domingo, 30 de outubro de 2016

Sobre as doentias comemorações no dia da Reforma Protestante


Há muitos anos, quando ainda era protestante, eu percebi que comemorar o dia da Reforma Protestante, no dia 21 de outubro, é algo, completamente, doentio. Tempos atrás, o Anderson Torres, que é protestante, a quem conheci pelas redes sociais, fez uso de uma analogia que fui aperfeiçoando com o passar dos anos. Exagerei-a, em vários detalhes, para favorecer a visão histórica dos protestantes; obviamente, os católicos têm uma concepção sobre a história completamente diferente.

Suponha que um filho saiu de sua casa. Ele não apenas saiu de casa, mas fez isso de maneira justificada: ele era, constantemente, agredido — seu pai era bêbado, agredia toda a família, incluindo a sua mãe e seus irmãos. Cansado daquilo tudo, ele fugiu de casa no dia 31 de outubro. Depois desse evento, todos os anos, ele solta fogos de artifício comemorando aquele dia. Como se isso não fosse suficiente, ele ensinou os seus filhos a fazerem a mesma coisa, de modo que se tornou uma tradição comemorar o dia em que ele fugiu de casa.

Agora, expliquem-me: que sujeito, em sã consciência, com o pleno funcionamento das suas capacidades cognitivas, em vez de lamentar, com tristeza, o incidente que ocorreu na sua vida que o levou a sair de casa, comemora, anualmente, o fato de que ele abandonou a sua casa?

Em 27 anos freqüentando meios protestantes de todo tipo, eu nunca vi nenhum protestante falando sobre o episódio com tristeza; em contrapartida, nós, católicos, oramos, diariamente, pela união da Igreja e pelos nossos irmãos separados. Olhamos com verdadeira tristeza todos os episódios da história em que houve dissensões na Igreja, incluindo a separação dos nossos irmãos ortodoxos; entretanto, os protestantes vivem fazendo festa por isso. Se essa atitude não é, no mínimo, doentia, não sei mais o que ela pode ser.
O dia da Reforma não deveria ser um dia de comemoração ou de "ação de graças" — algumas igrejas chegam ao cúmulo do absurdo ao fazer cultos em ação de graças pelo dia da Reforma! —, mas um dia para todos os cristãos chorarem por não terem conseguido seguir aquilo que o apóstolo Paulo recomendou-nos:
"Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos a mesma coisa, e que não haja entre vós divisões, para que sejais unidos no mesmo sentir e no mesmo parecer. [1Cor 1.10]

A oração de Jesus Cristo pelos crentes era para que fôssemos um para que o mundo pudesse reconhecê-lO em nós:
"Minha oração não é apenas por eles [seus discípulos]. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste.". [Jo. 17.20-23]
Jesus Cristo alertou-nos para o fato de que "todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá." [Mt. 12.25].

Em Judas 1.19, lemos que quem causa divisões entre os cristãos segue a tendência da sua própria alma e não têm o Espírito.
Aos gálatas, em Gálatas 5.20, São Paulo enumera a discórdia, a dissensão e as facções entre as obras da carne.

Se, mesmo depois disso tudo, você ainda quiser soltar rojões por pecado tão grave, esteja à vontade, mas tenha plena consciência do que está fazendo.

A regeneração batismal: mais evidência bíblica (Dave Armstrong)


Photograph by Kai Stachowiak [PublicDomainPictures.Net]

Ao defender o Catolicismo no curso de discussões amigáveis com protestantes irmãos em Cristo, deparo-me com novos argumentos e maneiras de ver as coisas por conta das contestações.

Depois de dizer que argumentaria a partir daquilo que Jesus disse, escrevi-lhe: "tudo bem: eu também!", citando passagens que se referiam a casas inteiras sendo batizadas (Atos 16.15, 16.33, 18.8; 1 Cor. 1.16).

A parte mais interessante do nosso diálogo, entretanto, diz respeito à regeneração batismal. O meu amigo pastor argumentou que, tanto no caso de Atos 16.15 quanto no caso de Atos 16.33, o contexto indicava que havia fé antes do batismo. Eu, rapidamente, concedi-lhe esse ponto, mas o fiz notar que:
"Para o crente adulto, essa fé irá preceder o batismo. Na Igreja Católica, aqueles que são nela recebidos que nunca foram batizados fazem uma profissão de fé antes de receberem o Sacramento, de modo que não é diferente do 'batismo do crente' batista. Isso, entretanto, não exclui os infantes de também receberem o batismo.".
Ele trouxe à tona o versículo "evangélico" protestante clássico de João 3.16 e disse-me que era estranho que o batismo não fosse mencionado nele se, de fato, era tão crucial para a salvação. Contra-argumentei com Marcos 16.16 ("Quem crer e for batizado será salvo").

Além disso, São Pedro, ao pregar o evangelho no primeiro sermão cristão, em Atos 2, no dia de Pentecostes, incluiu o batismo em toda o seu anúncio: "Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos seus pecados" (Atos 2.38). Romanos 6.3-6, diretamente, conecta o batismo com a reconciliação da mesma forma. Gálatas 3.27 ensina-nos que os batizados "revestiram-se de Cristo".

O batismo produz regeneração como agente ou como meio. Não é, meramente, um ato simbólico após uma regeneração que já ocorreu: "[...] para perdão dos seus pecados [...]". Pedro deixa a idéia da salvação pelo batismo ainda mais clara em 1 Pedro 3.18-21. O eunuco etíope, em Atos 8, também foi batizado assim que aceitou plenamente o evangelho.

Para os batistas e para muitos protestantes de diferentes denominações, está-se, realmente, salvo antes do recebimento do batismo; então, o (simbólico) batismo (para adultos) ocorre depois como um ato de obediência e de gratidão.

Examinemos isso. A primeira coisa que São Paulo fez sobre a sua espetacular conversão foi batizar-se. O que esse batismo faz? Aqui, está o seu próprio relato acerca das palavras de Ananias dirigidas a ele:
Atos 22.16: "[...] Levante-se, seja batizado e lave os seus pecados, invocando o nome dele.".
Seria preciso um esforço artificial e eisegético para desvincular o "lavar" aqui do batismo. Isso é claramente uma regeneração batismal, expressamente, ensinada pelo apóstolo Paulo. O meu amigo pastor observou que a crença precedeu o batismo nesse relato e em outros porque, na teologia batista, deve-se sempre se estar consciente do que significa o batismo. Os batistas, no entanto, negam a regeneração batismal.

Podemos, contudo, fazer também uma distinção cronológica adicional em termos do arrependimento, da crença e do batismo recebido para perdão dos pecados e para a salvação (regeneração). Esta é a ordem em Atos 2.38-39:

1) arrependimento;

2) batismo;

3) perdão dos pecados;

4) recebimento do Espírito Santo.

Uma pessoa (na idade da razão) deve arrepender-se para ser salva (nós concordamos, totalmente, com os batistas sobre isso), mas, certamente, se ainda não houve o perdão dos pecados (reconciliação) ou a infusão do Espírito Santo (a quem todos os cristãos crentes têm), não se é ainda um cristão que se tornou amigo e filho de Deus em razão da Sua Graça e essa é a ordem das coisas como encontramos em Atos 2.38-39, como mencionamos acima.

O mesmo se dá com o apóstolo Paulo em Atos 22.16. Ele é batizado e, então, os seus pecados são lavados, o que tem de ocorrer a fim de que ele seja salvo no sentido e no tempo do termo (como os católicos diriam, em estado de graça com Deus e na ausência de pecado mortal) e regenerado. Esses dois casos contradizem, diretamente, o esquema batista e mostram como a regeneração ocorre.

O batista alega que o perdão dos pecados/a reconciliação e recebimento do Espírito Santo e a regeneração precedem o batismo em um adulto; entretanto, o que vemos nesses dois exemplos escriturísticos, consideravelmente, claros é o oposto. Essas coisas seguem-se do batismo e são causadas, diretamente, por ele como um sacramento.

Apresento-lhes, com todo o devido respeito, esses exemplos evidentes em que o ensino católico mostra-se em completo acordo com a Bíblia, enquanto a teologia protestante (neste caso, a versão batista) choca-se com ela diretamente. A maior parte dos protestantes crê que age de boa fé e com intenções retas. Trata-se, simplesmente, de uma questão de tornar-se mais familiarizado com o pensamento bíblico muito mais profundo da tradição católica. Esta é a nossa tarefa: compartilhar com todos, sem restrições, as riquezas que temos, graciosamente, recebido como católicos.

[Tradução: Fábio Salgado de Carvalho; original:

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A Igreja apostólica, hierárquica e visível (Dave Armstrong)



No Credo Niceno, que é aceito pela maioria dos cristãos, a Igreja cristã é descrita como sendo “Una, Santa, Católica e Apostólica”. Essas características são conhecidas como as quatro marcas da Igreja. As noções de santidade e de catolicidade não estão muito em disputa. A marca de santidade pode ser definida como a posse e disseminação do sublime, santo e cristocêntrico código moral do Cristianismo — melhor exemplificado pelos Santos ou, de outro modo, por grandes personagens divinos. Todas as partes — enquanto discordem em muitas questões particulares — concordam que essa é a função central da catolicidade da Igreja, simplesmente, significando que ela seja universal. Aqui, protestantes e católicos discordam, unicamente, sobre a natureza daquela Igreja que é considerada universal e abrangente.

