sábado, 8 de outubro de 2016

Por que os bereianos rejeitaram o "Sola Scriptura" (Steve Ray)


Uma preeminente organização anticatólica oriunda de Oregon, com Dave Hunt no seu comando, publica, mensalmente, um boletim informativo intitulado “The Berean Call” [O chamado bereiano]. O título é tomado de Atos 17, em que Paulo refere-se aos bereianos, na Ásia Menor, como “nobres” e Hunt escolheu o título para promover a sua crença no “sola scriptura”.

O “sola scriptura”, ou o “somente a Bíblia”, é uma doutrina protestante inventada no século dezesseis. Ela declara que a Bíblia é a única fonte de revelação e o único e último juiz no tocante a toda matéria de fé cristã. Martinho Lutero desenvolveu-a em reação aos ensinos históricos da Igreja Católica e aos Pais da Igreja dos primeiros séculos. Lutero rejeitou a autoridade da Igreja e da Tradição apostólica e, assim, ficou com o “sola scriptura” — o somente a Bíblia.

Na realidade, entretanto, o Hunt converteu o episódio em Beréia naquilo que está na sua própria cabeça, uma vez que os nobres bereianos, em verdade, condenaram a sua posição do “sola scriptura”. Essa passagem acerca dos bereianos tem sido apropriada pelos evangélicos por tempo demais e já é hora de os católicos reivindicarem-na. Muitos têm se sentido incomodados com esse texto e muitas explicações, a partir de uma perspectiva católica, têm se mostrado medíocres na melhor das hipóteses. Não apenas o texto pode ser explicado facilmente pelos católicos, mas ele é, realmente, um forte argumento contra o “sola scriptura” e uma defesa convincente do ensino da Igreja Católica.

A nós é dito que os bereianos eram mais nobres (abertos, mais dispostos, justos) — entretanto, muito mais nobres do que quem? Os tessalonicenses! É conveniente aos evangélicos pôr essa passagem fora de contexto e forçá-la a permanecer isolada. Dessa forma, a sua causa parece ser convincente, mas o contexto diz-nos a história real. Antes de olharmos os bereianos, vamos olhar aqueles aos quais eles são comparados: os tessalonicenses. O que os tessalonicenses fizeram que os tornou tão menos nobres?

Encontramos em Atos 17.1-9: “Passando por Anfípolis e Apolônia, eles chegaram a Tessalônica, onde os judeus tinham uma sinagoga. Como costumava, Paulo foi procurá-los e, durante três sábados sucessivos, dirigiu-lhes a palavra; a partir das Escrituras, ele explicava e demonstrava que o Messias devia sofrer, ressuscitar dos mortos e, dizia ele, ‘o Messias é este Jesus que eu vos anuncio!’. Alguns dos judeus se deixaram convencer e foram ganhos por Paulo e Silas, como bem uma multidão de gregos adoradores de Deus, e bom número de mulheres da alta sociedade. Mas os judeus, furiosos, recrutaram alguns maus elementos que vagabundavam pelas ruas, amotinaram a multidão e semearam a desordem na cidade; dirigiram-se então à casa de Jasão, à procura de Paulo e de Silas, que queriam apresentar à assembleia do povo; não os achando, arrastaram Jasão e alguns irmãos para os apresentar aos politarcas: ‘Esses homens que sublevaram o mundo inteiro, gritavam eles, estão agora aqui, e Jasão os acolheu. Todos esses indivíduos agem contra os editos do imperador; eles pretendem que existe outro rei, Jesus’. Esses gritos impressionaram a multidão e os politarcas, que exigiram então uma fiança de Jasão e dos outros, antes de os soltar.”.

Os tessalonicenses rejeitaram Paulo e a sua mensagem e, depois de denunciá-lo, eles ficaram enciumados de que outros tivessem crido nela. Eles trataram Paulo com desprezo e com violência, despejando-o, ignominiosamente, da cidade. Por quê? “durante três sábados sucessivos, [Paulo] dirigiu-lhes a palavra; a partir das Escrituras” na sinagoga, como era o seu costume. Eles não desprezaram Paulo na primeira semana ou na segunda; em vez disto, eles o ouviram e discutiram. Entretanto, no final, eles rejeitaram o que ele tinha a dizer. Eles compararam a mensagem de Paulo ao Antigo Testamento e decidiram que Paulo estava errado. Temos de lembrar que muitos estavam proclamando uma ampla variedade de novos ensinamentos, todos eles supostamente baseados nas Escrituras e nas revelações de Deus. Heresias, cultos e seitas eram numerosos no Império Romano assim como eles são hoje. Os judeus, em Tessalônica, tinham o direito de serem céticos.

Agora, vamos dar uma olhada no comentário de Lucas sobre os nobres bereianos: “Imediatamente os irmãos fizeram Paulo e Silas partir, de noite, para a Bereia. Ao chegarem, eles foram à sinagoga dos judeus. Mais corteses que os de Tessalônica, estes acolheram a Palavra com inteira boa vontade, e cada dia examinavam as Escrituras para ver se era assim mesmo. Muitos dentre eles abraçaram a fé, como também mulheres gregas de alta posição e homens, em número apreciável.” (Atos 17.10-12).

Quando os protestantes usam essa passagem como uma prova textual para a sua doutrina do “sola scriptura”, eles deveriam perceber que aqueles em questão não eram cristãos; eles eram judeus helenísticos. Não existe nenhuma doutrina do “sola scriptura” entre as comunidades judaicas, mas as Escrituras são tidas como sagradas. Embora os judeus sejam freqüentemente referidos como “o povo do livro”, na realidade, eles têm uma forte tradição oral que acompanha as suas Escrituras, juntamente com uma autoridade de ensino autorizada, como representado pela “cátedra de Moisés” nas sinagogas (Mt. 23.2). Os judeus não tinham nenhuma razão para aceitar o ensino de Paulo como “divinamente inspirado”, uma vez que eles tinham acabado de conhecê-lo. Quando novos ensinamentos que vieram à tona alegavam ser um desenvolvimento do judaísmo, os rabinos pesquisaram para ver se eles poderiam ser verificados a partir da Torá.

Se um dos dois grupos poderia ser taxado como sendo composto de crentes no “sola scriptura”, quem o seria: os tessalonicenses ou os bereianos? Os tessalonicenses obviamente. Eles, assim como os bereianos, examinaram as Escrituras com Paulo na sinagoga, porém, eles rejeitaram o seu ensino. Eles rejeitaram o novo ensinamento, decidindo, depois de três semanas de deliberação, que as palavras de Paulo contradiziam a Torá. A sua decisão não estava completamente injustificada a partir da sua perspectiva escriturística. Como poderia o Messias de Deus ser amaldiçoado com a crucifixão em um madeiro como um criminoso comum, exposto publicamente como alguém que levou sobre si o juízo de Deus? Que tipo de rei e Messias seria esse? Isto lhes parecia irreconciliável com as Sagradas Escrituras (veja Simon J. Kistemaker, Acts [Grand Rapids, Michigan: Baker Books, 1990], 614).

