segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Teoria Cristã da Verdade




Numa das minhas aulas de Lógica, aprendi sobre algumas teorias da verdade. Quando se discute sobre a verdade, costuma-se buscar uma conceituação do que seja a verdade e, a partir de tal conceituação, um critério para identificá-la. Existe diferença entre apresentar uma definição para o que seja a verdade e apresentar um teste por meio do qual se diz que uma sentença é verdadeira ou falsa. Pode-se, por exemplo, especificar-se uma temperatura a partir da qual uma pessoa está febril em contrapartida de um método para que se saiba como encontrar a temperatura desta pessoa. Antes de abordar o que intitulei por "Teoria Cristã da Verdade", falarei de algumas teorias para quem nunca ouviu falar do assunto. Utilizarei, por base, o texto da Susan Haack alcunhado de "Filosofia das Lógicas".

Teoria da verdade enquanto coerência

Esta teoria entende que a verdade consiste em relações de coerência em um conjunto de crenças, ou seja, a ausência de contradições implica veracidade. Pensadores como Bradley, Hegel, alguns oponentes positivistas do Idealismo, como Neurath e, mais recentemente, Rescher e Dauer defenderam essa abordagem.

Teoria da verdade enquanto correspondência

Esta teoria entende que a verdade de uma proposição não consiste em suas relações com outras proposições, mas em sua relação com o mundo, sua correspondência com os fatos. Pensadores como Aristóteles, Russell, Wittgenstein e Austin eram partidários desta teoria.

Teoria pragmática da verdade

Desenvolvida nas obras de Peirce, Dewey e William James, tem afinidades com as duas teorias anteriores, admitindo que a verdade de uma crença deriva de sua correspondência com a realidade, mas a partir de sua utilidade ou implicação de uma vida melhor.

Teoria da verdade enquanto redundância

Apresentada por Ramsey, afirma que "verdadeiro" é redundante, pois dizer que é verdade que p é equivalente a dizer que p. Para entender-se melhor esta teoria. Pensem na Teoria da verdade enquanto correspondência da seguinte maneira: " 'p' é verdadeira se, e somente se, p ". Percebam que utilizei aspas simples no primeiro p, mas não a utilizei no segundo. A explicação é que se está fazendo uma distinção entre uso e menção do termo. Para exemplificar, pensem nas duas frases: " 'Fábio' tem quatro letras " e "Fábio é um filósofo". Na primeira, refiro-me à palavra "Fábio"; na segunda, refiro-me ao sujeito que tem "Fábio" por nome, que sou eu. A Teoria da verdade enquanto redundância afirma que esse tipo de distinção é redundante.

Teoria da verdade enquanto consenso

Uma proposição será verdadeira, segundo esta teoria, se a maioria acreditar nela. Filósofos como Habermas desenvolveram essa teoria.

Teoria intuicionista da verdade

Uma proposição só será verdadeira se houver uma demonstração dela. Teoria adotada por pensadores como Brouwer e Heyting.

No que se refere às teorias acima, é importante fazer algumas considerações. Cada teoria, primeiramente, tem um campo de atuação com o qual se adequa mais. A Teoria da verdade enquanto consenso é ótima para ser utilizada em democracias; a intuicionista é mais adaptável à Matemática — o que explicaria os próprios conceitos no campo como "conjectura" e "teorema" — e aquela da coerentização parece ser mais apropriada em raciocínios lógicos.

O interessante é que para posicionar-se com relação a algum sistema, é necessário comprometer-se, de antemão, com algum sistema, ou seja, qualquer comentário sobre qualquer sistema já usará um sistema de forma subjacente. Quem se interessar pelo assunto, pode ver um diagrama com o desenvolvimento histórico dessas teorias:
Quando estudei essas teorias, pensei imediatamente em qual seria a teoria da verdade para o cristão. Debrucei-me, então, na Bíblia.

Teoria Cristã da Verdade

Que é a verdade?

A primeira pergunta que devemos responder é: que é a verdade? Nietzsche, de forma irônica, no seu texto "O Anticristo", afirma o seguinte:
"Preciso acrescentar que, em todo o Novo Testamento, não aparece senão uma única figura merecedora de honra: Pilatos, o governador romano. Levar assuntos judaicos a sério – ele estava muito acima disso. Um judeu a mais ou a menos – que isso importa?... A nobre ironia do romano ante o qual a palavra “verdade” foi cinicamente abusada enriqueceu o Novo Testamento com a única passagem que tem qualquer valor – que é sua crítica e sua destruição: 'Que é a verdade?'."
Para contextualizar, vejam o texto bíblico — Jo. 18.37-38 —, na tradução da NVI:
" 'Então, você é rei!', disse Pilatos. Jesus respondeu: 'Tu dizes que sou rei. De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que são da verdade me ouvem'. 'Que é a verdade?', perguntou Pilatos. Ele disse isso e saiu novamente para onde estavam os judeus, e disse: 'Não acho nele motivo algum de acusação'.".
Nietzsche, de certo, exagerou ao afirmar que a fala de Pilatos era a única que tinha algum valor, mas, com certeza, podemos depreender muitas coisas acerca da verdade nesta passagem de João. Se procuramos a verdade, enquanto cristãos, devemos olhar para Cristo, já que ele trouxe para si a caracterização de testemunha da verdade. Em segundo lugar, podemos adotar o ato de ouvir a Cristo como um critério da verdade.

Quanto à pergunta de Pilatos referente à natureza da verdade ou à sua conceituação, o evangelho de João é o único que registra o questionamento. O evangelho de Lucas, que tem como público alvo os gregos, não reproduz essa pergunta, mesmo que o contexto grego tivesse uma contextualização filosófica muito forte com relação à busca da verdade — basta observarmos em Atos 17, a partir do décimo sexto versículo, a discussão de Paulo com os epicuristas e estóicos. João era conhecido como apóstolo do amor e sua carta enfatizava Cristo enquanto divindade. Voltaremos a essas características do texto de João posteriormente.

A palavra hebraica para verdade é "תמא" — "amth". Ela surge pela primeira vez no texto bíblico em Gênesis 24.48 no seguinte trecho:

"E inclinando-me adorei ao SENHOR, e bendisse ao SENHOR, Deus do meu senhor Abraão, que me havia encaminhado pelo caminho da verdade, para tomar a filha do irmão de meu senhor para seu filho.". [Almeida Corrigida e Revisada Fiel]
A palavra hebraica aparece 58 vezes no Antigo testamento. Quando vamos para o Novo Testamento, temos a palavra grega "alhqeia" — "aletheia" — que aparece 44 vezes. A título de curiosidade, o primeiro livro de Tessalonicenses foi o primeiro a ser escrito entre os livros compilados no Novo Testamento; no entanto, nele, não temos a palavra grega para "verdade". A primeira vez que a palavra grega surge no Novo Testamento, da maneira que foi compilado, é em Mateus 22.16, conforme podemos conferir:

"Enviaram-lhe seus discípulos juntamente com os herodianos que lhe disseram: "Mestre, sabemos que és íntegro e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. Tu não te deixas influenciar por ninguém, porque não te prendes à aparência dos homens.". [NVI]
O Antigo Testamento (AT) é constituído de 66 livros, enquanto o Novo Testamento (NT) contém 39 livros. O AT cobre, portanto, aproximadamente, 63% da Bíblia, enquanto o NT tem a cobertura de, aproximadamente, 37%. Quando comparamos as aparições da palavra verdade, temos 57% no AT e 43% no NT, também em termos aproximados. Ora, a diferença percentual que era de 26 diminuiu para 14. Podemos concluir, por conseguinte, que o peso da palavra "verdade" no NT é muito maior.