Isso nos leva à unicidade e à apostolicidade da Igreja, em que as discordâncias são enormes de fato. Muitos protestantes, especialmente os evangélicos, vêem a unidade e a unicidade subsistindo, primariamente, ou unicamente, na interna, invisível e espiritual unidade daqueles que estão, de fato, em Cristo, em virtude de serem justificados, ou nascidos de novo, ou regenerados, com ou sem batismo, dependendo da denominação. Para eles, a igreja consiste em ter o Espírito Santo, em ser um eleito predestinado, em ser aquele que perseverará e está salvo agora e na eternidade.

A Igreja Católica tem sempre proclamado essa característica unificadora, também, sob o amplo e rico conceito de Igreja Mística (sob o qual ela reconhece o Protestantismo), ainda que não ponha a Igreja Mística contra a Igreja institucional ou visível como muitos evangélicos fazem. Para os católicos, então, essa característica da unicidade está, substancialmente, relacionada aos aspectos organizacionais e práticos da eclesiologia. Os católicos crêem que a Igreja é tanto um organismo como uma organização, e não apenas o primeiro. As "igrejas" místicas e visíveis são como dois círculos que, em grande parte, intersectam-se, mas que não coincidem. Elas existem, conjuntamente — de um modo um tanto quanto paradoxal, que carrega uma tensão consigo —, até o "fim dos tempos". Que tipo, entretanto, de organização é a Igreja, que abrange em si esses dois aspectos (assim como muitos outros)?

Nesse ponto da discussão, os católicos apelam à natureza hierárquica ou episcopal (isto é, sob a jurisdição de Bispos) de governo da Igreja. Além disso, os católicos sustentam que essa forma é bíblica e divinamente instituída, não sendo, portanto, opcional ou de importância teológica secundária.

Finalmente, os católicos crêem que os Bispos são — devido ao próprio desejo de Jesus Cristo — os sucessores dos Apóstolos (o conceito de sucessão apostólica). Essa é a metodologia por meio da qual a Igreja Católica remonta a si mesma, historicamente, a uma sucessão ininterrupta, aos Apóstolos e à Igreja primitiva. O Catolicismo, então, enfatiza bastante tanto a continuidade histórica quanto a doutrinal, enquanto os protestantes evangélicos estão mais preocupados com a manutenção da paixão, de um comprometimento intenso e de um zelo que estavam presentes nos Apóstolos e nos primeiros cristãos, estando menos interessados em formas de governo ou em doutrinas que são, hoje, vistas como “distintivamente” católicas. Eles tendem a ver, claramente, na Bíblia e na Igreja primitiva essas doutrinas com as quais concordam, mas ignoram aquelas que estão em maior concordância com o Catolicismo, tais como o episcopado, o Purgatório e a apostolicidade.

Examinaremos as marcas da Igreja das quais os protestantes (apesar de muitas exceções), em grande parte, discordam: a sua visibilidade, a hierarquia dos Bispos, a sucessão apostólica e questões afins, como a ordenação, os deveres dos sacerdotes e o sectarismo. A maioria dessas questões está relacionada, em último caso, com a autoridade "per se". Os protestantes enfatizam a autoridade bíblica e os católicos, a liderança eclesiástica e episcopal e a Tradição. Se a Bíblia, entretanto, aponta-nos para a última e encoraja-nos a sermos submissos a ela, então, os dois tipos de autoridade não podem (biblicamente) estar em oposição.

Um dos aspectos inegáveis da unidade e da unicidade na Bíblia é a advertência constante (especialmente nos escritos de São Paulo) contra (e proibindo) as divisões, cismas e o sectarismo, seja por meio de discursos ou por meio de maus exemplos (Mateus 12.25, 16.18, João 10.16, 17.20-23, Atos 4.32, Romanos 13.13, 16.17, 1 Coríntios 1.10-13, 3.3-4, 10.17, 11.18-19, 12.12-27, 14.33, 2 Coríntios 12.20, Gálatas 5.19-21, Efésios 4.3-6, Filipenses 1.27, 2.2-3, 1 Timóteo 6.3-5, Tito 3.9-10, Tiago 3.16, 2 Pedro 2.1). Isso, claramente, não é algo periférico. Mesmo Nosso Senhor faz da unidade um meio pelo qual o mundo poderia crer que o Pai mandou o Seu Filho (João 17.21,23) e ora para que ela seja tão profunda como a própria unidade encontrada na Trindade (João 17.21-22). São Paulo faz da provocação de divisão um possível motivo para exclusão da comunidade cristã (Romanos 16.17) e diz que as divisões (já vigentes naqueles tempos) dividem a Cristo (1 Coríntios 1.13). Esse sempre tem sido um dos pontos fortes da posição católica contra o Protestantismo e os próprios protestantes estão, cada vez mais, preocupados com aquilo que eles consideram ser uma escandalosa associação entre o denominacionalismo e o sectarismo, que todos concordam que é condenado nas Escrituras.

Uma das motivações sinceras e, aparentemente, razoáveis para a formação de uma nova seita é o desejo de apartar-se de pecadores e do pecado, que pode infectar os outros. A Bíblia, contudo, claramente, ensina que a Igreja (especialmente no seu sentido institucional) é composta tanto por santos quanto por pecadores, por bons e por ruins. Vemos isto de maneira indiscutível em várias parábolas de Jesus sobre o Reino dos Céus (isto é, a Igreja), tais como a parábola do joio e do trigo, em que Jesus afirma que eles crescerão juntos até o Juízo Final ou até os últimos tempos (Mateus 13.24-30; cf. Mateus 3.12). Ele compara a Igreja a uma rede de pesca que captura peixes bons e ruins, que serão separados, posteriormente (Mateus 13.47-50), e a um banquete de casamento, no qual um convidado foi retirado para as trevas (Mateus 22.1-14). Esta parábola termina com uma famosa frase: "muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”, o que poderia ser interpretado como a distinção entre cristãos mornos, mortos ou nominais e aqueles, realmente, eleitos que serão salvos no final. Ambos estão presentes na Igreja de acordo com Jesus. Um estado de coisas semelhante pode ser visto nas parábolas das dez virgens (Mateus 25.1-13) e dos talentos (Mateus 25.14-30) e a descrição de Jesus dos cristãos e da Igreja como uma cidade edificada sobre um monte (Mateus 5.14, cf. 5.15-16) é uma referência óbvia à visibilidade da Igreja. De nenhum modo, essa cidade pode ser vista como sendo invisível.

Jesus escolheu Judas como Seu discípulo, mesmo conhecendo o futuro, e ele era, verdadeiramente, um Apóstolo (Mateus 10.1,4; Marcos 3.14; João 6.70-71; Atos 1.17). Da mesma forma, São Paulo, dirigindo-se aos anciãos (Atos 20.17), afirma que o próprio Espírito Santo fez deles bispos (RSV, guardiões; no Grego, episkopos — Atos 20.28), mesmo que entre esses mesmos homens surgissem hereges e cismáticos (Atos 20.30). Esse pensamento tem ecos no versículo que se assemelha a uma parábola em 2 Timóteo 2.20 (veja também 2.15-19).

Os protestantes costumam citar a analogia de Jesus da ovelha e do pastor (João 10.1-16; cf. 2 Timóteo 2.19; 1 João 2.19) que se reconhecem (10.14) como evidência de que a Igreja consiste apenas dos eleitos. No entanto, a analogia é desfeita quando, também, encontramos, nas Escrituras, aplicações do termo "ovelha" a reprovados não salvos (Salmo 74.1), a perdidos (Salmo 119.176), a Israel como uma nação (Ezequiel 34.2-3, 13, 23, 30) e, de fato, a todos os homens (Isaías 53.6).

Outras passagens pressupõem uma Igreja visível, identificável e “concreta”, como Mateus 18.15-17, em que os crentes são exortados por Nosso Senhor a trazer irmãos errantes e obstinados à Igreja, que, então, determinará para eles um veredito apropriado. Isso seria contrário ao teor do Novo Testamento se fosse uma referência apenas a uma igreja local — tal cenário iria conduzir-nos a conseqüências totalmente avessas à prática (em que o pecador, simplesmente, freqüentaria outra denominação e seguiria em frente com a sua vida, como ocorre, tragicamente, em muitos casos no dia de hoje.

São Paulo, ainda, em 1 Timóteo 3.15, descreve a “Igreja do Deus vivo” como sendo um “pilar e baluarte da verdade”. Essa declaração não faz o menor sentido no contexto de denominações que competem entre si e que, muitas vezes, são contraditórias entre si. Onde um religioso sincero, desinformado e sem qualquer sofisticação encontraria essa verdade? Apenas em um contexto doutrinal em que houvesse real visibilidade e unicidade de doutrina esse versículo pode ter qualquer possibilidade de aplicação prática.

Também é um equívoco tratar São Paulo como se ele fosse algum tipo de “cavaleiro solitário” espiritual, que estivesse, por sua própria conta, sem qualquer lealdade eclesiástica particular, uma vez que ele foi comissionado, pelo próprio Jesus, como um Apóstolo. Na sua experiência de conversão, Jesus disse a Paulo que ele seria informado acerca do que deveria fazer (Atos 9.6; cf. 9.17). Ele foi ver São Pedro em Jerusalém por quinze dias para ser confirmado em seu chamado (Gálatas 1.18) e, catorze dias depois, ele foi comissionado por Pedro, Tiago e João (Gálatas 2.1-2, 9). Ele, também, foi enviado à igreja de Antioquia (Atos 13.1-4), que estava em contato com a igreja de Jerusalém (Atos 11.19-27). Mais tarde, Paulo reportou-se de volta a Antioquia (Atos 14.26-28).

