segunda-feira, 18 de março de 2013

Sobre a dispensabilidade dos noticiários

"Mesmo em tempo de paz acho que estão redondamente enganados os que defendem que meros meninos devam ser incentivados a ler jornais. Quase tudo o que um menino lê lá na adolescência já terá sido reconhecido como falso em ênfase e interpretação, ou mesmo em fato, quando o mesmo menino estiver na casa dos vinte anos - e a maioria dessas informações terá perdido toda a importância. A maior parte do que estiver gravado na memória precisará, portanto, ser desaprendido; e ele provavelmente terá adquirido um gosto incurável pela vulgaridade e o sensacionalismo, e o hábito fatal de esvoaçar de parágrafo a parágrafo para ver que uma atriz se divorciou na Califórnia, um trem descarrilou na França e quadrigêmeos nasceram na Nova Zelândia.". [C. S. Lewis]
   Não me lembro, precisamente, de onde tirei o trecho acima do C. S. Lewis. Já o usei numa postagem num fotolog que tinha — http://www.fotolog.com.br/fabiosal/20732907/ . Em 2007, ainda era agnóstico. Como os meus colegas cristãos insistiam muito para que eu lesse C. S. Lewis, resolvi lê-lo. Naquele ano, li praticamente tudo o que havia sido lançado dele em Português, com exceção das Crônicas de Nárnia — se a Dani, minha namorada, ler isso, ela vai pegar no meu pé: ela tem o volume único e emprestou-me para que eu tivesse o trabalho de lê-lo há muitos anos; no entanto, sempre adio a sua leitura. Confesso que achei o Lewis muito fraco. Ele sempre começava bem a argumentação, mas se perdia. O melhor argumento que li nele, no Cristianismo Puro e Simples, foi o de que não existia isso de você ser um mero admirador de Cristo: ou você admirava-o e cria no que ele disse ou acharia que ele era um louco. Não tinha meio termo — tertium non datur. Na época, eu era daqueles que dizia que apenas admirava a Cristo. Na mesma semana em que li isso, tomei notícia de um artigo que buscava mostrar como psicopatologias estão relacionadas àqueles que são religiosos. Optei, na época, por crer, então, que Cristo, de fato, foi um maluco qualquer. Creio que se lesse o Lewis hoje, talvez, tivesse outra percepção dele. Acredito que ele seja uma leitura para cristãos e não para agnósticos ou ateus. Confesso, inclusive, que estou muito curioso para ler o livro que a É Realizações lançou recentemente, intitulado Alegoria do Amor.

   Nasci num lar onde a informação fornecida pelos noticiários sempre foi privilegiada. Meu pai é uma pessoa muito bem "informada" — o uso das aspas aqui ficará mais claro no decorrer do texto. Ele sempre leu jornais, ouviu os noticiários no rádio — achava muito chato mesmo quando era criança e meu pai ficava ouvindo "A voz do Brasil" no carro quando pegava a mim e a minha irmã no colégio. Meus pais vêem o Jornal Nacional todos os dias desde que me entendo por gente. Comecei a dar certa importância a isso quando, no meu segundo ano do Ensino Médio, um professor de Geografia dava pontuações a mais na prova por questões extras. Ele, também, destacava a importância de estar bem informado para ser bem sucedido no PAS e no vestibular. Foi nessa época que começamos a assinar a revista Veja aqui em casa. Nessa época, eu acompanhava, além da Veja, a Carta Capital, Caros Amigos, Primeira Leitura, Época, IstoÉ, entre outras revistas.

