segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Teoria Cristã da Verdade




Numa das minhas aulas de Lógica, aprendi sobre algumas teorias da verdade. Quando se discute sobre a verdade, costuma-se buscar uma conceituação do que seja a verdade e, a partir de tal conceituação, um critério para identificá-la. Existe diferença entre apresentar uma definição para o que seja a verdade e apresentar um teste por meio do qual se diz que uma sentença é verdadeira ou falsa. Pode-se, por exemplo, especificar-se uma temperatura a partir da qual uma pessoa está febril em contrapartida de um método para que se saiba como encontrar a temperatura desta pessoa. Antes de abordar o que intitulei por "Teoria Cristã da Verdade", falarei de algumas teorias para quem nunca ouviu falar do assunto. Utilizarei, por base, o texto da Susan Haack alcunhado de "Filosofia das Lógicas".

Teoria da verdade enquanto coerência

Esta teoria entende que a verdade consiste em relações de coerência em um conjunto de crenças, ou seja, a ausência de contradições implica veracidade. Pensadores como Bradley, Hegel, alguns oponentes positivistas do Idealismo, como Neurath e, mais recentemente, Rescher e Dauer defenderam essa abordagem.

Teoria da verdade enquanto correspondência

Esta teoria entende que a verdade de uma proposição não consiste em suas relações com outras proposições, mas em sua relação com o mundo, sua correspondência com os fatos. Pensadores como Aristóteles, Russell, Wittgenstein e Austin eram partidários desta teoria.

Teoria pragmática da verdade

Desenvolvida nas obras de Peirce, Dewey e William James, tem afinidades com as duas teorias anteriores, admitindo que a verdade de uma crença deriva de sua correspondência com a realidade, mas a partir de sua utilidade ou implicação de uma vida melhor.

Teoria da verdade enquanto redundância

Apresentada por Ramsey, afirma que "verdadeiro" é redundante, pois dizer que é verdade que p é equivalente a dizer que p. Para entender-se melhor esta teoria. Pensem na Teoria da verdade enquanto correspondência da seguinte maneira: " 'p' é verdadeira se, e somente se, p ". Percebam que utilizei aspas simples no primeiro p, mas não a utilizei no segundo. A explicação é que se está fazendo uma distinção entre uso e menção do termo. Para exemplificar, pensem nas duas frases: " 'Fábio' tem quatro letras " e "Fábio é um filósofo". Na primeira, refiro-me à palavra "Fábio"; na segunda, refiro-me ao sujeito que tem "Fábio" por nome, que sou eu. A Teoria da verdade enquanto redundância afirma que esse tipo de distinção é redundante.

Teoria da verdade enquanto consenso

Uma proposição será verdadeira, segundo esta teoria, se a maioria acreditar nela. Filósofos como Habermas desenvolveram essa teoria.

Teoria intuicionista da verdade

Uma proposição só será verdadeira se houver uma demonstração dela. Teoria adotada por pensadores como Brouwer e Heyting.

No que se refere às teorias acima, é importante fazer algumas considerações. Cada teoria, primeiramente, tem um campo de atuação com o qual se adequa mais. A Teoria da verdade enquanto consenso é ótima para ser utilizada em democracias; a intuicionista é mais adaptável à Matemática — o que explicaria os próprios conceitos no campo como "conjectura" e "teorema" — e aquela da coerentização parece ser mais apropriada em raciocínios lógicos.

O interessante é que para posicionar-se com relação a algum sistema, é necessário comprometer-se, de antemão, com algum sistema, ou seja, qualquer comentário sobre qualquer sistema já usará um sistema de forma subjacente. Quem se interessar pelo assunto, pode ver um diagrama com o desenvolvimento histórico dessas teorias:
Quando estudei essas teorias, pensei imediatamente em qual seria a teoria da verdade para o cristão. Debrucei-me, então, na Bíblia.

Teoria Cristã da Verdade

Que é a verdade?