O Novo Testamento refere-se, basicamente, a três tipos de ofícios permanentes na Igreja (Apóstolos e profetas não existiriam mais): Bispos (episkopos), Anciãos (presbyteros, dos quais derivam os presbíteros e padres), e diáconos (diakonos). Os Bispos são mencionados em Atos 1.20, 20.28; Filipenses 1.1; 1 Timóteo 3.1-2; Tito 1.7 e 1 Pedro 2.25. Os presbíteros (por vezes, "Anciãos") aparecem em passagens como Atos 15.2-6, 21.18, Hebreus 11.2, 1 Pedro 5.1 e 1 Timóteo 5.17. Os protestantes vêem esses líderes como sendo análogos aos correntes pastores dos dias de hoje, enquanto os católicos vêem-nos como sacerdotes. Os diáconos (por vezes, "ministros" em algumas traduções inglesas) são mencionados, de maneira semelhante, como sendo cristãos anciãos com freqüência similar (por exemplo, 1 Coríntios 3.5; Filipenses 1.1; 1 Tessalonicenses 3.2; 1 Timóteo 3.8-13).

Como, freqüentemente, costuma ser o caso na teologia e na prática entre os primeiros cristãos, existe alguma fluidez e sobreposição entre as três vocações (por exemplo, compare Atos 20.17 com 20.28; 1 Timóteo 3.1-7 com Tito 1.5-9). Isso, entretanto, não prova que os três ofícios de ministros não existam. Por exemplo, São Paulo, freqüentemente, refere a si mesmo como sendo um diácono ou ministro (1 Coríntios 3.5, 4.1; 2 Coríntios 3.6, 6.4, 11.23; Efésios 3.7, Colossenses 1.23-25), ainda que ninguém afirme que ele era, meramente, um diácono, e nada mais além disto. De modo semelhante, São Pedro chamam a si mesmo como sendo um membro Ancião (1 Pedro 5.1), muito embora Jesus chame-o de rocha sobre a qual Ele construiria a Sua Igreja e dê somente a ele as “chaves do Reino dos Céus” (Mateus 16.18-19). Esses exemplos são, usualmente, indicativos de uma humildade saudável em concordância com as injunções de Cristo sobre a servidão (Mateus 23.11-12; Marcos 10.43-44).

Após observação mais atenta, claras distinções acerca do ofício surgem e a natureza hierárquica do governo da Igreja no Novo Testamento emerge. Os Bispos são sempre referidos no singular, enquanto os Anciãos são, geralmente, tratados no plural. A primeira controvérsia entre os cristãos tem a ver com a natureza e com as funções tanto de Bispos como dos Anciãos (os diáconos têm, amplamente, os mesmos deveres tanto entre protestantes quanto entre os católicos).

Os católicos alegam que os Anciãos/presbíteros, nas Escrituras, realizam todas as funções de um sacerdote católico:

1) são enviados e comissionados por Jesus (a noção de ser chamado): Marcos 6.7; João 15.5, 20.21; Romanos 10.15; 2 Coríntios 5.20;

2) são representantes de Jesus: Lucas 10.16; João 13.20;

3) têm autoridade para ‘ligar’ e ‘desligar’ (Penitência e Absolvição): Mateus 18.18 (compare com Mateus 16.19)

4) têm poder para perdoar os pecados no nome de Jesus: Lucas 24.47; João 20.21-23; 2 Coríntios 2.5-11; Tiago 5.15;

5) têm autoridade para administrar a Penitência: Atos 5.2-11; 1 Coríntios 5.3-13; 2 Coríntios 5.18; 1 Timóteo 1.18-20; Tito 3.10;

6) têm poder de conduzir a Eucaristia: Lucas 22.19; Atos 2.42 (compare com Lucas 24.35; Atos 2.46, 20.7; 1 Coríntios 10.16);

7) ministram Sacramentos: 1 Coríntios 4.1; Tiago 5.13-15;

8) realizam batismos: Mateus 28.19; Atos 2.38,41;

9) são ordenados: Atos 14.23; 1 Timóteo 4.14; 5.23;

10) pastoreiam: Atos 20.17,28; Efésios 4.11; 1 Pedro 5.1-4;

11) pregam e ensinam: 1 Timóteo 3.1-2, 5.17;

12) evangelizam: Mateus 16.15, 28:19-20; Marcos 3.14; Lucas 9.2, 6, 24.47; Atos 1.8;

13) curam: Mateus 10.1; Lucas 9.1-2,6;

14) expulsam demônios: Mateus 10.1; Marcos 3.15; Lucas 9.1;

15) ouvem confissões: Atos 19.18 (compare com Mateus 3.6; Marcos 1.5; Tiago 5.16; 1 João 1.8-9; pressuposto em João 20.23);

16) vivem o celibato se chamados a isto: Mateus 19.12; 1 Coríntios 7.7-9,20,25-38 (especialmente 7.35);

17) desfrutam da presença perpétua de Cristo e de Sua assistência de um modo especial: Mateus 28.20.

Os protestantes — seguindo Lutero — citam 1 Pedro 2.5,9 (veja, também, Apocalipse 1.6) a fim de provar que todos os cristãos são sacerdotes. Isso, entretanto, não exclui a existência de alguém que seja, especialmente, ordenado, que receba um ordenamento sacramental, uma vez que São Pedro estava reproduzindo a linguagem de Êxodo 19.6, onde os judeus foram descritos dessa forma. Uma vez que os judeus tinham um sacerdócio levítico separado, por analogia, 1 Pedro 2.9 não pode, logicamente, excluir um sacerdócio ordenado neotestamentário. Esses textos estão preocupados com a santidade sacerdotal em oposição à função sacerdotal. Em sentido universal, por exemplo, nunca se referem à Eucaristia ou aos Sacramentos. Cada cristão é um pastor em termos da oferta de sacrifícios de oração (Hebreus 13.15), de esmolas (Hebreus 13.16) e da fé em Jesus (Filipenses 2.17).

Os Bispos (episkopos) têm todos os poderes, deveres e jurisdição dos padres, com as seguintes importantes responsabilidades que se seguem:

1) jurisdição sobre os padres e as igrejas locais e o poder de ordenar padres: Atos 14.22; 1 Timóteo 5.22; 2 Timóteo 1.6; Tito 1.5;

2) responsabilidade especial em defender a fé: Atos 20.28-31; 2 Timóteo 4.1-5; Tito 1.9-10; 2 Pedro 3.15-16;

3) poder para repreender falsas doutrinas e para excomungar: Atos 8.14-24; 1 Coríntios 16.22; 1 Timóteo 5.20; 2 Timóteo 4.2; Tito 1.10-11;

4) poder para conceder a Confirmação (o recebimento da habitação do Espírito Santo): Atos 8.14-17, 19.5-6;

5) gestão das finanças da Igreja: 1 Timóteo 3.3-4; 1 Pedro 5.2.

Na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento), episkopos é usado para denotar vários sentidos, como, por exemplo: oficiais (Juízes 9.28, Isaías 60.17), supervisores de fundos (2 Crônicas 34.12,17), superintendentes de sacerdotes e de levitas (Neemias 11.9; 2 Reis 11.18) e aqueles que tinham funções no templo e relacionadas ao tabernáculo (Números 4.16). Deus é chamado de episkopos em Jó 20.29, referindo-se ao Seu papel como Juiz e Cristo é um episkopos em 1 Pedro 2.25 (RSV: "pastor e guardião de nossas almas").

O Concílio de Jerusalém (Atos 15.1-29) dá testemunho de uma estrutura de governo episcopal hierárquica definitiva na Igreja primitiva. São Pedro, o chefe mais velho (o ofício de Papa) da Igreja inteira (1 Pedro 5.1; cf. João 21.15-17), presidiu e emitiu o pronunciamento autoritativo (15.7-11). Então, Tiago, Bispo de Jerusalém (como uma espécie de prefeito anfitrião da conferência) dá a sua anuência (Atos 15.14) com um proferimento conclusivo (15.13-29). Que Tiago era o único Bispo "monárquico" de Jerusalém é bastante evidente nas Escrituras (Atos 12.17, 15.13,19,21.18; Gálatas 1.19,2.12). Esse fato é, também, atestado pelo primeiro historiador cristão Eusébio (História da Igreja, 7:19).

Muita evidência histórica e patrística também existe para o bispado de São Pedro em Roma. Ninguém contesta o fato de que São Clemente (101 d.C.) foi o único Bispo de Roma um pouco mais tarde, ou que Santo Inácio (110 d.C.) foi o Bispo de Antioquia, começado por volta de 69 d.C. . Então, o Bispo "monárquico" é tanto um conceito bíblico quanto um fato indiscutível na Igreja primitiva. No momento em que chegamos a meados do segundo século, praticamente, todos os historiadores sustentam que cada um dos Bispos lidera cada comunidade cristã. Isso deveria ser o caso em toda a cristandade, no Ocidente e no Oriente, até que Lutero delegou esse poder aos príncipes seculares, no século 16, e a tradição anabatista evitou um ofício eclesiástico completamente ou em grande parte. Hoje, muitas denominações não têm nenhum Bispo de qualquer natureza.

