbito da Teologia. Quando eu chamo a sustentação de uma mesa de perna, estou fazendo uma comparação com a perna humana, mas até que ponto as duas coisas são semelhantes, se é que se pode encontrar semelhança que permita fazer tal analogia.

Estou lendo um livro do John Piper intitulado "Em Busca de Deus" que, freqüentemente, incorre no erro de antropomorfizar Deus. Acredito que mesmo com as limitações da nossa linguagem e da forma como pensamos, podemos não cair no ceticismo absoluto. Como eu disse no início, a Teologia Negativa acaba flertando com a Positiva. A grande questão para mim é como conciliar de maneira adequada as duas perspectivas. O Pseudo-Dionísio, que era confundido com o Dionísio convertido por Paulo (At. 17.34) tem uma obra interessante sobre o assunto, especialmente a sua obra "Nomes Divinos"[7].

7. Atributos Divinos
Esta questão dialoga com a anterior e com a questão da trindade. Descobrir os atributos divinos por meio da Bíblia não é uma tarefa tão complicada, mas as deduzir, usando a Lógica apenas, é mais complicado. Por que Deus, necessariamente, tem de ser onisciente, onipotente, onipresente, infinito etc. ? William Lane Craig é um pensador que tem trabalhado nesse sentido[8]. Ele, por exemplo, já tratou a questão da necessidade de um Deus com consciência a partir do pressuposto do Big Bang.

Uma questão que tenho trabalhado em particular é a da imutabilidade divina, como já disse na questão da criação do homem. A Bíblia trata Deus, em diversas passagens, em termos de mutabilidade — por exemplo, quando se diz que Deus arrepende-se (Gn. 6.5-7; Êx. 32.12; ISm .15.10,11,35; IISm. 24,16; Jr. 18.7,8; Jl. 2.13; Jn. 3.10). Os teólogos costumam explicar tais passagens em termos de uso de linguagem humana para nossa maior compreensão do próprio Deus[9], mas e quando se fala do poder de Deus sendo aperfeiçoado (IICor. 12.9)? Trata-se da mesma simplificação de linguagem? Creio que temos de entender a questão da imanência de maneira mais adequada. O fato de Deus ser perfeito em si implica perfeição na manifestação de seus poderes e atributos? Para exemplificar, se um bebedouro é perfeitamente construído, necessariamente ele tem de fornecer água limpa? Digamos que o bebedouro seja daqueles que não têm filtro, mas apenas comportam um galão d'água. Se este não tiver água limpa, o bebedouro fornecerá água suja.

Pensar na manifestação dos atributos de Deus dessa maneira seria uma opção? Creio que não necessariamente, já que temos de pensar que os atributos de Deus confundem-se com a sua própria essência, vide o seu amor: Deus é amor em si mesmo, mas o manifesta também. Essa questão acaba sendo bem complicada, já que não envolve apenas listar os atributos de Deus, levando-se em conta a questão colocada antes por mim sobre a Teologia Apofática e a Catafática, mas também as entrelaçar de modo que formem um corpo coerente e funcional.

8. Angeologia
Das questões da lista, esta é a mais recente no meu pensamento. Foi por meio do livro "Hierarquia Celeste", do Pseudo-Dionísio, que passei a questionar o porquê da existência dos anjos, em suas diversas classes — serafins, querubins, arcanjos etc. . De fato, se eu questiono a existência do homem e do Universo, faz sentido questionar-me acerca dos anjos. Pseudo-Dionísio os situa como intermediadores necessários entre Deus e os homens, seguindo mais ou menos a epistemologia platônica; no entanto, a onipotência divina dispensaria a necessidade de intermediadores, então, não vejo muito sentido na existência dos anjos.

Acho, também, interessante pensar sobre os anjos a partir da perspectiva da vida dos santos no céu, principalmente a partir da dissidência de Satanás e seus comparsas. Explico-me. Se Satanás teve o desejo de ser maior que Deus, por que, nós, na eternidade, não teríamos desejo semelhante. Nessa área, não estou tão perdido quanto na Escatologia, mas li muito pouco a respeito. Um bom livro que me deu boas idéias sobre o assunto foi "Destino Final" do Daniel Brown.

9. Necessidade do sacrifício de Cristo
Assim como a onipotência divina, no campo da Angeologia, dispensaria os anjos como intermediadores necessários entre Deus e os homens, ela também dispensaria o ato sacrificial de Cristo, pois Deus poderia, num átimo de pensamento, declarar o perdão dos pecados do homem, justificando-o e tornando-o puro. Tenho a tendência para crer num pretendido vivenciamento da humanidade por parte de Deus, além de uma exemplificação concreta de pureza para nós utilizarmos como paradigma; contudo, creio que essas duas razões são demasiadamente rasas para sustentar a necessidade da vinda de Cristo, já que os israelitas, na Antiga Aliança, não tinham alguém concreto para mirar-se, mas eram igualmente, possivelmente até mais, cobrados do que nós.

