sábado, 8 de outubro de 2016

Por que os bereianos rejeitaram o "Sola Scriptura" (Steve Ray)


Uma preeminente organização anticatólica oriunda de Oregon, com Dave Hunt no seu comando, publica, mensalmente, um boletim informativo intitulado “The Berean Call” [O chamado bereiano]. O título é tomado de Atos 17, em que Paulo refere-se aos bereianos, na Ásia Menor, como “nobres” e Hunt escolheu o título para promover a sua crença no “sola scriptura”.

O “sola scriptura”, ou o “somente a Bíblia”, é uma doutrina protestante inventada no século dezesseis. Ela declara que a Bíblia é a única fonte de revelação e o único e último juiz no tocante a toda matéria de fé cristã. Martinho Lutero desenvolveu-a em reação aos ensinos históricos da Igreja Católica e aos Pais da Igreja dos primeiros séculos. Lutero rejeitou a autoridade da Igreja e da Tradição apostólica e, assim, ficou com o “sola scriptura” — o somente a Bíblia.

Na realidade, entretanto, o Hunt converteu o episódio em Beréia naquilo que está na sua própria cabeça, uma vez que os nobres bereianos, em verdade, condenaram a sua posição do “sola scriptura”. Essa passagem acerca dos bereianos tem sido apropriada pelos evangélicos por tempo demais e já é hora de os católicos reivindicarem-na. Muitos têm se sentido incomodados com esse texto e muitas explicações, a partir de uma perspectiva católica, têm se mostrado medíocres na melhor das hipóteses. Não apenas o texto pode ser explicado facilmente pelos católicos, mas ele é, realmente, um forte argumento contra o “sola scriptura” e uma defesa convincente do ensino da Igreja Católica.

A nós é dito que os bereianos eram mais nobres (abertos, mais dispostos, justos) — entretanto, muito mais nobres do que quem? Os tessalonicenses! É conveniente aos evangélicos pôr essa passagem fora de contexto e forçá-la a permanecer isolada. Dessa forma, a sua causa parece ser convincente, mas o contexto diz-nos a história real. Antes de olharmos os bereianos, vamos olhar aqueles aos quais eles são comparados: os tessalonicenses. O que os tessalonicenses fizeram que os tornou tão menos nobres?

Encontramos em Atos 17.1-9: “Passando por Anfípolis e Apolônia, eles chegaram a Tessalônica, onde os judeus tinham uma sinagoga. Como costumava, Paulo foi procurá-los e, durante três sábados sucessivos, dirigiu-lhes a palavra; a partir das Escrituras, ele explicava e demonstrava que o Messias devia sofrer, ressuscitar dos mortos e, dizia ele, ‘o Messias é este Jesus que eu vos anuncio!’. Alguns dos judeus se deixaram convencer e foram ganhos por Paulo e Silas, como bem uma multidão de gregos adoradores de Deus, e bom número de mulheres da alta sociedade. Mas os judeus, furiosos, recrutaram alguns maus elementos que vagabundavam pelas ruas, amotinaram a multidão e semearam a desordem na cidade; dirigiram-se então à casa de Jasão, à procura de Paulo e de Silas, que queriam apresentar à assembleia do povo; não os achando, arrastaram Jasão e alguns irmãos para os apresentar aos politarcas: ‘Esses homens que sublevaram o mundo inteiro, gritavam eles, estão agora aqui, e Jasão os acolheu. Todos esses indivíduos agem contra os editos do imperador; eles pretendem que existe outro rei, Jesus’. Esses gritos impressionaram a multidão e os politarcas, que exigiram então uma fiança de Jasão e dos outros, antes de os soltar.”.

Os tessalonicenses rejeitaram Paulo e a sua mensagem e, depois de denunciá-lo, eles ficaram enciumados de que outros tivessem crido nela. Eles trataram Paulo com desprezo e com violência, despejando-o, ignominiosamente, da cidade. Por quê? “durante três sábados sucessivos, [Paulo] dirigiu-lhes a palavra; a partir das Escrituras” na sinagoga, como era o seu costume. Eles não desprezaram Paulo na primeira semana ou na segunda; em vez disto, eles o ouviram e discutiram. Entretanto, no final, eles rejeitaram o que ele tinha a dizer. Eles compararam a mensagem de Paulo ao Antigo Testamento e decidiram que Paulo estava errado. Temos de lembrar que muitos estavam proclamando uma ampla variedade de novos ensinamentos, todos eles supostamente baseados nas Escrituras e nas revelações de Deus. Heresias, cultos e seitas eram numerosos no Império Romano assim como eles são hoje. Os judeus, em Tessalônica, tinham o direito de serem céticos.