Qual seria a motivação para um maior peso à palavra no Novo Testamento? Voltemos ao texto de Gênesis. A idéia de verdade lá está atrelada à idéia de caminho. Quando, também, vamos ao mencionado texto de Mateus, também, encontramos as duas idéias. De fato, quando procuramos a conjunção dos termos "caminho" e "verdade" no NT, deparamo-nos com o seguinte texto de João 14.6:

"Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.". [Almeida Revista e Atualizada (ARA)]
Se em Gênesis, a idéia de verdade estava atrelada aos conceitos de caminho e verdade, Cristo identifica-se como sendo, justamente, o caminho e a verdade. Temos, portanto um conceito para a verdade: Cristo é a verdade! Coincidentemente ou não, em Salmos, que é o livro do AT em que a palavra hebraica "amth" mais aparece e em João, que é o livro do NT em que a palavra grega "aletheia" mais aparece, a quantidade de aparições tanto no primeiro livro quanto no segundo é de exatamente 13 vezes.

Creio que o fato do livro de Salmos ser um livro poético e aquele dentre os do AT que mais contém a palavra verdade, é uma grande lição para o que se tem feito na arte cristã atualmente. Até nas nossas manifestações artísticas, a verdade deve estar presente.

Outra identificação é feita no livro de João. No capítulo 17, versículo 17, temos o seguinte trecho:

"Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.". [ARA]
Do texto acima, podemos inferir que Cristo identifica-se com a sua palavra. Não se pode inferir o mesmo da humanidade: apenas numa entidade divina, o verbo é o próprio ser. O fato de justamente no Evangelho que apresenta Cristo enquanto divindade aparecer por mais vezes o termo grego para verdade está ligado, justamente, ao fato da verdade ser uma propriedade divina.

Qual o critério para a verdade?

A Bíblia não fala de um critério, mas de vários. Não será analisado aqui de modo exaustivo quais são os critérios para a verdade, pois seria necessária uma análise exaustiva das 102 aparições bíblicas do termo verdade e seus cognatos. Como já vimos no tópico anterior, escutar a verdade, conforme João 18.17-18, é um critério para a verdade. Uma vez que o conceito de verdade foi identificado com uma pessoa, que é Cristo, provavelmente, os critérios também terão identificações personalistas. No texto de Mateus citado anteriormente, vemos que a verdade também não está conectada a aparências humanas.

O texto de João 3.21 assevera o seguinte:

"Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.". [ARA]
Vemos, portanto, que a verdade não se identifica com o anonimato: ela se faz manifesta. O interessante é que a justificação para esse não anonimato é pautada no próprio Deus. Podemos concluir, portanto, que o próprio Deus não se esconde, mas se expõe à luz.

O famoso texto de João 8.32

"e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.". [ARA]
conecta o conhecimento da verdade à liberdade. Outro critério para a verdade, portanto, é a liberdade.

No tópico anterior, comentei o fato do apóstolo conhecimento como o "apóstolo do amor" ser aquele que mais fala sobre a verdade. A resposta encontra-se num texto paulino:

"Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.". [Efésios 4.15 — ARA]
O seguimento da verdade, ou seja, de Cristo, deve ser em amor. Não é ao desbarato que o Evangelho de João é texto do NT que mais privilegia o termo grego "aletheia".

A verdade é também caracterizada pela sua propriedade de poder ser recomendada:

"pelo contrário, rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; antes, nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade.". [2 Coríntios 4.2 — ARA]
O versículo acima dialoga com João 3.21 na medida em que ele relaciona o que é vergonhoso ao que é ocultado. Um critério para saber o que é verdadeiro, portanto, é poder ser recomendado a qualquer pessoa. Kant, no desenvolvimento de sua teoria moral, flerta, em certo sentido, com essa propriedade bíblica da verdade da recomendação a todos os homens. Ele afirmava que um ato é correto moralmente se ele pode ser universalizado, ou tomado como um princípio geral que pode ser aplicado em qualquer lugar a qualquer pessoa. Nesse sentido, existe uma aproximação aqui entre a moral kantiana e o critério para a verdade no âmbito do Cristianismo.

Outra característica da verdade é que a Igreja é baluarte dela. I Timóteo 3.15 afirma:

"mas, se eu demorar, saiba como as pessoas devem comportar-se na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade.". [NVI]
O texto acima apresenta a Igreja como fundamento da verdade. Não é de estranhar-se uma vez que Cristo é a cabeça da Igreja — Ef. 1.22-23; 4.15. Vemos, novamente, a personalização da verdade. Se as teorias lógicas da verdade tratam de conexões entre mundo e linguagem, a teoria cristã da verdade faz conexões entre Cristo, que é a verdade por essência, e seus representantes na Terra. Não se fala de verdade de proposições, mas de vida.

Para finalizar, esta segunda parte, referente aos critérios de verdade, acabou prolongando-se mais do que previ. Creio que uma outra postagem sobre o assunto seria bem-vinda. Comentei que não abordaria o assunto de maneira exaustiva, mas tenham esta parte apenas como alguns vislumbres sobre o assunto. Aproveitando a iminência das festividades natalinas, desejo um feliz natal a todos e que a paz de Cristo estejam com todos os leitores deste blog.


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Gente Cansada de Igreja

O título da postagem de hoje é homônimo ao título de um livro do Israel Belo de Azevedo que comprei para presentear um amigo que anda decepcionado com a igreja pelos motivos errados. Confesso que, em certo sentido, também estou farto. Em tom de desabafo e solidão, escrevi o texto que se segue.

Cansado de gente cansada

Estou cansado de gente que discute escatologia — uma das áreas mais complexas na Teologia —, esquecendo-se do feijão com arroz, da parte pragmática do Evangelho; gente que olha para o passado, para o futuro, mas nunca para o presente; gente que toma o pragmatismo na sua concepção de sucesso, dando valor a titulações, bens materiais, mas incapaz de não fazer ao outro aquilo que não querem sofrer (Mt. 7. 12).

Estou cansado de gente que procura a ação do diabo em tudo, mas que não percebe que se Cristo estivesse encarnado ao seu lado, diria: "Para trás de mim, Satanás"; gente que não consegue deixar de ver um jogo de futebol para louvar e prestar culto a Deus, que não consegue separar um dia simbólico para Ele e muito menos separar sua vida de modo integral, consagrando-a a Ele.

Estou cansado de gente que se diz cansada de igreja, que perambula de igreja em igreja, querendo sentir-se bem em vez de querer ser benção onde está. Estou cansado de gente com dez, vinte, cinqüenta anos de igreja que nunca leu a Bíblia toda; gente que lê romances bobos, best-sellers, livros de auto-ajuda, mas que ignora a palavra revelada de Deus.