Quando alguns dos gregos e dos cidadãos preeminentes aceitaram Cristo como Messias, os judeus ficaram com inveja — e de forma correta, a partir da sua perspectiva, uma vez que novos crentes separavam-se deles mesmos nas sinagogas e começavam a encontrar-se em outro lugar, na casa de Jasão. Os judeus, naturalmente, consideravam a si mesmos os intérpretes autoritativos da Torá. Quem eram os gentios para interpretarem a Escritura e decidirem acerca de importantes questões teológicas ou aceitarem revelação adicional? Eles eram os “cães”, e não os eleitos guardiões dos oráculos da Deus (veja William Barclay, The Acts of the Apostles [Philadelphia, Pennsylvania: Westminster Press, 1976], 128).

Podemos ver, então, que se alguém poderia ser classificado como um adepto do “sola scriptura” seria os judeus tessalonicenses. Eles raciocinaram a partir das Escrituras somente e concluíram que os novos ensinamentos de Paulo eram “não bíblicos”.

Os bereianos, por outro lado, não eram adeptos do “sola scriptura”, pois eles estavam dispostos a aceitar o novo ensinamento oral de Paulo como sendo a Palavra de Deus (como Paulo alegou que o seu ensino oral, de fato, era; veja 1 Ts. 2.13). Os bereianos, antes de aceitar a Palavra de Deus oral proveniente de Paulo, uma Tradição como até mesmo o próprio Paulo referia-se a ela (veja 2 Ts. 2.15), examinaram as Escrituras para verem se essas coisas eram assim. Eles eram nobres, precisamente, porque eles “acolheram a Palavra com inteira boa vontade”. Os bereianos foram elogiados principalmente por pesquisarem as Escrituras? Não. A sua aberta disposição para ouvir foi a principal razão para que eles fossem referidos como sendo nobres — e não por eles terem pesquisado as Escrituras. Uma leitura de gramáticos e de comentadores deixa claro que eles eram “nobres” não por estudar a Escritura, mas por tratar Paulo de forma mais civilizada que os tessalonicenses — com uma mente aberta e com cortesia generosa (veja I. Howard Marshall, “The Acts of the Apostles” in the Tyndale New Testament Commentaries [Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1981], 5:280).

Os bereianos não pesquisaram a Torá menos que os tessalonicenses, embora eles tivessem mais boa vontade para aceitar as Palavras de Deus da boca de São Paulo, em adição àquilo que eles já detinham da Escritura, que era a Lei e os Profetas. Mesmo que se alegue que Paulo pregou o Evangelho, e não uma “Tradição”, é claro que os bereianos estavam aceitando uma nova revelação que não estava contida nas suas Escrituras. Esses judeus bereianos aceitaram o ensinamento oral, a Tradição dos Apóstolos, em condição de igualdade à Escritura, em adição a ela e como uma “extensão” da Torá. Isto, além disso, é ilustrado pela recepção das epístolas de Paulo pela comunidade cristã como sendo Escritura divinamente inspirada (veja 2 Pedro 3.16; aqui, Pedro parece reconhecer os escritos de Paulo como sendo iguais em autoridade às “outras Escrituras”, que poderiam ser presumidas como uma referência ao Antigo Testamento).

Da perspectiva dos anticatólicos, os tessalonicenses teriam sido mais nobres por terem estado mais lealmente presos ao seu cânone da Escritura somente e por terem rejeitado autoridade permanente adicional (escrita ou falada) da boca de um apóstolo. De fato, no Concílio de Jâmnia, por volta de 90 d.C., os judeus determinaram que qualquer coisa escrita depois de Esdras não era Escritura infalível; eles mencionaram, especificamente, os Evangelhos de Cristo a fim de rejeitarem-nos.

Por que os bereianos pesquisaram as Escrituras? Porque elas eram a única fonte de revelação e autoridade? Não, mas para ver se Paulo estava em consonância com aquilo que eles já sabiam — a fim de confirmar revelação adicional. Eles não se submeteriam cegamente ao seu ensinamento apostólico e à Tradição oral, mas, uma vez que eles aceitassem a credibilidade dos ensinamentos de Paulo como sendo a Palavra oral de Deus, como os conversos que creram em Tessalônica, eles aceitaram a Tradição Apostólica e o Antigo Testamento igualmente como Palavra de Deus (veja 2 Ts. 2.15, 3.16). Portanto, eles aceitaram a autoridade apostólica, o que significa que as determinações de Pedro no primeiro Concílio da Igreja, relatado em Atos 15, seriam obrigatórias a esses novos gentios conversos.

Por contraste, os judeus de Tessalônica teriam condenado a exegese bíblica de Pedro no Concílio de Jerusalém. Eles teriam zombado de que a Igreja teria qualquer autoridade sobre eles — a Torá era tudo de que eles precisavam. Aqueles que guardaram o “sola scriptura” rejeitaram Paulo porque ele alegava ser porta-voz de uma “revelação adicional”.

Lucas deixa claro que aqueles que desejavam aceitar a Tradição Apostólica como autoritativa eram mais nobres. A passagem dos bereianos, portanto, é dificilmente uma prova textual para aqueles que são adeptos do “sola scriptura”. Esse texto prova muito mais aos evangélicos. Os anticatólicos adoram associar a si mesmos aos bereianos, mas o exemplo dos bereianos, realmente, condena a sua exegese. O louvor de Lucas aos bereianos não pode ser aplicado aos protestantes evangélicos, que se assemelham mais aos tessalonicenses, que se apoiavam no “sola scriptura” e rejeitavam a Palavra oral de Deus contida na Tradição e na autoridade do ensino da Igreja.

Para ser consistente com o seu romance da teologia do “sola scriptura”, o Dave Hunt deveria renomear o seu boletim informativo mensal. Permita-me sugerir um novo título: "The Thessalonian Call" [O chamado tessalonicense].


domingo, 2 de outubro de 2016

Arca da Nova Aliança (Patrick Madrid)


Seu rosto ficou tenso e os seus olhos estreitaram-se. Até agora, o pastor da "Calvary Chapel" esteve calmo enquanto ele "compartilhava o evangelho" comigo; entretanto, quando lhe mencionei minha crença na Imaculada Conceição de Maria, a sua atitude mudou.

"O problema com vocês, católicos romanos", disse ele, com o fino indicador apunhalando o ar a poucas polegadas do meu rosto, "é que vocês fizeram acréscimos ao evangelho. Como vocês podem chamar-se a si mesmos de cristãos enquanto se apegam a tradições não bíblicas como a Imaculada Conceição? Isto não está na Bíblia: foi inventado pela sistema católico romano em 1854. Além disso, Maria não poderia não ter pecado: apenas Deus é sem pecado. Se ela não tivesse pecado, ela seria Deus!".