Pode-se admitir tudo o que acabamos de mencionar como sendo verdadeiro, mas ainda se negando a sucessão apostólica, por meio da qual esses ofícios são transmitidos, ou legados, ao longo de gerações e de séculos por meio da Sagrada Tradição. Essa crença, entretanto, da Igreja Católica (juntamente com a Ortodoxia Oriental e com o Anglicanismo) é, também, baseada nas Escrituras:

São Paulo ensina-nos (Efésios 2.20) que a Igreja é construída sob a fundação dos Apóstolos, a quem o próprio Cristo escolheu (João 6.70; Atos 1.2,13; cf. Mateus 16.18). Em Marcos 6.30, os doze discípulos originais de Jesus são chamados de Apóstolos e Mateus 10.1-5 e Apocalipse 21.14 falam dos doze Apóstolos. Depois que Judas desertou, os onze Apóstolos remanescentes indicaram o seu sucessor, Matias (Atos 1.20-26). Uma vez que Judas é chamado de Bispo ("episkopos") nessa passagem (1.20), então, por expansão lógica, todos os Apóstolos podem ser considerados Bispos (embora sejam de um tipo extraordinário).

Se os Apóstolos são Bispos, e um deles foi substituído por outro, após a morte, ressurreição e ascensão de Cristo, nós temos, então, um exemplo explícito de uma sucessão apostólica na Bíblia, que se deu antes de 35 d.C. . De modo semelhante, São Paulo parece passar o seu ofício a Timóteo (2 Timóteo 4.1-6), pouco antes de sua morte, por volta de 65 d.C. . Essa sucessão mostra uma equivalência autoritativa entre os Apóstolos e Bispos, que são sucessores dos Apóstolos. Como um corolário, somos, também, informados, nas Escrituras, de que a Igreja, em si mesma, é perpétua, infalível e indefectível (Mateus 16.18; João 14-26; 16.18). Por que a Igreja primitiva seria configurada de uma forma e a Igreja tardia de outra maneira?

Toda essa informação bíblica está em harmonia com as visões eclesiológicas da Igreja Católica. Houve algum desenvolvimento ao longo dos séculos, mas, em essência, a Igreja bíblica e o Clero e a Igreja Católica e o Clero são uma só coisa.

A evidência histórica dos primeiros cristãos, depois, dos Apóstolos e dos Pais da Igreja é, totalmente, cogente também: existe consenso praticamente unânime quanto à natureza episcopal, hierárquica e visível da Igreja, que procede com autoridade, ao longo da história, em virtude da sucessão apostólica.

São Clemente, Bispo de Roma (101 d.C.), ensina a sucessão apostólica por volta de 80 d.C. (Epístola aos Coríntios, 42:4-5, 44.1:3) e Santo Irineu é um testemunho muito forte e advogado dessa Tradição nas duas últimas décadas do segundo século (Contra as Heresias, 3:3:1,4,4:26:2,5:20:1,33:8). Eusébio, o primeiro historiador da Igreja, na sua História da Igreja, c. 325, começa dizendo que uma das "principais questões" a serem tratadas na sua obra é a questão das "linhas de sucessão dos Santos Apóstolos..." (tr. G. A. Williamson, Baltimore: penguin Books, 1965, 31).

No tocante ao triplo ministério dos Bispos, padres (Anciãos/presbíteros) e diáconos, Santo Inácio, Bispo de Antioquia, oferece-nos um memorável testemunho por volta do ano 110 (Letter to the Magnesians, 2, 6:1, 13:1-2, Letter do the Trallians, 2:1-3, 3:1-2, 7:2, Letter do the Philadelphians, 7:1-2, Letter to the Smyrnaeans, 8:1-2 — a última, também, é a primeira referência à "Igreja Católica"). São Clemente de Roma refere-se ao “Sumo Padre” e aos “padres” dos cristãos por volta de 96 (1 Clement, 40). Outro preeminente testemunho primitivo inclui Santo Hipólito (Tradição Apostólica, 9) e São Clemente de Alexandria (Stromateis, 6:13:107:2), ambos no início do terceiro século.

Mesmo João Calvino, contrariamente a muitos dos seus seguidores mais recentes, ensinou que a Igreja era visível e uma "Mãe" (Institutas da Religião Cristã, IV,1,1;IV,1,4;IV,1,13-14), que despreza o erro do sectarismo e do cisma (IV,1,5;IV,1,10-15), e que a Igreja inclui pecadores e hipócritas (IV,1,7;IV,1,13-15 — ele cita Mateus 13.24-30,47-58). Sua diferença com os católicos aqui é que ele define a Igreja visível como sua própria igreja reformada.

[Tradução: Fábio Salgado de Carvalho; original:

domingo, 16 de outubro de 2016

Uma rápida refutação do "Sola Scriptura" em dez passos (Dave Armstrong)


Sumário

1. O "Sola Scriptura" não é ensinado na Bíblia
2. "Palavra de Deus"
3. "Tradição" não é uma palavra indecente
4. Jesus e Paulo aceitaram Tradições não bíblicas orais e escritas
5. Concílio de Jerusalém
6. Fariseus, saduceus e a Tradição oral extrabíblica
7. Os judeus do Antigo Testamento não criam no "Sola Scriptura" / Necessidade de interpretação
8. 2 Timóteo 3.16-17: a "prova textual" protestante
9. Paulo, eventualmente, assume que a Tradição que lhe foi transmitida é infalível e autoritativa
10. O "Sola Scriptura" é um posicionamento radicalmente circular

1. O "Sola Scriptura" não é ensinado na Bíblia

A Escritura, certamente, é um "padrão de verdade" (nós concordamos inteiramente com os protestantes) e até mesmo o mais preeminente, mas não em um sentido de que ela exclua a autoridade permanente de uma autêntica Tradição e de uma Igreja. A Bíblia não ensina isso. Os católicos concordam com os protestantes que a Escritura é suficiente materialmente. Em outras palavras, cada doutrina verdadeira pode ser encontrada na Bíblia, mesmo que o seja implicitamente e indiretamente por dedução. Nenhuma passagem bíblica, entretanto, ensina que a Escritura é a autoridade formal ou a norma de fé para o cristão (suficiência formal) isoladamente da Igreja e da Tradição Apostólica. O "Sola Scriptura" não pode sequer ser deduzido de passagens implícitas. Os protestantes tentam construir um argumento para isto, mas (com todo o respeito), penso que o esforço está fadado ao fracasso. Nunca vi sucesso algum nessa empreitada, mesmo tendo discutido sobre a questão com protestantes por muitas e muitas vezes em 13 anos desde a minha conversão.

2. A "Palavra de Deus" refere-se ao ensino oral também

"Palavra", na Sagrada Escritura, muitas vezes, refere-se a um ensino oral proclamado por profetas ou por apóstolos. O que os profetas disseram era a Palavra de Deus independentemente de se os seus proferimentos foram registrados mais tarde como Escritura escrita. Assim, por exemplo, lemos em Jeremias 25.3,7-8 (NVI):
"Durante vinte e três anos a palavra do Senhor tem vindo a mim [...] E eu a tenho anunciado a vocês, dia após dia [...] Mas vocês não me deram ouvidos [...], declara o Senhor. Portanto, assim diz o Senhor dos Exércitos: 'Visto que vocês não ouviram as minhas palavras [...]"
Esta foi a Palavra de Deus ou a Palavra do Senhor mesmo que ela não estive registrada por escrito ou não constasse posteriormente em uma Escritura canonizada. Ela tinha a mesma autoridade que um escrito enquanto proclamação que nunca foi reduzida à escrita. Isto era verdadeiro também para a pregação apostólica. Quando as frases Palavra de Deus ou Palavra do Senhor aparecem em Atos e nas epístolas, elas quase sempre se referem à pregação oral, não à Escritura. Por exemplo:
"[...] ao receberem de nossa parte a palavra de Deus, vocês a aceitaram, não como palavra de homens, mas conforme ela verdadeiramente é, como palavra de Deus [...]" (1 Tessalonicenses 2.13).
Se compararmos esta passagem com outra, escrita para a mesma igreja, Paulo parece tomar a Tradição e a Palavra de Deus como sinônimos:
"[...] nós lhes ordenamos que se afastem de todo irmão que vive ociosamente e não conforme a tradição que vocês receberam de nós." (2 Tessalonicenses 3.6).
3. "Tradição" não é uma palavra indecente

Os protestantes, muitas vezes, citam os versículos da Bíblia em que as tradições corruptas dos homens são condenadas (e. g. , Mt. 15.2-6; Mc. 7.8-13; Cl. 2.8). Obviamente, católicos concordam com isso. Não se trata, entretanto, da verdade completa. As Tradições apostólicas e verdadeiras também são aprovadas positivamente. Esta Tradições estão em total harmonia e consistência com a Escritura. Neste sentido, a Escrit.ura é a "juíza última" da Tradição, mas não no sentido de que ela descarte toda Tradição permanente e a autoridade da Igreja. Aqui estão alguns poucos versículos relevantes (TEB):
"Eu vos felicito por vos lembrardes de mim em toda ocasião e conservardes as tradições tais como eu vo-las transmiti." (1 Coríntios 11.2).
"Assim, pois, irmãos, ficai inabaláveis e guardai firmemente as tradições que vos ensinamos, de viva voz ou por carta" (2 Tessalonicenses 2.15).
"Toma como norma as sãs palavras que de mim ouviste, na fé e no amor que estão em Cristo Jesus. Conserva o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós." (2 Timóteo 1.13-14).
"O que aprendeste de mim na presença de numerosas testemunhas, confia-o a homens fiéis, que, por sua vez, serão capazes de ensiná-lo a outros mais." (2 Timóteo 2.2).
"Meus amigos, enquanto eu alimentava um vivo desejo de vos escrever a respeito da salvação que concerne a todos nós, vi-me forçado a fazê-lo, a fim de vos animar a lutar pela fé que foi definitivamente transmitida aos santos. (cf. Atos 2.42, que menciona o "ensinamento dos apóstolos") (Judas 3).
4. Jesus e Paulo aceitaram Tradições não bíblicas orais e escritas