Estou cansado de gente que acha que o Evangelho é um conjunto de regras a não serem quebradas; gente imersa no pecado que culpa seus infortúnios pelo pecado alheio; gente tão envolta em pecado que trata este por normalidade; gente que olha para o cisco no olho do outro, precisando fazer uma urgente cirurgia de catarata (Mt. 7.3).

Estou cansado de gente que tem facilidade de acordar cedo, mas negligencia a EBD; gente que lê revista de fofoca, mas que se sente totalmente desinteressada em aprender mais de Cristo, em saber sobre as últimas notícias do Evangelho que são as mesmas desde sempre, mas que ninguém conhece inteiramente.

Estou cansado de gente sentimental, emocional, que acha que sempre existe alguém confabulando contra ela e que, quando exortada, acha que sofre perseguição. Estou cansado de gente individualista que diz que ninguém nada tem a ver com o que ela faz ou deixa de fazer e que, portanto, só deve satisfações a Deus.

Estou cansado de gente que faz uso de dois pesos e duas medidas no sentido de sempre estar em vantagem. Estou cansado de gente que se desculpa por falta de tempo, por conta de estudos ou concursos; gente que sempre arruma uma desculpa para adiar o que deve ser feito e não percebe que seu problema não está na falta de tempo, mas na falta de compromisso. Estou cansado de gente crítica que não move um dedo para mudar as coisas; gente conformista que não consegue renovar sua mente (Rm. 12. 2), que exige mudança sempre dos outros, mas nunca de si.

Estou cansado de gente que se auto-justifica, que usa seu passado em sua defesa, esquecendo-se de que louvamos um Deus que é Senhor do tempo e da história. Estou cansado de gente que faz do Evangelho um mantra; gente que exige dos outros o que não faz; gente que se importa com a opinião dos outros, mas ignora completamente o que Deus pensa.

Estou cansado de gente aborrecida; gente gasta que diz seguir um Evangelho que sempre se faz novo; gente fatigada, enfastiada, infértil. Estou cansado de gente cansada.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sobre a perseverança dos santos

Creio que não falei ainda abertamente sobre o assunto aqui, até porque há pouco tempo que me identifico como arminiano, já que me converti há pouco mais de um ano [1]. Costuma-se utilizar sistemas reducionistas para a classificação de um arminiano. Parte-se, geralmente, dos cinco artigos da Remonstrância que defendem, grosso modo, a eleição condicional, expiação ilimitada, depravação total, graça resistível e preservação condicional dos santos. Não me aprofundarei nesses conceitos porque meu objetivo nesta postagem é outro; contudo, é importante lembrar que os remonstrantes foram ministros e teólogos que deram continuidade ao pensamento de Jacobus Arminius após sua morte. Assim como o Neoplatonismo difere do pensamento original de Platão, o pensamento defendido pelos remonstrantes diverge em alguns sentidos do pensamento originalmente defendido por Arminius. Para exemplificar, Arminius não tinha definição quanto à perseverança dos santos, embora parecesse crer no que se convencionou por perseverança condicional [2].

Creio nos cinco pontos defendidos pelos remonstrantes, mas até a madrugada de hoje ainda tinha problemas para defender o porquê d'eu não crer na perseverança dos santos — não estou falando da condicional. O único versículo bíblico que me restava para fundamentar a minha interpretação era o de I Jo 2.19. Ele afirma o seguinte:

"Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos. Se de fato fossem dos nossos, teriam permanecido conosco, mas eles saíram para que ficasse patente que nem todos são dos nossos.".
[ Novo Testamento Interlinear Analítico (NTIA) — Paulo Sérgio Gomes e Odayr Olivetti] (Aqui está a melhor tradução no meu entendimento a partir do original Grego)

Aqueles que crêem na perseverança dos santos afirmam que o versículo acima diz que, de fato, nenhum cristão genuíno desviar-se-á porque, sendo cristão verdadeiro, permanecerá na comunidade cristã e na fé. O grande problema para mim era conciliar o versículo acima com o seguinte texto de Hb. 6.4-6:

"Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, e caíram, é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública.". [NVI]

O texto de Hebreus é claro quando fala sobre pessoas que foram convertidas de modo genuíno, mas abandonaram a fé, sendo, inclusive, impossível que voltem a converter-se
[3]. Alguns intérpretes tentam dar outro significado ao texto, mas forçam a barra tentando manter sua crença na perseverança dos santos e, por conseguinte, na impossibilidade do cristão deixar de crer. Já ouvi até a explicação de que o texto mostra que é possível que um cristão deixe de ser cristão, mas que o fato nunca ocorrerá; contudo, adentraremos numa questão de linguagem porque algo que nunca ocorrerá é impossível e não possível, pelo menos quando lidamos com conjuntos que não sejam não-enumeráveis (Para aqueles que não são afeitos à Matemática, a Teoria da Probabilidade aceita eventos de probabilidade zero, que, teoricamente seriam impossíveis, mas que, na prática ocorrem, quando os conjuntos são não-enumeráveis. Por exemplo, qual a probabilidade de que alguém escolha o número 0,5 no intervalo real [0,1]? A probabilidade é zero, mas é possível que alguém escolha 0,5).

Estou, num primeiro momento, delimitando-me aos dois textos porque são aqueles que se digladiavam diretamente a meu ver; no entanto, existem várias referências utilizadas pelos defensores da perseverança dos santos para defenderem sua interpretação, assim como existem várias referências bíblicas utilizadas pelos contrários para defenderem sua posição. Meu intuito não é fazer uma análise exaustiva aqui, embora, talvez, algum dia venha a fazê-la aqui.

Voltemos ao texto de I João. Um dos grandes entraves na interpretação bíblica é quando se deixa de lado o contexto. Como se costuma dizer: "texto fora de contexto para tudo vira pretexto". No segundo capítulo do primeiro livro de João, ele começa, a partir do versículo 18, a tratar dos anticristos. A terceira pessoa do plural implícita na conjugação do verbo "sair" no início do versículo 19 refere-se, justamente, aos anticristos. Ora, quem são os anticristos? A palavra "anticristo", do grego "
anticristos" — antichristos —, aparece quatro vezes no Novo testamento, especificamente nos textos de I Jo 2.18, I Jo 2.22; I Jo 4.3 ; II Jo 1.7. A partir destes textos, sabemos que é chamado de anticristo aquele que
1 — Nega a encarnação [ I Jo 4.2-3; II Jo 7 ];

2 — Nega que Jesus é o Cristo [ I Jo 2.22 ];

3 — Nega a Deus, Pai [ I Jo 2.22 ] ;

4 — Não tem o Pai [ I Jo 2.23 ];

5 — É mentiroso [ I Jo 2.22 ];

6 — É enganador [ II Jo 7 ].

Pergunto eu: um agnóstico enquadra-se na descrição de um anticristo, visto que ele não nega a existência de Deus ou a divindade de Cristo, mas suspende o seu juízo? Vejam que o anticristo é um enganador e não um enganado, num sentido de ingenuidade ou ignorância. A negação não é de alguém que não sabe que Deus existe ou que crê que Deus não existe ou que Cristo não é divino; pelo contrário, ele sabe que Deus existe e antepõe-se a Ele. A própria etimologia da palavra, tanto na tradução portuguesa quanto no original grego, demonstra a deliberada atitude contrária a Cristo. Teria sentido contrapor-se a algo que se supõe não existir? Até um ateu, portanto, não parece enquadrar-se na descrição de João de um anticristo.