Pelo menos, o ministro acertou a data: 1854 foi o ano em que o Papa Pio IX definiu, infalivelmente, a doutrina da Imaculada Conceição de Maria, mas isto foi o mais preciso que ele conseguiu ser. A sua reação foi aquela típica de evangélicos. Ele estava inflexível sobre a ênfase católica acerca da ausência de pecado em Maria ser uma afronta insuportável à santidade única de Deus, especialmente como manifesta em Jesus Cristo.

Depois que examinássemos a evidência bíblica para a doutrina, o antimarianismo que ele tinha mostrado foi silenciado, mas estava claro que, pelo menos emocionalmente, embora não biblicamente, Maria era uma pedra de tropeço para ele. Como a maior parte dos cristãos (católicos e protestantes), o ministro não tinha conhecimento da base bíblica para o ensino da Igreja sobre a Imaculada Conceição. Por vezes, contudo, mesmo o conhecimento dessas passagens não é suficiente. Muitos ex-protestantes que têm se convertido à Igreja Católica relatam o quão difícil era para eles deixarem de lado os preconceitos e abraçarem as doutrinas marianas mesmo depois de sentirem-se completamente satisfeitos, por meio da oração e do estudo das Escrituras, de que tais ensinos eram, de fato, bíblicos.

Para os evangélicos que têm investigado a questão e descoberto, para o seu espanto, a base bíblica para as doutrinas marianas, há, muitas vezes persistentemente, a suspeita de que, de alguma maneira, de algum modo que eles não podem identificar, a ênfase católica na impecabilidade de Maria solapa a impecabilidade única de Cristo...

Várias objeções são levantadas pelos protestantes.

Em primeiro lugar, se apenas Deus não tem pecados, Maria não poderia não ter tido pecados ou, do contrário, ela seria Deus.

Em segundo lugar, se Maria não teve pecados, por que ela disse "meu espírito se alegra em Deus, meu salvador" (Lc. 1.47)? Se apenas pecadores precisam de um salvador, por que Maria, se estava livre do pecado, incluiria a si mesma na categoria dos pecadores? Se ela estava isenta do pecado, ela não precisaria de um salvador e a sua declaração em Lucas 1 seria incoerente. 

Em terceiro lugar, Paulo afirma em Romanos 3.10-12, 23 que "não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há um sequer [...], pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus.". Em Romanos 5.12, ele diz: "Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram". Estes versículos parecem excluir qualquer possibilidade de que Maria não tivesse pecado. 

A Imaculada Conceição dá ênfase a quatro verdades: (1) Maria precisou de um salvador; (2) o seu salvador foi Jesus Cristo; (3) a salvação de Maria foi alcançada por Jesus mediante a Sua obra redentora na Cruz; (4) Maria foi salva do pecado, mas de uma maneira mais gloriosa e diferente do resto de nós. 

Consideremos a primeira e a mais fácil das três objeções. 

A noção de que Deus é o único ser sem pecado é completamente falsa — e até mesmo os protestantes pensam assim. Adão e Eva, antes da Queda, estavam livres do pecado e eles não eram deuses, apesar de as afirmações da serpente sugerirem o contrário. (É preciso lembrar que Maria não foi o primeiro ser humano imaculado, mesmo que ela tenha sido o primeiro a ser concebido imaculadamente.) 

Os anjos no Céu não são deuses, mas eles foram criados sem pecado e assim têm permanecido desde então. Os santos no Céu não são deuses, embora cada um deles esteja agora completamente sem pecado (Ap. 14.5; 21.27).

O segundo e o terceiro argumento relacionam-se. Maria precisou de Jesus como o seu salvador. A Sua morte na Cruz salvou-a, como salvou a nós, mas os seus efeitos salvíficos foram aplicados a ela (diferentemente de nós) no momento da sua concepção. (Tenha em mente que a crucifixão é um evento eterno e que a apropriação da salvação por meio da morte de Cristo não tem impedimentos concernentes ao tempo ou ao espaço.)

Os teólogos medievais desenvolveram uma analogia para explicar como e por que Maria precisou de Jesus como o seu salvador. Um homem (cada um de nós) está andando por uma trilha de uma floresta sem saber que uma grande fossa espera-o poucos passos adiante. Ele cai de cabeça nela e está chafurdado na lama (pecado original). Ele clama por socorro e o seu resgatador (o Senhor Jesus) lança-lhe uma corda e puxa-o de volta em segurança. O homem diz ao seu resgatador: "obrigado por salvar-me", recordando as palavras do salmista: "[o Senhor] se inclinou para mim e ouviu o meu grito de socorro. Ele me tirou de um poço de destruição, de um atoleiro de lama; pôs os meus pés sobre uma rocha e firmou-me num local seguro" (Sl. 40.1-2).

Uma mulher (Maria) aproxima-se da mesma fossa, mas, quando ela começa a cair nela, o seu resgatador estende-lhe a sua mão e impede-a de cair nela. Ela, então, proclama agradecida: "obrigada por salvar-me" (Lc. 1.47). Como esta mulher, Maria não foi menos "salva" do que qualquer outro ser humano foi salvo. Ela apenas foi salva antecipadamente, ANTES de contrair o pecado original. A cada um de nós é permitido que nos sujemos com o pecado original, mas a ela não. Deus odeia o pecado e, assim, esta foi uma via muito melhor de preservar a Sua mãe. 

O proferimento de São Paulo em Romanos capítulos 3 e 5 (não há nenhum justo; não há ninguém que busque a Deus; não há ninguém que faça o bem; todos pecaram) não deveria ser tomado em um sentido crassamente literal e universal — do contrário, contradições irreconciliáveis surgirão. Considere Lucas 1.6. O senso comum diz-nos que grupos inteiros de pessoas estão isentos da fala de Paulo de que "todos pecaram". Bebês abortados não podem pecar, nem o podem crianças muito novas ou pessoas gravemente retardadas. Paulo, entretanto, não menciona tais exceções óbvias. Ele estava escrevendo a pessoas adultas no nosso estado de vida. 

Se certos grupos estão isentos da rubrica de que "todos pecaram", então, esses versículos não podem ser usados para argumentar-se contra a Imaculada Conceição de Maria uma vez que o seu caso seria excepcional também, não sendo preciso mencioná-lo dado o propósito da discussão de Paulo e o seu público-alvo.

Agora, consideremos o que a Bíblia tem a dizer-nos em favor da posição católica. É importante reconhecer que nem as palavras "Imaculada Conceição" e nem tampouco a fórmula precisa adotada pela Igreja para enunciar esta verdade encontram-se na Bíblia. Isto não significa que a doutrina não seja bíblica, mas apenas que a verdade da Imaculada Conceição, como verdades referentes à Trindade e à união hipostática de Jesus (que Jesus encarnou-se como Deus e homem, possuindo completamente e simultaneamente duas naturezas, divina e humana, em uma só pessoa divina), é mencionada ou em outras palavras ou apenas indiretamente. 