   No semestre passado, uma professora minha sempre comentava notícias recentes e, pelo desconhecimento da turma sobre os assuntos, ficava de ironias, perguntando se não acompanhávamos os noticiários. As pessoas costumam tomar por pressuposto que, de fato, é importantíssimo ser uma pessoa bem informada sem ter nenhuma reflexão crítica sobre o assunto. No ano passado, fiz uma prova para ser consultor legislativo do Senado na área de pronunciamentos. Estudei muito, mas não caiu praticamente nada do que eu estudei. Vejam uma questão que caiu na área de atualidades:
"Em um polêmico livro recém-lançado, Mimi Breardsley faz revelações surpreendentes e narra como o presidente John Kennedy a embebedou e seduziu quando, aos 19 anos, trabalhou como estagiária na Casa Branca. No livro, a Sra. Alford, sobrenome de casada, revela que foi trabalhar como estagiária na assessoria de imprensa da Casa Branca e que, depois de quatro dias, um assessor confiável, David Powers, ofereceu-lhe vários daiquiris antes de o presidente Kennedy lhe conceder um tour privado pela Casa Branca, que acabou no leito da primeira dama, que estava fora.
O que mais veio à tona com o relato de Mimi Alford? 
(A) Jacqueline Kennedy ficou sabendo do que houve no dia seguinte, através de sua secretária e agrediu o Presidente Kennedy.
(B) Mimi manteve o romance com o presidente até Jacqueline descobrir e mandar demití-la da Casa Branca.
(C) Mimi teve que fazer dois abortos em quase um ano de namoro.
(D) Durante o fim de semana da morte de Kennedy, Mimi planejava o casamento com seu noivo, mas, arrasada pela dor, confessou o affair secreto que manteve durante todo o namoro.
(E) Mimi, atualmente em dificuldades financeiras, decidiu revelar toda a verdade.".
   Não tinha a menor idéia da resposta dessa questão e confesso que até hoje não sei e nem quero saber. Ter cultura hoje em dia é ter conhecimento de um livro publicado pela amante de um presidente. Isso é lamentável. Hoje em dia, fico sabendo dos acontecimentos pelo Facebook ou porque alguém conhecido faz algum comentário. Por exemplo, no caso recente do incêndio de Santa Maria, só fiquei sabendo, tardiamente, depois de todos comentarem o assunto. O que fiz? Achei um texto resumindo como tudo aconteceu. Os noticiários, contrariamente, ficam dando cobertura de um mesmo assunto por semanas e as pessoas, incrivelmente, conseguem não se entediar com isso; entretanto, entediam-se se um livro tem mais de 50 páginas e não tem figuras, aventuras ou relatos picantes. Vocês podem dizer que sou insensível ou coisa parecida, mas eu pergunto-me: qual a relevância de saber que houve um incêndio em Santa Maria, tendo conhecimento de todos os detalhes do ocorrido? Obviamente, estou fazendo essa pergunta tendo por base o pensamento comum de que, por meio dos noticiários, você terá informações muito importantes para ter uma melhor compreensão do mundo. Pergunto-me quantas dessas pessoas informadíssimas sabem, por exemplo, quem foi Nagarjuna, que foi um dos pensadores mais importantes no Oriente. Para não apelar tanto, fazendo menção a uma cultura tão diferente da nossa, pergunto-me quantas pessoas, entre essas que vêem uma necessidade extrema em acompanhar as notícias, conhecem as obras clássicas na história da literatura ocidental que influenciaram fortemente a nossa cultura. Talvez, alguns irão dizer-me que uma coisa não exclui a outra: alguém pode perfeitamente acompanhar os noticiários e ter o tipo de conhecimento geral de que estou falando. O grande problema, pra mim, é que, infelizmente, temos um tempo muito curto de vida, tendo em vista a grandiosidade do conhecimento acumulado ao longo da história, sem contar aquele que é acrescido diariamente àquilo que já foi feito. Eu diria que acompanhar o noticiário uma vez por semana já é mais do que suficiente.

   Percebi que até aqui falei mais sobre impressões pessoais e não fui muito argumentativo. Com caridade — algo muito raro de ser dispensado às falas dos outros —, pode-se perceber que eu apresentei argumentos. Como, entretanto, sempre gosto de discutir os assuntos buscando objetividade — se não houver essa busca, não tem sentido discutir apenas no campo do achismo —, elencarei o que forneci até aqui:

1) A relevância dos assuntos noticiados é extremamente discutível — tenham a citação do Lewis em mente;
2) Nosso tempo de vida é curto quando comparado ao conhecimento a ser adquirido; logo, devemos priorizar o que, de fato, é comumente aceito por relevante.

   Um professor meu disse, certa feita, que ele não dá muita atenção para o que é feito nos últimos 50 anos. Não sabemos, por exemplo, se um filósofo badalado de hoje terá alguma relevância daqui a 300 anos. Sabemos, entretanto, perfeitamente, que Platão e Aristóteles, por exemplo, são cruciais na história do pensamento ocidental. Conversando sobre o assunto com a Dani, ela disse que ignorar completamente o que é feito hoje pode implicar o desconhecimento de alguém que seja tido como importante; por exemplo, se as pessoas, na época de Platão e Aristóteles, tivessem pensado assim, elas não teriam tido contato com dois gênios da humanidade, mesmo tendo vivido na mesma época que eles. Concordo perfeitamente com ela; entretanto, eu diria que não é o caso de ignorar-se tudo o que se faz recentemente, mas apenas de conferir menor esforço e tempo, proporcionalmente, para estudar-se e tomar-se conhecimento do que é produzido hoje.