Percebam, também, que os anticristos são enganadores e mentirosos, portanto, mesmo que tenham professado em algum momento serem cristãos, faziam-no de modo enganador e não genuíno. Vejam, contudo, que não interessa muito, para a nossa análise, a quem o texto dirige-se porque o mais importante é que ele caracteriza os cristãos como aqueles que permanecem, independentemente de quem saiu do meio. Em outras palavras, se um corinthiano defende que quem é verdadeiramente corinthiano nunca o deixará de ser, não importa se alguém que já afirmou ser corinthiano, mas o deixou de ser, é flamenguista ou palmeirense atualmente. Digo isso porque farei uma crítica às explicações que encontrei pela net
[4].

Para fins de resumo, traduzirei um texto do Robert Shank para refutar sua linha de argumentação — desculpo-me, de antemão, pela qualidade da tradução, que não é o meu forte.
“Eles saíram do nosso meio, mas eles não eram dos nossos; se eles tivessem sido dos nossos, teriam sem dúvida continuado conosco; contudo, saíram para que se fizesse manifesto que nem todos eram dos nossos” (I João 2.19). Alguns têm asseverado que as declarações de João indicam que todos aqueles que professam falsamente irão eventualmente retirar-se da companhia dos verdadeiros crentes (o que é contrário a várias passagens da Escritura) e que todos que se retiram nunca foram verdadeiros crentes (o que é contrário tanto às passagens de admoestação quanto aos registros de reais exemplos de apostasia). No que diz respeito aos anticristos citados por João, existem duas possibilidades. Suas profissões de fé devem ser falsas desde o princípio; ou, eles devem ter sido apóstatas reais que abandonaram a fé e afastaram-se de Cristo. As duas circunstâncias podem ser reais. João afirma apenas que, no momento em que se afastaram da comunidade espiritual de crentes genuínos, “eles não eram dos nossos”; caso contrário, eles teriam permanecido na comunidade com fidelidade.
Observemos que, qualquer que tenha sido a perspectiva circunstancial dos anticristos, João estava escrevendo sobre exemplos específicos, mais do que declarando um princípio universal. Precavemo-nos da falácia de assumir que toda verdade pode e deve ser reduzida a uma única sentença da Escritura, e que a circunstância precisa num exemplo de deserção necessariamente governa a circunstância em outros exemplos. Existem várias pessoas cujas profissões de fé são falsas desde o início, e existem outras que abandonaram a fé e retiraram-se de um relacionamento salvífico com Cristo. As Escrituras reconhecem ambas as circunstâncias, e a precisa circunstância dos anticristos citada por João determina nada a respeito de outras circunstâncias. Observemos que, após citar o trágico registro de anticristos que negaram que Jesus é o Cristo (vs.. 18-23), João urgentemente avisa seus filhos na fé a precaverem-se contra o perigo de sucumbir às tentações dos anticristos, abraçando sua heresia fatal, falhando na retenção do verdadeiro Evangelho salvífico e na permanência no Filho e no Pai, compartilhando da vida eterna Nele. (vs. 24-28).".

Quando Robert Shank diz que o texto de I João refere-se apenas a um momento específico, ele comete um sério engano. O primeiro texto da referência [5] chega a dizer que o texto não diz que os anticristos nunca foram cristãos, mas que apenas não eram cristãos no exato momento de sua retirada da comunidade — "Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos.". Pode-se refutar essa linha de argumentação de uma maneira simples. Suponhamos três tempos seqüenciais, t1, t2 e t3. Suponhamos que t3 é o tempo presente, no qual João escreve, e t2 um tempo no qual os referidos anticristos saíram dos nossos, ou seja, do convívio do meio cristão. Mesmo que o texto falasse de um tempo específico do passado t2, se formos ao tempo t1, os anticristos, se fossem cristãos, de acordo com o texto, nunca deveriam ter saído dos nossos, pois quem é dos nossos permanece; portanto, o texto apresentaria uma contradição interna se ele se referisse apenas a um tempo específico. A questão não se restringe a uma questão de restrição de temporalidade portanto e os tais anticristos teriam de nunca ter sido cristão em todo o tempo.

Quanto à afirmação de que a circunstância dos anticristos nada diz respeito a situações gerais, volto à situação do flamenguista e do palmeirense que já foram corinthianos. O que um flamenguista teria de diferente de um palmeirense para que ele nunca pudesse ter sido um corinthiano verdadeiro? A afirmação de que todo corinthiano autêntico permanece corinthiano nada diz respeito à natureza de quem, porventura, tenha afirmado um dia ter sido corinthiano. Em outras palavras, não importa se o texto trata dos anticristos em particular, mas o modo como se caracteriza um cristão de maneira genérica.
Para conciliar o texto de I João com o de Hebreus, proponho uma solução. Teremos de voltar ao texto de I João.

1 ) “Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos”
O texto afirma que os anticristos pertenciam ao convívio dos crentes, mas não eram crentes propriamente ditos. É interessante contrastar esse fato com os seguintes textos:

At. 20.30
“E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos.”.

I Cor. 11.19
“Pois é necessário que haja divergências entre vocês, para que sejam conhecidos quais dentre vocês são aprovados.”.
É interessante notar que o texto de Atos pode referir-se tanto a cristãos que se tornaram enganadores ou a anticristos que nunca foram cristãos. O texto de Coríntios, por sua vez, fala que, no meio cristão, existem aqueles que serão aprovados e, portanto, outros que serão reprovados. Numa outra tradução, o mencionado texto de Coríntios toma a seguinte forma:

“Na verdade, para que os legítimos sejam conhecidos entre vós, é preciso que haja divisões no vosso meio.”. [NTIA]

De fato, o termo grego dokimoidokimoi —, traduzido por "legítimo", tem as acepções de provado, experimentado, de caráter aprovado, fiel. Ora, parece haver, portanto, uma distinção entre um simples cristão e um cristão aprovado. 

2) “mas eles saíram para que ficasse patente que nem todos são dos nossos.”.
É importante destacar que aqui se encontra a explicação de por que os anticristos saíram. Eles saíram do convívio, e não do Cristianismo, como já explanado, para que ficasse claro que nem todo aquele que está no convívio cristão é-no de fato. Poder-se-ia concluir isso apenas analisando a lógica da seguinte parte do versículo: 

"Se de fato fossem dos nossos, teriam permanecido conosco"

Vejam que o fato de uma proposição A implicar B não significa, necessariamente, que B implica A; ou seja, o fato de ser dos nossos implicar permanência não significa que da permanência pode-se concluir que se é dos nossos, o que dá abertura para pessoas que estão no convívio cristão, permanecendo, mas não fazem parte dos cristãos de fato.

