Em 6 de novembro de 2025, na abertura da Cúpula de Líderes da COP30, em Belém, Lula disse ao mundo que eram necessários mapas do caminho para superar a dependência dos combustíveis fósseis.
Dezessete dias antes, em 20 de outubro, o Ibama tinha concedido à Petrobras a licença para perfurar o bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas. A Petrobras começou a perfurar no mesmo dia. Em setembro de 2026, o Ibama autorizou a empresa a perfurar mais três poços no mesmo bloco.
Este texto trata da distância entre o que o governo Lula promete ao mundo sobre o meio ambiente e o que ele decide aqui dentro. O governo tem resultados muito favoráveis no desmatamento para apresentar, na Amazônia e no Cerrado, e eles são reais, mas o meio ambiente não se resume a uma taxa. Petróleo, estradas na floresta, agrotóxicos e metas climáticas também são política ambiental. Nesses itens, as decisões do Executivo federal apontam na direção contrária ao discurso.
O que a taxa de desmatamento mede, e o que não mede
Em 16 de outubro de 2026, nove dias antes do segundo turno, o governo divulgou, em evento no Palácio do Planalto, a estimativa do PRODES: entre agosto de 2025 e julho de 2026, a Amazônia teve 3.335 km² desmatados, a menor área desde 1988, com queda de 41,8% em um ano e de 71,2% em quatro anos. O Cerrado também registrou a menor taxa de sua série, iniciada em 2001: 5.516,69 km², queda de 23,8%. São resultados reais. Convém saber o que eles medem.
O PRODES mede a supressão da vegetação: o corte raso e as áreas em que a degradação já eliminou toda a copa. A floresta queimada que continua de pé, ferida, empobrecida e mais vulnerável à próxima seca, não entra nessa conta, e o terceiro governo Lula viu essa floresta arder. Em 2024, segundo o MapBiomas, a Amazônia teve cerca de 15,6 milhões de hectares queimados, a maior área de toda a série iniciada em 1985. O próprio MapBiomas atribui essa dimensão excepcional à combinação da ação humana com dois anos seguidos de seca severa. Estudo de pesquisadores do INPE mostrou que os alertas de degradação florestal na Amazônia cresceram 163% em relação a 2022. Em 2025, a área queimada recuou, e os pesquisadores atribuem a queda a vários fatores, entre eles um período chuvoso mais longo.
Seja qual for a parcela do governo nesse fogo, o essencial é que a menor taxa de desmatamento da série e a maior área queimada da série coexistiram no mesmo mandato. A taxa de desmatamento, sozinha, não resume o estado da Amazônia.
O governo também exibirá a Terra Yanomami. Segundo o governo federal, a área de garimpo ativo caiu 98,77% entre março de 2024 e janeiro de 2026. A redução é real e constitui um resultado favorável ao governo. Ela mede, porém, o período iniciado em março de 2024, com a atuação da Casa de Governo em Roraima. O próprio governo descreve 2024, mais de um ano depois da declaração de emergência na Terra Yanomami, como o período de maior pressão do garimpo, quando havia cerca de 4.570 hectares de atividade garimpeira.
A Bacia da Foz do Amazonas: da negativa de 2023 à licença de 2025
Em maio de 2023, o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, seguiu o parecer técnico e negou a licença para o bloco 59.
O que veio depois foi pressão aberta. Em 2024, a Imprensa especializada registrava que um processo de licenciamento que deveria ser rotineiro tinha virado questão de governo, com pressões da Petrobras, do Ministério de Minas e Energia, da Casa Civil e do próprio Presidente. Em fevereiro de 2025, Lula defendeu publicamente que era preciso “autorizar que a Petrobras faça a pesquisa”. A seqüência é verificável: negativa técnica em 2023, pressão pública do governo e do Presidente, licença em outubro de 2025, perfuração no mesmo dia e, menos de um ano depois, mais três poços. O Ministério Público Federal pediu ao Ibama esclarecimentos sobre esses novos poços.