Agora, vamos dar uma olhada no comentário de Lucas sobre os nobres bereianos: “Imediatamente os irmãos fizeram Paulo e Silas partir, de noite, para a Bereia. Ao chegarem, eles foram à sinagoga dos judeus. Mais corteses que os de Tessalônica, estes acolheram a Palavra com inteira boa vontade, e cada dia examinavam as Escrituras para ver se era assim mesmo. Muitos dentre eles abraçaram a fé, como também mulheres gregas de alta posição e homens, em número apreciável.” (Atos 17.10-12).

Quando os protestantes usam essa passagem como uma prova textual para a sua doutrina do “sola scriptura”, eles deveriam perceber que aqueles em questão não eram cristãos; eles eram judeus helenísticos. Não existe nenhuma doutrina do “sola scriptura” entre as comunidades judaicas, mas as Escrituras são tidas como sagradas. Embora os judeus sejam freqüentemente referidos como “o povo do livro”, na realidade, eles têm uma forte tradição oral que acompanha as suas Escrituras, juntamente com uma autoridade de ensino autorizada, como representado pela “cátedra de Moisés” nas sinagogas (Mt. 23.2). Os judeus não tinham nenhuma razão para aceitar o ensino de Paulo como “divinamente inspirado”, uma vez que eles tinham acabado de conhecê-lo. Quando novos ensinamentos que vieram à tona alegavam ser um desenvolvimento do judaísmo, os rabinos pesquisaram para ver se eles poderiam ser verificados a partir da Torá.

Se um dos dois grupos poderia ser taxado como sendo composto de crentes no “sola scriptura”, quem o seria: os tessalonicenses ou os bereianos? Os tessalonicenses obviamente. Eles, assim como os bereianos, examinaram as Escrituras com Paulo na sinagoga, porém, eles rejeitaram o seu ensino. Eles rejeitaram o novo ensinamento, decidindo, depois de três semanas de deliberação, que as palavras de Paulo contradiziam a Torá. A sua decisão não estava completamente injustificada a partir da sua perspectiva escriturística. Como poderia o Messias de Deus ser amaldiçoado com a crucifixão em um madeiro como um criminoso comum, exposto publicamente como alguém que levou sobre si o juízo de Deus? Que tipo de rei e Messias seria esse? Isto lhes parecia irreconciliável com as Sagradas Escrituras (veja Simon J. Kistemaker, Acts [Grand Rapids, Michigan: Baker Books, 1990], 614).

Quando alguns dos gregos e dos cidadãos preeminentes aceitaram Cristo como Messias, os judeus ficaram com inveja — e de forma correta, a partir da sua perspectiva, uma vez que novos crentes separavam-se deles mesmos nas sinagogas e começavam a encontrar-se em outro lugar, na casa de Jasão. Os judeus, naturalmente, consideravam a si mesmos os intérpretes autoritativos da Torá. Quem eram os gentios para interpretarem a Escritura e decidirem acerca de importantes questões teológicas ou aceitarem revelação adicional? Eles eram os “cães”, e não os eleitos guardiões dos oráculos da Deus (veja William Barclay, The Acts of the Apostles [Philadelphia, Pennsylvania: Westminster Press, 1976], 128).

Podemos ver, então, que se alguém poderia ser classificado como um adepto do “sola scriptura” seria os judeus tessalonicenses. Eles raciocinaram a partir das Escrituras somente e concluíram que os novos ensinamentos de Paulo eram “não bíblicos”.

Os bereianos, por outro lado, não eram adeptos do “sola scriptura”, pois eles estavam dispostos a aceitar o novo ensinamento oral de Paulo como sendo a Palavra de Deus (como Paulo alegou que o seu ensino oral, de fato, era; veja 1 Ts. 2.13). Os bereianos, antes de aceitar a Palavra de Deus oral proveniente de Paulo, uma Tradição como até mesmo o próprio Paulo referia-se a ela (veja 2 Ts. 2.15), examinaram as Escrituras para verem se essas coisas eram assim. Eles eram nobres, precisamente, porque eles “acolheram a Palavra com inteira boa vontade”. Os bereianos foram elogiados principalmente por pesquisarem as Escrituras? Não. A sua aberta disposição para ouvir foi a principal razão para que eles fossem referidos como sendo nobres — e não por eles terem pesquisado as Escrituras. Uma leitura de gramáticos e de comentadores deixa claro que eles eram “nobres” não por estudar a Escritura, mas por tratar Paulo de forma mais civilizada que os tessalonicenses — com uma mente aberta e com cortesia generosa (veja I. Howard Marshall, “The Acts of the Apostles” in the Tyndale New Testament Commentaries [Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1981], 5:280).