Essa questão envolve outras em torno da onipotência divina. Por exemplo, por que Deus diria a Moisés que ele não poderia vê-lo, pois morreria (Êx. 33.20)? Deus não poderia utilizar sua onipotência e munir Moisés de alguma forma? Alguns poderiam dizer que não nos cabe questionar o modo como Deus age e que ele é soberano para fazer o que quiser. Acho esse tipo de raciocínio simplório. Deus, enquanto Logos, possui um procedimento padrão no seu agir. Fico imaginando se Deus age de modo determinístico ou estocástico. Para exemplificar, Deus, enquanto amor, pode agir maleficamente? Não! Onde fica a sua onipotência então? Questionamentos desse tipo são parecidos com raciocínios sobre se Deus poderia criar uma pedra que ninguém pode levantar. Tomás de Aquino, no primeiro livro de sua Suma Teológica, trata com inteligência essa questão. Temos de tratar Deus a partir de ações logicamente possíveis[10]. Pensar em Deus como Logos fornece alguns resultados. Podemos imaginar que poderia existir um outro Universo ou este é, simplesmente, como disse Leibniz, o melhor dentre os mundo, não podendo ser de outro modo? Esse determinismo poderia ser transferido para o ato sacrificial de Cristo?

10. Deus do Antigo Testamento x Deus do Novo Testamento

Essa é uma das grandes questões que tem incomodado os teólogos de todos os tempos. Como conciliar o Deus do Antigo Testamento com o do Novo? Por que Deus era tão severo em seu julgamento, mas parece ser tão displicente hoje? Como o mesmo Deus pôde mandar o extermínio completo de cidades, incluindo crianças, mulheres grávidas etc. , e mandar Pedro abaixar a espada contra um soldado? Como o mesmo Deus que parece valorizar tanto a vida no Novo Testamento, desdenha dos parentes e servos de , conservando apenas a vida deste? Um livro que me deu certas dicas sobre como raciocinar sobre tais discrepâncias foi "Deus Mandou Matar? — 4 Pontos de Vista Sobre o Genocídio Cananeu" — editado por Stanley Gundry —; contudo, tenho muitas dúvidas a respeito do assunto.

Discutindo, recentemente, sobre o assunto, percebi que ao mesmo tempo em que Deus deixou de atuar de modo evidente e explícito no mundo, fazendo cair o maná do céu, abrindo o mar etc. , Ele também deixou de ser severo, ou seja, sua atuação explícita é diretamente proporcional à sua severidade. Essa relação é factual quando se observa a atuação de Deus no decorrer do texto bíblico, mas existe alguma lógica para que Deus aja assim ou tenha agido de tal maneira no decorrer da História? A conciliação entre Antigo e Novo Testamento é uma tarefa árdua, mas creio que assim como Cristo é a chave hermenêutica para o entendimento de tudo, Ele também é a chave de compreensão para entender-se como Deus age.


[1] http://listasde10.blogspot.com/ e http://lista10.org/

[2] http://colunas.g1.com.br/zecacamargo

[3] A revista Bravo! lançou ótimas revistas com os 100 mais da Literatura brasileira, mundial etc. .

[4] http://fabiosalgado.blogspot.com/2009/01/sempre-gostei-de-listas.html

[5] http://www.transmundial.com.br/noticias/noticia_inteligente.php3?id=662

[6] Um dos meus tios, o que é amilenista, recomendou-me o livro do Millard Erickson "Opções Contemporâneas na Escatologia", que foi republicado com o título de "Escatologia" pela Editora Vida Nova — http://www.vidanova.com.br/produtos.asp?codigo=440 . O livro pode ser encontrado em PDF no seguinte link: http://www.ebenezer.org.br/Download/Onezio/Escatologia.pdf

[7] Neste link: http://www.ccel.org/ccel/dionysius/works.html encontra-se a obra completa do Pseudo-Dionísio. Esse site é muito bom para encontrar obras de teólogos da cristandade.

[8] Vejam este excelente artigo dele, por exemplo:
http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=5182 (
Timelessness and Omnitemporality). O site dele tem ótimos artigos! Recomendo!

[9] http://www.monergismo.com/textos/presciencia/arrependimento_deus.htm

[10] Paradoxo da Onipotência: http://pt.wikipedia.org/wiki/Paradoxo_da_omnipot%C3%AAncia
Suma Teológica do Tomás de Aquino em PDF: http://www.ccel.org/ccel/aquinas/summa.pdf

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Festas de aniversário

Sei que posso parecer antiquado, mas sou do tempo em que quando se convidava uma pessoa para a sua festa de aniversário, você não tinha de pagar para comer e beber. Quando se consulta a palavra "convite" no dicionário Houaiss, vê-se que uma das acepções refere-se a um bilhete que dá direito à entrada GRATUITA. Embora outras acepções não explicitem a idéia de gratuidade, a própria etimologia da palavra — do catalão convit —, que faz referência aos banquetes, agrega-a.