Cristão Legítimo e Cristão Ilegítimo

A partir das caracterizações feitas, creio que temos de partir da conceituação de cristão legítimo e cristão ilegítimo, aproveitando a contextualização que foi feita do termo grego dokimoi. Possam, talvez, sugerir que o cristão ilegítimo não é cristão, assim como uma pedra preciosa ilegítima não é preciosa, mas, descontando as contradições terminológicas associadas às denotações dos termos, proponho que a ilegitimidade seja vista como uma possível adjetivação possível ao cristão que não o descaracteriza ao ponto dele não poder ser adjetivado, conjuntamente, de cristão. Creio que seria menos confuso criar um novo termo, talvez "cristão adokimoi", para falar de um cristão que não permaneceu ou não permanecerá; no entanto, acredito que feita essa ressalva, não haverá problemas.
Para melhor exemplificar, faço uso das palavras de Cristo sobre a Videira e os Ramos contida no texto de João 15.1-8

1 "Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. 2 Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda. 3 Vocês já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado. 4 Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim. 5 "Eu sou a videira; vocês são os ramos. 6 Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma. Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados. 7 Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido. 8 Meu Pai é glorificado pelo fato de vocês darem muito fruto; e assim serão meus discípulos.”

Percebam que Cristo fala de um ramo que está Nele, mas que não dá frutos e que o destino de tal ramo é ser jogado fora. Aí temos um exemplo de um cristão, pois está em Cristo, mas que é ilegítimo, pois não produz frutos e é jogado fora. Vejam, também, que a permanência na videira é prerrogativa para o ramo dar fruto. A ilegitimidade, portanto, associada à falta de frutos, está, igualmente, associada à não-permanência na videira. É importante ressaltar que uma vez que Cristo é a cabeça da igreja, não permanecer na comunidade cristã, ou na igreja, implica não permanecer no próprio Cristo.
Retornando ao texto de I Jo 2.19, façamos uma conversão do trecho do livro de João utilizando a terminologia proposta:

“Saíram do nosso meio, mas não eram cristãos legítimos. Se de fato fossem-no, teriam permanecido conosco, mas eles saíram para que ficasse patente que nem todos são cristãos legítimos.”.

Assim, o texto não contradiz o texto de Hebreus, pois lá, fala-se de cristãos, de fato, já que estavam em Cristo, usando a terminologia de João 15 — prova disso é quando se fala que eles foram iluminados, provaram o dom celestial e tornaram-se participantes do Espírito Santo —, mas ilegítimos, pois não permaneceram na fé.
É importante ressaltar também que o próprio capítulo 2 de I João, no versículo 24, faz a seguinte admoestação:
"Quanto a vocês, cuidem para que aquilo que ouviram desde o princípio permaneça em vocês. Se o que ouviram desde o princípio permanecer em vocês, vocês também permanecerão no Filho e no Pai.". [NVI]

Ora, por que João colocaria uma condição de permanência em Deus se não existisse a possibilidade do salvo deixar de permanecer? Costumo comparar as admoestações bíblicas a placas na estrada. Teria sentido Deus colocar uma placa numa estrada escrito "Atenção! Curva Sinuosa" se não houvesse curva sinuosa? Deus seria mentiroso e o próprio texto de I João 2, no versículo 21, afirma que "nenhuma mentira procede da verdade", mas Cristo, em João 14.6, afirma ser a própria verdade!
Aproveitando o assunto da perseverança dos santos, outro texto que costuma ser utilizado para defendê-la é o de João 10.28 que diz:

"Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão.".
[ Almeida Revista e Atualizada ]

Uma simples análise da construção dos tempos verbais indica o significado do texto. Percebam o seguinte. O primeiro verbo está no presente; contudo, faço uma pergunta: o salvo tem a vida eterna? A minha resposta é: depende. Explico-me. Na realidade, não temos a vida eterna em ato porque, de fato, morremos. Não viverei eternamente, pelo menos a priori — digo a priori porque não sei até onde a Ciência pode desenvolver-se nessa área. Vejam que quem tem a vida eterna em ato jamais perecerá, mas perecemos! O que ocorre é que o texto fala da vida eterna em potencial. A vida eterna que recebemos quando nos convertemos é potencial. De fato, depois do juízo final, apoderar-nos-emos da vida eterna, vivenciando-a em ato, e não morreremos e aí sim ninguém nos arrebatará das mãos de Deus. De qualquer maneira, João 15, transcrito acima, explica que, de fato, ninguém, mas só o próprio Deus é capaz de tirar um salvo de suas mãos e Ele, realmente, faz isso. O trecho dos versículos 5 ao 8 tornam isso claro. Quando um cristão não permanece na fé, é Deus quem o lançará ao fogo!

Para terminar, creio na perseverança condicional dos santos. Os crentes são mantidos seguros por Deus em seu relacionamento com Ele sob a condição da permanência na fé; contudo, ao mesmo tempo em que Deus nos responsabiliza pelos nossos atos, o que demanda uma atitude nossa, não conseguimos nada sem que Ele esteja conosco. O processo de permanência na fé é uma via de mão dupla: ao tempo em que o buscamos de maneira voluntária, Deus fornece o que necessitamos para permanecermos Nele. Coisa parecida ocorre com a nossa salvação: utilizando uma famosa analogia, Deus é como um pai que levanta uma criança na direção de uma árvore para que ela apanhe um fruto; no entanto, se a criança não estender os braços e pegar o fruto com suas mãos, ela nunca poderá apossar-se do fruto. Ao mesmo tempo em que somos totalmente dependentes de Deus, Ele quer que sejamos responsáveis pelos nossos atos.
[1] Quero postar um texto aqui sobre como se deu minha conversão, mas sempre postergo a data.
[2] Vejam este texto de Arminius:http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=article&id=182%3A5-sobre-a-perseveranca-dos-santos&catid=76%3Ajames-arminius-as-obras-de-james-arminius-vol1-&Itemid=100030

A sua obra completa em Inglês pode ser encontrada no seguinte link:
http://www.ccel.org/ccel/arminius/?show=worksBy
[3] Excelente texto do Antonio Lazarini Neto sobre a interpretação do referido texto:http://www.vidanova.com.br/teologiadet.asp?codigo=136

Um bom livro sobre o assunto é um de autoria do Michel Augusto intitulado "Apostasia — O abandono da fé", prefaciado pelo Russell Shedd


[4] Visão arminiana de I Jo. 2.19


[5] Vejam a página 32:

sábado, 12 de junho de 2010

10 Questões Teológicas

Sempre gostei de listas. Acompanho alguns blogs na net que são estruturados à base de listas[1] — Zeca Camargo costuma lançar boas listas no seu blog[2] — e, além do mais, costumo comprar revistas que listam obras literárias, filmes etc. .[3] Já comentei sobre o assunto aqui no blog na minha segunda postagem[4], listando as 10 maiores palavras da nossa Língua. Numa postagem recente, listei os 10 livros que mudaram minha vida. Hoje, listarei 10 questões teológicas que têm tirado minhas noites de sono — um professor meu costumava dizer que se você precisa utilizar aspas para ser irônico, ou para fazer uso de alguma figura de linguagem, a sua escrita não é boa. Listarei as questões de forma aleatória; portanto, elas não estão em ordem de dificuldade ou em qualquer outra seqüência, crescente ou decrescente, qualitativa ou quantitativa. Enfim, aí está a lista:

1. Substancialidade do Homem

Esta é a única questão a que cheguei a uma resposta quase definitiva. Pretendia, inclusive, postar sobre o assunto aqui em três partes — a primeira, tratando do Monismo; a segunda, tratando, do Dicotomismo e a terceira, tratando do Tricotomismo. Tenho até um título preparado para a postagem. Para quem não está familiarizado com a terminologia no campo da Antropologia Cristã, a Bíblia costuma tratar o homem em termos de três conceituações: corpo, alma e espírito. O Monismo defende que o homem é constituído apenas de uma substância; o Dicotomismo, que somos constituídos de duas substâncias e, finalmente, o Tricotomismo, que somos constituídos de três substâncias. Mesmo chegando a uma conclusão sobre o assunto, resolvi pensar mais sobre ele porque encontrei muita bibliografia interessante e, também, porque quero fundamentar bem o meu raciocínio.