Os protestantes que defendem o "Sola Scriptura" alegarão que Jesus e Paulo aceitaram a autoridade do Antigo Testamento. Isto é verdade, mas também é verdade que eles apelaram a outras autoridades, externas à revelação escrita. Por exemplo:
A) A referência a "Ele será chamado Nazareno" não pode ser encontrada no Antigo Testamento, mas foi "dita pelos profetas" (Mateus 2.23). Então, uma profecia, que é considerada como sendo "Palavra de Deus", foi transmitida oralmente em vez de ser registrada na Escritura.
B) Em Mateus 23.2-3, Jesus ensina-nos que os escribas e fariseus têm uma legítima autoridade permanente baseada na "cátedra de Moisés", mas esta frase (ou idéia) não pode ser encontrada em qualquer lugar do Antigo Testamento. Ela é encontrada na (originalmente oral) "Mishnah", em que uma espécie de "sucessão de ensinamento" de Moisés em diante é ensinada.
E agora dois exemplos do Apóstolo Paulo:
C) Em 1 Coríntios 10.4, São Paulo refere-se à rocha que "seguia" os judeus ao longo do deserto do Sinai. O Antigo Testamento afirma nada sobre tal movimento miraculoso nas passagens sobre Moisés golpeando a rocha para que ela produzisse água (Êxodo 17.1-7; Números 20.2-13); contudo, a tradição rabínica menciona-o.
D) "Como Janes e Jambres opuseram-se a Moisés" (2 Timóteo 3.8). Estes dois homens não podem ser encontrados na passagem correlata no Antigo Testamento (cf. Êx. 7:. 8ss) ou em qualquer outro lugar do Antigo Testamento.
5. Concílio de Jerusalém

No Concílio de Jerusalém (At. 15.6-30), vemos Pedro e Tiago falando com autoridade. Este Concílio profere um pronunciamento autoritativo (mencionando o Espírito Santo) que se tornou obrigatório para todo cristão:
"Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês nada além das seguintes exigências necessárias: Que se abstenham de comida sacrificada aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual. Vocês farão bem em evitar essas coisas." (Atos 15.28-29).
No próximo capítulo, lemos que Paulo, Timóteo e Silas viajaram "pelas cidades" e a Escritura diz que eles 
"transmitiam as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros em Jerusalém, para que fossem obedecidas." (Atos 16.4).
Essa é a autoridade da Igreja. Eles, simplesmente, proclamaram o decreto como verdadeiro e autoritativo — com a sanção do próprio Espírito Santo! Então, vemos na Bíblia um exemplo do dom da infalibilidade que a Igreja Católica alegaria para si mesma quando está em assembléia em um Concílio.

6. Fariseus, saduceus e a Tradição oral extrabíblica

O Cristianismo foi derivado de muitas maneiras da tradição farisaica do Judaísmo. Os saduceus, por outro lado, era muito mais heréticos. Eles rejeitaram a futura ressurreição da alma, a vida após a morte, as recompensas e retribuições, demônios e anjos e a predestinação. Os saduceus eram os liberais teológicos do seu tempo. Os cristãos fariseus são mencionados em Atos 15.5 e Filipenses 3.5, mas a Bíblia nunca menciona cristãos saduceus. Os saduceus também rejeitaram todo ensinamento autoritativo oral e, essencialmente, criam no "Sola Scriptura". Então, nem os (ortodoxos) judeus do Antigo Testamento e nem a Igreja primitiva eram guiados pelo princípio do "Sola Scriptura". Os fariseus (apesar de suas corrupções e excessos) foram a principal tradição judaica e tanto Jesus como Paulo reconhecem isto.

7. Os judeus do Antigo Testamento não criam no "Sola Scriptura" / Necessidade de interpretação

Para dar dois exemplos do próprio Antigo Testamento:
A) Esdras 7.6,10: Esdras, um sacerdote e escriba, estudou a lei judaica e ensinou-a a Israel e a desobediência à sua autoridade significava pena de prisão, exílio, perda de bens e até mesmo a morte (7.25-26).
B) Neemias 8.1-8: Esdras lê a Lei de Moisés para o povo em Jerusalém (8.3). No verso 7, encontramos treze levitas que assistiram a Esdras e que ajudaram o povo a compreender a Lei. Muito antes, encontramos levitas exercendo a mesma função (2 Cr. 17.8-9). Em Neemias 8.8: "Liam no livro da Lei de Deus, de maneira distinta, explicando o sentido dela, e faziam compreender o que era lido.".
Desse modo, o povo, de fato, compreendia a Lei (Ne. 8.12), mas não sem muita assistência —não meramente a ouvindo. Da mesma forma, a Bíblia não é totalmente clara em si mesma, mas requer ajuda de professores que estão mais familiarizados com os estilos bíblicos, com o Hebraico, com os antecedentes, com o contexto, com a exegese, com a referência cruzada entre os livros, com os princípios hermenêuticos, com as línguas originais etc. . O Antigo Testamento, então, ensina-nos acerca de uma Tradição permanente e precisa de intérpretes autoritativos, assim como o Novo Testamento:
C) "[...] um eunuco etíope [...] sentado em seu carro, lia o profeta Isaías [...]. Filipe correu para lá, ouviu o eunuco ler o profeta Isaías e lhe disse: 'Será que compreendes verdadeiramente o que estás lendo?'. 'E como poderia eu compreender, respondeu ele, se não tenho guia?'" (Atos 8.27-28, 30-31).
D) "[...] nenhuma profecia da Escritura é objeto de interpretação pessoal" (2 Pedro 1.20). 
E) "[...] Paulo, nosso irmão e amigo, vos escreveu consoante a sabedoria que lhe foi dada. [...] nelas [nas cartas de Paulo] se encontram passagens difíceis, cujo sentido pessoas ignorantes e sem formação deturpam, como, também fazem com as demais Escrituras, para a própria perdição." (2 Pedro 3.15-16).
F) "Por meio de numerosas parábolas como estas, ele lhes anunciava a Palavra, à medida que eram capazes de compreendê-la. Não lhes falava a não ser em parábolas, mas, em particular, explicava tudo a seus discípulos." (Marcos 4.33-34).
8. 2 Timóteo 3.16-17: a "prova textual" protestante
"Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, refutar, corrigir, educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para qualquer obra boa." (TEB)
Esta passagem não ensina a suficiência formal, que exclui um permanente e autoritativo papel para a Tradição e a Igreja. Os protestantes extrapolam para o texto algo que não está nele. Se olharmos o contexto geral dessa passagem, em 2 Timóteo apenas, Paulo faz referência à Tradição oral três vezes (1.13-14, 2.2, 3.14). Para fazermos uso de uma analogia, examinemos uma passagem bastante similar, Efésios 4.11-15:
"E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.".
Se 2 Timóteo 3 prova a suficiência da Escritura, então, por analogia, Efésios 4, semelhantemente, provaria a suficiência dos pastores e mestres para a produção da perfeição cristã. Em Efésios 4.11-15, o crente cristão é equipado, edificado e trazido à unidade e à idade madura, e até mesmo preservado da confusão doutrinária por meio da função de ensino da Igreja. Esta é uma declaração muito mais forte de aperfeiçoamento dos Santos que aquela de 2 Timóteo 3.16-17, ainda que não haja qualquer menção da Escritura.

Então, se todos os elementos não escriturísticos são exclusos em 2 Timóteo, por analogia, a Escritura, logicamente, teria de estar exclusa em Efésios. É muito mais razoável reconhecer que a ausência de um ou mais elementos na passagem não significa que eles não existem. A Igreja e a Escritura são ambas igualmente necessárias e importantes para o ensino. E, obviamente, esta é a visão católica.

9. Paulo, eventualmente, assume que a Tradição que lhe foi transmitida é infalível e autoritativa

Paulo não estava assumindo que ele poderia ordenar os seus seguidores a aderir a uma doutrina equivocada. Ele escreve por exemplo:
"Se alguém desobedecer ao que dizemos nesta carta, marquem-no e não se associem com ele, para que se sinta envergonhado" (2 Ts. 3.14)
"Eu vos exorto, irmãos, a vos precaverdes contra os que suscitam divisões e escândalos, afastando-se do ensinamento que recebestes; afastai-vos deles." (Rm. 16.17)
Paulo não escreveu:
"[...] afastando-se do bastante, em grande parte, amplamente, verdadeiro, mas não infalível, ensinamento que recebestes.".
10. O "Sola Scriptura" é um posicionamento radicalmente circular

Quando tudo já está dito e feito, os protestantes aceitam o "Sola Scriptura" como sua regra de fé recorrendo à Bíblia. Se a eles fosse perguntado por que alguém deveria acreditar no ensino da sua denominação em particular em detrimento de outro, cada um apelaria à "clareza do ensino da Bíblia" e, muitas vezes, agiriam como se não houvesse qualquer tradição que guiasse a sua própria interpretação.