Vejamos, primeiramente, duas passagens em Lucas 1. No verso 28, o anjo Gabriel cumprimenta Maria como "kecharitomene" ("cheia de graça" ou "agraciada"). Este é um reconhecimento do seu estado sem pecado. No verso 42, Isabel cumprimenta Maria como "bendita entre as mulheres". A importância original desta frase perde-se na tradução inglesa. Uma vez que nem o Hebraico e nem o Aramaico têm superlativos ("best" ["o melhor"], "highest" ["o mais elevado"], "tallest" ["o mais alto"], "holiest" ["o mais santo"]), um falante destes idiomas teria de dizer: "You are tall among men" ["Você é o mais alto entre os homens"] ou "You are wealthy among men" ["Você é o mais rico entre os homens"] para dizer "You are the tallest" ["Você é o mais alto"] ou '"You are the wealthiest" ["Você é o mais rico"]. As palavras de Isabel querem dizer que Maria é a mais santa de todas as mulheres. 

A Igreja entende Maria como sendo o cumprimento de três tipificações veterotestamentárias: o cosmos, Eva e a arca da aliança. Um tipificação é uma pessoa, um evento ou uma coisa no Antigo Testamento que prefigura ou simboliza alguma realidade futura que Deus estabelecerá. (Veja estes versos para tipificações do Antigo Testamento que são cumpridas no Novo Testamento: Cl. 2.17; Hb. 1.1, 9.9, 9.24, 10.1; 1 Cor. 15.45-49; Gl. 4.24-25.)

Alguns exemplos específicos de tipificações: Adão era uma tipificação de Cristo (Rm. 5.14); a arca de Noé e o dilúvio foram tipificações da Igreja e do Batismo (1 Pe. 3.19-21); Moisés, que libertou Israel do jugo da escravidão no Egito, era uma tipificação de Cristo, que nos salvou do jugo da escravidão do pecado e da morte; a circuncisão prefigura o Batismo; o cordeiro pascal imolado em Êxodo 12.21-28 era um símbolo de Jesus, o Cordeiro de Deus, que seria imolado para a remissão dos pecadores. O importante a ser compreendido sobre as tipificações é que o seu cumprimento é sempre mais glorioso, mais profundo, mais 'real' que a tipificação em si mesma. 

A Imaculada Conceição de Maria é prefigurada em Gênesis 1, quando Deus cria o universo em um estado imaculado, livre de qualquer mácula, mancha ou imperfeição. Isto é corroborado pela menção repetida em Gênesis 1 de Deus contemplando suas criações e dizendo que elas eram "boas". Da matéria incorrupta, o Senhor criou Adão, o primeiro ser humano imaculado criado, formando-o desde o "ventre" da Terra. Os elementos imaculados a partir dos quais o primeiro Adão recebeu a sua substância prefiguram a mãe imaculada a partir da qual o segundo Adão (Rm. 5.14) tomou a sua substância humana.

A segunda prefiguração de Maria é Eva, a mãe física da nossa raça, assim como Maria é a nossa mãe espiritual por sermos membros do Corpo de Cristo (Ap. 12.17). O que Eva arruinou por meio de sua desobediência e falta de fé (Gênesis 3), Maria ajustou por sua fé e obediência (Lc. 1.38).

Vemos uma declaração crucial em Gênesis 3.15: "Porei inimizade entre ti [Satanás] e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça,e tu lhe ferirás o calcanhar". Esta passagem é especialmente significativa quando se refere à "descendência da mulher" — um uso singular. A Bíblia, seguindo a biologia normal, contrastando com esta passagem, apenas se refere à semente do homem, à semente do pai, mas nunca à semente da mulher. Quem é a mulher mencionada aqui? A única possibilidade é Maria, a única mulher que daria luz a uma criança sem a ajuda de um pai humano, um fato profetizado em Isaías 7.14.

Se Maria não estivesse completamente livre do pecado, esta profecia tornar-se-ia insustentável. Por quê? A passagem aponta para a Imaculada Conceição de Maria porque ela menciona uma completa inimizade entre a mulher e Satanás. Tal inimizade seria impossível se Maria fosse manchada pelo pecado, original ou atual (veja 2 Coríntios 6.14). Esta linha de pensamento elimina a possibilidade de Eva ser a 'mulher', uma vez que ela, claramente, estava sob a influência de Satanás em Gênesis 3.

A terceira e mais convincente tipificação da Imaculada Conceição de Maria é a arca da aliança. Em Êxodo 20, são dados a Moisés os Dez Mandamentos. Dos capítulos 25 a 30, o Senhor dá a Moisés um plano detalhado para a construção da arca, o recipiente especial que comportaria os Mandamentos. O surpreendente é que cinco capítulos mais tarde, começando no capítulo 35, e continuando até o 40, Moisés repete palavra por palavra cada um dos detalhes para a construção da arca. 

Por quê? Era um modo de enfatizar o quão crucial era seguir exatamente as especificações do Senhor (Êx. 25.9, 39.42-43). Deus queria que a arca fosse tão perfeita e sem mancha quanto humanamente possível de modo que fosse digna da honra de portar a Palavra escrita de Deus. Quanto mais, então, Deus quereria que Maria, a arca da Nova Aliança, fosse perfeita e sem mancha uma vez que ela carregaria no seu ventre a Palavra de Deus que se fez carne...

Concedemos que nenhum desses versículos "demonstra" a Imaculada Conceição de Maria, mas eles apontam para ela. Afinal de contas, a Bíblia em nenhum lugar afirma que Maria cometeu qualquer pecado ou que definhou sob o pecado original. Longe de conter passagens explícitas sobre o assunto, a Bíblia é omissa sobre a maior parte da questão, ainda que toda a evidência bíblica dê suporte ao ensino católico.

Um último pensamento. Se você pudesse ter criado a sua própria mãe, você não teria a feito como sendo a mulher mais bela, virtuosa e perfeita possível? Jesus, sendo Deus, criou a sua mãe (Cl. 1.16; Hb. 1.2) e ele não apenas fez isto, mas ele a fez imaculada e, em sua misericórdia e generosidade, preservou-a assim.

[Tradução: Fábio Salgado de Carvalho; original: http://www.catholic.com/magazine/articles/ark-of-the-new-covenant]

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Uma futura gravidez seria muito arriscada (Tadeusz Pacholczyk, PH.D.)

Várias condições médicas podem afetar a capacidade de uma mulher suportar uma gravidez, por vezes, com ameaças à sua vida e da criança.

Algumas dessas condições incluem a hipertensão pulmonar, a síndrome de Marfan e certos problemas congênitos com a aorta. Quando um médico informa uma mulher que ela não pode engravidar no futuro sem sérias conseqüências para si e para o seu bebê, ter as trompas ligadas pode parecer ser a solução mais adequada. Alguns, além disso, argumentariam que, uma vez que a esterilização seria por “razões médicas”, tratar-se-ia de uma “esterilização indireta” e, portanto, aceitável moralmente.