2. Trindade
Introduzirei a minha questão quanto à trindade com uma pergunta que enviei ao programa do Luiz Sayão na Transmundial[5]:

A cristandade tem assumido, historicamente, que Cristo, enquanto viveu na Terra, era totalmente homem e totalmente Deus. Hebreus 1.3 diz que Cristo é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata Dele; contudo, em Mateus 24.36, Cristo diz que ninguém sabe o dia e a hora de sua volta, a não ser o pai. Se Cristo era totalmente Deus, deveria ser, igualmente, onisciente e, portanto, deveria saber o dia de sua volta. Se a falta de informação sobre a data de sua volta era uma condição temporária de seu estado humano, Cristo, enquanto Deus, seria mutável. Como aliar a onisciência e imutabilidade divina nesse caso?

Desde Agostinho, tem-se certa compreensão sobre a trindade que se costuma ter como verdadeira, no que tange a Cristo, diz-se que ele era totalmente homem e totalmente Deus. O que foge à interpretação agostiniana costuma ser tido por herético. Não gosto deste termo — "herético" — por questões históricas. Não consigo entender, inclusive, como os protestantes emprestaram essa palavra para fazer acusações depois de sofrerem tanto nas mãos da Igreja Católica. Em suma, questões históricas à parte, ainda não tenho uma visão clara sobre o assunto, tanto bíblica quanto logicamente. Falo dessas duas áreas porque creio que é importante raciocinar não só em termos bíblicos — a partir da Revelação Especial —, mas em termos de Teologia Natural — a partir da Revelação Geral — também.

3. Criação do Homem
Por que Deus criou o homem? Para mim, essa é uma grande questão. Pode, num primeiro momento, parecer sem muito sentido questionar-se a respeito disso, mas tentarei explicar o que essa questão traz consigo. Em primeiro lugar, a partir de uma concepção que remonta aos pensadores gregos, particularmente aos epicuristas, a perfeição leva ao repouso, ou seja, algo só está em movimento se é imperfeito. Como situar o Deus cristão diante dessa concepção de perfeição? Como argumentar contra ela? Outra questão que surge quando pensamos no que Deus fazia antes de criar o Universo é referente ao tempo. Partindo-se do pressuposto de que Deus é atemporal, outra herança agostiniana, como pensar Deus em termos de momento de criação? Em outras palavras, por que Deus criou o Universo num dado momento, e não antes, mas como, ao mesmo tempo, podemos falar de momento, se não existia o tempo? Embora não seja adepto do que tem sido chamado de Teísmo Aberto, acho algumas idéias interessantes. Uma delas é a que fala de um Deus que evolui com o tempo; contudo, teríamos de criar uma idéia de mutabilidade divina que seria difícil de construir a partir do texto bíblico.

4. Escatologia
Talvez, essa seja a área na qual tenho menos definições. Por conta da famosa e excelente série de livros "Deixados para trás", do Tim LaHaye e do Jerry B. Jenkins, considerava-me pré-milenista num primeiro momento; contudo, não tinha estudado muito sobre o assunto e refletido sobre as outras linhas de interpretação. Desde criança, inclusive, a visão geral que me foi passada no que se refere aos últimos tempos foi a pré-milenista. Quando comecei a estudar mais, contudo, percebi que a base de interpretação bíblica que se usa reflete a sua interpretação dos textos escatológicos. Sou avesso à interpretação literalista e fiquei feliz quando estudei que os primeiros padres no Cristianismo tinham a mesma aversão, mesmo sabendo que o uso do argumento de autoridade é falacioso. O movimento fundamentalista, surgido em contraponto ao crescente liberalismo, foi o responsável por uma onda de equívocos na Hermenêutica Bíblica, se é que se pode chamar o literalismo de Hermenêutica, já que ele desconsidera boa parte da metodologia para ter-se uma boa interpretação de um texto.

A minha indefinição na área deve-se também ao fato de que, mesmo escolhendo uma das três opções escatológicas — Amilenismo, Pré-Milenismo ou Pós-Milenismo —, dentro do Pré-Milenismo ainda se tem três linhas — Dispensacional , Histórico ou Pré-Tribulacionista — e no Pós-Milenismo, duas linhas — Revivalista ou Reconstrucionista. Por enquanto só falei das interpretações quanto ao milênio, ainda se tem diferentes visões quanto ao julgamento — Idealismo, Futurismo, Historicismo e Preterismo — sendo que esta subdivide-se em total ou parcial. Vejam o quão intrincada é a área. É interessante ver as discussões de dois tios meus que são pastores, um amilenista e outro pré-milenista[6].

Gostaria de entender por que o Pós-Milenismo não é tão popular quanto na época de Agostinho e na época da Reforma Protestante e por que hoje a visão predominante na cristandade é a Pré-Milenista. Da mesma forma, gostaria de entender por que os batistas, historicamente, eram partidários do Amilenismo.

5. Culturalização Bíblica
Essa questão é bem hermenêutica, embora toda questão seja um problema hermenêutico no fim das contas. Gostaria de entender quais são os pressupostos para tornar uma descrição bíblica própria da cultura da época, enquanto outras são tidas por universais e atemporais. Por exemplo, por que não damos importância para o uso do véu por parte das mulheres ou para o silêncio delas nas igrejas, mas não tratamos as questões acerca da sexualidade da mesma maneira? Poderia enumerar muitas outras questões. Sei que não vivemos no legalismo, mas qual a nossa base de interpretação para considerar um ato cultural ou não? Creio que não existe uma sistematização para um crivo correto na área.

6. Teologia Apofática ou Teologia Catafática?
A Teologia Apofática, ou Teologia Negativa, é aquela que busca entender Deus a partir daquilo que ele não é ou não pode ser; em contrapartida, a Teologia Catafática, ou Positiva, busca a caracterização de Deus a partir de afirmações plenas — digo "afirmações plenas" porque uma negação acaba sendo uma afirmação também, por mais contraditório que pareça. Muitos erros que vejo serem perpetrados por teólogos hoje surgem do abandono da perspectiva apofática. Creio que ela evidencia e problematiza a linguagem.