   O mesmo argumento que uso aqui, também, pode ser utilizado para filmes, livros etc. . Conheço pessoas que se gabam de ter lido um livro 5 vezes ou de ter visto um mesmo filme 10 vezes. Pergunto-me o que essas pessoas têm na cabeça. Parece-me tão óbvio que isso seja uma perda de tempo. Confesso, entretanto, que não consigo usar esse critério no campo musical — obviamente, não o uso, também, no tocante às Escrituras, embora nunca tenha lido por completo uma mesma tradução: sempre busco ler traduções diferentes. Ouço canções mais de uma vez, embora tente não perder muito tempo com isso a fim de poder abarcar outras obras reconhecidamente relevantes. O único argumento que antevejo para alguém se defender seria dizer que não se tem a mesma leitura de uma mesma obra porque a pessoa mudou; contudo, esse argumento não anula o fato de que há uma imensidão de conhecimento a ser perscrutada.

   Sei que nem todo mundo enxerga a sua existência como tendo por objetivo a busca do conhecimento. Sinceramente, creio, assim como Platão, que uma vida não questionada não merece ser vivida; entretanto, claramente, Platão não falava de meras perguntas. Alguns acreditam piamente que fazer perguntas a torto e a direito é algum sinal de inteligência. Qualquer criança é capaz de sair fazendo perguntas. Alguém, cujo nome falha-me à memória, disse que se conhece um homem mais pelas suas perguntas do que pelas suas respostas. A minha experiência em salas de aula faz-me crer nisso. Enfim, o que quero dizer é que questionar a vida não é apenas fazer perguntas sobre ela, mas tomar conhecimento das respostas que foram buscadas a ela: afinal, como se questionar sobre algo sem ter algum conhecimento sobre o que se quer pôr em questão? Terminamos com o dilema platônico: se buscamos o conhecimento, já devemos conhecê-lo: do contrário, não poderíamos sequer buscá-lo; entretanto, se já o conhecemos, por que o buscamos?


domingo, 10 de março de 2013

Por que me recuso a escrever menos

   Não é de hoje que as pessoas costumam interpelar-me para mencionar que eu escrevo demais e que deveria escrever menos, seja no Facebook ou aqui — na época dos flogs, já me perturbavam com isso. Confesso que não consigo entender em absoluto quais são as intenções de alguém que me diz um conselho desse. Aplico todo o meu conhecimento sobre implicaturas conversacionais e não consigo entender o que as pessoas querem dizer. A explicação mais plausível que vejo é a de que elas simplesmente querem expressar que se sentem, de alguma maneira, incomodadas por terem preguiça de ler o que eu escrevo. Algo que sempre me incomodou nas relações pessoais é que, geralmente, elas costumam ser assimétricas. Explico-me. Perdi a conta do número de vezes nas quais as pessoas disseram-me coisas sem ter a menor preocupação, mas que se eu fizesse precisamente a mesma coisa elas sentir-se-iam extremamente ofendidas. Dou um exemplo: suponha que eu tenha feito um corte de cabelo novo. Saio de casa e a primeira coisa que alguém do meu convívio — não necessariamente alguém muito íntimo — diz é que o meu penteado está ridículo, expressando-se da maneira mais deselegante e descortês possível. Como não sou uma pessoa que costuma sentir-se ofendida por qualquer coisa — digo, freqüentemente, que esse é um dos males da nossa sociedade de hoje (talvez, algum dia, eu escreva sobre isso) —, não protesto frente aos comentários desnecessários que não foram solicitados. Aceito-os, mesmo que seja a contragosto. A histeria, entretanto, daqueles que têm a sua opinião contrariada no menor detalhe é completamente desproporcional.