Por que isso é grave? A Bacia da Foz do Amazonas abrange uma das regiões costeiras mais sensíveis e menos estudadas do país, com manguezais, recifes e comunidades tradicionais. O bloco 59 nunca foi um poço isolado: outras petroleiras com blocos na região esperavam a decisão. Os ambientalistas chamavam a licença de “porteira aberta” para a exploração de petróleo e gás em toda a Bacia da Foz do Amazonas.
Quem criticou não foi a oposição. Logo depois da licença, oito ONGs pediram na Justiça a paralisação da perfuração e a anulação da licença. A coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, que presidiu o Ibama, acusou o governo de liberar a perfuração “de forma inconsequente”.
“O petróleo vai pagar a transição”
A defesa do governo para tudo isso tem nome: o petróleo de hoje financiaria a energia limpa de amanhã. Lula afirmou mais de uma vez que a riqueza do petróleo deve ajudar a construir a transição energética. O argumento merece ser examinado na sua melhor versão.
Essa versão é a seguinte: segundo o Ministério de Minas e Energia, a produção brasileira deve atingir o pico em 2029–2030 e declinar em seguida se não houver novas descobertas, com risco de o país voltar a importar petróleo mais adiante. Como a exploração antecede a produção em muitos anos, seria preciso procurar novas reservas desde já.
O governo responde, portanto, com segurança energética, potencial geológico, empregos e desenvolvimento regional. A controvérsia é se esses objetivos justificam abrir precisamente uma nova fronteira exploratória ambientalmente sensível na Bacia da Foz do Amazonas. Em 2025, a produção brasileira bateu recorde: 3,77 milhões de barris por dia, alta de 12,3% sobre 2024. No mesmo ano, a Petrobras repôs 175% do que produziu e chegou a reservas provadas equivalentes a 12,5 anos de produção.
A própria Petrobras de Lula, aliás, não fala em substituir o petróleo. A presidente da empresa, Magda Chambriard, resumiu a linha: o Brasil não está no momento de substituir energia, mas de adicionar. Na mesma ocasião, explicou que, segundo as projeções então apresentadas, a Petrobras precisaria ampliar sua produção em 55% a 60% até 2050 para preservar sua participação na oferta nacional de energia, e apresentou a exploração da Margem Equatorial como parte dessa estratégia de expansão. Mencionou também investimentos em combustíveis de baixo carbono, mas no mesmo registro: como adição ao petróleo, não como substituição.
O “mapa do caminho” que Lula prometeu em Belém ainda não existe. A COP30 terminou sem consenso sobre os combustíveis fósseis e sem um roteiro negociado para abandoná-los. A Presidência brasileira da conferência decidiu elaborar ao longo de 2026 um documento próprio, que, segundo a página oficial, não será um plano de implementação com metas, cronogramas ou responsabilidades específicas. No Brasil, Lula encomendou aos ministérios, em dezembro de 2025, uma proposta de diretrizes para elaborar um mapa nacional. Enquanto isso, a perfuração na Bacia da Foz do Amazonas não esperou nem pelo documento internacional nem pelas diretrizes.
Há ainda uma limitação importante da contabilidade territorial das emissões. Pelas regras do Acordo de Paris, as emissões da queima de um combustível são registradas no país que o queima; no Brasil, ficam apenas as emissões da extração e do processamento. O carbono do petróleo que o Brasil exporta aquece o planeta inteiro quando é queimado, mas não pesa na meta brasileira. O petróleo liderou a pauta de exportações pelo segundo ano seguido em 2025. O governo pode, assim, apresentar-se como líder climático enquanto expande uma oferta cujo carbono fica na conta de outros países.
