domingo, 2 de outubro de 2016

Arca da Nova Aliança (Patrick Madrid)

Seu rosto ficou tenso e os seus olhos estreitaram-se. Até agora, o pastor da "Calvary Chapel" esteve calmo enquanto ele "compartilhava o evangelho" comigo; entretanto, quando lhe mencionei minha crença na Imaculada Conceição de Maria, a sua atitude mudou.

"O problema com vocês, católicos romanos", disse ele, com o fino indicador apunhalando o ar a poucas polegadas do meu rosto, "é que vocês fizeram acréscimos ao evangelho. Como vocês podem chamar-se a si mesmos de cristãos enquanto se apegam a tradições não bíblicas como a Imaculada Conceição? Isto não está na Bíblia: foi inventada pela sistema católico romano em 1854. Além disso, Maria não poderia não ter pecado: apenas Deus é sem pecado. Se ela não tivesse pecado, ela seria Deus!".

Pelo menos, o ministro acertou a data: 1854 foi o ano em que o Papa Pio IX definiu, infalivelmente, a doutrina da Imaculada Conceição de Maria, mas isto foi o mais preciso que ele conseguiu ser. A sua reação foi aquela típica de evangélicos. Ele estava inflexível sobre a ênfase católica acerca da ausência de pecado em Maria ser uma afronta insuportável à santidade única de Deus, especialmente como manifesta em Jesus Cristo.

Depois que examinássemos a evidência bíblica para a doutrina, o antimarianismo que ele tinha mostrado foi silenciado, mas estava claro que, pelo menos emocionalmente, embora não biblicamente, Maria era uma pedra de tropeço para ele. Como a maior parte dos cristãos (católicos e protestantes), o ministro não tinha conhecimento da base bíblica para o ensino da Igreja sobre a Imaculada Conceição. Por vezes, contudo, mesmo o conhecimento dessas passagens não é suficiente. Muitos ex-protestantes que têm se convertido à Igreja Católica relatam o quão difícil era para eles deixarem de lado os preconceitos e abraçarem as doutrinas marianas mesmo depois de sentirem-se completamente satisfeitos, por meio da oração e do estudo das Escrituras, de que tais ensinos eram, de fato, bíblicos.

Para os evangélicos que têm investigado a questão e descoberto, para o seu espanto, a base bíblica para as doutrinas marianas, há, muitas vezes persistentemente, a suspeita de que, de alguma maneira, de algum modo que eles não podem identificar, a ênfase católica na impecabilidade de Maria solapa a impecabilidade única de Cristo...

Várias objeções são levantadas pelos protestantes.

Em primeiro lugar, se apenas Deus não tem pecados, Maria não poderia não ter tido pecados ou, do contrário, ela seria Deus.

Em segundo lugar, se Maria não teve pecados, por que ela disse "meu espírito se alegra em Deus, meu salvador" (Lc. 1.47)? Se apenas pecadores precisam de um salvador, por que Maria, se estava livre do pecado, incluiria a si mesma na categoria dos pecadores? Se ela estava isenta do pecado, ela não precisaria de um salvador e a sua declaração em Lucas 1 seria incoerente. 

Em terceiro lugar, Paulo afirma em Romanos 3.10-12, 23 que "não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há um sequer [...], pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus.". Em Romanos 5.12, ele diz: "Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram". Estes versículos parecem excluir qualquer possibilidade de que Maria não tivesse pecado. 

A Imaculada Conceição dá ênfase a quatro verdades: (1) Maria precisou de um salvador; (2) o seu salvador foi Jesus Cristo; (3) a salvação de Maria foi alcançada por Jesus mediante a Sua obra redentora na Cruz; (4) Maria foi salva do pecado, mas de uma maneira mais gloriosa e diferente do resto de nós. 

Consideremos a primeira e a mais fácil das três objeções. 

A noção de que Deus é o único ser sem pecado é completamente falsa — e até mesmo os protestantes pensam assim. Adão e Eva, antes da Queda, estavam livres do pecado e eles não eram deuses, apesar de as afirmações da serpente sugerirem o contrário. (É preciso lembrar que Maria não foi o primeiro ser humano imaculado, mesmo que ela tenha sido o primeiro a ser concebido imaculadamente.) 

Os anjos no Céu não são deuses, mas eles foram criados sem pecado e assim têm permanecido desde então. Os santos no Céu não são deuses, embora cada um deles esteja agora completamente sem pecado (Ap. 14.5; 21.27).

O segundo e o terceiro argumento relacionam-se. Maria precisou de Jesus como o seu salvador. A Sua morte na Cruz salvou-a, como salvou a nós, mas os seus efeitos salvíficos foram aplicados a ela (diferentemente de nós) no momento da sua concepção. (Tenha em mente que a crucifixão é um evento eterno e que a apropriação da salvação por meio da morte de Cristo não tem impedimentos concernentes ao tempo ou ao espaço.)