   Uma das piores marcas do convívio social é o fato de você estar inserido no meio de pessoas irracionais. Antes de estudar, formalmente, a Pragmática, acreditava, piamente, que eu deveria dizer as coisas sem me preocupar com o modo como falava: se quero emitir um juízo, por que não ser o mais conciso possível? Dizer "2+2=4" é equivalente a dizer "1+1+1+1=4". Por que preterir o uso daquela expressão em favorecimento desta? Sempre julguei que a comunicação dava-se em termos de referências: se duas frases têm a mesma referência, não interessa qual frase eu profira. Hoje, depois de estudar, também, um pouco de retórica, eu sei que a coisa não é tão simples, pelo menos em meio a pessoas completamente alheias ao pensamento lógico, não tendo, portanto, nenhum tipo de coerência. É, realmente, muito chato você querer dizer algo e ter de fazer uma longa introdução por meio de bajulações e falsas demonstrações de humildade para não ser mal interpretado. Experimente, por exemplo, mencionar um autor desconhecido numa discussão sem antes dar explicações de que você está, de fato, interessado no debate e não em demonstrar erudição ou coisa parecida. Na verdade, isso me leva a um texto que concebi há tempos que pretendo escrever um dia aqui que tratará sobre o papel do princípio hermenêutico da caridade nas relações interpessoais.

   O título da postagem de hoje diz respeito a razões pelas quais me recuso, terminantemente, a escrever menos seja onde for. Vamos às razões. A primeira delas é a minha crença de que as pessoas não têm absolutamente nada a ver com a quantidade de linhas que escrevo. Isso não lhe diz respeito e nunca pedi a opinião de ninguém sobre o assunto. Se você achou a minha fala grosseira, o tom foi proposital, uma vez que acho igualmente grosseiro alguém dar palpite sobre isso sem que tenha recebido um convite para manifestar-se. O que tenho pra dizer, talvez, confesso, por própria incompetência minha, não pode ser dito em 140 caracteres. De qualquer maneira, duvido que alguém que já não lê o que eu escrevo dar-se-ia ao trabalho de fazê-lo se eu fosse mais econômico. Antes de continuar — aqui, entra a parte chata que mencionei de ter de ficar dando explicações desnecessárias para quem é irracional —, este texto não é dirigido a ninguém especificamente. Como mencionei no início, há tempos sou confrontado com essa sugestão de escrever menos e direciono as palavras da postagem de hoje não apenas àquelas que já me deram esta sugestão, mas a todos que já pensaram em dizer-me isso. Confesso, também, que é sempre bom já ter um texto pronto para fornecer àqueles que costumam recorrer a frases feitas, poupando-me o trabalho de reescrever o que já tenha dito a outras pessoas.

   O que eu sempre achei engraçado é que as pessoas costumam dar as desculpas mais estapafúrdias do mundo para deixarem de ler. A mais corrente é uma pretensa falta de tempo. Experimente, entretanto, falar sobre os jogos do fim de semana: dificilmente, a pessoa demonstrará ignorância sobre eles. Respeito a sua opção, embora tenha desprezo pelo seu conteúdo, e espero ser respeitado pela minha opção de ler, estudar  e escrever em vez de perder tempo com novelas, telejornais, jogos esportivos ou videogames. Você pode preferir ver um jogo de futebol a ler o que eu escrevo, mas não me venha com a desculpa de que lhe falta tempo. 