Não sou antiquado, mas saudosista (Uma pequena digressão minha... Nostalgia não é sinônimo de saudosismo: aquela traz consigo a melancolia, enquanto esta não necessariamente. No meu conto "Cinco Cigarros", trato a nostalgia como um "saudosismo ressentido"). Tenho saudades do tempo em que o convite para o comparecimento a um aniversário era um requerimento da pessoa e não do bolso. É engraçado ver, também, que os aniversariantes costumam convidar-nos para estabelecimentos que não cobram dos aniversariantes, a partir de um certo número de convidados. Se for para dizer que alguém é sovina na história, não sou eu, mas o aniversariante.

Possam, talvez, argumentar que o dinheiro que era utilizado na compra de presentes foi substituído pelo dinheiro que se gasta para comer no estabelecimento; contudo, até onde saiba, o presente nunca foi obrigatório. Possam, outrossim, dizer que, da mesma forma, não é obrigatório que o convidado gaste dinheiro comendo e bebendo, mas convenhamos que é muito pior gastar algumas horas observando todos comendo e bebendo, especialmente se o estabelecimento for um local de rodízios, do que apenas não levar um presente.

Faz algum tempo que não sou afeto a aniversários e explico por quê. Qual o significado do aniversário? Bem, comemora-se o dia em que você nasceu. É um dia representativo portanto, já que a data do seu nascimento não voltará. O tempo, pelo menos sem nos aprofundar muito, é linear. Imaginem uma reta numerada. Digamos que o zero é fixado na reta quando você nasce e que os números subseqüentes representam o passar do tempo. Você nunca voltará à estaca zero, mas, no máximo, poderá criar um espaçamento fixo para comemorar o que você denominará de aniversário.

Escolheu-se o ciclo da Terra ao redor do Sol para denominar-se o que chamamos de "ano"; contudo, qualquer outro ciclo poderia ser escolhido para chamarmos-lhe de ano. Voltando ao exemplo da reta, qualquer espaçamento do ponto fixo zero poderia ser escolhido para comemorar-se os aniversários. Tive esse raciocínio há alguns anos, mas alguns conceitos que aprendi posteriormente acrescentaram algumas idéias sobre ele.

Aprendi, estudando Física, os conceitos de Isotropia e Anisotropia. Para quem não conhece os termos, mas sabe um pouco de Grego, saberá que "iso" significa "igual", "tropos", "lugar" e "ánisos", "desigual". Para resolvermos alguns problemas, supomos que o Universo é isotrópico, ou seja, que ele tem as mesmas propriedades físicas independentemente da direção escolhida. Sempre fui um pouco desconfiado com essa suposição, mas lendo sobre Cosmologia, achei-a mais razoável. Na minha aula de Filosofia da Religião, o professor utilizou-se desses conceitos para referir-se à falta de comunicação entre a Filosofia/Ciência e a Religião. Ele disse que o problema é que aquelas enxergam o mundo de forma isotrópica e esta de forma anisotrópica.

Em outras palavras, quando a Religião considera qualquer coisa sagrada, as instituições laicas não a reconhecem como tal. Essa idéia pode ser levada para os aniversários. Não consigo entender por que as pessoas consideram um determinado dia com tanta importância, em detrimento dos outros. Por que eu, por exemplo, deveria considerar de modo diferente um parabéns dado a mim no dia 13 de novembro — dia em que nasci — do dia 14 ou de qualquer outro dia, tendo-se por base que aquele dia é representativo e não exatamente o dia em que nasci?

Creio que uma visão isotrópica de mundo evitaria uma sucessão de caprichos humanos. Achei muito interessante o empréstimo de termos que o meu professor de Filosofia da Religião fez. Poderia desenvolver todo um pensamento a partir dessa distinção de visões de mundo. No fim das contas, entramos no âmbito da Hermenêutica. Já faz um tempo que quero tratar aqui sobre o assunto e dizer como tenho ficado deslumbrado com esse campo. Tudo acaba reduzindo-se à Hermenêutica e dedicarei uma futura postagem ao desenvolvimento dessa idéia.

Para terminar, se você está lendo esta postagem, já sabe que se me convidar para um aniversário no qual terei de pagar, não irei nem para cumprimentá-lo, pois minha gasolina não é água.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

10 livros que mudaram minha vida

Não sei exatamente quando e como me sobreveio a idéia de listar no blogue 10 livros que influenciaram de uma maneira direta a minha vida. Não tive por critério de seleção a qualidade literária dos textos; por isso, não listei grandes nomes da Literatura como Goethe ou Tolstói. Se algum dia tiver uma obra literária relacionada ao romance, poderei fazer uma lista de influências — os dois romancistas citados constarão nessa lista certamente.

O que há de comum nos livros que mencionarei é que todos eles provocaram uma mudança de perspectiva na minha vida: ou adotei novos paradigmas ou abandonei preconceitos e pressupostos. Lamento o fato de nem todo mundo possuir o prazer da leitura. A inércia, seja no sentido de paralisia ou no de movimento sem alternâncias, é diretamente combatida pela leitura. As grandes revoluções e transformações ocorrem de dentro para fora, e a Literatura é o grande estopim de tais mudanças. Eis a lista:

Bíblia
Pode parecer um clichê, mas não poderia deixar de mencioná-la. Mesmo que não tivesse nascido num lar cristão e fosse ateu, teria de listá-la, porque a sociedade ocidental não pode ser compreendida à parte da cultura cristã — e esta à parte de seu sagrado livro. Tinha sete anos de idade quando resolvi lê-la por completo. O livro de que mais gostava era o Apocalipse, talvez porque não o entendia e porque toda aquela história de dragões e de cavaleiros era um tanto quanto fantasiosa para mim. Cresci lendo este livro a partir de pressupostos errados que mais tarde fizeram afastar-me da fé.