A meta climática que o Brasil deve descumprir
Mesmo com a queda do desmatamento, o Brasil não deve cumprir sua meta climática para 2025. Segundo o SEEG, o limite assumido era de 1,32 bilhão de toneladas de CO₂e em emissões líquidas, e a estimativa é de 1,44 bilhão, 9% acima. A projeção ainda depende do inventário oficial, mas a razão do descumprimento é reveladora. Toda a queda de emissões veio do desmatamento; nos demais setores da economia, segundo o SEEG, as emissões ficaram estáveis ou subiram. Fora da floresta, a transição anunciada pelo governo ainda não se traduziu em redução das emissões.
A conta oficial não inclui todo o fogo. Pela metodologia do inventário nacional, as emissões de incêndios florestais que não resultam em desmatamento ficam de fora e são estimadas à parte. Isso não é uma ocultação deliberada: é uma regra de cálculo. O tamanho, no entanto, do que fica de fora é considerável: em 2024, o SEEG estimou 241 milhões de toneladas de CO₂e dessas queimadas não contabilizadas, quase o mesmo volume das 249 milhões de toneladas de emissões líquidas de mudança de uso da terra que entraram na conta. No ano em que a Amazônia teve sua maior área queimada desde 1985, o número oficial deixa de fora justamente esse fogo.
BR-319: o dispositivo vetado por Lula como base da obra do governo
Em agosto de 2025, Lula sancionou a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que os ambientalistas chamavam de “PL da Devastação”, com 63 vetos. Um dos dispositivos vetados era o art. 8º, VII, que dispensa de licenciamento obras de manutenção e melhoramento em infraestrutura preexistente, inclusive rodovias anteriormente pavimentadas. Em dezembro de 2025, o Congresso derrubou esse veto. Até aí, o governo podia alegar ter resistido.
O que veio depois mostra outra coisa. Em 13 de abril de 2026, o DNIT, órgão do governo Lula, lançou quatro pregões para asfaltar o trecho do meio da BR-319, entre Manaus e Porto Velho. Segundo a decisão da Justiça Federal do Amazonas, de 28 de abril, o DNIT enquadrou a obra como manutenção e melhoramento para aplicar justamente o art. 8º, VII, com base no Parecer nº 023/2026 da Advocacia-Geral da União, e assim dispensar o licenciamento. A decisão suspendeu as licitações a pedido do Observatório do Clima. Na mesma noite, a presidente do TRF-1 derrubou a liminar, atendendo a um pedido do DNIT e da União. Um dispositivo que Lula havia vetado e que o Congresso restabeleceu passou, meses depois, a servir de base jurídica para o próprio governo dispensar o licenciamento de suas obras na BR-319, e o governo foi à Justiça para defender essa dispensa.
No dia seguinte, o DNIT suspendeu os pregões sem detalhar os motivos. A contratação, porém, seguiu adiante. Em 17 de setembro de 2026, o DNIT assinou o Contrato nº 603/2026, de R$ 182,46 milhões, para o trecho entre os quilômetros 433,1 e 469,6. Em 1º de outubro, foi publicada a homologação do Pregão nº 90130/2026, de R$ 356,18 milhões, para o trecho entre os quilômetros 250,7 e 346,2. Segundo informações do DNIT divulgadas pelo Amazonas Atual, três lotes já têm contrato firmado, e cerca de 17 dos 339 quilômetros previstos já receberam pavimentação.
Por que isso é grave? A BR-319 cruza uma das regiões mais preservadas da Amazônia, com 69 terras indígenas e 41 unidades de conservação em sua área de influência, e cientistas alertam que asfaltá-la pode empurrar a floresta para um ponto de não retorno. Na Amazônia, a estrada vem antes do desmatamento: abre ramais, valoriza a terra grilada e leva o madeireiro aonde ele antes não chegava. O efeito já foi medido. Só a licença prévia de 2022 fez dobrar o desmatamento especulativo no entorno da rodovia.