   O filósofo brasileiro Olavo de Carvalho costuma dizer que aquilo que não verbalizamos escraviza-nos. Ele, ainda, menciona que as psicoterapias costumam funcionar, justamente, a partir da metodologia da verbalização. Durante muito tempo, não compreendi por que eu sempre senti a necessidade de escrever desde muito novo. Tinha algumas pistas. Nunca fui uma pessoa de muitas amizades. Sempre tive amizades profundas, mas que poderiam ser contadas com apenas uma palma da mão. Lembro-me de que a minha irmã, contrariamente, sempre foi uma pessoa que tinha muita facilidade de conseguir amizades. Foram inúmeras as vezes que fui convidado a festas de aniversário apenas porque era irmão dela; inclusive, a minha amizade com um dos meus melhores amigos iniciou-se, justamente, porque minha irmã foi chamada para ir à casa da irmã desse meu amigo e eu entrei de gaiato na história. Os colegas que tive nos blocos que morávamos, com algumas exceções, eram, na verdade, amigas da minha irmã. Acabava, então, sendo obrigado a brincar de queimada e de elástico. Atrelada à minha introversão estava a minha afinidade natural com as mulheres. A maior parte das minhas amizades era constituída por mulheres. Quando criança, uma psicóloga chegou a alertar a minha mãe para o fato — mal sabia ela que eu "namorava" várias daquelas amigas. Na primeira série do Ensino Fundamental, pedi uma colega em namoro e ela disse que só aceitaria se eu aceitasse namorar mais duas amigas dela. O resultado foi que ganhei três presentes no dia dos namorados e tive de presentear três meninas. Ainda na primeira série, ganhei uma medalha por ter escrito o melhor texto numa competição no colégio. Todas as minhas amigas tinham diários e acabei adquirindo o hábito, também, de escrever diários — infelizmente, não tenho esse material guardado. Vale ressaltar, também, outros fatores que me aproximaram das meninas na minha infância. Lembro-me de que, na primeira série, até jogava futebol bem. Lembro, nitidamente, que jogava com o pessoal da terceira série e que eles elogiavam-me, dizendo que não parecia que eu era da primeira série. Não sei o que aconteceu, mas, de repente, deixei de ser craque e tornei-me um verdadeiro pereba. Tentei, durante alguns anos, virar-me no gol, mas nunca tive muito sucesso, embora fosse um tanto sortudo em várias jogadas, impressionando os meus colegas. Restava-me, portanto, enturmar-me com as meninas no recreio, poupando a mim mesmo da vergonha de demonstrar minha completa falta de traquejo com o futebol. Confesso que a catinga proveniente dos sovacos alheios, também, distanciava-me daquelas atividades esportivas. Houve uma fase em que virei um experto no espirobol e ainda uma fase na qual consegui encontrar outros colegas nerds que gostavam de game boy e estavam viciados em Pokémon; entretanto, apenas durante dois anos — oitava série e primeiro primeiro ano (repeti o primeiro ano do Ensino Médio) — tive amizades de preponderância do sexo masculino. Toda essa digressão foi para falar sobre como se deu a minha intimidade com a escrita — pulei várias partes que espero contar de modo pormenorizado, algum dia, nas minhas cartas autobiográficas. 

   A título de conclusão, a escrita para mim, portanto, é uma espécie de terapia, além de ser, também, uma espécie de confessionário — tenho estudado sobre o Catolicismo ultimamente e lido um pouco sobre como é crucial o papel da confissão no âmbito católico. A quantidade de linhas que escreverei será aquela suficiente para que eu sinta-me em paz comigo mesmo e não aquela que será do seu agrado por uma questão de preguiça. Não escrevo para agradar a ninguém; então, não mudarei a minha escrita em absolutamente nada se não for uma decisão livre minha. Creio, inclusive, que, como Nietzsche, nasci póstumo; talvez, meus leitores ainda não tenham sequer nascido. Houve um compositor, cujo nome falha-me à memória, que disse, certa feita, compor como quem fazia suas necessidades fisiológicas — ele não foi tão polido assim. Escrevo, também, por necessidade, não de ordem fisiológica, mas existencial. Antes de aprender a ler e a escrever, meu pai lia histórias para mim antes de eu dormir e, para mim, era um verdadeiro mistério a maneira como meu pai abria um livro e tirava dele tantas coisas a partir de símbolos que não faziam sentido para mim. A escrita, para mim, é sagrada, assim como a linguagem de modo geral, e tenho com ela uma intimidade tal que me parece absurda qualquer tentativa de intromissão na relação que tenho com ela, lembrando, obviamente, que não inventei a Língua Portuguesa e que, portanto, devo satisfações, mesmo assim, a algo que tomo por empréstimo, por mais que seja íntima a minha relação com o Português; entretanto, a intromissão que discuto neste texto não é de ordem gramatical. Na verdade, creio que nem seja de ordem lógica e nem estética; talvez, meramente psicológica. Enfim, não meta o bedelho onde não for chamado, principalmente se não tiver razões objetivas para opinar. Dispenso palpiteiros.