No entanto, na verdade, uma ligadura nas trompas a fim de evitar uma gravidez futura não seria uma esterilização indireta em absoluto. Uma esterilização indireta é um procedimento que, no tratamento de um problema médico existente, provoca uma perda não intencional da fertilidade no processo. Por exemplo, quando um paciente tem câncer, recebe radiação e quimioterapia, um efeito secundário e não intencional pode ser a esterilidade. Ou quando um homem está lutando contra um câncer testicular, ele pode ser submetido a uma remoção cirúrgica dos testículos a fim de combater a doença, com a conseqüência indesejada de que ele se tornará estéril. Esterilizações indiretas são moralmente permitidas sempre que exista uma séria patologia envolvida e quando os efeitos contraceptivos são involuntários.

Quando uma mulher que sofre de hipertensão pulmonar escolhe ligar suas trompas, entretanto, a laqueadura não se dirige à hipertensão ou à sua cura; ela está, portanto, optando por uma esterilização direta. Quando um homem escolhe uma vasectomia porque está preocupado com a transmissão de um gene defeituoso à sua prole, ele está, da mesma forma, optando por uma esterilização direta. Uma esterilização direta é moralmente inaceitável porque ela envolve a decisão de mutilar diretamente um sistema saudável do corpo, que está funcionando bem e normalmente, por conta de uma finalidade contraceptiva. Tais violações são lugares-comuns nos dias de hoje. Nos Estados Unidos, estima-se que 700.000 mulheres submetem-se a ligações cirúrgicas das trompas a cada ano e cerca de 600.000 homens submetem-se a vasectomias cirúrgicas.

As vasectomias e as laqueaduras não tratam qualquer doença ou patologia realmente existente. Quando uma mulher liga as suas trompas a fim de tornar qualquer ato sexual futuro infértil, ela está escolhendo mutilar uma faculdade fundamental do seu próprio corpo porque ela e/ou o seu esposo não desejam praticar a abstinência periódica para evitar uma gravidez potencialmente perigosa. Uma ligação de trompas sob estas circunstâncias não seria, de fato, por razões médicas, mas, em vez disso, por razões de conveniência marital. Temos o dever de respeitar a integridade e a totalidade dos nossos corpos e cortar trompas de Falópio saudáveis no corpo de uma mulher nunca é uma decisão médica moralmente defensável.

Um dos erros fundamentais no pensamento que está por trás da decisão pela esterilização cirúrgica é a crença de que não se deveria realmente esperar do homem e da mulher que eles tenham controle e domínio das suas energias e impulsos sexuais. Assim, muitos, hoje, parecem ter renunciado ao projeto da busca do domínio próprio no campo da sexualidade. Enquanto é claro que não se pode sobreviver sem comida ou água, é falso supor, como nossa cultura parece presumir, que não se pode sobreviver sem a gratificação sexual. O sexo não é necessário para a sobrevivência individual, nem indispensável para uma vida pessoal saudável e completa. Para alguém solteiro, de fato, uma vida pessoal saudável e completa dependerá do ordenamento adequado das faculdades sexuais por meio da autodisciplina da abstinência e por meio de um concomitante crescimento em virtudes. Isto é válido no casamento também, em que o relacionamento conjugal deve crescer e amadurecer. O casal pode ter de praticar tal disciplina em condições de recrutamento militar, de ausências concernentes ao trabalho e por conta de doenças crônicas ou agudas.

Sempre que possa haver razões legítimas para evitar-se uma gravidez, como no caso de uma séria ameaça à vida da mãe ou da criança, os casais serão chamados a uma prática similar de autodisciplina, recorrendo apenas àqueles meios de evitar a gravidez que respeitem genuinamente o dom da sua sexualidade e as suas respectivas masculinidade e feminilidade. Em termos práticos, isso implicará a escolha por uma abstinência periódica durante os períodos férteis conhecidos do ciclo da mulher como meio de evitar uma gravidez. Poucas décadas atrás, as técnicas de “planejamento familiar natural” tornaram-se bastante sofisticadas e precisas na sua capacidade de determinar quando uma mulher está fértil. Os casais podem usar essa informação para limitar as relações sexuais aos períodos inférteis, praticando a abstinência durante os períodos férteis, quando há sérias razões que justifiquem isto. Respeitar a sexualidade conjugal dessa forma e recusar-se a comprometer nossas faculdades sexuais por meio de vasectomias ou de ligaduras de trompas promovem virtudes pessoais importantes no casamento e respeitam devidamente os desígnios divinos e de doação da vida dos nossos corpos.




domingo, 25 de setembro de 2016

A interpretação católica da Bíblia: desfazendo os mitos (Dave Armstrong)


Contrariamente à alegação de alguns, os católicos realmente têm uma ampla liberdade para ler e interpretar a Bíblia (contanto, obviamente, que eles a leiam com a intenção de dar suporte às doutrinas da Igreja). 

Estamos, também, livres para ler diferentes versões das Sagradas Escrituras, embora, normalmente, dê-se maior prioridade às versões católicas. A minha própria tradução favorita é a "Revised Standard Version" (RSV), que foi aprovada em uma edição católica com apenas alguns esclarecimentos.

O Venerável Papa Pio XII, na sua encíclica papal de 1943, "Divino Afflante Spiritu", escreveu:

"Antes, o decreto Tridentino nem sequer proíbe que, para uso e proveito dos fiéis e para facilitar a inteligência da divina palavra, se façam traduções em línguas vulgares, e precisamente dos textos originais [...]. Bem preparado com o conhecimento das línguas antigas e com os recursos da crítica, aplique-se o exegeta católico àquele que é o principal de todos os seus deveres: indagar e expor o sentido genuíno dos Livros Sagrados. Neste trabalho tenham os intérpretes bem presente que o seu maior cuidado deve ser distinguir claramente e precisar qual seja o sentido literal das palavras bíblicas.". (final da parte 2 e início da 3).

A Constituição sobre a Revelação Divina do Segundo Concílio Vaticano ("Dei Verbum") concordou:

"É preciso que os fiéis tenham acesso patente à Sagrada Escritura. [...] visto que a palavra de Deus deve estar sempre acessível a todos, a Igreja procura com solicitude maternal que se façam traduções aptas e fiéis nas várias línguas, sobretudo a partir dos textos originais dos livros sagrados. Se porém [...] essas traduções se fizerem em colaboração com os irmãos separados, poderão ser usadas por todos os cristãos.". (capítulo 6, seção 22)

A "New American Bible" (a minha cópia tem o Novo Testamento revisado de 1986: Nelson, 1987) contém um artigo preliminar, "O propósito da Bíblia" (p. xii):

"Quando Pio XII emitiu a sua encíclica 'Divino Afflante Spiritu', em 1943, a porta foi aberta para novas traduções católicas que não dependiam da Vulgata Latina de São Jerônimo. Devido ao grande crescimento do conhecimento das línguas bíblicas antigas, traduções oficiais diretamente delas foram encorajadas [...]. A 'Revised Standard Version' é a menos interpretativa de todas [...]. A Bíblia de Jerusalém e a 'New English Bible' esforçam-se por uma linguagem ainda mais contemporânea [...]. A 'New American Bible' [...] é a primeira tradução católica americana que foi baseada nas línguas originais, ou na forma mais antiga do texto, em vez da Vulgata.".