Isso se assemelha a pessoas que estivessem em lados diferentes de um debate constitucional em que ambas dissessem: "Bem, nós seguimos aquilo que a Constituição afirma, mas vocês não.". A Constituição dos Estados Unidos, assim como a Bíblia, não é suficiente em si e por si mesma para resolver querelas sobre diferentes interpretações. Juízes e cortes são necessários e os seus decretos são legalmente autoritativos. As decisões da Suprema Corte não podem ser anuladas, a não ser por decisões futuras ou por emendas constitucionais. Em qualquer caso, existe sempre um parecer final que resolve a questão.

O Protestantismo, entretanto, prescinde disso porque ele apela a um princípio logicamente autodestrutivo e a um livro (que deve sempre ser interpretado por seres humanos). Obviamente (dadas as divisões no Protestantismo), simplesmente, "ir para a Bíblia" não tem funcionado. No final, uma pessoa não tem nenhuma garantia ou certeza no seu sistema protestante. Eles podem apenas, por si mesmos, "ir à Bíblia" e talvez retornar com outra versão doutrinária de alguma doutrina posta em questão para adicionar à sua lista. Ou você acredita que há uma verdade em qualquer disputa teológica dada (seja ela qual for) ou você adota uma posição relativista e indiferente em que contradições são aceitas ou em que a doutrina é tão "secundária" que não importa.

A Bíblia, entretanto, não ensina que existam categorias inteiras de doutrinas que são "secundárias" e que os cristãos podem, livremente, e alegremente, discordar dessa forma. O denominacionalismo e as divisões são vigorosamente condenadas. A única conclusão a que podemos chegar a partir da Bíblia é que aquilo que chamamos de "o tripé que sustenta um banco" — Bíblia, Igreja e Tradição — é aquilo que é necessário para que cheguemos à verdade. Se você bater em qualquer uma das pernas de um banco de três pernas, ele colapsa.

sábado, 8 de outubro de 2016

Por que os bereianos rejeitaram o "Sola Scriptura" (Steve Ray)


Uma preeminente organização anticatólica oriunda de Oregon, com Dave Hunt no seu comando, publica, mensalmente, um boletim informativo intitulado “The Berean Call” [O chamado bereiano]. O título é tomado de Atos 17, em que Paulo refere-se aos bereianos, na Ásia Menor, como “nobres” e Hunt escolheu o título para promover a sua crença no “sola scriptura”.

O “sola scriptura”, ou o “somente a Bíblia”, é uma doutrina protestante inventada no século dezesseis. Ela declara que a Bíblia é a única fonte de revelação e o único e último juiz no tocante a toda matéria de fé cristã. Martinho Lutero desenvolveu-a em reação aos ensinos históricos da Igreja Católica e aos Pais da Igreja dos primeiros séculos. Lutero rejeitou a autoridade da Igreja e da Tradição apostólica e, assim, ficou com o “sola scriptura” — o somente a Bíblia.

Na realidade, entretanto, o Hunt converteu o episódio em Beréia naquilo que está na sua própria cabeça, uma vez que os nobres bereianos, em verdade, condenaram a sua posição do “sola scriptura”. Essa passagem acerca dos bereianos tem sido apropriada pelos evangélicos por tempo demais e já é hora de os católicos reivindicarem-na. Muitos têm se sentido incomodados com esse texto e muitas explicações, a partir de uma perspectiva católica, têm se mostrado medíocres na melhor das hipóteses. Não apenas o texto pode ser explicado facilmente pelos católicos, mas ele é, realmente, um forte argumento contra o “sola scriptura” e uma defesa convincente do ensino da Igreja Católica.

A nós é dito que os bereianos eram mais nobres (abertos, mais dispostos, justos) — entretanto, muito mais nobres do que quem? Os tessalonicenses! É conveniente aos evangélicos pôr essa passagem fora de contexto e forçá-la a permanecer isolada. Dessa forma, a sua causa parece ser convincente, mas o contexto diz-nos a história real. Antes de olharmos os bereianos, vamos olhar aqueles aos quais eles são comparados: os tessalonicenses. O que os tessalonicenses fizeram que os tornou tão menos nobres?

Encontramos em Atos 17.1-9: “Passando por Anfípolis e Apolônia, eles chegaram a Tessalônica, onde os judeus tinham uma sinagoga. Como costumava, Paulo foi procurá-los e, durante três sábados sucessivos, dirigiu-lhes a palavra; a partir das Escrituras, ele explicava e demonstrava que o Messias devia sofrer, ressuscitar dos mortos e, dizia ele, ‘o Messias é este Jesus que eu vos anuncio!’. Alguns dos judeus se deixaram convencer e foram ganhos por Paulo e Silas, como bem uma multidão de gregos adoradores de Deus, e bom número de mulheres da alta sociedade. Mas os judeus, furiosos, recrutaram alguns maus elementos que vagabundavam pelas ruas, amotinaram a multidão e semearam a desordem na cidade; dirigiram-se então à casa de Jasão, à procura de Paulo e de Silas, que queriam apresentar à assembleia do povo; não os achando, arrastaram Jasão e alguns irmãos para os apresentar aos politarcas: ‘Esses homens que sublevaram o mundo inteiro, gritavam eles, estão agora aqui, e Jasão os acolheu. Todos esses indivíduos agem contra os editos do imperador; eles pretendem que existe outro rei, Jesus’. Esses gritos impressionaram a multidão e os politarcas, que exigiram então uma fiança de Jasão e dos outros, antes de os soltar.”.

Os tessalonicenses rejeitaram Paulo e a sua mensagem e, depois de denunciá-lo, eles ficaram enciumados de que outros tivessem crido nela. Eles trataram Paulo com desprezo e com violência, despejando-o, ignominiosamente, da cidade. Por quê? “durante três sábados sucessivos, [Paulo] dirigiu-lhes a palavra; a partir das Escrituras” na sinagoga, como era o seu costume. Eles não desprezaram Paulo na primeira semana ou na segunda; em vez disto, eles o ouviram e discutiram. Entretanto, no final, eles rejeitaram o que ele tinha a dizer. Eles compararam a mensagem de Paulo ao Antigo Testamento e decidiram que Paulo estava errado. Temos de lembrar que muitos estavam proclamando uma ampla variedade de novos ensinamentos, todos eles supostamente baseados nas Escrituras e nas revelações de Deus. Heresias, cultos e seitas eram numerosos no Império Romano assim como eles são hoje. Os judeus, em Tessalônica, tinham o direito de serem céticos.

Agora, vamos dar uma olhada no comentário de Lucas sobre os nobres bereianos: “Imediatamente os irmãos fizeram Paulo e Silas partir, de noite, para a Bereia. Ao chegarem, eles foram à sinagoga dos judeus. Mais corteses que os de Tessalônica, estes acolheram a Palavra com inteira boa vontade, e cada dia examinavam as Escrituras para ver se era assim mesmo. Muitos dentre eles abraçaram a fé, como também mulheres gregas de alta posição e homens, em número apreciável.” (Atos 17.10-12).

Quando os protestantes usam essa passagem como uma prova textual para a sua doutrina do “sola scriptura”, eles deveriam perceber que aqueles em questão não eram cristãos; eles eram judeus helenísticos. Não existe nenhuma doutrina do “sola scriptura” entre as comunidades judaicas, mas as Escrituras são tidas como sagradas. Embora os judeus sejam freqüentemente referidos como “o povo do livro”, na realidade, eles têm uma forte tradição oral que acompanha as suas Escrituras, juntamente com uma autoridade de ensino autorizada, como representado pela “cátedra de Moisés” nas sinagogas (Mt. 23.2). Os judeus não tinham nenhuma razão para aceitar o ensino de Paulo como “divinamente inspirado”, uma vez que eles tinham acabado de conhecê-lo. Quando novos ensinamentos que vieram à tona alegavam ser um desenvolvimento do judaísmo, os rabinos pesquisaram para ver se eles poderiam ser verificados a partir da Torá.

Se um dos dois grupos poderia ser taxado como sendo composto de crentes no “sola scriptura”, quem o seria: os tessalonicenses ou os bereianos? Os tessalonicenses obviamente. Eles, assim como os bereianos, examinaram as Escrituras com Paulo na sinagoga, porém, eles rejeitaram o seu ensino. Eles rejeitaram o novo ensinamento, decidindo, depois de três semanas de deliberação, que as palavras de Paulo contradiziam a Torá. A sua decisão não estava completamente injustificada a partir da sua perspectiva escriturística. Como poderia o Messias de Deus ser amaldiçoado com a crucifixão em um madeiro como um criminoso comum, exposto publicamente como alguém que levou sobre si o juízo de Deus? Que tipo de rei e Messias seria esse? Isto lhes parecia irreconciliável com as Sagradas Escrituras (veja Simon J. Kistemaker, Acts [Grand Rapids, Michigan: Baker Books, 1990], 614).

Quando alguns dos gregos e dos cidadãos preeminentes aceitaram Cristo como Messias, os judeus ficaram com inveja — e de forma correta, a partir da sua perspectiva, uma vez que novos crentes separavam-se deles mesmos nas sinagogas e começavam a encontrar-se em outro lugar, na casa de Jasão. Os judeus, naturalmente, consideravam a si mesmos os intérpretes autoritativos da Torá. Quem eram os gentios para interpretarem a Escritura e decidirem acerca de importantes questões teológicas ou aceitarem revelação adicional? Eles eram os “cães”, e não os eleitos guardiões dos oráculos da Deus (veja William Barclay, The Acts of the Apostles [Philadelphia, Pennsylvania: Westminster Press, 1976], 128).