sexta-feira, 8 de março de 2013

Novas considerações sobre o embate Evolucionismo vs. Criacionismo



   Não me lembro de quando, exatamente, comecei a estudar e a interessar-me pela discussão entre evolucionistas e criacionistas. Lembro-me, apenas, de que foi no Ensino Médio e de que foi antes do terceiro ano do Ensino Médio, que foi quando aprendi formalmente sobre a Evolução — por sinal, tive um excelente curso: isso ficou nítido quando discutia sobre o tema com outras pessoas e quando via os absurdos nos diversos textos sobre a questão. Uma das minhas primeiras fontes de pesquisa, na época, foi o site do Marcus Valério — http://www.evo.bio.br/ —, lembrando que ele nada tem a ver com aquele do mensalão. Quanto mais eu estudava o assunto, mais via o equívoco por parte dos criacionistas. Acabei identificando-me como um "evolucionista teísta", que é um termo que acredito que seja bastante problemático, assim como quase toda a terminologia envolvida no debate. Como "teísmo" é um termo muito abrangente, creio que o mais adequado seria falar de um "cristianismo evolucionista". Enfim, percebendo, no início de 2011, que havia pouca literatura em Língua Portuguesa sobre o assunto que fosse séria, resolvi contactar outras pessoas cristãs que tivessem o pensamento semelhante ao meu para que fizéssemos um site que promovesse a discussão sobre o assunto de maneira honesta. Conheci algumas pessoas que se mostraram dispostas a colaborar com o meu projeto, mas ele acabou não saindo do papel por diversas razões que não vêm ao caso. Desde então, sempre tenho lido livros sobre o assunto e acompanhado a discussão — hoje, não o faço mais com tanto afinco. O que sempre noto é que as pessoas que costumam debater o assunto, via de regra, não sabem do que falam: desconhecem o funcionamento da metodologia científica, não sabem absolutamente nada sobre hermenêutica bíblica, sendo ignorantes sobre Teologia de modo geral, além de não terem a mínima idéia do que é o pensamento filosófico. Esses são os prerrequisitos que creio serem rudimentares para opinar sobre o tema. O meu objetivo com o texto de hoje é explicar por que considero o debate entre criacionistas e evolucionistas sem sentido, de modo que não digo mais hoje que sou um evolucionista teísta, como costumava fazer antes.

   Em primeiro lugar, tenho de tecer algumas considerações sobre a prática científica. O lógico e filósofo brasileiro Newton da Costa criou uma teoria da verdade chamada Teoria da Quase-Verdade — para uma boa introdução ao assunto, recomendo o seu texto intitulado O Conhecimento Científico. De modo simplificado e resumido, da Costa defende que a Ciência busca a quase-verdade e não a verdade. Grosso modo, existem dois tipos de inferências: dedutivas e indutivas. Naquelas, há um vínculo de nexo causal necessário entre premissas e conclusão, enquanto nestas há apenas um vínculo de possibilidade ou probabilidade. Exemplos de inferências dedutivas são demonstrações matemáticas. Quando provo um teorema, estou fazendo uma dedução. A Ciência, de modo geral, trabalha com induções. A título de exemplo, pensemos na Física — costumo utilizá-la por exemplo porque é uma área que estudei de modo mais aprofundado, com ela tendo, portanto, maior afinidade. Quando um físico afirma que a força gravitacional é inversamente proporcional ao quadrado da distância das massas em questão, significa que ele, por meio de alguns experimentos em algum laboratório, fez medições que o levaram a crer que as massas na natureza apresentam tal comportamento. O físico pressupõe que a natureza sempre se comportou dessa maneira e que ela sempre se comportará assim em qualquer lugar do universo — estou simplificando as coisas: de fato, há físicos hoje que buscam trabalhar com leis físicas que se modificam com o tempo. Quando, a partir de uma quantidade qualquer de repetições, o físico afirma que a natureza sempre apresentará um comportamento determinado a partir do seu experimento, ele está fazendo uma inferência indutiva, ou seja, pode ser o caso de, no futuro, a natureza apresentar um comportamento diferente daquele observado, enquanto uma demonstração matemática nunca será falsa em nenhuma circunstância, admitindo-se, obviamente, que se esteja no mesmo sistema no qual a demonstração foi efetuada. O que o cientista está buscando, portanto, é sempre se aproximar o máximo possível daquilo que ele observa. 

   Façamos uso de um exemplo histórico. Newton construiu a sua mecânica. Einstein, posteriormente, construiu a sua mecânica relativística, que derrogava vários princípios clássicos, embora, em certas circunstâncias, a sua mecânica fosse reduzida à clássica; por exemplo, em casos de baixas velocidades. O mesmo caso deu-se com a mecânica quântica. Ora, não temos nenhuma garantia de que, no futuro, não tenhamos uma nova mecânica que descreva melhor o mundo, dando explicações mais satisfatórias, assim como não podemos garantir que esta nova mecânica, por sua vez, não seja substituída por outra. Buscando modelar essa prática corrente da ciência, o Newton da Costa criou o conceito de quase-verdade, uma vez que a ciência sempre está em busca de aperfeiçoamentos e não de teorias definitivas, no sentido de que uma teoria definitiva deveria ser irrefutável. A própria possibilidade de que a teoria possa ser refutada para poder ser tida por científica — lembremo-nos da falseabilidade de Popper — já dá indícios de que, como diria da Costa, uma teoria científica é formulada para ser superada.
   