Por que chamamos um gato de "gato" em vez de "cachorro"? Chamar um gato de "gato" diz nada a respeito do animal. As palavras são associações e rótulos que pregamos de modo aleatório nas coisas. Quando digo que "Deus é justo", estou dizendo absolutamente nada, pois Deus é algo muito além daquilo que posso denominar "justiça". Aliás, Hume faz uma crítica ao pensamento por analogias que cabe bem no âmbito da Teologia. Quando eu chamo a sustentação de uma mesa de perna, estou fazendo uma comparação com a perna humana, mas até que ponto as duas coisas são semelhantes, se é que se pode encontrar semelhança que permita fazer tal analogia.

Estou lendo um livro do John Piper intitulado "Em Busca de Deus" que, freqüentemente, incorre no erro de antropomorfizar Deus. Acredito que mesmo com as limitações da nossa linguagem e da forma como pensamos, podemos não cair no ceticismo absoluto. Como eu disse no início, a Teologia Negativa acaba flertando com a Positiva. A grande questão para mim é como conciliar de maneira adequada as duas perspectivas. O Pseudo-Dionísio, que era confundido com o Dionísio convertido por Paulo (At. 17.34) tem uma obra interessante sobre o assunto, especialmente a sua obra "Nomes Divinos"[7].

7. Atributos Divinos
Esta questão dialoga com a anterior e com a questão da trindade. Descobrir os atributos divinos por meio da Bíblia não é uma tarefa tão complicada, mas as deduzir, usando a Lógica apenas, é mais complicado. Por que Deus, necessariamente, tem de ser onisciente, onipotente, onipresente, infinito etc. ? William Lane Craig é um pensador que tem trabalhado nesse sentido[8]. Ele, por exemplo, já tratou a questão da necessidade de um Deus com consciência a partir do pressuposto do Big Bang.

Uma questão que tenho trabalhado em particular é a da imutabilidade divina, como já disse na questão da criação do homem. A Bíblia trata Deus, em diversas passagens, em termos de mutabilidade — por exemplo, quando se diz que Deus arrepende-se (Gn. 6.5-7; Êx. 32.12; ISm .15.10,11,35; IISm. 24,16; Jr. 18.7,8; Jl. 2.13; Jn. 3.10). Os teólogos costumam explicar tais passagens em termos de uso de linguagem humana para nossa maior compreensão do próprio Deus[9], mas e quando se fala do poder de Deus sendo aperfeiçoado (IICor. 12.9)? Trata-se da mesma simplificação de linguagem? Creio que temos de entender a questão da imanência de maneira mais adequada. O fato de Deus ser perfeito em si implica perfeição na manifestação de seus poderes e atributos? Para exemplificar, se um bebedouro é perfeitamente construído, necessariamente ele tem de fornecer água limpa? Digamos que o bebedouro seja daqueles que não têm filtro, mas apenas comportam um galão d'água. Se este não tiver água limpa, o bebedouro fornecerá água suja.

Pensar na manifestação dos atributos de Deus dessa maneira seria uma opção? Creio que não necessariamente, já que temos de pensar que os atributos de Deus confundem-se com a sua própria essência, vide o seu amor: Deus é amor em si mesmo, mas o manifesta também. Essa questão acaba sendo bem complicada, já que não envolve apenas listar os atributos de Deus, levando-se em conta a questão colocada antes por mim sobre a Teologia Apofática e a Catafática, mas também as entrelaçar de modo que formem um corpo coerente e funcional.

8. Angeologia
Das questões da lista, esta é a mais recente no meu pensamento. Foi por meio do livro "Hierarquia Celeste", do Pseudo-Dionísio, que passei a questionar o porquê da existência dos anjos, em suas diversas classes — serafins, querubins, arcanjos etc. . De fato, se eu questiono a existência do homem e do Universo, faz sentido questionar-me acerca dos anjos. Pseudo-Dionísio os situa como intermediadores necessários entre Deus e os homens, seguindo mais ou menos a epistemologia platônica; no entanto, a onipotência divina dispensaria a necessidade de intermediadores, então, não vejo muito sentido na existência dos anjos.

Acho, também, interessante pensar sobre os anjos a partir da perspectiva da vida dos santos no céu, principalmente a partir da dissidência de Satanás e seus comparsas. Explico-me. Se Satanás teve o desejo de ser maior que Deus, por que, nós, na eternidade, não teríamos desejo semelhante. Nessa área, não estou tão perdido quanto na Escatologia, mas li muito pouco a respeito. Um bom livro que me deu boas idéias sobre o assunto foi "Destino Final" do Daniel Brown.

9. Necessidade do sacrifício de Cristo
Assim como a onipotência divina, no campo da Angeologia, dispensaria os anjos como intermediadores necessários entre Deus e os homens, ela também dispensaria o ato sacrificial de Cristo, pois Deus poderia, num átimo de pensamento, declarar o perdão dos pecados do homem, justificando-o e tornando-o puro. Tenho a tendência para crer num pretendido vivenciamento da humanidade por parte de Deus, além de uma exemplificação concreta de pureza para nós utilizarmos como paradigma; contudo, creio que essas duas razões são demasiadamente rasas para sustentar a necessidade da vinda de Cristo, já que os israelitas, na Antiga Aliança, não tinham alguém concreto para mirar-se, mas eram igualmente, possivelmente até mais, cobrados do que nós.

Essa questão envolve outras em torno da onipotência divina. Por exemplo, por que Deus diria a Moisés que ele não poderia vê-lo, pois morreria (Êx. 33.20)? Deus não poderia utilizar sua onipotência e munir Moisés de alguma forma? Alguns poderiam dizer que não nos cabe questionar o modo como Deus age e que ele é soberano para fazer o que quiser. Acho esse tipo de raciocínio simplório. Deus, enquanto Logos, possui um procedimento padrão no seu agir. Fico imaginando se Deus age de modo determinístico ou estocástico. Para exemplificar, Deus, enquanto amor, pode agir maleficamente? Não! Onde fica a sua onipotência então? Questionamentos desse tipo são parecidos com raciocínios sobre se Deus poderia criar uma pedra que ninguém pode levantar. Tomás de Aquino, no primeiro livro de sua Suma Teológica, trata com inteligência essa questão. Temos de tratar Deus a partir de ações logicamente possíveis[10]. Pensar em Deus como Logos fornece alguns resultados. Podemos imaginar que poderia existir um outro Universo ou este é, simplesmente, como disse Leibniz, o melhor dentre os mundo, não podendo ser de outro modo? Esse determinismo poderia ser transferido para o ato sacrificial de Cristo?

10. Deus do Antigo Testamento x Deus do Novo Testamento

Essa é uma das grandes questões que tem incomodado os teólogos de todos os tempos. Como conciliar o Deus do Antigo Testamento com o do Novo? Por que Deus era tão severo em seu julgamento, mas parece ser tão displicente hoje? Como o mesmo Deus pôde mandar o extermínio completo de cidades, incluindo crianças, mulheres grávidas etc. , e mandar Pedro abaixar a espada contra um soldado? Como o mesmo Deus que parece valorizar tanto a vida no Novo Testamento, desdenha dos parentes e servos de , conservando apenas a vida deste? Um livro que me deu certas dicas sobre como raciocinar sobre tais discrepâncias foi "Deus Mandou Matar? — 4 Pontos de Vista Sobre o Genocídio Cananeu" — editado por Stanley Gundry —; contudo, tenho muitas dúvidas a respeito do assunto.