A primeira pergunta que devemos responder é: que é a verdade? Nietzsche, de forma irônica, no seu texto "O Anticristo", afirma o seguinte:
"Preciso acrescentar que, em todo o Novo Testamento, não aparece senão uma única figura merecedora de honra: Pilatos, o governador romano. Levar assuntos judaicos a sério – ele estava muito acima disso. Um judeu a mais ou a menos – que isso importa?... A nobre ironia do romano ante o qual a palavra “verdade” foi cinicamente abusada enriqueceu o Novo Testamento com a única passagem que tem qualquer valor – que é sua crítica e sua destruição: 'Que é a verdade?'."
Para contextualizar, vejam o texto bíblico — Jo. 18.37-38 —, na tradução da NVI:
" 'Então, você é rei!', disse Pilatos. Jesus respondeu: 'Tu dizes que sou rei. De fato, por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todos os que são da verdade me ouvem'. 'Que é a verdade?', perguntou Pilatos. Ele disse isso e saiu novamente para onde estavam os judeus, e disse: 'Não acho nele motivo algum de acusação'.".
Nietzsche, de certo, exagerou ao afirmar que a fala de Pilatos era a única que tinha algum valor, mas, com certeza, podemos depreender muitas coisas acerca da verdade nesta passagem de João. Se procuramos a verdade, enquanto cristãos, devemos olhar para Cristo, já que ele trouxe para si a caracterização de testemunha da verdade. Em segundo lugar, podemos adotar o ato de ouvir a Cristo como um critério da verdade.

Quanto à pergunta de Pilatos referente à natureza da verdade ou à sua conceituação, o evangelho de João é o único que registra o questionamento. O evangelho de Lucas, que tem como público alvo os gregos, não reproduz essa pergunta, mesmo que o contexto grego tivesse uma contextualização filosófica muito forte com relação à busca da verdade — basta observarmos em Atos 17, a partir do décimo sexto versículo, a discussão de Paulo com os epicuristas e estóicos. João era conhecido como apóstolo do amor e sua carta enfatizava Cristo enquanto divindade. Voltaremos a essas características do texto de João posteriormente.

A palavra hebraica para verdade é "תמא" — "amth". Ela surge pela primeira vez no texto bíblico em Gênesis 24.48 no seguinte trecho:

"E inclinando-me adorei ao SENHOR, e bendisse ao SENHOR, Deus do meu senhor Abraão, que me havia encaminhado pelo caminho da verdade, para tomar a filha do irmão de meu senhor para seu filho.". [Almeida Corrigida e Revisada Fiel]
A palavra hebraica aparece 58 vezes no Antigo testamento. Quando vamos para o Novo Testamento, temos a palavra grega "alhqeia" — "aletheia" — que aparece 44 vezes. A título de curiosidade, o primeiro livro de Tessalonicenses foi o primeiro a ser escrito entre os livros compilados no Novo Testamento; no entanto, nele, não temos a palavra grega para "verdade". A primeira vez que a palavra grega surge no Novo Testamento, da maneira que foi compilado, é em Mateus 22.16, conforme podemos conferir:

"Enviaram-lhe seus discípulos juntamente com os herodianos que lhe disseram: "Mestre, sabemos que és íntegro e que ensinas o caminho de Deus conforme a verdade. Tu não te deixas influenciar por ninguém, porque não te prendes à aparência dos homens.". [NVI]
O Antigo Testamento (AT) é constituído de 66 livros, enquanto o Novo Testamento (NT) contém 39 livros. O AT cobre, portanto, aproximadamente, 63% da Bíblia, enquanto o NT tem a cobertura de, aproximadamente, 37%. Quando comparamos as aparições da palavra verdade, temos 57% no AT e 43% no NT, também em termos aproximados. Ora, a diferença percentual que era de 26 diminuiu para 14. Podemos concluir, por conseguinte, que o peso da palavra "verdade" no NT é muito maior.

Qual seria a motivação para um maior peso à palavra no Novo Testamento? Voltemos ao texto de Gênesis. A idéia de verdade lá está atrelada à idéia de caminho. Quando, também, vamos ao mencionado texto de Mateus, também, encontramos as duas idéias. De fato, quando procuramos a conjunção dos termos "caminho" e "verdade" no NT, deparamo-nos com o seguinte texto de João 14.6:

"Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.". [Almeida Revista e Atualizada (ARA)]
Se em Gênesis, a idéia de verdade estava atrelada aos conceitos de caminho e verdade, Cristo identifica-se como sendo, justamente, o caminho e a verdade. Temos, portanto um conceito para a verdade: Cristo é a verdade! Coincidentemente ou não, em Salmos, que é o livro do AT em que a palavra hebraica "amth" mais aparece e em João, que é o livro do NT em que a palavra grega "aletheia" mais aparece, a quantidade de aparições tanto no primeiro livro quanto no segundo é de exatamente 13 vezes.