Os bereianos não pesquisaram a Torá menos que os tessalonicenses, embora eles tivessem mais boa vontade para aceitar as Palavras de Deus da boca de São Paulo, em adição àquilo que eles já detinham da Escritura, que era a Lei e os Profetas. Mesmo que se alegue que Paulo pregou o Evangelho, e não uma “Tradição”, é claro que os bereianos estavam aceitando uma nova revelação que não estava contida nas suas Escrituras. Esses judeus bereianos aceitaram o ensinamento oral, a Tradição dos Apóstolos, em condição de igualdade à Escritura, em adição a ela e como uma “extensão” da Torá. Isto, além disso, é ilustrado pela recepção das epístolas de Paulo pela comunidade cristã como sendo Escritura divinamente inspirada (veja 2 Pedro 3.16; aqui, Pedro parece reconhecer os escritos de Paulo como sendo iguais em autoridade às “outras Escrituras”, que poderiam ser presumidas como uma referência ao Antigo Testamento).

Da perspectiva dos anticatólicos, os tessalonicenses teriam sido mais nobres por terem estado mais lealmente presos ao seu cânone da Escritura somente e por terem rejeitado autoridade permanente adicional (escrita ou falada) da boca de um apóstolo. De fato, no Concílio de Jâmnia, por volta de 90 d.C., os judeus determinaram que qualquer coisa escrita depois de Esdras não era Escritura infalível; eles mencionaram, especificamente, os Evangelhos de Cristo a fim de rejeitarem-nos.

Por que os bereianos pesquisaram as Escrituras? Porque elas eram a única fonte de revelação e autoridade? Não, mas para ver se Paulo estava em consonância com aquilo que eles já sabiam — a fim de confirmar revelação adicional. Eles não se submeteriam cegamente ao seu ensinamento apostólico e à Tradição oral, mas, uma vez que eles aceitassem a credibilidade dos ensinamentos de Paulo como sendo a Palavra oral de Deus, como os conversos que creram em Tessalônica, eles aceitaram a Tradição Apostólica e o Antigo Testamento igualmente como Palavra de Deus (veja 2 Ts. 2.15, 3.16). Portanto, eles aceitaram a autoridade apostólica, o que significa que as determinações de Pedro no primeiro Concílio da Igreja, relatado em Atos 15, seriam obrigatórias a esses novos gentios conversos.

Por contraste, os judeus de Tessalônica teriam condenado a exegese bíblica de Pedro no Concílio de Jerusalém. Eles teriam zombado de que a Igreja teria qualquer autoridade sobre eles — a Torá era tudo de que eles precisavam. Aqueles que guardaram o “sola scriptura” rejeitaram Paulo porque ele alegava ser porta-voz de uma “revelação adicional”.

Lucas deixa claro que aqueles que desejavam aceitar a Tradição Apostólica como autoritativa eram mais nobres. A passagem dos bereianos, portanto, é dificilmente uma prova textual para aqueles que são adeptos do “sola scriptura”. Esse texto prova muito mais aos evangélicos. Os anticatólicos adoram associar a si mesmos aos bereianos, mas o exemplo dos bereianos, realmente, condena a sua exegese. O louvor de Lucas aos bereianos não pode ser aplicado aos protestantes evangélicos, que se assemelham mais aos tessalonicenses, que se apoiavam no “sola scriptura” e rejeitavam a Palavra oral de Deus contida na Tradição e na autoridade do ensino da Igreja.

Para ser consistente com o seu romance da teologia do “sola scriptura”, o Dave Hunt deveria renomear o seu boletim informativo mensal. Permita-me sugerir um novo título: "The Thessalonian Call" [O chamado tessalonicense].


Um comentário:

  1. Parabéns por essas traduções que você vem fazendo. Precisa-se, no Brasil, urgentemente de uma boa teologia e apologética católicas. Muito poucos o fazem infelizmente e o alvo maior devem ser os protestantes e seus ataques.

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