Nunca li nenhum outro livro mais de uma vez, pois parto do pressuposto de que tenho um tempo finito de vida e uma quantidade imensurável de livros que ainda não li; contudo, espero ler este livro muitas vezes durante minha vida, porque creio que, por meio dele, posso escutar a voz de Deus. Algumas pessoas afirmam que o fato de sempre encontrarem algo novo nela, a cada vez que a lêem, torna-a divina. Isso é uma bobagem. Qualquer livro lido mais de uma vez oferecerá novas interpretações. Quando Heráclito diz que não se entra duas vezes no mesmo rio não é só porque o rio muda, mas porque quem entra também é outra pessoa.

Discurso do Método/ As paixões da alma/ Meditações — Descartes
Sei que minha proposta era listar 10 livros; no entanto, os três livros do Descartes estão num livro só da coleção "Os Pensadores", que foi a edição que li. Na minha leitura, li os três de uma vez sem muita distinção entre um e outro, embora tenha achado a parte das Meditações que trata sobre Medicina bastante chata — percebi que nunca estudaria Medicina depois disso. Li Descartes em 2001. A coleção de livros de Filosofia "Os Pensadores" estava sendo lançada nas bancas e estava bastante interessado em Filosofia na época — uma das poucas aulas a que assisti naquele ano foram as de Filosofia, dado que reprovei o primeiro ano do Ensino Médio. A obra de Descartes causou profundas transformações na minha vida. Acredito que a principal foi a dúvida como método. Percebi que, até aquele momento, tinha vivido sem muitos questionamentos e que defendia muita coisa de modo arbitrário. Resolvi questionar todas as minhas convicções. Mesmo assim, continuei crendo na existência de Deus, embora já não cresse na Bíblia do mesmo modo como cria.

Os elogios de Descartes à Matemática também causaram grande impacto sobre mim. Sempre fui um aluno de Humanas. Minhas matérias prediletas eram História e Geografia, embora gostasse de Ciências na 5ª e 6ª série. Já tinha pensado, inclusive, em cursar História na faculdade. Matemática sempre tinha sido a matéria de que menos gostava, mas Descartes falava tão bem dela que passei a mudar minha visão. O engraçado é que uma das matérias em que reprovei, no primeiro ano, foi Matemática; no entanto, no ano seguinte, tudo pareceu claro para mim. Cheguei a tal ponto que não estudava de propósito para ter mais emoção nas provas. Posso dizer com segurança que nunca gostaria de Exatas hoje se não fosse por esse livro.

Viagens no tempo no Universo de Einstein — Richard Gott
Sempre gostei do assunto, dentro da Ficção Científica, referente a viagens no tempo. Para ser sincero, gostar é pouco: sempre fui fascinado pelo tema. Comprei esse livro num contexto muito específico. Já tinha me deparado com a obra de Descartes e fiquei impressionado com o fato de ele ter formação na área de Direito, mas, mesmo assim, ter feito importantes realizações na Filosofia, na Medicina, na Matemática e na Física. Inspirado pela vida de Descartes e pela de Einstein, já que me identificava bastante com este, porque ele sempre foi subversivo, resolvi comprar o livro. Meu professor de Filosofia elogiava-me pelas minhas leituras, dizendo-me que eram complicadas. A presunção e o orgulho tomaram conta de mim. Sentia-me a pessoa mais inteligente do mundo. "Viagens no tempo no Universo de Einstein" foi o primeiro livro que li tendo de ler trechos repetidamente. O esforço que fiz para entender o livro foi tremendo. Aquilo me deixou bastante intrigado e motivado. Percebi que havia um imenso mar de conhecimento e que eu estava coletando a água desse mar com um copo. Esse livro fez-me ver que queria desafios na minha vida e que queria extrair o máximo da minha inteligência para ver até onde ela poderia levar-me. Creio que a semente para que escolhesse, futuramente, cursar Física foi plantada por esse livro.

Os problêmas do milênio — sete grandes enigmas matemáticos do nosso tempo — Keith Devlin
Não me importava com o que via no colégio. Aquilo tudo parecia bobagem para mim e acreditava que tudo aquilo seria desmentido quando ingressasse na Universidade. Tinha essa idéia porque, no meu segundo ano, quando estávamos aprendendo Termodinâmica, cheguei à conclusão de que o Universo deveria ter energia infinita por meio de alguns cálculos. Mostrei minhas contas para a minha professora, e ela disse que minhas contas estavam corretas, mas que não se usavam aquelas fórmulas para calcular o que eu queria calcular e que eu precisaria aprender a fazer os cálculos com correções relativísticas. Fiquei frustrado com isso. Desde o meu primeiro ano, estava bastante interessado nos números primos. Gastei mais de dois anos entretido com eles. Descobri algumas propriedades que nunca tinha visto em livros, mas não eram importantes o suficiente para fazer o que eu queria: encontrar um padrão ou uma maneira de encontrar o enésimo número primo a partir de uma fórmula. No meu terceiro ano de Ensino Médio, trabalhava com outras idéias na Matemática, mas sempre que procurava o meu professor para mostrar o que tinha feito, alguém já o tinha descoberto.