Os católicos não são obrigados a interpretar cada versículo da Bíblia de acordo com alguma proclamação dogmática da Igreja. Este é outro mito comum que muitas vezes escutamos de nossos estimados amigos protestantes (e muitos católicos, também, não conhecem nada diferente disso). De fato, o católico fiel ortodoxo deve interpretar o que ele depreende das Escrituras em concordância com a Igreja e com a Tradição. Esta, entretanto, é uma noção radical e controversa?

De fato, os protestantes crêem, em grande medida, no mesmo. Cada protestante age da mesma maneira no que diz respeito à sua própria tradição denominacional. Nenhum calvinista de cinco pontos pode afirmar --- contra a sua própria tradição --- que um versículo da Bíblia prova a apostasia ou a queda ou o desejo de Deus pela salvação universal em detrimento da expiação limitada (embora, na verdade, existam muitas dessas passagens). Ele não pode negar a depravação total por meio do uso de qualquer texto ou a graça irresistível. Isto não está permitido. A tradição calvinista (reformada/presbiteriana) dita que essas doutrinas, e apenas elas, podem ser encontradas nas Escrituras.

Desse modo, com efeito, exige-se uma certa interpretação dos versículos da Bíblia que tenha sido historicamente usada para apoiar os ensinamentos calvinistas. Ironicamente, este é um dos ataques que os protestantes freqüentemente usam para acusar os seus irmãos católicos: é-lhes dito pela Igreja "como pensar" sobre a interpretação bíblica.

Praticamente todos os cristãos têm restrições ortodoxas e dogmáticas a que obedecem. O exegeta católico é limitado em muito pouco e tem praticamente tanta liberdade de investigação quanto um protestante. O artigo da "Catholic Encyclopedia" de 1913 sobre a "Exegese Bíblia" afirma:

"O comentador católico está obrigado a aderir à interpretação dos textos que a Igreja definiu de forma expressa ou implicitamente. O número destes textos é pequeno, de forma que o comentador pode, facilmente, evitar qualquer transgressão desse princípio.".

Aos católicos, é permitido traduzir do grego, de acordo com o conhecimento arqueológico e textual mais recente, fazer uso de diferentes traduções e até mesmo cooperar com projetos de tradução ecumênicos, como aquele do RSV ou da NEB. E você e eu estamos autorizados a interpretar livremente praticamente qualquer texto por conta própria, desde que não o façamos contra um dogma da Igreja (eu não poderia, por exemplo, alegar que João 1.1 não ensina a divindade de Jesus ou que Ele não seja o Filho de Deus).

Apenas poucos versículos bíblicos foram definidos de forma estrita pela Igreja e, mesmo assim, apenas em aplicações específicas (na maior parte, em um sentido negativo: i.e., a passagem não pode significar X no tocante à doutrina Y). Tais passagens incluem Mateus 18.18 (absolvição e perdão dos pecados pelos padres), Lucas 22.19 (Eucaristia), João 3.5 (Batismo), João 20.22-23 (absolvição e perdão dos pecados pelos padres), Romanos 5.12 (pecado original), 1 Coríntios 11.24 (Eucaristia), Tiago 6.14 (a instituição do Sacramento da Unção dos Enfermos).

Além disso, em várias casos, mas não em todos, a categoria de tais passagens diz respeito a Mateus 16.16 e a João 1.42, no tocante a São Pedro ser o líder da Igreja.

Infelizmente, muitas pessoas erroneamente afirmam que pelo fato de os católicos estarem obrigados a acreditar nos ensinamentos da sua Igreja eles "devem", portanto, ser não racionais e como leitores "robóticos" que não podem, simplesmente, ler a Bíblia pelo que ela é e pensar por si mesmos (um estereótipo equivocado conhecido como "sola ecclesia": "a Igreja somente"). Isto pode ser descartado como sendo um exemplo da falácia da falsa dicotomia.

Nenhum católico é obrigado a seguir "cegamente" a uma autoridade. A nós é permitido pensar e exercitar a razão como qualquer outro cristão e devemos ser resistentes e refutar essas caricaturas cartunistas da Igreja.



Rezar o Rosário é "vã repetição"? (Dave Armstrong)


Um novo converso católico que estava digladiando-se com alguns pontos da fé perguntou-me sobre o Rosário anos atrás:

"Maria é citada, na maior parte das vezes, na sua totalidade. Acho difícil meditar sobre Cristo quando Maria é tão predominante. Por que Maria preenche a oração de maneira tão excessiva?".

Em primeiro lugar, é preciso compreender a natureza do Rosário e o propósito da repetição. A maior parte das palavras da "Ave Maria" é, dever-se-ia notar, diretamente extraída da Bíblia. Seria incorreto dizer que, pelo fato de a palavra "Maria" ser repetida mais que qualquer outra no Rosário, portanto, ela é considerada mais importante que Jesus, que é o ponto de enfoque na meditação do Rosário.

A intenção das repetições na oração "Ave Maria" é formar uma espécie de "música de fundo", por assim dizer, para as meditações sobre (principalmente) a vida de Jesus.

Isso me lembra um pouco de uma analogia proveniente do meu passado como trombonista na banda e orquestra no meu ensino médio. Todo ano, nas formaturas, tínhamos de tocar (para o meu desgosto) o famoso "Pomp and Circumstance", do Edward Elgar. Agora, o propósito da cerimônia de abertura era que escutássemos o "Pomp and Circumstance" 71 vezes? Não. Claro que não. O propósito era o de honrar os formandos pela sua realização em obter um diploma de ensino médio. A música era o pano de fundo, assim como a trilha sonora de um filme.

Não é uma analogia perfeita (poucas o são), mas as "Ave Maria" no Rosário são, pelo menos em parte, uma espécie de pano de fundo rítmico para as meditações. É uma maneira (um tanto engenhosa, quando completamente compreendida) de avançar-se na oração e de evitar-se a distração, algo com que todos estamos muito familiarizados quando tentamos orar.

Alguns dizem que é difícil meditar sobre Cristo enquanto se repetem as "Ave Maria". Isto se dá, arriscar-me-ia a conjecturar, provavelmente, principalmente em função de uma falta de familiaridade com o Rosário. É muito diferente de grande parte da piedade protestante, uma vez que coisas como a penitência, o Purgatório e a intercessão pelos mortos ou pedir aos Santos para rezarem por nós são bastante estranhas, à primeira vista, para uma típica mente protestante. É uma "arte a ser aprendida" em grande medida. Esta experiência é comum a muitos conversos.

Encontramos na Bíblia um tipo semelhante de repetições na forma desse canto de fundo. Tomem, por exemplo, o Salmo 136, no qual a mesma frase "o seu amor dura para sempre" (RSV) é repetida por 26 versículos! Os "Ave Maria" do Rosário são algo semelhante a isso. Eles não são, entretanto, "vãs repetições" (Mt. 6.7 na KJV; cf. "não useis de vãs repetições" na RSV; também, Eclesiástico 7.15: "não multipliques as palavras em tua oração".)