Discutindo, recentemente, sobre o assunto, percebi que ao mesmo tempo em que Deus deixou de atuar de modo evidente e explícito no mundo, fazendo cair o maná do céu, abrindo o mar etc. , Ele também deixou de ser severo, ou seja, sua atuação explícita é diretamente proporcional à sua severidade. Essa relação é factual quando se observa a atuação de Deus no decorrer do texto bíblico, mas existe alguma lógica para que Deus aja assim ou tenha agido de tal maneira no decorrer da História? A conciliação entre Antigo e Novo Testamento é uma tarefa árdua, mas creio que assim como Cristo é a chave hermenêutica para o entendimento de tudo, Ele também é a chave de compreensão para entender-se como Deus age.


[1] http://listasde10.blogspot.com/ e http://lista10.org/

[2] http://colunas.g1.com.br/zecacamargo

[3] A revista Bravo! lançou ótimas revistas com os 100 mais da Literatura brasileira, mundial etc. .

[4] http://fabiosalgado.blogspot.com/2009/01/sempre-gostei-de-listas.html

[5] http://www.transmundial.com.br/noticias/noticia_inteligente.php3?id=662

[6] Um dos meus tios, o que é amilenista, recomendou-me o livro do Millard Erickson "Opções Contemporâneas na Escatologia", que foi republicado com o título de "Escatologia" pela Editora Vida Nova — http://www.vidanova.com.br/produtos.asp?codigo=440 . O livro pode ser encontrado em PDF no seguinte link: http://www.ebenezer.org.br/Download/Onezio/Escatologia.pdf

[7] Neste link: http://www.ccel.org/ccel/dionysius/works.html encontra-se a obra completa do Pseudo-Dionísio. Esse site é muito bom para encontrar obras de teólogos da cristandade.

[8] Vejam este excelente artigo dele, por exemplo:
http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=5182 (
Timelessness and Omnitemporality). O site dele tem ótimos artigos! Recomendo!

[9] http://www.monergismo.com/textos/presciencia/arrependimento_deus.htm

[10] Paradoxo da Onipotência: http://pt.wikipedia.org/wiki/Paradoxo_da_omnipot%C3%AAncia
Suma Teológica do Tomás de Aquino em PDF: http://www.ccel.org/ccel/aquinas/summa.pdf

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Festas de aniversário

Sei que posso parecer antiquado, mas sou do tempo em que quando se convidava uma pessoa para a sua festa de aniversário, você não tinha de pagar para comer e beber. Quando se consulta a palavra "convite" no dicionário Houaiss, vê-se que uma das acepções refere-se a um bilhete que dá direito à entrada GRATUITA. Embora outras acepções não explicitem a idéia de gratuidade, a própria etimologia da palavra — do catalão convit —, que faz referência aos banquetes, agrega-a.

Não sou antiquado, mas saudosista (Uma pequena digressão minha... Nostalgia não é sinônimo de saudosismo: aquela traz consigo a melancolia, enquanto esta não necessariamente. No meu conto "Cinco Cigarros", trato a nostalgia como um "saudosismo ressentido"). Tenho saudades do tempo em que o convite para o comparecimento a um aniversário era um requerimento da pessoa e não do bolso. É engraçado ver, também, que os aniversariantes costumam convidar-nos para estabelecimentos que não cobram dos aniversariantes, a partir de um certo número de convidados. Se for para dizer que alguém é sovina na história, não sou eu, mas o aniversariante.

Possam, talvez, argumentar que o dinheiro que era utilizado na compra de presentes foi substituído pelo dinheiro que se gasta para comer no estabelecimento; contudo, até onde saiba, o presente nunca foi obrigatório. Possam, outrossim, dizer que, da mesma forma, não é obrigatório que o convidado gaste dinheiro comendo e bebendo, mas convenhamos que é muito pior gastar algumas horas observando todos comendo e bebendo, especialmente se o estabelecimento for um local de rodízios, do que apenas não levar um presente.

Faz algum tempo que não sou afeto a aniversários e explico por quê. Qual o significado do aniversário? Bem, comemora-se o dia em que você nasceu. É um dia representativo portanto, já que a data do seu nascimento não voltará. O tempo, pelo menos sem nos aprofundar muito, é linear. Imaginem uma reta numerada. Digamos que o zero é fixado na reta quando você nasce e que os números subseqüentes representam o passar do tempo. Você nunca voltará à estaca zero, mas, no máximo, poderá criar um espaçamento fixo para comemorar o que você denominará de aniversário.

Escolheu-se o ciclo da Terra ao redor do Sol para denominar-se o que chamamos de "ano"; contudo, qualquer outro ciclo poderia ser escolhido para chamarmos-lhe de ano. Voltando ao exemplo da reta, qualquer espaçamento do ponto fixo zero poderia ser escolhido para comemorar-se os aniversários. Tive esse raciocínio há alguns anos, mas alguns conceitos que aprendi posteriormente acrescentaram algumas idéias sobre ele.

Aprendi, estudando Física, os conceitos de Isotropia e Anisotropia. Para quem não conhece os termos, mas sabe um pouco de Grego, saberá que "iso" significa "igual", "tropos", "lugar" e "ánisos", "desigual". Para resolvermos alguns problemas, supomos que o Universo é isotrópico, ou seja, que ele tem as mesmas propriedades físicas independentemente da direção escolhida. Sempre fui um pouco desconfiado com essa suposição, mas lendo sobre Cosmologia, achei-a mais razoável. Na minha aula de Filosofia da Religião, o professor utilizou-se desses conceitos para referir-se à falta de comunicação entre a Filosofia/Ciência e a Religião. Ele disse que o problema é que aquelas enxergam o mundo de forma isotrópica e esta de forma anisotrópica.

Em outras palavras, quando a Religião considera qualquer coisa sagrada, as instituições laicas não a reconhecem como tal. Essa idéia pode ser levada para os aniversários. Não consigo entender por que as pessoas consideram um determinado dia com tanta importância, em detrimento dos outros. Por que eu, por exemplo, deveria considerar de modo diferente um parabéns dado a mim no dia 13 de novembro — dia em que nasci — do dia 14 ou de qualquer outro dia, tendo-se por base que aquele dia é representativo e não exatamente o dia em que nasci?

Creio que uma visão isotrópica de mundo evitaria uma sucessão de caprichos humanos. Achei muito interessante o empréstimo de termos que o meu professor de Filosofia da Religião fez. Poderia desenvolver todo um pensamento a partir dessa distinção de visões de mundo. No fim das contas, entramos no âmbito da Hermenêutica. Já faz um tempo que quero tratar aqui sobre o assunto e dizer como tenho ficado deslumbrado com esse campo. Tudo acaba reduzindo-se à Hermenêutica e dedicarei uma futura postagem ao desenvolvimento dessa idéia.

Para terminar, se você está lendo esta postagem, já sabe que se me convidar para um aniversário no qual terei de pagar, não irei nem para cumprimentá-lo, pois minha gasolina não é água.