Os teólogos medievais desenvolveram uma analogia para explicar como e por que Maria precisou de Jesus como o seu salvador. Um homem (cada um de nós) está andando por uma trilha de uma floresta sem saber que uma grande fossa espera-o poucos passos adiante. Ele cai de cabeça nela e está chafurdado na lama (pecado original). Ele clama por socorro e o seu resgatador (o Senhor Jesus) lança-lhe uma corda e puxa-o de volta em segurança. O homem diz ao seu resgatador: "obrigado por salvar-me", recordando as palavras do salmista: "[o Senhor] se inclinou para mim e ouviu o meu grito de socorro. Ele me tirou de um poço de destruição, de um atoleiro de lama; pôs os meus pés sobre uma rocha e firmou-me num local seguro" (Sl. 40.1-2).

Uma mulher (Maria) aproxima-se da mesma fossa, mas, quando ela começa a cair nela, o seu resgatador estende-lhe a sua mão e impede-a de cair nela. Ela, então, proclama agradecida: "obrigada por salvar-me" (Lc. 1.47). Como esta mulher, Maria não foi menos "salva" do que qualquer outro ser humano foi salvo. Ela apenas foi salva antecipadamente, ANTES de contrair o pecado original. A cada um de nós é permitido que nos sujemos com o pecado original, mas a ela não. Deus odeia o pecado e, assim, esta foi uma via muito melhor de preservar a Sua mãe. 

O proferimento de São Paulo em Romanos capítulos 3 e 5 (não há nenhum justo; não há ninguém que busque a Deus; não há ninguém que faça o bem; todos pecaram) não deveria ser tomado em um sentido crassamente literal e universal — do contrário, contradições irreconciliáveis surgirão. Considere Lucas 1.6. O senso comum diz-nos que grupos inteiros de pessoas estão isentos da fala de Paulo de que "todos pecaram". Bebês abortados não podem pecar, nem o podem crianças muito novas ou pessoas gravemente retardadas. Paulo, entretanto, não menciona tais exceções óbvias. Ele estava escrevendo a pessoas adultas no nosso estado de vida. 

Se certos grupos estão isentos da rubrica de que "todos pecaram", então, esses versículos não podem ser usados para argumentar-se contra a Imaculada Conceição de Maria uma vez que o seu caso seria excepcional também, não sendo preciso mencioná-lo dado o propósito da discussão de Paulo e o seu público-alvo.

Agora, consideremos o que a Bíblia tem a dizer-nos em favor da posição católica. É importante reconhecer que nem as palavras "Imaculada Conceição" e nem tampouco a fórmula precisa adotada pela Igreja para enunciar esta verdade encontram-se na Bíblia. Isto não significa que a doutrina não seja bíblica, mas apenas que a verdade da Imaculada Conceição, como verdades referentes à Trindade e à união hipostática de Jesus (que Jesus encarnou-se como Deus e homem, possuindo completamente e simultaneamente duas naturezas, divina e humana, em uma só pessoa divina), é mencionada ou em outras palavras ou apenas indiretamente. 

Vejamos, primeiramente, duas passagens em Lucas 1. No verso 28, o anjo Gabriel cumprimenta Maria como "kecharitomene" ("cheia de graça" ou "agraciada"). Este é um reconhecimento do seu estado sem pecado. No verso 42, Isabel cumprimenta Maria como "bendita entre as mulheres". A importância original desta frase perde-se na tradução inglesa. Uma vez que nem o Hebraico e nem o Aramaico têm superlativos ("best" ["o melhor"], "highest" ["o mais elevado"], "tallest" ["o mais alto"], "holiest" ["o mais santo"]), um falante destes idiomas teria de dizer: "You are tall among men" ["Você é o mais alto entre os homens"] ou "You are wealthy among men" ["Você é o mais rico entre os homens"] para dizer "You are the tallest" ["Você é o mais alto"] ou '"You are the wealthiest" ["Você é o mais rico"]. As palavras de Isabel querem dizer que Maria é a mais santa de todas as mulheres. 

A Igreja entende Maria como sendo o cumprimento de três tipificações veterotestamentárias: o cosmos, Eva e a arca da aliança. Um tipificação é uma pessoa, um evento ou uma coisa no Antigo Testamento que prefigura ou simboliza alguma realidade futura que Deus estabelecerá. (Veja estes versos para tipificações do Antigo Testamento que são cumpridas no Novo Testamento: Cl. 2.17; Hb. 1.1, 9.9, 9.24, 10.1; 1 Cor. 15.45-49; Gl. 4.24-25.)