Para exemplificar, aprendemos que (a + b)² = 1.a² + 2.a.b + 1.b². Quando aprendi o Triângulo de Pascal, aprendi que existe uma lógica nos coeficientes dos produtos dos termos. Em outras palavras, no exemplo que dei, os coeficientes são 1, 2 e 1. Se a potência for cúbica, ou seja, se tivermos (a + b)³, teremos 1.a³ + 3a².b + 3a.b² + 1.b³, com coeficientes 1, 3, 3 e 1. Existe uma lógica entre os expoentes também. Existe uma permutação entre as potências de modo que a soma entre as potências de a e b, em cada termo da soma, nunca ultrapassa o expoente ao qual se eleva a soma inicial de dois números. Percebam que em (a+b)² temos três termos, nos quais,

( i ) 1.a².bº ; 2 + 0 = 2
( ii ) 2.a¹.b¹; 1 + 1 = 2
( iii ) 1.aº.b²; 0 + 2 = 2

A mesma coisa ocorre em (a + b)³:

( i ) 1.a³.bº; 3 + 0 = 3
( ii ) 3.a².b¹; 2 + 1 = 3
( iii ) 3.a¹.b²; 1 + 2 = 3
( iv ) 1.aº.b³; 0 + 3 = 3

Percebam também que o número de termos na expansão da soma é n + 1. O meu questionamento era se existia uma lógica parecida quando temos n termos na soma, ou seja, se o mesmo é válido para quando temos (a + b + c + ... + n) elevado a uma potência t qualquer. Eu brinquei um pouco com a idéia e cheguei a uma fórmula. Quando fui conversar com o meu professor, ele disse que Leibniz tinha descoberto o meu resultado no século XVII — http://pt.wikipedia.org/wiki/Teorema_multinomial . Aprendi essa fórmula no curso de Cálculo de Probabilidade 1 na UnB. Essa foi uma das muitas investidas minhas.

Voltando ao livro, li-o nesse contexto de tentativas de descobrir algo e ver que alguém já o tinha descoberto. Descobri que o meu trabalho com os números primos estava envolvido com o problema chamado Hipótese de Riemann. Ao mesmo tempo em que fiquei empolgado, porque li no livro que esse era o único dos 7 problemas que poderia ser resolvido por qualquer pessoa, fiquei desestimulado ao ver que ele era tão importante e difícil que pagariam um milhão de dólares para quem o resolvesse. A conjectura de Poincaré está no livro também porque ainda não tinha sido resolvida. Hoje, 6 problemas ainda não foram resolvidos. Enfim, esse foi um livro que me fez querer aprender primeiro para depois tentar descobrir alguma coisa.

Investigações Filosóficas — Ludwig Wittgenstein
Nunca fui alguém que se preocupou com a norma culta da Língua Portuguesa até ler esse livro. Achava até bobagem e preciosismo; contudo, Wittgenstein ensinou-me que a minha linguagem está estritamente ligada com a minha manifestação no mundo. Percebi que grandes problemas dos diversos ramos do conhecimento estão ligados à Linguagem. Ultimamente, inclusive, tenho me impressionado muito com a Hermenêutica, mas deixarei para aprofundar-me em outras postagens. Lembro-me de que fiquei admirado com os experimentos mentais propostos no livro. Quando chegava às mesmas conclusões do livro, ficava deslumbrado. Wittgenstein também aborda um ponto que sempre questionei, mas de outra forma. Será que enxergo as coisas da mesma maneira que outras pessoas? Ele colocaria a questão de outra maneira: o que me garante que sensações que tenho a tendência de chamar de determinado nome são iguais ou semelhantes a sensações que outras pessoas denominam pelo mesmo nome? Esse livro foi também um preâmbulo para que pudesse entender melhor filósofos existencialistas como Sartre e Heidegger.

Assim falava ZaratustraFriedrich Nietzsche
Esse foi o primeiro livro que li de Nietzsche. Ele me causou uma impressão assustadora. Imaginem o sarcasmo de uma pessoa para escrever contra a ética cristã utilizando-se da linguagem bíblica. Nietzsche conseguiu tal façanha. Estava no meu terceiro ano do Ensino Médio, em 2004, quando o li. Nunca mais minha concepção sobre a ética cristã foi a mesma. Num ano em que estava aprendendo a Teoria da Evolução, aliei o modo de pensar do Evolucionismo ao pensamento nietzschiano. Por que a ética cristã diz-nos para controlarmos certos desejos e atitudes inerentemente humanas se foram elas que, justamente, nos trouxeram ao estágio evolutivo em que nos encontramos? A partir desse livro, adotei o orgulho como ideologia.