Podemos ver, então, que se alguém poderia ser classificado como um adepto do “sola scriptura” seria os judeus tessalonicenses. Eles raciocinaram a partir das Escrituras somente e concluíram que os novos ensinamentos de Paulo eram “não bíblicos”.

Os bereianos, por outro lado, não eram adeptos do “sola scriptura”, pois eles estavam dispostos a aceitar o novo ensinamento oral de Paulo como sendo a Palavra de Deus (como Paulo alegou que o seu ensino oral, de fato, era; veja 1 Ts. 2.13). Os bereianos, antes de aceitar a Palavra de Deus oral proveniente de Paulo, uma Tradição como até mesmo o próprio Paulo referia-se a ela (veja 2 Ts. 2.15), examinaram as Escrituras para verem se essas coisas eram assim. Eles eram nobres, precisamente, porque eles “acolheram a Palavra com inteira boa vontade”. Os bereianos foram elogiados principalmente por pesquisarem as Escrituras? Não. A sua aberta disposição para ouvir foi a principal razão para que eles fossem referidos como sendo nobres — e não por eles terem pesquisado as Escrituras. Uma leitura de gramáticos e de comentadores deixa claro que eles eram “nobres” não por estudar a Escritura, mas por tratar Paulo de forma mais civilizada que os tessalonicenses — com uma mente aberta e com cortesia generosa (veja I. Howard Marshall, “The Acts of the Apostles” in the Tyndale New Testament Commentaries [Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1981], 5:280).

Os bereianos não pesquisaram a Torá menos que os tessalonicenses, embora eles tivessem mais boa vontade para aceitar as Palavras de Deus da boca de São Paulo, em adição àquilo que eles já detinham da Escritura, que era a Lei e os Profetas. Mesmo que se alegue que Paulo pregou o Evangelho, e não uma “Tradição”, é claro que os bereianos estavam aceitando uma nova revelação que não estava contida nas suas Escrituras. Esses judeus bereianos aceitaram o ensinamento oral, a Tradição dos Apóstolos, em condição de igualdade à Escritura, em adição a ela e como uma “extensão” da Torá. Isto, além disso, é ilustrado pela recepção das epístolas de Paulo pela comunidade cristã como sendo Escritura divinamente inspirada (veja 2 Pedro 3.16; aqui, Pedro parece reconhecer os escritos de Paulo como sendo iguais em autoridade às “outras Escrituras”, que poderiam ser presumidas como uma referência ao Antigo Testamento).

Da perspectiva dos anticatólicos, os tessalonicenses teriam sido mais nobres por terem estado mais lealmente presos ao seu cânone da Escritura somente e por terem rejeitado autoridade permanente adicional (escrita ou falada) da boca de um apóstolo. De fato, no Concílio de Jâmnia, por volta de 90 d.C., os judeus determinaram que qualquer coisa escrita depois de Esdras não era Escritura infalível; eles mencionaram, especificamente, os Evangelhos de Cristo a fim de rejeitarem-nos.

Por que os bereianos pesquisaram as Escrituras? Porque elas eram a única fonte de revelação e autoridade? Não, mas para ver se Paulo estava em consonância com aquilo que eles já sabiam — a fim de confirmar revelação adicional. Eles não se submeteriam cegamente ao seu ensinamento apostólico e à Tradição oral, mas, uma vez que eles aceitassem a credibilidade dos ensinamentos de Paulo como sendo a Palavra oral de Deus, como os conversos que creram em Tessalônica, eles aceitaram a Tradição Apostólica e o Antigo Testamento igualmente como Palavra de Deus (veja 2 Ts. 2.15, 3.16). Portanto, eles aceitaram a autoridade apostólica, o que significa que as determinações de Pedro no primeiro Concílio da Igreja, relatado em Atos 15, seriam obrigatórias a esses novos gentios conversos.

Por contraste, os judeus de Tessalônica teriam condenado a exegese bíblica de Pedro no Concílio de Jerusalém. Eles teriam zombado de que a Igreja teria qualquer autoridade sobre eles — a Torá era tudo de que eles precisavam. Aqueles que guardaram o “sola scriptura” rejeitaram Paulo porque ele alegava ser porta-voz de uma “revelação adicional”.

Lucas deixa claro que aqueles que desejavam aceitar a Tradição Apostólica como autoritativa eram mais nobres. A passagem dos bereianos, portanto, é dificilmente uma prova textual para aqueles que são adeptos do “sola scriptura”. Esse texto prova muito mais aos evangélicos. Os anticatólicos adoram associar a si mesmos aos bereianos, mas o exemplo dos bereianos, realmente, condena a sua exegese. O louvor de Lucas aos bereianos não pode ser aplicado aos protestantes evangélicos, que se assemelham mais aos tessalonicenses, que se apoiavam no “sola scriptura” e rejeitavam a Palavra oral de Deus contida na Tradição e na autoridade do ensino da Igreja.

Para ser consistente com o seu romance da teologia do “sola scriptura”, o Dave Hunt deveria renomear o seu boletim informativo mensal. Permita-me sugerir um novo título: "The Thessalonian Call" [O chamado tessalonicense].


domingo, 2 de outubro de 2016

Arca da Nova Aliança (Patrick Madrid)

Seu rosto ficou tenso e os seus olhos estreitaram-se. Até agora, o pastor da "Calvary Chapel" esteve calmo enquanto ele "compartilhava o evangelho" comigo; entretanto, quando lhe mencionei minha crença na Imaculada Conceição de Maria, a sua atitude mudou.

"O problema com vocês, católicos romanos", disse ele, com o fino indicador apunhalando o ar a poucas polegadas do meu rosto, "é que vocês fizeram acréscimos ao evangelho. Como vocês podem chamar-se a si mesmos de cristãos enquanto se apegam a tradições não bíblicas como a Imaculada Conceição? Isto não está na Bíblia: foi inventado pela sistema católico romano em 1854. Além disso, Maria não poderia não ter pecado: apenas Deus é sem pecado. Se ela não tivesse pecado, ela seria Deus!".

Pelo menos, o ministro acertou a data: 1854 foi o ano em que o Papa Pio IX definiu, infalivelmente, a doutrina da Imaculada Conceição de Maria, mas isto foi o mais preciso que ele conseguiu ser. A sua reação foi aquela típica de evangélicos. Ele estava inflexível sobre a ênfase católica acerca da ausência de pecado em Maria ser uma afronta insuportável à santidade única de Deus, especialmente como manifesta em Jesus Cristo.

Depois que examinássemos a evidência bíblica para a doutrina, o antimarianismo que ele tinha mostrado foi silenciado, mas estava claro que, pelo menos emocionalmente, embora não biblicamente, Maria era uma pedra de tropeço para ele. Como a maior parte dos cristãos (católicos e protestantes), o ministro não tinha conhecimento da base bíblica para o ensino da Igreja sobre a Imaculada Conceição. Por vezes, contudo, mesmo o conhecimento dessas passagens não é suficiente. Muitos ex-protestantes que têm se convertido à Igreja Católica relatam o quão difícil era para eles deixarem de lado os preconceitos e abraçarem as doutrinas marianas mesmo depois de sentirem-se completamente satisfeitos, por meio da oração e do estudo das Escrituras, de que tais ensinos eram, de fato, bíblicos.

Para os evangélicos que têm investigado a questão e descoberto, para o seu espanto, a base bíblica para as doutrinas marianas, há, muitas vezes persistentemente, a suspeita de que, de alguma maneira, de algum modo que eles não podem identificar, a ênfase católica na impecabilidade de Maria solapa a impecabilidade única de Cristo...

Várias objeções são levantadas pelos protestantes.

Em primeiro lugar, se apenas Deus não tem pecados, Maria não poderia não ter tido pecados ou, do contrário, ela seria Deus.

Em segundo lugar, se Maria não teve pecados, por que ela disse "meu espírito se alegra em Deus, meu salvador" (Lc. 1.47)? Se apenas pecadores precisam de um salvador, por que Maria, se estava livre do pecado, incluiria a si mesma na categoria dos pecadores? Se ela estava isenta do pecado, ela não precisaria de um salvador e a sua declaração em Lucas 1 seria incoerente. 

Em terceiro lugar, Paulo afirma em Romanos 3.10-12, 23 que "não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há um sequer [...], pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus.". Em Romanos 5.12, ele diz: "Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram". Estes versículos parecem excluir qualquer possibilidade de que Maria não tivesse pecado. 

A Imaculada Conceição dá ênfase a quatro verdades: (1) Maria precisou de um salvador; (2) o seu salvador foi Jesus Cristo; (3) a salvação de Maria foi alcançada por Jesus mediante a Sua obra redentora na Cruz; (4) Maria foi salva do pecado, mas de uma maneira mais gloriosa e diferente do resto de nós. 

Consideremos a primeira e a mais fácil das três objeções. 

A noção de que Deus é o único ser sem pecado é completamente falsa — e até mesmo os protestantes pensam assim. Adão e Eva, antes da Queda, estavam livres do pecado e eles não eram deuses, apesar de as afirmações da serpente sugerirem o contrário. (É preciso lembrar que Maria não foi o primeiro ser humano imaculado, mesmo que ela tenha sido o primeiro a ser concebido imaculadamente.) 

Os anjos no Céu não são deuses, mas eles foram criados sem pecado e assim têm permanecido desde então. Os santos no Céu não são deuses, embora cada um deles esteja agora completamente sem pecado (Ap. 14.5; 21.27).