Alguns exemplos específicos de tipificações: Adão era uma tipificação de Cristo (Rm. 5.14); a arca de Noé e o dilúvio foram tipificações da Igreja e do Batismo (1 Pe. 3.19-21); Moisés, que libertou Israel do jugo da escravidão no Egito, era uma tipificação de Cristo, que nos salvou do jugo da escravidão do pecado e da morte; a circuncisão prefigura o Batismo; o cordeiro pascal imolado em Êxodo 12.21-28 era um símbolo de Jesus, o Cordeiro de Deus, que seria imolado para a remissão dos pecadores. O importante a ser compreendido sobre as tipificações é que o seu cumprimento é sempre mais glorioso, mais profundo, mais 'real' que a tipificação em si mesma. 

A Imaculada Conceição de Maria é prefigurada em Gênesis 1, quando Deus cria o universo em um estado imaculado, livre de qualquer mácula, mancha ou imperfeição. Isto é corroborado pela menção repetida em Gênesis 1 de Deus contemplando suas criações e dizendo que elas eram "boas". Da matéria incorrupta, o Senhor criou Adão, o primeiro ser humano imaculado criado, formando-o desde o "ventre" da Terra. Os elementos imaculados a partir dos quais o primeiro Adão recebeu a sua substância prefiguram a mãe imaculada a partir da qual o segundo Adão (Rm. 5.14) tomou a sua substância humana.

A segunda prefiguração de Maria é Eva, a mãe física da nossa raça, assim como Maria é a nossa mãe espiritual por sermos membros do Corpo de Cristo (Ap. 12.17). O que Eva arruinou por meio de sua desobediência e falta de fé (Gênesis 3), Maria ajustou por sua fé e obediência (Lc. 1.38).

Vemos uma declaração crucial em Gênesis 3.15: "Porei inimizade entre ti [Satanás] e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça,e tu lhe ferirás o calcanhar". Esta passagem é especialmente significativa quando se refere à "descendência da mulher" — um uso singular. A Bíblia, seguindo a biologia normal, contrastando com esta passagem, apenas se refere à semente do homem, à semente do pai, mas nunca à semente da mulher. Quem é a mulher mencionada aqui? A única possibilidade é Maria, a única mulher que daria luz a uma criança sem a ajuda de um pai humano, um fato profetizado em Isaías 7.14.

Se Maria não estivesse completamente livre do pecado, esta profecia tornar-se-ia insustentável. Por quê? A passagem aponta para a Imaculada Conceição de Maria porque ela menciona uma completa inimizade entre a mulher e Satanás. Tal inimizade seria impossível se Maria fosse manchada pelo pecado, original ou atual (veja 2 Coríntios 6.14). Esta linha de pensamento elimina a possibilidade de Eva ser a 'mulher', uma vez que ela, claramente, estava sob a influência de Satanás em Gênesis 3.

A terceira e mais convincente tipificação da Imaculada Conceição de Maria é a arca da aliança. Em Êxodo 20, são dados a Moisés os Dez Mandamentos. Dos capítulos 25 a 30, o Senhor dá a Moisés um plano detalhado para a construção da arca, o recipiente especial que comportaria os Mandamentos. O surpreendente é que cinco capítulos mais tarde, começando no capítulo 35, e continuando até o 40, Moisés repete palavra por palavra cada um dos detalhes para a construção da arca. 

Por quê? Era um modo de enfatizar o quão crucial era seguir exatamente as especificações do Senhor (Êx. 25.9, 39.42-43). Deus queria que a arca fosse tão perfeita e sem mancha quanto humanamente possível de modo que fosse digna da honra de portar a Palavra escrita de Deus. Quanto mais, então, Deus quereria que Maria, a arca da Nova Aliança, fosse perfeita e sem mancha uma vez que ela carregaria no seu ventre a Palavra de Deus que se fez carne...

Concedemos que nenhum desses versículos "demonstra" a Imaculada Conceição de Maria, mas eles apontam para ela. Afinal de contas, a Bíblia em nenhum lugar afirma que Maria cometeu qualquer pecado ou que definhou sob o pecado original. Longe de conter passagens explícitas sobre o assunto, a Bíblia é omissa sobre a maior parte da questão, ainda que toda a evidência bíblica dê suporte ao ensino católico.

Um último pensamento. Se você pudesse ter criado a sua própria mãe, você não teria a feito como sendo a mulher mais bela, virtuosa e perfeita possível? Jesus, sendo Deus, criou a sua mãe (Cl. 1.16; Hb. 1.2) e ele não apenas fez isto, mas ele a fez imaculada e, em sua misericórdia e generosidade, preservou-a assim.

[Tradução: Fábio Salgado de Carvalho; original: http://www.catholic.com/magazine/articles/ark-of-the-new-covenant]

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