Agrotóxicos: dois recordes seguidos
Em dezembro de 2023, Lula sancionou com vetos a Lei nº 14.785, que reformulou o registro de agrotóxicos e fixou prazos máximos para a análise dos pedidos. Em 2024, o Ministério da Agricultura concedeu 663 registros, recorde da série e acima do recorde anterior, de 652 registros em 2022, no governo Bolsonaro. Em 2025, novo recorde: 912 registros, dos quais 427 são formulados químicos e 162 são bioinsumos.
É preciso ser preciso. Registro não equivale a uso, e parte dos registros é de bioinsumos. Também não se trata, em sua maioria, de substâncias novas: segundo o Ministério, apenas seis produtos técnicos com ingredientes ativos inéditos e 19 formulados à base de ingredientes ativos novos foram registrados em 2025; a maior parte foram produtos equivalentes a outros já existentes. O recorde, portanto, não é de inovação, mas é de multiplicação de marcas e fórmulas de substâncias já conhecidas. Tudo isso aconteceu num dos países que mais usam agrotóxicos no mundo, sob um governo que se elegeu prometendo agroecologia. Os dois maiores números de registros da história são deste governo, não do anterior.
O que a defesa do governo dirá
O leitor que simpatiza com o governo dirá que o desmatamento caiu às menores taxas das respectivas séries históricas na Amazônia e no Cerrado, que o garimpo foi expulso da Terra Yanomami, que o Brasil liderou a COP30 e que o petróleo financiará a transição.
Já vimos o que cada resposta deixa de fora. O desmatamento caiu, mas a floresta teve área queimada recorde em 2024; a vegetação queimada que permanece de pé não entra na taxa do PRODES, e as emissões das queimadas não associadas ao desmatamento não entram no inventário oficial. O garimpo recuou fortemente, mas a redução de 98,77% é medida a partir de março de 2024, mais de um ano depois da declaração de emergência; o próprio governo descreve 2024 como o período de maior pressão. O Brasil liderou a COP30 dezessete dias depois de liberar a perfuração na Bacia da Foz do Amazonas e saiu de Belém sem um roteiro negociado; a Presidência brasileira prometeu elaborar depois um documento próprio, sem metas nem cronogramas. Quanto ao financiamento da transição, o governo responde com segurança energética; a controvérsia é se isso justifica abrir uma nova fronteira na Bacia da Foz do Amazonas, num ano de produção recorde, de reservas repostas acima do que se produziu e com a própria presidente da Petrobras dizendo que o momento é de adicionar energia, não de substituir.
Há, porém, decisões cuja autoria federal é direta e que não podem ser atribuídas ao clima, aos Estados ou ao Congresso. Foi o governo que pressionou pela licença na Bacia da Foz do Amazonas. Foi a AGU que fundamentou a dispensa de licenciamento da BR-319 num dispositivo vetado pelo próprio Presidente, e foi o governo que pediu ao TRF-1 para derrubar a liminar. Foi o governo que sancionou a lei dos agrotóxicos e concedeu dois recordes seguidos de registros. São atos do Executivo federal.
Vitrine e estratégia
Um governo deve ser julgado não só pelo número que escolhe mostrar, mas pelas decisões que toma quando ninguém está aplaudindo.
O terceiro governo Lula exibe as menores taxas de desmatamento das séries da Amazônia e do Cerrado enquanto libera a perfuração na Bacia da Foz do Amazonas, bate recordes de produção de petróleo, deve descumprir a meta climática que assumiu, vai à Justiça defender obras da BR-319 amparadas em dispensa de licenciamento e concede números recordes de registros de agrotóxicos e afins, incluindo químicos, genéricos e bioinsumos. Em Belém, Lula pediu ao mundo um mapa para abandonar o petróleo. Em casa, seu governo liberou a perfuração numa nova fronteira petrolífera.
A Amazônia é a vitrine. O petróleo é a estratégia. Quem vota pensando no meio ambiente precisa olhar para as duas coisas.

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