Crítica da razão pura —Immanuel Kant
Sempre fui racionalista. Levei o racionalismo cartesiano até Spinoza e sempre fui muito avesso ao Empirismo. Kant mostrou-me que a coisa não é tão dualista quanto parece. Creio que a coisa mais importante que aprendi com Kant foi a distinção entre "fenômeno" e "coisa-em-si". Nunca mais enxerguei o mundo da mesma maneira depois de aprender essa distinção; inclusive, é muito difícil ler qualquer pensamento filosófico depois de Kant sem essa terminologia. Schopenhauer foi um pensador que partiu dessa distinção para escrever o seu "O mundo como vontade e representação", que é excelente também.

A História da Filosofia — Will Durant
Esse foi o livro que me fez deixar o Cristianismo em 2005, especificamente, no capítulo IV sobre Spinoza. Estava na praia lendo o livro e resolvi ir para o mar ficar boiando e pensando em tudo o que tinha lido. Nunca me esquecerei daquele momento. Olhava o céu azul, uma paisagem belíssima, e perguntava-me se poderia ter me enganado durante 19 anos de vida, falando com um Deus que não passava de algo que estava dentro de mim mesmo. A frase de Spinoza sobre o círculo pensante que pensaria que Deus é um círculo ficou incrustada em minha mente. Já tinha sido estimulado a ler Schopenhauer por causa de Nietzsche, mas foi o sétimo capítulo desse livro que me fez querer lê-lo definitivamente. O engraçado é que o livro apresenta Spinoza como panteísta. Quando fui ler Spinoza propriamente dito, no prefácio do livro, diziam que era um engano dizer que ele era panteísta, mas que ele era panenteísta. Na UnB, numa palestra de uma especialista em Spinoza, ouvi que ele nunca foi panteísta, nem panenteísta. Tudo é uma questão de hermenêutica de fato!

Confissões — Santo Agostinho
Esse foi o livro que me fez ver que existe vida inteligente no Cristianismo. Até então, achava que os cristãos eram preguiçosos mentais ou pessoas fortemente influenciadas pela sua cultura e criação. O argumento de Agostinho sobre a inexistência do mal como substância é uma das coisas mais belas que já li. As interrogações dele sobre a natureza do tempo também intrigaram-me bastante. A minha composição chamada "Tiempo" vem, em grande parte, do pensamento de Agostinho — http://www.youtube.com/watch?v=ugT3SJzWIu8 . Depois desse livro, li muita coisa de Agostinho e durante muito tempo ele foi o meu teólogo predileto.

O cinema pensa — uma introdução à Filosofia através dos filmes — Julio Cabrera
Sempre gostei de Cinema, mas, como racionalista e como adepto daquela meta filosófica de guiar minha vida em torno da busca do conhecimento, ficava um pouco constrangido por essa minha paixão pelo Cinema. Antes de ler esse livro, achava que era apenas um entretenimento que me fazia perder tempo: em vez de ver um filme, poderia estar lendo. O Cabrera é professor na UnB; infelizmente, nunca tive a oportunidade de cursar alguma matéria com ele. Sou muito grato a esse livro, porque ele me fez enxergar que existe muita Filosofia no Cinema e que, assim como a Literatura é uma linguagem estreitamente ligada à Filosofia, o Cinema também é uma forma de linguagem que pode, inclusive, utilizar-se de recursos que não estão disponíveis em outras formas de arte para tratar de Filosofia com profundidade.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O cubo mágico — em busca de simetrias

Há tempos não atualizo o blog. Para quem tinha o objetivo de escrever todo sábado, estou longe da minha meta. Os meus sábados estão muito atarefados: tenho aulas de Alemão de manhã, ensaio do coro à tarde, e a noite é reservada para a minha pequena. Verei como posso organizar-me para atualizar mais o blogue. Uma das soluções encontradas por mim será apresentada na próxima postagem, mas, por enquanto, colocarei aqui um pequeno texto que tinha escrito para ser sondado num jornal para uma possível vaga de articulista de ciência. Como já faz um tempo que o mandei,  e não recebi resposta, ei-lo: 

O conhecido cubo mágico, também conhecido como cubo de Rubik — devido ao seu inventor, o húngaro Ernõ Rubik —, é um objeto de entretenimento de adultos e de crianças. Ele tem estrita ligação com um campo de estudo da Matemática denominado “Teoria de Grupos”. Tal campo teve origem na solução das chamadas equações algébricas. 

Ainda no Ensino Fundamental, aprendemos a famosa fórmula de Bháskara para a resolução de equações quadráticas ou do segundo grau. Para a resolução de equações cúbicas, utiliza-se o método de Cardano-Tartaglia; nas equações quárticas, o método de Ferrari. Durante muito tempo, não se sabia resolver equações algébricas acima do quarto grau. No intuito de responder a essa questão, o matemático francês Évariste Galois desenvolveu a Teoria de Grupos. Por meio dessa teoria, ele demonstrou que equações acima do quarto grau não podem ser resolvidas por meio de radicais, ou seja, não existem fórmulas como a de Bháskara para encontrarmos as raízes ou soluções. 