O segundo e o terceiro argumento relacionam-se. Maria precisou de Jesus como o seu salvador. A Sua morte na Cruz salvou-a, como salvou a nós, mas os seus efeitos salvíficos foram aplicados a ela (diferentemente de nós) no momento da sua concepção. (Tenha em mente que a crucifixão é um evento eterno e que a apropriação da salvação por meio da morte de Cristo não tem impedimentos concernentes ao tempo ou ao espaço.)

Os teólogos medievais desenvolveram uma analogia para explicar como e por que Maria precisou de Jesus como o seu salvador. Um homem (cada um de nós) está andando por uma trilha de uma floresta sem saber que uma grande fossa espera-o poucos passos adiante. Ele cai de cabeça nela e está chafurdado na lama (pecado original). Ele clama por socorro e o seu resgatador (o Senhor Jesus) lança-lhe uma corda e puxa-o de volta em segurança. O homem diz ao seu resgatador: "obrigado por salvar-me", recordando as palavras do salmista: "[o Senhor] se inclinou para mim e ouviu o meu grito de socorro. Ele me tirou de um poço de destruição, de um atoleiro de lama; pôs os meus pés sobre uma rocha e firmou-me num local seguro" (Sl. 40.1-2).

Uma mulher (Maria) aproxima-se da mesma fossa, mas, quando ela começa a cair nela, o seu resgatador estende-lhe a sua mão e impede-a de cair nela. Ela, então, proclama agradecida: "obrigada por salvar-me" (Lc. 1.47). Como esta mulher, Maria não foi menos "salva" do que qualquer outro ser humano foi salvo. Ela apenas foi salva antecipadamente, ANTES de contrair o pecado original. A cada um de nós é permitido que nos sujemos com o pecado original, mas a ela não. Deus odeia o pecado e, assim, esta foi uma via muito melhor de preservar a Sua mãe. 

O proferimento de São Paulo em Romanos capítulos 3 e 5 (não há nenhum justo; não há ninguém que busque a Deus; não há ninguém que faça o bem; todos pecaram) não deveria ser tomado em um sentido crassamente literal e universal — do contrário, contradições irreconciliáveis surgirão. Considere Lucas 1.6. O senso comum diz-nos que grupos inteiros de pessoas estão isentos da fala de Paulo de que "todos pecaram". Bebês abortados não podem pecar, nem o podem crianças muito novas ou pessoas gravemente retardadas. Paulo, entretanto, não menciona tais exceções óbvias. Ele estava escrevendo a pessoas adultas no nosso estado de vida. 

Se certos grupos estão isentos da rubrica de que "todos pecaram", então, esses versículos não podem ser usados para argumentar-se contra a Imaculada Conceição de Maria uma vez que o seu caso seria excepcional também, não sendo preciso mencioná-lo dado o propósito da discussão de Paulo e o seu público-alvo.

Agora, consideremos o que a Bíblia tem a dizer-nos em favor da posição católica. É importante reconhecer que nem as palavras "Imaculada Conceição" e nem tampouco a fórmula precisa adotada pela Igreja para enunciar esta verdade encontram-se na Bíblia. Isto não significa que a doutrina não seja bíblica, mas apenas que a verdade da Imaculada Conceição, como verdades referentes à Trindade e à união hipostática de Jesus (que Jesus encarnou-se como Deus e homem, possuindo completamente e simultaneamente duas naturezas, divina e humana, em uma só pessoa divina), é mencionada ou em outras palavras ou apenas indiretamente. 

Vejamos, primeiramente, duas passagens em Lucas 1. No verso 28, o anjo Gabriel cumprimenta Maria como "kecharitomene" ("cheia de graça" ou "agraciada"). Este é um reconhecimento do seu estado sem pecado. No verso 42, Isabel cumprimenta Maria como "bendita entre as mulheres". A importância original desta frase perde-se na tradução inglesa. Uma vez que nem o Hebraico e nem o Aramaico têm superlativos ("best" ["o melhor"], "highest" ["o mais elevado"], "tallest" ["o mais alto"], "holiest" ["o mais santo"]), um falante destes idiomas teria de dizer: "You are tall among men" ["Você é o mais alto entre os homens"] ou "You are wealthy among men" ["Você é o mais rico entre os homens"] para dizer "You are the tallest" ["Você é o mais alto"] ou '"You are the wealthiest" ["Você é o mais rico"]. As palavras de Isabel querem dizer que Maria é a mais santa de todas as mulheres. 

A Igreja entende Maria como sendo o cumprimento de três tipificações veterotestamentárias: o cosmos, Eva e a arca da aliança. Um tipificação é uma pessoa, um evento ou uma coisa no Antigo Testamento que prefigura ou simboliza alguma realidade futura que Deus estabelecerá. (Veja estes versos para tipificações do Antigo Testamento que são cumpridas no Novo Testamento: Cl. 2.17; Hb. 1.1, 9.9, 9.24, 10.1; 1 Cor. 15.45-49; Gl. 4.24-25.)

Alguns exemplos específicos de tipificações: Adão era uma tipificação de Cristo (Rm. 5.14); a arca de Noé e o dilúvio foram tipificações da Igreja e do Batismo (1 Pe. 3.19-21); Moisés, que libertou Israel do jugo da escravidão no Egito, era uma tipificação de Cristo, que nos salvou do jugo da escravidão do pecado e da morte; a circuncisão prefigura o Batismo; o cordeiro pascal imolado em Êxodo 12.21-28 era um símbolo de Jesus, o Cordeiro de Deus, que seria imolado para a remissão dos pecadores. O importante a ser compreendido sobre as tipificações é que o seu cumprimento é sempre mais glorioso, mais profundo, mais 'real' que a tipificação em si mesma. 

A Imaculada Conceição de Maria é prefigurada em Gênesis 1, quando Deus cria o universo em um estado imaculado, livre de qualquer mácula, mancha ou imperfeição. Isto é corroborado pela menção repetida em Gênesis 1 de Deus contemplando suas criações e dizendo que elas eram "boas". Da matéria incorrupta, o Senhor criou Adão, o primeiro ser humano imaculado criado, formando-o desde o "ventre" da Terra. Os elementos imaculados a partir dos quais o primeiro Adão recebeu a sua substância prefiguram a mãe imaculada a partir da qual o segundo Adão (Rm. 5.14) tomou a sua substância humana.

A segunda prefiguração de Maria é Eva, a mãe física da nossa raça, assim como Maria é a nossa mãe espiritual por sermos membros do Corpo de Cristo (Ap. 12.17). O que Eva arruinou por meio de sua desobediência e falta de fé (Gênesis 3), Maria ajustou por sua fé e obediência (Lc. 1.38).

Vemos uma declaração crucial em Gênesis 3.15: "Porei inimizade entre ti [Satanás] e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça,e tu lhe ferirás o calcanhar". Esta passagem é especialmente significativa quando se refere à "descendência da mulher" — um uso singular. A Bíblia, seguindo a biologia normal, contrastando com esta passagem, apenas se refere à semente do homem, à semente do pai, mas nunca à semente da mulher. Quem é a mulher mencionada aqui? A única possibilidade é Maria, a única mulher que daria luz a uma criança sem a ajuda de um pai humano, um fato profetizado em Isaías 7.14.

Se Maria não estivesse completamente livre do pecado, esta profecia tornar-se-ia insustentável. Por quê? A passagem aponta para a Imaculada Conceição de Maria porque ela menciona uma completa inimizade entre a mulher e Satanás. Tal inimizade seria impossível se Maria fosse manchada pelo pecado, original ou atual (veja 2 Coríntios 6.14). Esta linha de pensamento elimina a possibilidade de Eva ser a 'mulher', uma vez que ela, claramente, estava sob a influência de Satanás em Gênesis 3.

A terceira e mais convincente tipificação da Imaculada Conceição de Maria é a arca da aliança. Em Êxodo 20, são dados a Moisés os Dez Mandamentos. Dos capítulos 25 a 30, o Senhor dá a Moisés um plano detalhado para a construção da arca, o recipiente especial que comportaria os Mandamentos. O surpreendente é que cinco capítulos mais tarde, começando no capítulo 35, e continuando até o 40, Moisés repete palavra por palavra cada um dos detalhes para a construção da arca. 

Por quê? Era um modo de enfatizar o quão crucial era seguir exatamente as especificações do Senhor (Êx. 25.9, 39.42-43). Deus queria que a arca fosse tão perfeita e sem mancha quanto humanamente possível de modo que fosse digna da honra de portar a Palavra escrita de Deus. Quanto mais, então, Deus quereria que Maria, a arca da Nova Aliança, fosse perfeita e sem mancha uma vez que ela carregaria no seu ventre a Palavra de Deus que se fez carne...

Concedemos que nenhum desses versículos "demonstra" a Imaculada Conceição de Maria, mas eles apontam para ela. Afinal de contas, a Bíblia em nenhum lugar afirma que Maria cometeu qualquer pecado ou que definhou sob o pecado original. Longe de conter passagens explícitas sobre o assunto, a Bíblia é omissa sobre a maior parte da questão, ainda que toda a evidência bíblica dê suporte ao ensino católico.

Um último pensamento. Se você pudesse ter criado a sua própria mãe, você não teria a feito como sendo a mulher mais bela, virtuosa e perfeita possível? Jesus, sendo Deus, criou a sua mãe (Cl. 1.16; Hb. 1.2) e ele não apenas fez isto, mas ele a fez imaculada e, em sua misericórdia e generosidade, preservou-a assim.

[Tradução: Fábio Salgado de Carvalho; original: http://www.catholic.com/magazine/articles/ark-of-the-new-covenant]