Creio que o fato do livro de Salmos ser um livro poético e aquele dentre os do AT que mais contém a palavra verdade, é uma grande lição para o que se tem feito na arte cristã atualmente. Até nas nossas manifestações artísticas, a verdade deve estar presente.

Outra identificação é feita no livro de João. No capítulo 17, versículo 17, temos o seguinte trecho:

"Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.". [ARA]
Do texto acima, podemos inferir que Cristo identifica-se com a sua palavra. Não se pode inferir o mesmo da humanidade: apenas numa entidade divina, o verbo é o próprio ser. O fato de justamente no Evangelho que apresenta Cristo enquanto divindade aparecer por mais vezes o termo grego para verdade está ligado, justamente, ao fato da verdade ser uma propriedade divina.

Qual o critério para a verdade?

A Bíblia não fala de um critério, mas de vários. Não será analisado aqui de modo exaustivo quais são os critérios para a verdade, pois seria necessária uma análise exaustiva das 102 aparições bíblicas do termo verdade e seus cognatos. Como já vimos no tópico anterior, escutar a verdade, conforme João 18.17-18, é um critério para a verdade. Uma vez que o conceito de verdade foi identificado com uma pessoa, que é Cristo, provavelmente, os critérios também terão identificações personalistas. No texto de Mateus citado anteriormente, vemos que a verdade também não está conectada a aparências humanas.

O texto de João 3.21 assevera o seguinte:

"Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus.". [ARA]
Vemos, portanto, que a verdade não se identifica com o anonimato: ela se faz manifesta. O interessante é que a justificação para esse não anonimato é pautada no próprio Deus. Podemos concluir, portanto, que o próprio Deus não se esconde, mas se expõe à luz.

O famoso texto de João 8.32

"e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.". [ARA]
conecta o conhecimento da verdade à liberdade. Outro critério para a verdade, portanto, é a liberdade.

No tópico anterior, comentei o fato do apóstolo conhecimento como o "apóstolo do amor" ser aquele que mais fala sobre a verdade. A resposta encontra-se num texto paulino:

"Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.". [Efésios 4.15 — ARA]
O seguimento da verdade, ou seja, de Cristo, deve ser em amor. Não é ao desbarato que o Evangelho de João é texto do NT que mais privilegia o termo grego "aletheia".

A verdade é também caracterizada pela sua propriedade de poder ser recomendada:

"pelo contrário, rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; antes, nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade.". [2 Coríntios 4.2 — ARA]
O versículo acima dialoga com João 3.21 na medida em que ele relaciona o que é vergonhoso ao que é ocultado. Um critério para saber o que é verdadeiro, portanto, é poder ser recomendado a qualquer pessoa. Kant, no desenvolvimento de sua teoria moral, flerta, em certo sentido, com essa propriedade bíblica da verdade da recomendação a todos os homens. Ele afirmava que um ato é correto moralmente se ele pode ser universalizado, ou tomado como um princípio geral que pode ser aplicado em qualquer lugar a qualquer pessoa. Nesse sentido, existe uma aproximação aqui entre a moral kantiana e o critério para a verdade no âmbito do Cristianismo.

Outra característica da verdade é que a Igreja é baluarte dela. I Timóteo 3.15 afirma:

"mas, se eu demorar, saiba como as pessoas devem comportar-se na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade.". [NVI]
O texto acima apresenta a Igreja como fundamento da verdade. Não é de estranhar-se uma vez que Cristo é a cabeça da Igreja — Ef. 1.22-23; 4.15. Vemos, novamente, a personalização da verdade. Se as teorias lógicas da verdade tratam de conexões entre mundo e linguagem, a teoria cristã da verdade faz conexões entre Cristo, que é a verdade por essência, e seus representantes na Terra. Não se fala de verdade de proposições, mas de vida.

Para finalizar, esta segunda parte, referente aos critérios de verdade, acabou prolongando-se mais do que previ. Creio que uma outra postagem sobre o assunto seria bem-vinda. Comentei que não abordaria o assunto de maneira exaustiva, mas tenham esta parte apenas como alguns vislumbres sobre o assunto. Aproveitando a iminência das festividades natalinas, desejo um feliz natal a todos e que a paz de Cristo estejam com todos os leitores deste blog.


2 comentários:

  1. Fábio,
    A citação no primeiro tópico da Teoria Cristã da verdade é João 18:37-38, e não João 18:17-18.

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  2. Obrigado pela correção, Anônimo! Corrigirei...

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