Protestantes que argumentam que todas as orações formais que repetem frases são "vazias" ou "vãs" ignoram completamente a interpretação mais profunda dessa narrativa bíblica no seu contexto. Jesus está recomendando e exortando os Seus ouvintes a uma genuína e humilde piedade de coração em oposição a uma vazia e superficial piedade meramente externa que visa a ser vista por homens de um modo espiritualmente orgulhoso.

Esse tema da piedade autêntica versus a fingida é predominante no Sermão da Montanha (veja Mt. 6.1-6, 16; cf. 7.20-23; 15.9). A mesma idéia geral é também observada em Marcos (12.38-40) e Lucas (20.46-47). Não é que todas as orações extensas estão condenadas, mais que orações repetitivas estão-no, mas que orações feitas com um espírito fingido e orgulhoso (para mostrar-se aos homens, fazendo os outros pensarem que você é alguém "superpiedoso") estão condenadas.

Em Mateus 6.7, também, Jesus qualifica o que Ele está opondo à oração com a expressão "como fazem os pagãos". Ele não está falando sobre a tradição hebréia da oração (que de maneira bastante óbvia inclui muita repetição, como a dos Salmos ou dos cânticos e orações sacerdotais). Tampouco, Ele está falando dos (Seu alvo freqüente) fariseus, mas sim dos "pagãos" ou dos "gentios" (de acordo com várias traduções) romanos e gregos, pessoas que seguiam uma religião diferente e, em última análise, falsa. Esse elemento e aspecto da piedade interior indicam que a passagem é muito mais do que meramente uma discussão sobre a repetição no sentido de ordenar que devemos apenas abandonar toda repetição, como se Deus condenasse isto.

O próprio Jesus fez uso de repetições ao orar: "Então, deixou-os novamente e orou pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras" (Mt. 26.44; cf. Mc. 14.39). A adoração no Céu é extremamente repetitiva:

Apocalipse 4.8: "... dia e noite repetem sem cessar: 'Santo, santo, santo é o Senhor Deus todo-poderoso, que era, que é e que há de vir".

Deveríamos recordar-nos de todas essas coisas na próxima vez em que escutarmos que orações formais ou repetitivas são, em si mesmas, condenadas como "vãs repetições" ou como ímpias.
Por último, alguns alegam que o Rosário é mais centrado em Maria do que em Jesus Cristo, ele, entretanto, é uma meditação sobre a vida de Cristo. Dos 20 mistérios, apenas dois são, principalmente, sobre Maria (sua Assunção e Coroação).

O Credo Apostólico meramente menciona o Nascimento Virginal (que diz mais a respeito sobre Cristo do que sobre Maria). O "Pai Nosso" [ou Oração do Senhor], o "Glória" e a "Oração de Fátima" nunca mencionam Maria. Três quartos do "Ave Maria" são explicitamente bíblicos (citação direta):

"Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco" [Lucas 1.28, dito pelo anjo Gabriel]. Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus [Lucas 1.42, dito por Isabel, mãe de João Batista]'.

"Cheia de graça" é a tradução possível para o termo grego "kecharitomene".

O "Salve Rainha" é dirigido a Maria (que ora por nós a Deus), mas mesmo ele termina (i.e. , na oração usual feita no Rosário) em tom cristocêntrico:

"Deus, cujo filho Unigênito, por Sua vida, morte e ressurreição, nos obteve o prêmio da salvação eterna, concedei-nos, nós Vó-lo pedimos que, meditando estes mistérios do Sacratíssimo Rosário da Bem-aventurada Virgem Maria, imitemos o que contêm, e consigamos o que prometem. Pelo mesmo Cristo Senhor Nosso. Amém.".

O Rosário, então, é completamente cristocêntrico, bem como todas as devoções e doutrinas marianas quando compreendidas de maneira correta.".

[Tradução: Fábio Salgado de Carvalho; original:

domingo, 18 de setembro de 2016

Igreja Católica: superior à Bíblia? ou A Igreja Católica reivindica estar "acima" da Bíblia e ser a sua "criadora"? (Dave Armstrong)


A Igreja Católica, asseguradamente, não reivindica tal coisa, mas apenas que uma Tradição cristã autoritativa e uma Igreja institucional foram necessárias para o estabelecimento e proclamação de um cânon da Escritura. 

Em muitos lugares, tanto de forma direta quanto indiretamente, a Sagrada Escritura ensina que é inspirada e infalível. O que ela não nos fornece, entretanto, é o seu próprio cânon (lista de livros). Posto de forma simples: a Escritura é aquilo que ela é. 1 Timóteo 3.16 e outras passagens claramente ensinam essa inspiração. A Igreja Católica, meramente, reconhece o que já é (pela sua própria natureza) Escritura ou revelação inspirada por Deus, mas tal reconhecimento não produz isso. 

Por vezes, alega-se que isso era algo "novo" no Vaticano II. O Concílio, entretanto, ecoou um proferimento anterior do Vaticano I, que, por sua vez, não estava tão longe de expressões similares no Concílio de Trento (1545-1563).

A exata relação entre a Escritura, a Igreja e a Tradição no pensamento católico é comumente mal compreendida; ela é, por vezes, referida como sendo o "tripé" da autoridade católica. Nós cremos, por fé, que as três não entram e não entrarão em conflito. Elas são vistas como sendo peças de um todo. A Bíblia é central e primária no Catolicismo também, mas não é exclusivamente autoritativa. Ela não está isolada, e nem mesmo poderia estar logicamente, porque a Bíblia, por si mesma, aponta para a Tradição e para a Igreja como autoritativas (veja, por exemplo, o Concílio de Jerusalém em Atos 15); ela nunca ensina que a Bíblia sozinha é a única autoridade final do cristão. 

Por quê, então, algumas pessoas perguntam, os católicos, muitas vezes, agem como se não existisse Bíblia alguma sem a Igreja Católica? Elas alegam que isso implica que nós, católicos, pensamos que a nossa Igreja está acima da Bíblia e que lhe é superior. A posição protestante (dizem-nos eles então) faz mais sentido porque ela coloca igrejas e tradições abaixo da Escritura. Isto parece óbvio porque a Bíblia é inspirada e infalível e homens e tradições (que compõem as igrejas) são falíveis e bastante propensos ao erro. Assim, como poderia ser diferente? 

Não se segue, de forma alguma, entretanto, que os católicos estejam colocando a Igreja acima da Escritura ao, simplesmente, ressaltarem que uma autoridade humana era necessária para que se determinasse o cânon. Podemos fazer uma analogia ou comparação para explicarmos isto melhor. 

Todos concordam que a Bíblia deve ser interpretada apropriadamente. O protestantes, para o seu crédito, dão grande ênfase ao aprendizado e estudo da Bíblia de maneira sábia e inteligente (as ciências da exegese e da hermenêutica). Apenas porque esse aprendizado e estudo são necessários para que se leia a Bíblia corretamente a fim de que se atinja a verdade na teologia não significa que, portanto, a Bíblia não contivesse a verdade ou que as interpretações humanas estejam "acima" da inspiração bíblica "inspirada por Deus". 