   Ora, por que nunca vi um cristão dizer-se ser um relativista teísta, um quântico teísta ou dizer-se ser um X teísta, sendo X qualquer teoria científica? Na verdade, já conheço a resposta. Os ateus apropriaram-se do Evolucionismo, atrelando-o ao naturalismo, para defender a sua causa e acabaram fomentando uma aversão ao Evolucionismo por parte de certos cristãos. O filósofo Alvin Plantinga, num livro recente chamado Where the Conflict Really Lies: Science, Religion, and Naturalism, mostra claramente que a Evolução não implica um naturalismo. Tive a oportunidade de ouvi-lo em 2011 no IV Congresso Brasileiro de Filosofia da Religião. Voltando à questão da terminologia, o próprio termo "criacionismo" é péssimo para ser contraposto ao termo "evolucionismo": o uso dessas palavras leva, muitas vezes, à mais completa confusão. Perdi a conta do número de vezes que tive de explicar que cria na Evolução, mas que cria, também, que Deus criou o mundo. Outra confusão corrente refere-se ao entendimento sobre o que é uma teoria científica — recentemente, na polêmica entrevista do Silas Malafaia à Marília Gabriela, o Malafaia mostrou que a confusão sobre o assunto continua onipresente nas discussões. Temos vários conceitos na ciência: hipótese, lei, modelo, entre outros. Uma teoria é um conjunto de proposições articuladas que explicam por que um dado fenômeno em estudo ocorre da maneira descrita pela lei. Teorias científicas devem permitir previsões sobre experimentos futuros que possam modificá-las — aqui, temos, novamente, a falseabilidade em jogo. Resumidamente, uma teoria científica deve ser capaz de fornecer explicações sobre certos eventos, conferindo previsões que, se falharem, irão falsificá-la. As pessoas confundem o conceito de teoria científica com o conceito de teorema matemático. Creio que isso ocorre porque, coloquialmente, usamos o termo "teoria" para falar de uma simples conjectura sobre algo, mas o uso que se faz na Ciência não é esse. 

   Entendo que o embate entre criacionistas e evolucionistas não tem sentido porque, se uma teoria científica é um arcabouço teórico que busca aproximar-se o máximo possível da realidade —  para ser preciso, um cientista poderia não ter essa concepção: ele poderia ser um instrumentalista com relação à Ciência, crendo que ela é apenas um instrumento para melhorar a condição da vida humana ou mesmo dar explicações satisfatórias, mesmo que não se relacionem diretamente com a realidade, tendo algum tipo de correspondência com ela, mas não é preciso complicar a nossa vida introduzindo aqui detalhes sobre a discussão entre realistas e antirrealistas —, não há por que fazer um escarcéu se uma teoria científica, momentaneamente, apresenta algo no seu escopo que vá de encontro às suas crenças religiosas. Vejam bem, eu creio que, na verdade, nada na Teoria da Evolução vai de encontro, de fato, ao Cristianismo — há uma vasta literatura sobre o assunto que visa a mostrar exatamente isso —  , mas não preciso comprometer-me com essa tese para defender o que pretendo mostrar neste texto de hoje. Nós, cristãos, cremos que Cristo é a verdade e cremos que a verdade é uma só. Tomás de Aquino dizia que fé e razão não podem contradizer-se. Ora, se os cientistas estão buscando, sinceramente, a verdade e se cremos que a verdade é uma só, uma hora ou outra, eles chegarão à verdade e àquilo que cremos que é verdadeiro. É apenas uma questão de tempo. Não há razão, portanto, para um cristão leigo intrometer-se no trabalho de um cientista, dizendo que determinada tese de sua teoria está errada. Deixe o cientista fazer o seu trabalho e ele aproximar-se-á da verdade, uma vez que a própria metodologia científica busca essa aproximação.