O desenvolvimento da Teoria de Grupos foi um marco na História da Matemática, dando início a todo um desenvolvimento de estruturas algébricas. Um interessante fato na Teoria de Galois é que a toda simetria está associado um grupo. Uma simetria existirá num determinado objeto se transformações puderem ser feitas sobre ele sem alterá-lo. Se um quadro dependurado for rotacionado em 360º, será como se ninguém o tivesse tocado. 

A Teoria de Grupos ocupa um importante papel no desenvolvimento da Física Contemporânea, entre outros campos como a Biologia — a natureza está repleta de simetrias! Ela nos ajuda também a encontrar soluções no Cubo Mágico. A Teoria dos Grupos, o cubo mágico e as simetrias mostram-nos que o fazer ciência não se limita aos laboratórios e a papéis repletos de contas. A nossa intuição sobre a beleza está abarrotada da noção de simetria. Quando produzimos carros ou pintamos, servimo-nos dela; quando apreciamos uma boa música, da mesma maneira. Fazer ciência faz parte do nosso íntimo, da nossa natureza. A Matemática, em particular, encontra-se infiltrada nas nossas brincadeiras, preferências e apreciações estéticas. No fim das contas, todos fazemos ciência!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Afinal, a que vem o Criacionismo?

Não consigo entender qual é a proposta dos criacionistas e dos adeptos do chamado "Design Inteligente" em detrimento da proposta evolucionista. Quem tem conhecimento do desenvolvimento histórico da Ciência sabe que, no decorrer do tempo, teorias costumam ser suplantadas por outras que continuam explicando o que já era explicado, mas abarcam fenômenos que não tinham explicação. Niels Bohr chamou essa necessidade de manter os conhecimentos já desenvolvidos de "Princípio da Correspondência" que acabou tornando-se praxe no fazer ciência. Um exemplo é a Teoria da Relatividade Geral que abarcou a Teoria da Gravitação Universal newtoniana, fornecendo explicações e previsões que esta não conseguia dar.

Diante da indignação dos criacionistas, eu me pergunto: o que o "Criacionismo Científico" ou — não estou dizendo que as duas teorias são a mesma coisa — "Design Inteligente" fornece de explicação que a Teoria da Evolução não explica? Alguns apressados poderiam dizer que elas explicam que o mundo teve um criador. Bem, discordo absolutamente, já que dizer que houve um criador não é explicar nada; além do mais, a proposta evolucionista nada diz respeito da existência de uma entidade sobrenatural. Atenção: ela nada diz respeito significa que ela não confirma, nem nega.

Vi vídeos de uma conferência que tinha por pauta o debate entre as três linhas já mencionadas — http://www.apologia.com.br/?p=76 . Recomendo, inclusive, que vocês vejam a explanação do Dr. Aldo Mellender de Araújo: ele foi muito didático e aprendi coisas que não sabia. É gritante a diferença dele para os outros debatedores. No vídeo da mesa redonda, o Dr. Marcos Nogueira Eberlin, do qual já tinha ouvido falar, mostra o qual tacanha é sua mente. Ele diz que resolveu adotar sua atual postura com relação à Teoria da Evolução depois de ler uma reportagem da Veja, que, por sinal, parece abordar o Evolucionismo com a óptica dos chamados neo-ateístas. Pelo menos, ele tem currículo Lattes, contrariamente ao famigerado Adauto Lourenço, que, infelizmente, tem ganhado notoriedade no meio evangélico.

Analisando, contudo, o currículo do Eberlin, percebi que ele teve 23 artigos publicados em 2009. Alguns podem ficar impressionados, mas para mim, isso é picaretagem. Em primeiro lugar, nenhum artigo dele neste período tem menos de quatro pessoas envolvidas. Alguns pesquisadores, costumam associar-se a tudo que conseguem para ter o seu nome envolvido em projetos para colocarem no seu currículo. Sei que poderão defendê-lo dizendo que a Ciência hoje é feita em grupos, mas não ter nenhum artigo só de autoria dele em 23 é de estranhar-se. A área dele é experimental, o que também facilita a publicação de artigos — você não encontra esses números em currículos de pesquisadores teóricos. Ele ganhou um prêmio da Capes pelo número de artigos. Se existe algo que me frustrou nos dois anos em que trabalhei com pesquisas na UnB foi esse enfoque das instituições de pesquisas nos números.

Existem dois grandes problemas que tenho observado na persistência do embate entre Criacionismo e Evolução. O primeiro grande problema é que as pessoas confudem o materialismo filosófico — que busca um entendimento do mundo em seus diversos níveis, ontológico, metafísico e afins, a partir da exclusão de uma realidade sobrenatural — com a Teoria da Evolução. Creio que os, já mencionados por mim, neo-ateístas, talvez, sejam responsáveis por essa grande confusão. A Evolução é baseada em dois principais pontos: Seleção Natural, sobre a qual acredito que não haja discordâncias, e Ancestralidade comum. Este ponto, em particular, gera muita discórdia, mas mais por falta de entendimento do que qualquer coisa.