Da mesma forma, foi necessário aos homens que concílios da Igreja decidissem-se sobre quais seriam os livros específicos que estariam inclusos no cânon bíblico. Isto não implica nem que esses concílios (a Igreja sozinha) estivessem "acima" da Escritura e muito menos que uma comunidade cristã que declarasse autoritativamente em seu credo que Jesus é Deus feito carne torná-los-ia com isto "maiores" do que Ele é ou superiores. 

A proclamação de uma realidade existente não tem nada a ver com uma suposta "superioridade" de categoria. Tanto a Bíblia como a verdade teológica permanecem sendo o que são em todos os momentos.  Deus, no entanto, está apto (e, de fato, age assim) a proteger os seres humanos do erro na medida em que fazem reivindicações permanentes sobre o cânon bíblico. Os católicos crêem que Deus (o Espírito Santo, conforme João 14-16) quis proteger a Igreja Católica do erro e que Ele é certamente capaz de fazer isto porque ele pode fazer qualquer coisa. 

Para concluir, aqui estão os documentos magisteriais católicos que estão relacionados com a questão:

Primeiro Concílio Vaticano (1870)
Estes livros a Igreja assegura como sendo sagrados e canônicos, não porque, tendo sido cuidadosamente compostos por empreendimentos humanos, tenham sido posteriormente aprovados pela sua autoridade, nem porque eles contenham revelação sem qualquer mistura de erro, mas porque, tendo sido escritos sob inspiração do Espírito Santo, eles têm Deus por seu autor e foram entregues como tais à mesma Igreja.  
(Constituição Dogmática Sobre a Fé Católica, capítulo II; ênfases acrescidas)

Segundo Concílio Vaticano (1962-1965) 
As coisas reveladas por Deus, contidas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram escritas por inspiração do Espírito Santo. Com efeito, a santa mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como santos e canônicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo (cfr. Jo. 20,31; 2 Tim. 3,16; 2 Ped. 1, 19-21; 3, 15-16), têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja.
(Constituição Dogmática Sobre a Revelação Divina [Dei Verbum], Capítulo III, 11; ênfases adicionadas).

[Tradução de Fábio Salgado de Carvalho; original:

Você escutou alguém dizendo que católicos adoram estátuas? (Patrick Madrid)

A seguinte explicação é um excerto do meu livro “Does the Bible really say that? Discovering catholic teaching in Scripture” (A Bíblia realmente diz isso? Descobrindo o ensinamento católico na Escritura):

As repreensões contra a idolatria aparecem em toda a Escritura (e.g. , Números 33:52; Deuteronômio 7:5,25; 9:12; 12:3; 2 Reis 17:9-18, 23:24; 2 Crônicas 23:17, 28:1-3, 22:18-25,34:1-7). Em 1 Coríntios 10:14, São Paulo escreve: “bem-amados, deveis fugir da idolatria” (Romanos 1:18-23).

Deus condena o pecado da idolatria, seja na forma de adoração de estátuas, ou de bolsa de valores, de sexo, de poder, ou de um novo carro, qualquer coisa que seja como um ídolo. Entretanto, Ele não proíbe imagens religiosas contanto que sejam usadas apropriadamente. Por exemplo, em Êxodo capítulo 25, Deus ordena a Moisés que esculpa estátuas de anjos.

“Iaweh falou a Moisés, dizendo... farás dois querubins de ouro, de ouro batido os farás, nas duas extremidades do propiciatório; faze-me um dos querubins numa extremidade e o outro na outra: farás os querubins formando um só corpo com o propiciatório, nas duas extremidades. Os querubins terão as asas estendidas para cima e protegerão o propiciatório com suas asas, um voltado para o outro. As faces dos querubins estarão voltadas para o propiciatório... Ali virei a ti, e, de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins que estão sobre a arca do Testemunho, falarei contigo acerca de tudo o que eu te ordenar para os israelitas.” (Êxodo 25:1, 18-20, 22; cf. 26:1).

Isso mostra, claramente, que existem circunstâncias nas quais imagens religiosas não são meramente permitidas, mas, realmente, agradam a Deus. Outro exemplo é o incidente bastante engraçado descrito em 1 Samuel 6:1-18. Em Êxodo 28:31-34, o Senhor ordenou que as vestimentas sacerdotais de Arão fossem adornadas com imagens de romãs. Em Números 21:8-9, Ele ordenou a Moisés que confeccionasse uma imagem de escultura de uma cobra que iria, miraculosamente, curar mordidas de cobras venenosas (um misterioso prenúncio da cruz de Cristo [cf. João 3.14; 8:28]). E em 2 Reis 18:4, quando o povo começou a adorar a serpente de bronze, o rei imediatamente a destruiu. O que, outrora, foi uma legítima imagem sagrada tinha se tornado um objeto de idolatria. (Uma narrativa de advertência para qualquer um tentado pela superstição ou pela idolatria).

E note o que Deus disse a Salomão no que concerne à construção do Templo: “Quanto a esta casa que estás construindo, se procederes segundo os meus estatutos, se observares as minhas normas e seguires fielmente os meus mandamentos, eu cumprirei em teu favor a minha palavra, que dei a teu pai Davi, e habitarei no meio dos israelitas e não abandonarei meu povo, Israel. Salomão edificou o Templo e o concluiu.” (1 Reis 6:12-14).

Essa declaração é importante porque o Templo continha um vasto número de estátuas e de imagens, incluindo de anjos, de árvores, de flores, de bois e de leões (cf. 1 Reis 6:23-35, 7:25,36). A decisão de Salomão de incluir essas imagens religiosas veio do presente de sabedoria com que Deus abençoou-o (cf. 1 Reis 3:1-28). E longe de estar descontente com essas imagens,“Iaweh lhe disse: ‘Ouvi a oração e a súplica que me dirigiste. Consagrei esta casa que construíste, nela colocando meu Nome para sempre; meus olhos e meu coração aí estarão para sempre.” (1 Reis 9:3).

Obviamente, Deus não iria abençoar a Salomão e “consagrado” seu templo cheio dessas estátuas e imagens se Ele não as aprovasse — mais uma prova de que as imagens podem ser boas quando usadas para pôr em ordem as nossas mentes em direção a Deus e às realidades celestiais.

Lembre-se, também, de que São Paulo chamou Cristo de “a imagem expressa” do Deus invisível (Colossenses 1.15). A palavra grega aqui para “imagem” é eikonos, da qual deriva a palavra "ícone”.

Assim como guardamos fotos de nossos familiares e amigos para lembrarmo-nos deles, nós também guardamos estátuas e imagens nas nossas casas e igrejas para lembrarmo-nos do Nosso Senhor, de Nossa Senhora e dos Santos.

[Tradução de Fábio Salgado de Carvalho; original: http://patrickmadrid.com/did-you-hear-the-one-about-catholics-worshiping-statues/]