   Não faz sentido, portanto, eu dizer que sou um evolucionista teísta se eu tenho a compreensão de que as teorias científicas não são teoremas e que serão, oportunamente, aperfeiçoadas, tendo teses derrogadas com o tempo. Obviamente, por exemplo, se eu sou um cientista que trabalha com a Teoria Quântica de Laços, em detrimento da Teoria das Cordas, faz sentido eu dizer que sou um teórico daquela teoria, mas apenas no sentido de que, temporariamente, defendo que uma dada teoria fornece explicações melhores que outra teoria. Aqui, convém voltarmos ao exemplo que mencionei das mecânicas clássica, relativística e  quântica. Uma teoria científica que rivaliza com outra deve satisfazer algumas coisas, a saber, ela deve ter o mesmo poder explicativo, a fim de fornecer explicações para os mesmos fenômenos que a outra teoria é capaz de explicar, ela deve conferir explicações para fenômenos que a outra teoria não é capaz de fornecer e, além do mais, deve predizer fenômenos que possam ser verificados. Nesse sentido, não vejo o criacionismo — estou usando o termo de maneira abrangente: tem-se o criacionismo científico, o Design Inteligente, entre outras vertentes — como uma teoria que seja rival ao Evolucionismo.

   Desde muito cedo, percebi que, na verdade, o embate entre criacionistas e evolucionistas não é uma disputa de teorias científicas, mas uma disputa interpretativa, assim como praticamente todas as disputas religiosas — um exemplo claro é o embate entre arminianos e calvinistas. Os criacionistas insistirão numa leitura literalista das Escrituras, enquanto os evolucionistas terão outro entendimento das passagens que os criacionistas usarão para rejeitar o Evolucionismo. Como lógico, tenho muito interesse pela Linguagem e esse é um dos assuntos que mais estudo em suas diversas manifestações: a Lógica, a Gramática e a Hermenêutica. Tenho chegado à conclusão de que os princípios que nortearão a leitura de um texto sempre serão escolhidos de maneira arbitrária. A partir daí, entendo que a Tradição deve ser valorizada: é ela que indicará quais são os princípios que devemos utilizar na nossa leitura. Desafio os criacionistas a revisarem os grandes intérpretes das Escrituras na história da Igreja e mostrarem quantos tiveram o entendimento que eles têm de Gênesis. De fato, a própria Igreja Católica, que valoriza bastante a Tradição, não vê problemas com a Teoria da Evolução. 

   Creio que a Bíblia nada tem a dizer sobre a Ciência. Nela, vemos claramente a sua serventia: "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra." [2 Timóteo 3:16-17 — Almeida Corrigida e Revisada Fiel]. Essas são as funções da Bíblia!

   A minha conclusão, resumidamente, é a de que não faz sentido eu dizer que sou um evolucionista teísta na mesma medida em que não há sentido nenhum em dizer que sou um relativista teísta. Não há sentido, também, porque teorias são feitas para serem substituídas e superadas. Se digo que sou um evolucionista, sem querer alegar um posicionamento tendo em vista teorias rivais, apenas querendo dizer que creio num discurso científico como definitivo, estou negligenciando a própria prática científica, que se baseia na sua capacidade de revisão a fim de aproximar-se sempre da verdade, por meio da busca da quase-verdade. A única possibilidade de embate possível entre um criacionista e um evolucionista é que aquele mostre que está apresentando uma teoria científica que forneça a mesma abrangência de explicações que o Evolucionismo, que tenha a capacidade de explicar fenômenos que a Teoria da Evolução não explica e que, também, forneça predições que possam ser constatadas empiricamente. Posso estar enganado, mas nunca vi um criacionista mostrando isso. A questão fica limitada a meras críticas, mas ninguém em sã consciência irá defender que a Evolução é uma teoria acabada. Qualquer teoria científica terá defeitos por conta da sua própria natureza; entretanto, teorias científicas devem ser atacadas por estarem falhando na explicação de fenômenos que visavam a explicar e não porque elas, aparentemente, entram em conflito com minhas crenças religiosas. Mesmo que uma teoria científica, num dado momento, claramente, apresente teses contrárias à minha fé, se creio que esta é verdadeira, e que o cientista buscará aproximar-se da verdade, será apenas uma questão de tempo que o cientista abandone a sua tese e aproxime-se daquilo que creio ser verdadeiro, não sendo necessário nenhum tipo de interferência no seu trabalho.