No link para a conferência que citei, o doutor Paul Nelson abarca a Abiogênese como constituinte do Evolucionismo, o que não é verdade; de qualquer forma, mesmo a crença de que o inanimado deu origem ao animado, não exclui a existência de uma entidade divina. Também é importante dizer que a Ancestralidade Comum não fala de apenas um ser vivo dando origem a vários seres, mas, como explica o doutor Aldo na sua palestra, a uma população de indivíduos.

Atenção: a Teoria da Evolução é uma teoria científica como qualquer outra, sujeita a futuras suplantações e aperfeiçoamentos. Li um questionamento do William Lane Craig¹ — um dos meus pensadores na atualidade favoritos — sobre a questão da inferência na constituição da ancestralidade comum. Concordo com os questionamentos dele em certa medida, mas não entendo por que outras teorias não recebem a mesma atenção por possuírem pontos de crítica. A Teoria da Relatividade Geral não consegue explicar o mundo quântico, mas os cristãos não saem vociferando contra ela por aí; da mesma maneira, a Mecânica Quântica é uma teoria probabilística tanto quanto a Evolução, mas nenhum crente fala que não acredita nela ou coisa parecida.

Outro grande problema que vejo é que quem ataca a Ciência o faz por não a entender e quem a coloca em pedestais, dando-a objetivações das quais ela não se propõe, também, tampouco, conhece-a. As pessoas não conhecem a força e a fraqueza da Ciência. Não sabem que nada em Ciência é feito totalmente livre de subjetividade, e as minhas pesquisas no Espaço de Hilbert da Mecânica Quântica confirmam isso para mim, mas também não sabem que a Ciência não tem relação nenhuma com o sobrenatural e nem tem intenção de dizer nada sobre isso.

Não consigo entender como as pessoas querem tornar a existência de um criador incompatível com o Evolucionismo. Quem criou a Seleção Natural? Deus não pode ter se servido dos mecanismos explicados pela Teoria da Evolução para atuar no mundo e criá-lo? Estou terminando de ler um livro do John F. Haught intitulado Cristianismo e Evolucionismo — em 101 perguntas e respostas. O livro está servindo-me muito mais para entender como funciona a mente de quem diz-se criacionista do que para qualquer coisa. Aliás, se existe uma coisa mal formulada no embate de que falo é a terminologia. Criacionista evolucionista deveria ser alguém que crê na Teoria da Evolução, mas acredita num Deus criador. Deveriam livrar-se do termo "Criacionismo" para designar esse conjunto de críticas ao Evolucionismo. Digo "conjunto de críticas" porque não passa disso, já que nunca os vi propondo nada que o Evolucionismo não explique, isso quando as críticas não passam de falácias ou de falta de entendimento.

Enfim, John F. Haught é um teólogo católico. É interessante ver como a Igreja Católica, principalmente a partir do papa João Paulo II, posicionou-se em favor do Evolucionismo. Até os budistas e hindus parecem ser mais sensatos que os protestantes². O engraçado é ver como teólogos importantes e cientistas renomados são cristãos e favoráveis ao Evolucionismo sem ver nenhum problema nisso; por exemplo, John Stott, Billy Granham, Alister McGrath, Kenneth R. Miller, C. S. Lewis, Theodosius Dobzhansky — um dos principais nomes no desenvolvimento da Teoria Sintética Moderna ou Neo-Darwinismo —, Francis Collins — geneticista responsável pelo Projeto Genoma Humano —, Ronald Fisher — um grande nome na Estatística — e muitos outros.

O livro do Haught que citei diz que o problema está no literalismo, tanto científico quanto bíblico. O primeiro refere-se ao que falei sobre pessoas colocando a Ciência num pedestal que não concerne a ela e o segundo refere-se a pessoas que se prendem à Bíblia em suas minúcias. A Bíblia não tem pretensão de fazer Ciência. Ela é fruto da mentalidade de quem escreve e esta é fruto da cultura de sua época, o que inclui o nível de conhecimento científico do momento em que se escrevia o texto. Ora, em Levítico 11.11-19, o morcego é tratado como ave em vez de morcego. Se a Bíblia tivesse a intenção de ser científica, ela não cometeria tal equívoco — mesmo não havendo uma classificação dos seres vivos na época em que foi escrita. Tiago, em Tiago 5.3, não diria que o ouro enferruja! São muitos os exemplos na Bíblia. Esta tem a objetivação de revelar a Deus e não como a natureza funciona. O embate entre Criacionismo e Evolucionismo deveria ser antecedido por um debate sobre Filosofia, Ciência, Hermenêutica Bíblica entre outros campos. Acredito que tal embate nem ao menos existiria se as pessoas conhecessem os referidos campos.

¹Scepticism about the Neo-Darwinian Paradigm:
http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=6711
(Neo-Darwinismo é a junção do darwinismo com a genética proposta por Mendel, também chamada de Teoria Sintética Moderna.)

² Vejam o histograma da sessão "Acceptance
":
http://en.wikipedia.org/wiki/Theistic_evolution